Capítulo 19

Minha mãe está de bom humor e parece relaxada pela primeira vez há um tempão. Ela me agradece por ter convidado Rachel e Alice para virem aqui em casa.

É segunda-feira, e meu aniversário de 15 anos.

E daí?

A gente come panqueca no café da manhã, com bastante açúcar e suco de limão – ou seja, do melhor jeito. Meu presente é um crocodilozinho de pelúcia com olhos verdes de vidro – um pouco mórbido, mas eu adoro. E Rachel deixou um presente para mim quando veio jantar aqui em casa; a mesma coisa todo ano: livros. Este ano ganhei Ardil 22, de Joseph Heller, um livro de autoajuda para meninos sem pai, e Os Eleitos, de Tom Wolfe.

Meu pai liga enquanto estamos tomando café.

– É ele – minha mãe diz, enquanto me passa o aparelho com uma cara de “atende!”. – É o Rob. – Ela tapa o bocal do telefone.

– Não estou – respondo.

– Fala só um “oi” – ela fala. Então, só porque acho que isso vai fazê-la sentir-se melhor, eu pego o telefone.

A voz dele está cheia de emoção, e ouvir meu pai sorrindo me deixa com vontade de chorar – vai entender –, e eu preferiria cortar minha cabeça fora a chorar. Com um nó do tamanho de uma maçã na minha garganta, converso o mínimo possível. Ele diz:

– Feliz aniversário, Dan.

Respondo:

– Valeu.

Ele pergunta:

– Tudo bem?

Respondo:

– Tudo.

Ele me lembra do presente que deixou para mim.

– Tá. Tchau – digo, e desligo.

É difícil acreditar quando minha mãe diz que não vai ser sempre tão difícil assim. Sinceramente, não vejo como isso pode mudar um dia.

Nem na escola consigo parar de pensar no meu pai. Pittney está atrasado para a aula, e tem um lance selvagem acontecendo. Um dos caras mais metidos a durão não está tomando o remédio que deveria e está perambulando pela sala e desenhando nos livros dos outros. Mel, uma das meninas dos parênteses intercambiáveis, diz que ele pode desenhar nela, e oferece a parte interna da coxa, onde ele escreve seu número de telefone. Jayzo está pedindo dinheiro emprestado para um de seus amigos. Estelle, Unyen e Janie estão conversando. Eu me sento perto delas, e elas começam a falar comigo, o que chama a atenção de Jayzo e Deeks.

– Por que vocês estão falando com o menino do bolo? – pergunta Jayzo.

– E por que você se importa? – retruca Estelle.

– Eu não estou nem aí – ele diz.

E ele tenta provar o que diz ficando ali por perto, enchendo o nosso saco. Fica difícil nos concentrarmos na conversa. Tentamos ignorar o mala, mas ele não gosta disso. Ele precisa de atenção como uma criança de dois anos. Ele pega o celular de Janie. É a coisa favorita dela: ela está sempre fazendo vídeos com ele. E eu sei que ela não tem grana para esbanjar, então, se o celular quebrar, já era. Ela tenta pegar o telefone de volta, mas ele o joga para Deeks. Não tem por que tentar pegar o celular: eles só vão continuar jogando essa coisa pra lá e pra cá.

– Devolve – me ouço dizer.

– O que foi? – pergunta Jayzo.

– O menino do bolo está ficando nervosinho – Deeks provoca.

– Quero ver você me fazer devolver – Jayzo desafia.

Tem coisa mais patética e que, para a minha frustração, funciona tão bem quanto aquilo que alguém maior e mais forte que eu tem a dizer?

Ninguém esperava que eu fizesse nada. Ninguém é imbecil o bastante para enfrentar Jayzo. Deeks está ali, segurando o telefone longe do alcance de Janie e sorrindo como um chimpanzé. Sinto o sangue ferver e sou invadido por uma onda de ódio de todo o bullying desse Jayzo. O “elemento-surpresa” está do meu lado nessa história, e eu o coloco para funcionar. Pego o pulso de Deeks com força, arranco o celular da mão dele e dou o telefone para Janie. Deeks está todo nervoso e fazendo cara feia, como se eu o tivesse machucado de verdade. Que bom. Espero que doa de verdade mesmo.

– Sua bicha – Deeks xinga.

Com uma onda de alívio, percebo que, apesar de não conseguir falar com ele, estou do lado do meu pai. Fico bravo por ele. Quero defendê-lo. Odeio esses idiotas que usam “bicha” e “gay” como insulto. E eles fazem isso o tempo todo.

– Pode parar de xingar as pessoas assim. Não tem nada de errado em ser gay. E não xingue ninguém de “menina” também. Metade das pessoas dessa sala é menina.

Jayzo fica de queixo caído e responde:

– Bom, mas é isso mesmo que eu esperava de uma… menina… gay.

Por um momento glorioso, ele parece meio murcho. Que sensação boa essa de não me deixar intimidar por alguém que detesto.

– Mandou bem – Lou diz.

– Ahã, valeu – Janie agradece, meio de má vontade.

Paro de “ficar na minha” na sala e me exponho como o nerd que sou como se não houvesse amanhã. Pode esquecer o lance de “ficar pianinho”. Respondo tudo que me perguntam. Como Lou mesmo disse, pode ser que não haja um amanhã se Jayzo me pegar sozinho no caminho de casa.

– Não estou nem aí – respondo. – Pelo menos eu sei que sou intelectualmente superior.

Ela cai na risada.

– Você acha que ele consegue chegar a conclusões. Mas ele mal consegue se lembrar de respirar.

Na hora do almoço, Jayzo fica rodeando Estelle, Janie e Uyen. Aquilo me deixa nervoso.

– Provavelmente ele está se desculpando por ser um monstro machista e homofóbico – digo.

– Acho que ele está é jogando um verde para convidar Estelle para o baile – Lou responde.

Dou risada só de ouvir essa ideia ridícula.

– Eles estavam saindo no ano passado – ela conta. – Relacionamento de oitavo ano, então acho que durou uns cinco minutos; mas mesmo assim.

Como isso pode ser verdade? A imagem da perfeição saindo com esse elo perdido?

Lou percebe meu olhar de quem mal pode acreditar.

– Ele é bem gato, sabia? – diz ela. – E até melhorou por um tempo, quando colocaram a matrícula dele num contrato de bom comportamento. Mas é claro que já desistiram dele, né?

Eu me lembro de Fred.

– Eu tenho um amigo que você pode convidar para o baile, se já não estiver para ir com alguém – comento.

Fica difícil decifrar o olhar dela. Com certeza não é “empolgado”, nem “feliz”.

– O que tem de errado com ele? – pergunta ela. – Ele tem espinhas? É isso? Não tem namorada? Ninguém mais quer esse cara?

Lou e Fred são tão perfeitos um para o outro que me dá vontade de dançar.

– Dou uma resposta quando estiver mais perto do dia do baile – responde ela. – Se eu tiver uma noção melhor de (a) se vou mesmo ao baile e (b) se estou tão desesperada assim.

– Acho que não tem chance de ela falar “sim”. Ou tem? – Lou segue meu olho comprido para cima de Estelle.

– Não sei, Dan – ela diz, suspirando de leve.

Estelle vai andando comigo até o Phrenology. A gente não conversa. Ela está ouvindo Kings of Leon no fone num ouvido só. Pelo jeito, ela deve estar tentando me proteger de Jayzo enquanto ele se acalma um pouco, talvez pensando que é menos provável ele me espancar com ela por perto. Espero que ela tenha razão.

– Prefiro mil vezes as músicas mais antigas deles – digo.

– Eu também – responde.

Quando ela está prestes a ir embora, colocando o outro fone no ouvido, ela sorri e diz:

– Obrigada por hoje.