Capítulo 17

Eu e minha mãe mal passamos um pelo outro em casa. Sempre que a conversa vai além do assunto comida, ou a que horas vou chegar em casa, a gente acaba brigando – e nenhum de nós quer isso. Ela precisa de uma ilusão tipo “família feliz”, e eu não consigo mais brigar.

Eu queria fazer mais perguntas a ela sobre o meu pai, mas não posso. Bem que eu queria conversar com ela sobre como não quero ver o meu pai, e ao mesmo tempo tenho saudade dele. E como penso bastante nesse lance de o meu pai ser gay. Será que ele sempre soube? Ou foi inesperado, tipo um ataque cardíaco ou um espirro? Será que existe um negócio tipo amnésia sexual? É tudo tão confuso! E, sob o peso de tudo que não é discutido, a mensagem irritante “seu pai ligou” emerge toda semana.

– Fala para ele parar de ligar.

– Fale você.

– Mas eu não quero falar com ele.

– Nem eu. E não quero que ele ache que não estou dando os recados, então, por favor, ligue para ele.

Nessa eu não vou ceder.

– Um dia ele se cansa e desiste.

– Não se esqueça de que ele deixou aquele presente para o seu aniversário.

– Eu nem sei onde está.

Howard me olha de sua cama feita de blusas de lã, com a cabeça virada para o lado, cético.

Coço as orelhas dele, tentando descobrir como é que ele sabe que estou mentindo, enquanto finjo ouvir tudo o que minha mãe diz.

– É que… ainda estamos sem dinheiro. Comprei uma lembrancinha para você, mas não será como os seus outros aniversários.

– Jura?

Ganho um olhar de decepção de Howard.

Sei que estou sendo malvado, porém não consigo parar. É como se a ferramenta de edição da minha bile estivesse quebrada. É melhor não dizer nada.

É mais para evitar minha mãe que estou frequentando o grupo de leitura depois da aula. Isso e o fato de que Estelle também frequenta.

E Lou diz:

– Você vai adorar. É tipo a aula de inglês na escola, só que sem os idiotas.

A professora de inglês mais jovem, a Srta. Griffin, é a responsável pelo grupo. Ela tem cabelo ruivo, e fica tão empolgada que suas bochechas e orelhas ficam cor-de-rosa.

Olho de relance para Estelle algumas vezes e, só para piorar a situação, ela olha para cima e me pega olhando para ela, então desvio o olhar imediatamente. Agora estou competindo com a Srta. Griffin para ver quem fica mais vermelho. Mas é como se Estelle fosse um ímã e eu, metal, e no segundo em que não me concentro para não olhar para ela, acabo encarando a menina de novo. Agora Estelle e Janie estão olhando para mim e posso ler o balãozinho de pensamento sobre a cabeça da amiga dela: “Pare de encarar a minha amiga, seu tarado”.

A Srta. Griffin lê um conto de Raymond Carver em voz alta. É um texto simples e limpo de que eu gosto logo de cara. O conto se chama “Ninguém disse nada”; é sobre um moleque que mente para a mãe, mata aula, masturba-se e então o que acontece quando ele vai pescar. A discussão é sobre como algumas decisões dão em confusão, e como todo mundo tem de passar por problemas do seu próprio jeito, e sozinho. Não falo nada, mas é incrível como me identifico com a história.

Ao final da discussão, despeço-me de Lou e saio andando na mesma direção que Estelle e Janie. É a oportunidade perfeita para caminhar ao lado delas – ser eu mesmo, me enturmar etc., mas é claro que não vou. Elas falam baixo enquanto caminham. Eu me sinto obrigado a mandar um “ahã” alto, caso as duas não percebam que estou atrás delas. Quando elas me veem ali, param de conversar, então eu atravesso a rua e ando na calçada do outro lado. Fico me sentindo muito visível, porque vamos para casa exatamente pelo mesmo caminho, e quando chegamos lá tenho de atravessar a rua de novo.

– A gente não morde, viu? – Janie dá uma cutucada, e elas desaparecem atrás da porta carmesim brilhante da casa de Estelle.

Na cozinha, a Sra. Da Silva e minha mãe estão tomando chá de hortelã, e minha mãe parece um pouquinho menos esgotada do que tem andado ultimamente. Eu pego um negócio para comer.

– Sinto muito pelo prazo apertado, mas a filha que prometeu fazer está cheia de trabalho – diz a Sra. Da Silva.

– Não tem problema ser para amanhã – diz minha mãe. – Vou assar o bolo hoje à noite e decorar amanhã cedinho. Eles podem vir buscar a partir do meio-dia.

Olhando para mim, ela explica:

– Mary me pediu para fazer um bolo para um velório.

A Sra. Da Silva me dá uma piscada. Quase engasgo com meu sanduíche de banana com manteiga de amendoim. É genial – minha mãe não pode convencer uma pessoa morta a não morrer.

– A prima de segundo grau de que eu lhe falei – diz a Sra. Da Silva, com uma careta filosófica.

– Câncer no fígado – eu lembro.

– Foi tão rápido. E ela tinha 88 anos. Então… – A Sra. Da Silva cruza os braços sobre o peito, satisfeita com a ideia de que existem maneiras piores de morrer. Hoje ela está usando um sári cor de laranja, com um colete de moletom roxo por cima. Ela é louca por moletom.

– Dan, você pode colher umas violetas, por favor? – minha mãe pede.

– Sua mãe está fazendo um bolo de chocolate com uvas-passas embebidas em rum, com cobertura de ganache de chocolate e polvilhado de violetas confeitadas e lascas de folha de ouro.

– E é para 60 pessoas? – verifica minha mãe.

– Talvez seja melhor fazer para 80 – responde a Sra. Da Silva. – É a família de Russell. Eles são uns esganados.

Minha mãe pega umas assadeiras para mostrar à Sra. Da Silva o tamanho exato que o bolo ficará, e eu saio com uma tigela para colher violetas.

Elas estão crescendo ao longo da cerca viva de dafne e aos montes.

Começo pelo fim, onde nosso jardim faz fronteira com o jardim de Estelle. Ao ouvir vozes, me aproximo um pouco, enfiando-me entre dois arbustos que ficam bem ao lado da cerca. Ficar ouvindo a conversa dos outros não é nada para quem se rebaixou a ponto de ler um diário. Ouço Estelle e Janie conversando. Janie está fumando um cigarro, e deve ser por isso que elas estão escondidas bem perto da cerca. (Fumar está na lista “Coisas que me dão nojo” de Estelle.) Espero que a Sra. Da Silva resolva ficar mais um pouco na cozinha.

Ao ouvir o meu nome – bom, na verdade “menino do bolo” –, meus ouvidos se concentram tanto que me esqueço de respirar.

É Janie que diz:

– E o menino do bolo?

Estelle dá risada.

– Você está de brincadeira?

– Por quê? E por que não?

– Ele não é o cara certo – responde Estelle.

Certo pra quê?

– A gente teria de fazer esse menino jurar segredo – diz Janie.

– Tá, talvez ele dê certo…

Estelle diz que eu talvez dê certo. Urru! Mas para quê?

– Ele não é o tipo de gente de que se esperaria uma coisa dessas.

– O elemento-surpresa.

Estelle ainda está pensando no assunto, mas posso ver que ela está quase convencida.

– Você acha que a gente consegue convencer o cara?

– Talvez.

Talvez, nada. Estelle me convenceria a fazer qualquer coisa.

– Com certeza – responde Janie. – Ele está súper a fim de você.

– Cale a boca.

– Ele está sempre encarando você. Eu falei para ele que você o acha esquisito.

– Mas eu nunca disse isso.

Arrá!

– Disse, sim.

– Janie, eu não disse, não.

Ai, mas que felicidade!

– Bom, mas ele é.

– E por que você não pede para ele? Você trabalha com o cara.

Hum. Bem que ela podia ter insistido um pouco?

– Mas será que ele seria capaz de matar alguém? É isso que a gente precisa decidir.

Matar alguém? Quase caio para a frente. Nesse momento chocante eu nem penso nas complicações, e uma série de imagens irresistíveis invade o meu pensamento – a possibilidade de Estelle usar seus poderes de persuasão para tentar convencer-me, um passo assustador, porém sedutor, para a vida dos fora da lei. Será que eu seria capaz de resistir, ou me transformaria numa mera marionete complacente nas mãos dela? A segunda alternativa, com certeza.

Howard vem latindo com vontade pela porta dos fundos, e indo direto em minha direção, seguido pela Sra. Da Silva. Saio do meu esconderijo com a melhor cara de paisagem que consigo fazer.

– Tem bastante aqui, ó, Dan – ela diz, apontando para as violetas.

Para surpresa total dela, eu me afasto rapidinho da cerca antes de responder “Valeu”. Espero que elas não tenham ouvido nada.

Fico pensando no que é que elas estavam falando enquanto trago as flores para dentro de casa, e consigo registrar minha mãe acabando de dizer que fomos convidados para tomar um drinque no vizinho hoje à noite.

– Mas você não tem de fazer o bolo?

– Tenho, mas isso aqui tem de ficar de molho por um tempo antes de eu poder começar – ela responde, apontando para as uvas-passas. – E eu preciso lavar e secar as flores antes de mexer com elas também.

– E eu tenho de ir?

– A não ser que você tenha um motivo muito bom, você vai, sim.

– Por quê?

– Porque é uma reação civilizada e educada de vizinhos para um convite civilizado de vizinhos.

Ao ver minha cara de morte, ela continua:

– Aquela menina está na sua sala, não é? Ou pelo menos no mesmo ano que você?

– É.

– Quando chegarmos lá, veja se arruma essa postura e tente não ser tão rabugento, se conseguir.

Estamos à soleira da porta do vizinho 15 minutos depois. Minha mãe passou batom. Estou tentando mostrar autoconfiança ao repetir na minha mente: “Ela não acha que sou esquisito, ela não acha que sou esquisito”, mas um parêntese teima em se intrometer (mas acharia se descobrisse o que eu fiz…), seguido por outro (mas ela não tem de descobrir…).

A mãe de Estelle abre a porta para a gente, e, enquanto ela nos cumprimenta com toda a educação, aproveito para dar uma olhada na casa deles. Não poderia ser mais diferente da casa de Adelaide – é como se os órgãos internos da casa tivessem sido arrancados. A maioria das paredes foi derrubada, e tudo é pintado de branco. Enquanto a casa de Adelaide está morrendo engasgada com toda a tranqueira do mundo, aquela casa é quase vazia, a não ser por alguns móveis e quadros bem modernos. A casa é quente e tem um cheiro delicioso. A mãe de Estelle, Vivien, é magra, tem pele muito branca e lábios vermelhos, e está usando um vestido preto complicado, como se estivesse tentando disfarçar o fato de que ele foi feito para seres humanos. O corte de cabelo dela tem uma assimetria estranha. Ela é curadora. No meio de uma exposição. E frenética. Ela sente tanto por não ter entrado em contato antes. O nome do pai é Peter. Nunca vi o cara, nem ouvi falar dele. Ele desaparece logo depois de se apresentar, falando ao celular e lançando um olhar apologético em nossa direção.

Estelle chega ainda usando o uniforme da escola e uma expressão resignada, carregando uma tigela grande e rasa de batatinhas fritas.

Tem outro prato de comida que as mães estão beliscando, e logo as duas estão tagarelando sem parar sobre anchovas brancas e um restaurante obscuro que as duas visitaram em Roma.

Estelle me olha com uma cara concentrada – talvez pensando: será que ele é o nosso assassino? E estou esperando conseguir mais alguma informação sobre aquela conversa. Seria uma metáfora? Linguagem em código? Será que elas estão montando uma peça de teatro? Ou querem que eu acabe com um bando de ratos ou baratas?

Como sempre quando fico perto da menina inalcançável, não consigo falar nada que preste. No entanto, para minha surpresa, Estelle está interessada em conversar comigo.

Ela me pergunta sobre o trabalho, e se eu estou gostando da escola. Consigo balbuciar algumas respostas, e então me lembro do meu pai descendo a lenha em gente que não fala nunca, a não ser para responder a perguntas diretas. Faz parte do top 5 das coisas que mais irritam meu pai. Eu não quero ser assim, então dou um jeito de parar.

Conto para ela sobre a loja da instituição de caridade, sobre Howard e, sentindo aquela dor na consciência, perguntei que tipo de música ela curte, sabendo que a gente já tinha em comum TV on the Radio e Hot Chip. Então, depois de andar em cimento molhado com sapato de palhaço por alguns minutos, estou até curtindo essa visita. Na verdade, eu me sinto como se pudesse olhar naqueles olhos – azul-escuros, azuis de tempestade – e falar sobre qualquer coisa para sempre.

Mas tudo que é bom dura pouco. Minha mãe se levanta para a gente ir embora e então diz, sem aviso algum:

– Ah, vocês podem ir ao baile da escola juntos. Fica mais fácil assim.

O meu desejo mais secreto está ali sentado no chão, desprotegido e se contorcendo como uma tartaruguinha fora do casco. Sinto uma onda de calor tomar conta do meu rosto e espalhar-se pelo meu corpo. Mas o que ela está pensando? De onde veio isso?

Estelle diz muito claramente:

– Eu provavelmente já vou com alguém.

O pai de Estelle entra na sala bem na hora, e estão todos olhando para a minha cara enquanto ela pega fogo. Ele dá um passo para o lado e pega o controle remoto do aquecedor.

– Está calor aqui, não? – diz, apontando para qualquer canto e apertando os botões.

Minha mãe diz:

– Eu só estava falando de vocês irem de carona juntos.

Vivien ajuda a piorar:

– Parece uma boa ideia.

Eu falo do nada:

– Acho que também já vou com alguém.

Boa estratégia: quando você está na lama, por que não afundar ainda mais?

Minha mãe pergunta:

– Quem?

– Você não conhece.

– Bom, talvez você possam ir todos juntos de carona – ela diz com uma paciência exagerada, como quem fala com uma criancinha.

Ela e Vivien trocam um sorriso tipo “adolescentes-não-conseguem-dizer-nada-direito”, e vamos embora.

– Desculpe se fiz você passar vergonha lá – ela diz quando chegamos em casa.

– Eu agradeço muito se você não se meter na minha vida.

Pois é, porque estou levando a minha vida tão bem. Ou talvez não, em vista dos acontecimentos mais recentes:

  1. 1) A tentação do sótão.

Mesmo estando muito curioso com essa ideia de Estelle planejando um assassinato a sangue frio e preparada para me usar sem consideração alguma para atingir seu objetivo do mal, estou morrendo de vontade de saber do que é que ela e Janie estavam falando mesmo. Começo a pensar numa terceira visita ao sótão. E por que não? Já estou ferrado mesmo. Por que uma olhadinha a mais iria fazer diferença? Ah, ladeira escorregadia da moral – vejo você lá embaixo.

  1. 2) Preocupações financeiras.

Esse lance de economizar está acabando comigo. Como é que vou conseguir guardar dinheiro ganhando tão pouco? Três turnos no Phrenology, com uma porcaria de salário para um menino de 15 anos – a partir do meu aniversário na semana que vem –, mais dois turnos na loja da instituição de caridade, com salário zero. Mas não posso largar esse emprego, não pelo menos até esperar um tempo respeitável. (Três meses? Seis meses? E como é que vou saber?) Não tenho tempo suficiente, e dinheiro menos ainda. Já falei para Fred que a gente pode ir ao cinema neste fim de semana, mas já estou achando que é gastar dinheiro à toa. E não posso ficar dependendo do meu melhor amigo.

  1. 3) Maldade com a minha mãe – e ela não é malvada comigo.

Tenho de começar a ser mais legal com a minha mãe, e de alguma maneira descobrir minha compaixão por ela de novo; por enquanto, está rolando só na teoria. Se alguém me contasse a história dela, eu ficaria com pena, sem dúvida. Mas na prática não está funcionando. Por que é tão impossível tratar melhor a minha mãe?

  1. 4) A ligação para o meu pai.

Eu falei para minha mãe que ele acabaria desistindo, porém essa ideia me assusta. Essas ligações são como aquela linha da vida nos monitores de hospitais. Estou aguentando firme, ainda não estou pronto para deixar tudo para trás. Se ele desistir, eu me afogo. Vou parar lá no fundo da água escura entre os nossos icebergs.

  1. 5) A mancada de Howard.

Não estou falando que ele fez alguma coisa errada: ele está mancando mesmo. É meio que um subgrupo da categoria “preocupações financeiras”. Ele precisa ir ao veterinário. Sei lá quanto isso custa, mas aposto que é o olho da cara.

  1. 6) Roupas novas.

Também poderia ser considerado um subgrupo da categoria “preocupações financeiras”. Braços e pernas mais compridos que as roupas, dedos apertados no sapato. E eu é que tenho de dar um jeito nisso. Acabou a festa de ir à loja e pedir para colocar não sei o quê na conta dos meus pais. Provavelmente posso conseguir umas roupas para o dia a dia na loja da instituição de caridade, contudo não sei bem como funciona esse negócio de comprar alguma coisa onde se trabalha.

Problemas, responsabilidades, cara feia. Parece que já faz 1 milhão de anos que tudo com que eu tinha que me preocupar era jogar Nintendo, ou fazer a lição de casa a tempo.

Decido que ir falar com Oliver sobre tudo isso não é tão ruim assim.