Capítulo 20

Então a questão é por que, justo quando faço pelo menos um avanço com Estelle, eu decido arriscar uma terceira visita ao sótão?

Por dois motivos. Preciso descobrir do que elas estavam falando no jardim. Esse negócio está me comendo por dentro. E, não sei por quê, acabei trazendo um brinco na manga do meu suéter na última vez que estive lá, e preciso levar de volta.

É por isso que estou sentado aqui, entre as cortinas pesadas e transparentes da janela da sala de estar e olhando para a rua. Os minutos se arrastam; eu jamais teria paciência para trabalhar como detetive particular. Estou esperando por uma coisa que sei que acontece a essa hora do dia, e estou certo. Estelle está saindo pela porta da frente, virando à direta e subindo o morro puxando o case de seu violoncelo. Eu tenho pelo menos uma hora.

Os livros ainda estão sobre a portinhola do alçapão quando subo para aquele outro mundo. Só agora me dei conta de uma coisa: depois de ver a decoração moderna de Estelle, chego à conclusão de que ela deve ter construído seu ninho com coisas do sótão de Adelaide. Bem-vindo ao meu mundo do crime.

Ligo a lanterna e abro a tampa de um baú de madeira. Está cheio de roupas dobradas. Enquanto fuço entre elas, um cheiro de especiarias chega ao meu nariz. Tiro uma pilha de camisas de homem compridas e sem gola, sem botões, plissadas na frente, e uns vestidos de mulher feitos de um tecido bem fino e cheio de contas bordadas. Eles estão todos embrulhados em papel de seda.

Mas quem embrulhou aquilo tudo? Quando é que eles esperavam usar essas roupas de novo?

Mais um baú cheio de tecidos que parecem seda – e já fuçaram por aqui, com certeza. Esses são os panos que Estelle usou para decorar as paredes. Ao lado do baú fica uma mala enorme de couro, que agora é o lar de cobertores de lã normal e lã angorá. Quem quer que tenha guardado essas coisas fez questão de colocar lavanda entre cada camada, e deve ter sido há tanto tempo que a lavanda se desintegra entre os meus dedos. Todas essas coisas pertenciam a vidas que não são mais vividas. Não é legal pensar muito nisso.

Abro mais um baú, esse coberto com couro preto rachado, com umas fivelas de bronze meio sem graça e cheio de adesivos de destinos de viagem. Tem um bicho morto enorme lá dentro. Dou um pulo para trás, com um grito – que está mais para um barulho embaraçoso, agora que estou me lembrando –, ao ver que, é claro, são casacos de pele, e não um cadáver. O fedor que emana deles é de naftalina, e não de carne em decomposição.

Empurrando as caixas para o lado pela terceira vez, sinto de novo uma dor imensa na consciência – e, pela terceira vez, empurro-a para o lado também. Como já sou um espião experiente, antes de tudo, coloco o brinco de volta debaixo da mesa, e então vou direto para o volume mais recente do diário. Tem uma anotação sobre um filme que Janie está fazendo. Deve ser para isso que elas precisam de um assassino. É claro que não passei no teste. Continuei lendo. Más notícias. Estelle está gostando de alguém na escola. Ela chama o moleque de menino do CD. Esse menino do CD é muito sortudo:

Ele é uma graça porque não sabe como é gatinho. O cabelo dele é comprido e meio bagunçado, e quando ele está concentrado, a franja dele cai sobre o olho e ele a joga para trás, sem paciência. Parece que ele está em outro lugar totalmente diferente.

Deve ser o cara que ela convidou para o baile. Fico pensando no pessoal da nossa sala, hummm, e a descrição pode se aplicar a um ou dois idiotas que não merecem Estelle. Deve ser alguém do décimo ano. Fico com enjoo só de pensar.

O castigo mais superficial para um curioso é descobrir algo que ele não quer saber. O verdadeiro castigo é ter de conviver com essa culpa. Estou levando os dois na cabeça.

Fecho o caderno e olho à minha volta. Uau! Como é que eu nunca tinha notado aquilo antes?

Estelle colocou um monte de fotos na parede, onde antes ficava um dos tecidos. São vinte fotos: cinco fileiras de quatro. Fotos do céu tiradas da mesma janela, que acaba servindo de moldura para as imagens. Cada uma delas é linda por si só, mas a imagem que elas formam juntas é demais. E me faz pensar como as coisas podem ser as mesmas, porém tão diferentes ao mesmo tempo. É como a minha vida – meu pai ainda é meu pai, mas agora ele é gay e foi embora. Minha mãe ainda é a mesma, mas só está 90% menos feliz do que era. Eu sou a mesma pessoa, mas mal posso me lembrar da pessoa que eu era. Principalmente o meu coração, que agora tem partes que eu nem sabia que existiam antes.

Dou uns passos para trás para ver o impacto da imagem como um todo – e viajo tanto nas fotos do céu que nem percebo que o alçapão está se mexendo. E me viro bem rápido quando ouço o suspiro de surpresa de Estelle.

Com o choque ao me ver, ela meio que balança para o lado. Antes que ela caia, dou um passo até ela, a endireito pelos ombros e estendo minha mão para ela. Ficamos ali de pé, face a face.

Será que ela está afetada por essa distância quase inexistente entre a gente tanto quanto eu? Ela está molhada; gotículas se prendem às pontas do seu cabelo. E agora a chuva que cai com tudo sobre as telhas acima de nós dois é só um eco muito distante do barulhão do sangue pulsando nas minhas veias. Ela tem cheiro de flores e suéter molhados. Não tenho a menor ideia do que fazer em seguida, mas ela tem. Estelle puxa suas mãos de volta, e seus olhos brilham.

– O que você está fazendo aqui? – consigo dizer finalmente.

– O que estou fazendo aqui? Eu? No meu sótão?

– Você não tinha aula de violoncelo?

Putz, ferrou.

– Minha aula foi cancelada. Mas como você sabe que eu tenho essas aulas? Você está me espionando? Você fica me seguindo, por acaso?

– Não! – Bem, tecnicamente, não. – Eu só notei que você sempre sai de casa com o seu violoncelo a essa hora. E isso é crime?

– Essa é a primeira vez que você entra aqui? – Os olhos dela vão direto para os diários, que parecem totalmente intocados.

– Sim! Ouvi um barulho lá de baixo.

Mentiras e mais mentiras.

– Que barulho?

– Barulho de alguma coisa caindo. Eu só queria saber o que era.

Acho que ela está acreditando nessa história.

– É melhor você não ter encostado em nenhuma das minhas coisas!

– Não. Cla-claro que não – respondo, num tom de indignação que sai sei lá de onde. – Não encostei em nada. – Nesse momento, uma confissão só levaria à violência. – Achei a entrada sem querer. Ali é o meu sótão – digo, apontando para o buraco na parede que divide as duas casas.

– Exatamente. O seu sótão. – Ela aponta. – O meu sótão. – Aponta de novo.

– Eu até convidaria você para visitar o meu sótão sempre que quiser, mas acho que você já esteve lá – digo.

Ela faz cara de culpada, lembrando-se de todas as coisas que levou do sótão de Adelaide.

– Eu achei que ninguém mais fosse usar aquelas coisas. Pegue tudo de volta, se quiser.

– É melhor alguém usar aquelas coisas mesmo – digo, virando-me para ir embora.

– Você não pode contar a ninguém sobre este lugar. Meus pais não sabem que eu venho aqui em cima. Ninguém sabe.

– Eles devem saber que vocês têm um sótão.

– Eles não são do tipo de gente que junta tranqueira. Eles nem lembram que este lugar existe. Prometa para mim que não contará nada.

– Não vou contar.

– Prometa.

– Eu prometo.

– Não sei se isso quer dizer alguma coisa para você, mas eu estava começando a pensar em você como alguém em quem eu posso confiar, alguém ponta firme.

– Pode confiar em mim.

– Não depois disso. Agora estou me sentindo invadida. Bom, acho que vamos ter de começar tudo de novo.

– Eu tinha de descobrir. Aquilo estava me comendo por dentro desde que ouvi aquela conversa – digo a Howard. – Você não entende? Elas estavam falando de mim. Eu tinha o direito de saber sobre o que era aquela conversa.

Ele não parece nem um pouco convencido.

Nem eu.

– Começar tudo de novo! Pisei feio na bola. O que vou fazer agora?

Howard suspira e se ajeita em seu canto novamente, olhando para mim. É aquele olhar de psicoterapeuta de novo: você é que tem de descobrir.

– Vamos dar uma corrida. Quem sabe você para de mancar com um pouco de exercício.

Ele se levanta bem devagar, esticando uma perna e depois a outra, tremendo e estalando os ossos.

Na próxima vez que Janie e eu fazemos um intervalo no trabalho juntos, ela pergunta na lata:

– O que você aprontou para deixar Stell tão brava?

– O que ela falou para você?

– Que você não era tão legal quanto parecia. E que ainda bem que a gente não chamou você para participar do filme.

– Que filme?

É isso mesmo: debaixo de toda a mentira e falsidade tem mais mentira e falsidade.

– O meu filme. A gente achou que você poderia ser o cara que mata o personagem principal, mas então desistimos de usar humanos…

Que interessante. Estelle não contou nada para Janie sobre o sótão. Isso quer dizer que, apesar do que ela me falou, deve confiar em mim o bastante para guardar seu segredo. É uma migalha, porém é tudo que eu tenho.

Anne chega com bolos de semolina para a gente, aqueles que vêm com uma amêndoa bem no meio. Ela diz para a gente comer logo e voltar lá para dentro, porque o café está cheio de novo.

Nas semanas seguintes, minha presença naquela escola se resume a três atividades: tentar ficar sozinho com Estelle para me desculpar direito; tentar evitar ficar sozinho com Jayzo; e dar um jeito de Lou aceitar se encontrar com Fred.

Em casa, fico de olho na minha mãe, evito as ligações do meu pai, pego e logo deixo de lado de novo o presente que ele me deu (no máximo umas três ou quatro vezes por dia), saio para correr toda noite e puxo ferro – está ficando cada vez mais fácil. Os músculos estão começando a aparecer, e, ao ver que está funcionando, eu me sinto melhor do que deveria. Oi, bíceps.

Finalmente o tempo está esquentando. A primavera chegará em algumas semanas, e às vezes as manhãs não são tão congelantes. Arrumei o antigo quarto da empregada como quarto de TV, com um aquecedor. Então, com essa sala e a cozinha, e sem contar os banhos quentes ou ir dormir com uma bolsa de água quente, a casa está fisicamente mais suportável de se viver do que eu pensava quando a gente se mudou para cá.

No final das contas, é Pittney quem me deixa sozinho com Estelle. Nós pegamos a última cópia do livro de matemática ao mesmo tempo. Pego o livro primeiro, então seguro com força. Ela arregala os olhos para mim e segura com força também. Ela puxa o livro com tudo. Não é justo, então puxo de volta com tudo também. No momento exato, ela larga o livro e eu saio voando, e aterrisso no colo de Jayzo. Ele me dá um empurrão gigante que me manda na direção de Estelle, que cai no chão e diz com todo o sarcasmo do mundo quando eu a ajudo a se levantar:

– Valeu, Dan.

Com sua própria (e bizarra) lógica, Pittney diz:

– Chega. Não aguento mais vocês três. Quero ver vocês depois da aula.

E foi assim que nós três nos transformamos no comitê de organização do Baile de Primavera do nono ano.

Mas ninguém quer o emprego.

Jayzo passa a primeira reunião tentando convencer Estelle a ir com ele ao baile. Ele é burro demais para perceber que não vai rolar. Em certo ponto, não aguento mais.

– Ela já falou não. Deixa a menina em paz e convida outra pessoa.

Em vez de agradecer, Estelle me ataca.

– Quem foi que pediu para você falar por mim?

– É, deixa a menina em paz – diz Jayzo, com aquela alegria dos imbecis.

Não aguento mais esses dois.

– Pittney falou que a gente precisa botar alguma coisa no papel antes de ir embora. E eu preciso ir trabalhar. Qual é o tema do baile? Alguém tem alguma ideia brilhante? – pergunto.

Estelle folheia um livro que Pittney deixou para a gente, e lê em voz alta algumas das sugestões ridículas: Passado e Presente, Circo, Felizes para Sempre, Quesito: Esquisito…

Jayzo gosta de “Cubo Mágico” porque acha que, por alguma razão, vai ter gente tirando a roupa.

A gente acaba escolhendo a ideia mais óbvia: Black Tie. Então vamos ter um baile de gala, o que parece bem imbecil. Perfeito. Porque será imbecil mesmo. Escrevo isso num pedaço de papel e vamos embora.

Na saída, Jayzo vem bloquear o meu caminho.

– Menino do bolo, que tal uns globos oculares esmagados espalhadinhos sobre uns machucados cheios de vermes? – E então ele faz uma imitação excelente de alguém prestes a vomitar. Ele me pega desprevenido, e dá certo. A tontura tão familiar toma conta de mim de novo. Fico com frio, e então morrendo de calor. Antes de eu apagar, Estelle me joga numa cadeira e empurra minha cabeça para baixo.

– Deixa esse covarde em paz, seu bandido – ela diz.

Ele vai embora com um sorrisinho nos lábios.

– Quem foi que pediu para você falar por mim? – Não resisto.

– Se eu não tivesse falado nada, você teria desmaiado de novo. E então eu teria de perder mais tempo ainda procurando um professor.

Ela tem razão.

Janie e Uyen estão esperando Estelle lá fora. Mais uma vez eu me relego ao outro lado da rua enquanto elas andam em direção às lojas, falando pra caramba e às vezes olhando para mim. Será que elas só estão esperando eu ir embora? Será que elas estão preocupadas que eu vá ouvir alguma coisa? Entro na loja da instituição de caridade, e vejo Estelle indo para o lugar do Projeto de Artes.

A Sra. Nelson não parece muito animada em me ver – grande novidade. Tento não ligar muito para isso. Nunca mais quebrei nada, desde o primeiro dia de trabalho. Ela me pede para arrumar as revistas. É a mesma coisa que fiz da última vez, e da outra também. Não é que as revistas não estejam uma bagunça, porque estão, mas será que eles precisam mesmo de mim aqui? O canto dos livros e revistas é como uma biblioteca para alguns de nossos clientes. A gente vende móveis, roupas e tranqueiras para casa, e muitas vezes as pessoas sentam-se num sofá, cadeira de cozinha ou banquinho e passam uma hora lendo alguma coisa. Às vezes, a Sra. Nelson faz chá para todo mundo, e eles ficam falando de notícias sobre gente famosa. As revistas são velhas e amassadas, e, apesar de a falta de ordem cronológica gerar algumas discussões confusas, não acaba com a diversão de ninguém; só faz com que o mundo das celebridades pareça ainda mais maluco.

Já passou da hora de eu dar um jeito nisso.

– A senhora precisa de mim aqui, Sra. Nelson?

– Nós apreciamos a sua contribuição, Dan. Quanto a isso não há dúvidas.

– Mas a senhora precisa mesmo de mim?

– Quero que você saiba que sempre vamos precisar de você aqui. Você é confiável e generoso com o seu tempo, e valorizamos muito a sua presença aqui.

Experimento outra tática.

– Se eu conseguir mais turnos num emprego que me paga, tudo bem se eu não trabalhar mais aqui?

Ela sorri, finalmente entendendo o que eu quero dizer.

– Imagine! Não tem problema nenhum. Tenho tantos voluntários aqui que nem consigo mandar em todo mundo.

De repente, ela falou até demais.

Atravesso a rua e vou direto para o Phrenology. Ali diz que pode me dar um turno depois da aula, mas está meio de mau humor, então vou para a cozinha para sair do caminho dele.

Anne está lá, e de cara feia. Ela corta com tudo um pedaço de bolo de sementes de papoula ainda quente, e me passa a fatia. Um caldeirão de sopa que tem cheiro de tomate e cominho borbulha no fogão. Ela faz um gesto com a cabeça na direção do caldeirão.

– Você pode mexer a sopa, Dan? Mas tome cuidado para as lentilhas não grudarem na panela.

Pego uma colher de pau e começo a mexer.

– O que está rolando?

– Acabei de lembrar Ali de que vou sair de férias com Irena. Já falei para ele 1 milhão de vezes, mas ele nunca acreditou.

– Para onde vocês vão?

– Vamos fazer um gourmet tour pelo sudeste da Ásia com Tony Tan. E depois um passeio pelos castelos da região do Loire, e depois Florença, para ficar com a irmã de Irena.

– Quando?

– Na semana que vem.

– Quanto tempo você vai ficar fora?

– Oito semanas. Eu falei para ele alguns meses atrás. Mas ele se planejou para isso? Não!

Saio pela porta dos fundos. Não vale a pena ficar ali na linha de fogo.

A Sra. Da Silva tem um saco de ossos para Howard quando dou uma passada lá, a caminho de casa. Conto para ela as novidades do Phrenology.

– O que você vai fazer com esse dinheiro a mais?

– Levar Howard ao veterinário. Ele ainda está mancando.

– Mas é claro que está, Dan. Vocês correm tanto e por tanto tempo. Ele é um cachorro muito velho.

– Mas antes ele não mancava.

– E eu não tinha joanete antes. Você fica de olho na loja por um minuto?

Vou para detrás do balcão, e ela some lá para os fundos da casa. Tento imaginar o Phrenology sem Anne. Quem é que vai cozinhar? E se eles arranjassem alguém que não é tão bom quanto ela? E então perderem os clientes? E então o negócio for por água abaixo? E eu perder o meu emprego? Tenho uma ideia brilhante enquanto vendo um chocolate para um molequinho. Minha mãe é uma cozinheira incrível. E só Deus sabe como ela tem tempo de sobra. Por que ela não pode substituir Anne? Ela precisa sair mais, passar menos tempo sozinha com Thom Yorke… Perfeito.

A Sra. Da Silva volta alguns minutos depois com uns potes plásticos. Cheios.

– Eu fiz curry hoje de manhã. Leve um pouco para casa.

– Obrigado. O que você acha de a minha mãe ficar no lugar de Anne?

Ela sorri.

– Você não é só um rostinho bonito.