Capítulo 22

Com a chave de Oliver no meu bolso, tenho um plano ainda melhor. Sugiro que Janie fique escondida na casa de Oliver até chegar a hora de ir, Estelle saia pelo meu sótão para não acionar o alarme, e eu vá com elas até a rodoviária.

– Mas você não precisa vir com a gente – diz Janie.

– E se uns doidos atacarem vocês na rua?

– Não vão – responde Estelle.

Afinal, elas acabam concordando que não é má ideia ter um cara alto e um cachorro com elas ao percorrer aquelas ruas nas primeiras horas do dia.

Quando a gente repassa o plano, tudo me parece perigoso, ilegal, maluco – e fadado ao fracasso.

Parece arriscado achar que, só porque os pais delas nunca telefonam uns para os outros para falar sobre as filhas que estão passando a noite na casa uma da outra, não quer dizer que eles nunca o farão. E Janie parece ter a idade que tem mesmo – ou, com bastante maquiagem, no máximo 15 anos –, então ficará meio na cara do pessoal da competição que ela usou um documento de identidade falso. Isso colocará fim a tudo, claro. E não estou muito convencido de que é seguro para ela ir para Sydney sozinha com nada além de uma identidade falsificada. E se alguma coisa lhe acontecer? Ninguém saberá quem ela é.

Elas acham que estou me preocupando à toa, e tenho de concordar com isso; afinal, elas planejaram tudo com cuidado. Geralmente elas não podem dormir na casa das amigas em dias de semana, mas Janie tem reclamado tanto do nosso trabalho de ciências que ganhou permissão para dormir na casa de Estelle na quinta e na sexta. Elas já cronometraram a caminhada até a rodoviária: exatamente 20 minutos. Elas vão levar comida para o almoço e uns lanchinhos, e já têm 10 dólares para um jantar nesses restaurantes de comida para viagem.

A mãe de Estelle está ocupada preparando um catálogo para uma exibição de artefatos asiáticos. Estelle sabe que a mãe anda bem distraída.

Ainda estamos combinando os últimos detalhes do plano quando me dou conta de que ainda não vi o filme. Então elas me mostram. É sobre um assassinato misterioso. Elas usaram fotografias quadro a quadro com três Barbies e um Ken. Também escalaram dois Power Rangers para o elenco, cuja habilidade de girar a cabeça 180 graus e mostrar o rosto ou uma máscara é desconcertante. O personagem final é interpretado pelo Lagarto, um bonequinho do He-Man que consegue lançar sua língua comprida nos inimigos. Ao final, a gente percebe que todos os suspeitos conspiraram para o assassinato. É bem engraçado.

Tenho de ir para o Phrenology, então o restante do dia será uma correria. Quando estou de saída, Estelle me dá um envelope. Consigo sentir o formato de um sapo de chocolate como agradecimento. Que legal. Coloco o envelope no bolso e chego ao trabalho em cima da hora, evitando por um segundo a bronca de Ali. Ele curte pontualidade.

Vou para a cozinha, deixo minha mochila e pego um dos aventais pretos que todos nós usamos, e lá está minha mãe, tão envolvida na conversa com Anne que mal nota minha presença. Anne me olha por meio segundo: calor, aprovação. Que alívio. Talvez a gente consiga não ter a água e a luz cortadas, afinal. E minha mãe estar ali no café é ainda melhor para o plano das meninas; ninguém verá Estelle e Janie pulando a cerca e indo para o estábulo. Enquanto limpo as mesas e faço malabarismo com a louça, fico rezando para elas não perderem a chave, nem esquecerem o código do alarme. Fico meio assim por deixá-las usar a casa de Oliver. Apesar de a gente não ter tocado no assunto, ele nunca disse que eu não poderia esconder alguém lá. Numa emergência.

O café fica lotado, só registro um turbilhão de biscoitos com confeito de chocolate e milk-shakes, então não me lembro do envelope de Estelle até horas depois, quando estou indo dormir e ouço o barulho do papel se amassando enquanto tiro a roupa. Dentro do envelope com o sapo de chocolate, que já derreteu com o calor do meu corpo, está um bilhete. Como o sapo – o que é meio nojento, porque acabei de escovar os dentes – e leio o bilhete, que diz, na letra de Estelle, e numa linha meio torta:

Gosto de muito de você!

Beijos,

Stell

O quê? Meu coração está saindo pela boca. Leio de novo, para confirmar. Não posso acreditar nos meus olhos. Gosta? Ela gosta muito de mim? Eu sei que essas meninas têm uma tendência ao exagero. E “gostar” não quer necessariamente dizer “amar”, é mais como “acho você muito legal”, ou “você é gatinho”, mas fico preocupado de novo: será que devo convidar Estelle para o baile? Revejo minhas lembranças, tentando recuperar as palavras exatas que ela usou na sua casa naquela noite. “Acho que vou com alguém”, “Provavelmente vou com alguém”, “Pode ser que eu leve alguém”. Será que ela só estava tentando me irritar? Ou convidou mesmo alguém? Mas e se ainda não convidou? As coisas já melhoraram entre a gente desde então. Mas e o menino do CD? Talvez ele esteja prestes a fazer alguma coisa útil, como mudar para outro canto do planeta, por exemplo.

Quando o despertador toca às cinco para as cinco, é como se meu cérebro já estivesse acordado há um tempo e só esperando pelo meu corpo. Pulo da cama e coloco minha calça de agasalho e tênis. Ouço o barulho de alguém arranhando alguma coisa quando a portinhola do sótão se mexe, e então dou comida para Howard, como planejado, e entro no armário. Estelle olha para baixo, e então se vira e desce pela escadinha. Ela faz um carinho em Howard e sorri para mim, seus olhos brilhando de empolgação. Milagre: Howard não late.

E eu me preparei também. Sei que o 14º degrau faz barulho. Peguei uma mochila para levar Howard lá dentro, e um monte de biscoitos para quando ele estiver prestes a latir. Até lubrifiquei as dobradiças da porta dos fundos, uma manobra típica de livros de aventura para crianças para fugas no meio da noite.

Enquanto descemos as escadas, quase caio quando o 13º degrau range e reclama. Aaaaah! Eu devo ter contado o patamar como o número um. Eu congelo, batendo os dentes, e dando um biscoito-cala-a-boca para Howard só por precaução. Estelle segura meu braço com força. Ela está morrendo de vontade de dar risada. O degrau range de novo quando saímos dele. Estelle respira fundo para se acalmar. Eu me forço a contar até dez. Quando chego perto do “seis”, ouço uma porta abrir.

– Dan, é você? – pergunta minha mãe.

Estelle agarra o meu braço de novo. Ela vai com cuidado para o degrau à minha frente, para se esconder caso minha mãe desça as escadas. Não sei como, mas consigo desenterrar uma voz de quem está dormindo pesado, apesar do pico de adrenalina que está quase fazendo minha cabeça explodir.

– Só estou levando Howard lá para fora.

– Você quer que eu leve Howard?

– Tudo bem, já estou quase lá. Boa noite.

– Boa noite, querido.

Seguindo uma mancha de luz do celular, vamos em silêncio para o quintal, e as batidas do meu coração vão voltando ao normal quando chegamos à porta da casa de Oliver, onde Janie está esperando a gente.

– Você trancou a porta?

Percebo uma virada de olhos discreta enquanto Janie me passa a chave.

– Você só fez questão de me lembrar disso umas cem vezes, então eu tranquei, sim.

Em seguida a gente sai pelo portão, sobe a rua, passa pela loja da Sra. Da Silva e entra na próxima à esquerda. Quase não há trânsito, e ninguém por perto, a não ser um pessoal dormindo nos bancos enquanto seguimos em direção ao parque.

Antes de chegarmos ao centro, um carro da polícia vem vindo em nossa direção. Tiro Howard da mochila e digo baixinho:

– Estamos treinando.

O carro diminuiu a velocidade e para ao nosso lado.

– Do que ele está falando? – Janie começa a reclamar, mas fica quieta após receber um cutucão de Estelle.

– Tudo bem aqui, pessoal? – pergunta o policial do lado da rua.

– Ahã. Só estamos indo correr. Estamos treinando remo – digo.

– Mas vocês estão bem longe do rio.

– A gente faz um circuito de uma hora antes de chegar às docas, e depois mais uma hora até a água. Cinco vezes por semana. – Eu calo a boca, rezando para não soar tão nervoso quanto estou me sentindo. Sinto-me culpado só por estar falando com um policial.

Os dois oficiais nos estudam cuidadosamente. Está na cara que não estamos bêbados nem drogados.

Eles pedem para ver nossas mochilas. Janie oferece a dela para inspeção. Ela só está levando roupas, que serviriam para se trocar depois do treino. Mas o que eles estão procurando? Tinta spray? Armas automáticas? Grandes quantidades de drogas caras? Eles falam baixo entre si, e, mesmo que suspeitem de que haja alguma coisa errada, devem ter decidido que tem problemas maiores que a gente nesta metrópole muito louca.

– Boa sorte com o remo – diz o policial que estava dirigindo, antes de ir embora.

Perdemos alguns minutos, então teremos de correr.

A cidade é mais agitada do que a gente imagina às cinco da manhã, quando as estrelas ainda estão no céu. Os caminhões de lixo passam correndo e rugindo como animais em armaduras. E tem um pessoalzinho no pior estágio de uma boa noitada: o final.

Chegamos à rodoviária um minuto antes de o ônibus sair, e nós dois nos despedimos de Janie com um beijo de Estelle e um “boa sorte” meu.

Estelle e eu vamos andando para casa. Estamos empolgados. E morrendo de fome. Ainda está frio e escuro na rua, e quase morremos de rir ao relembrar aquela manhã minuto a minuto – Howard sabia que não podia latir… que companheiro… A sua mãe acordando! Eu tinha certeza de que a gente estava ferrado… Treinando? De onde você tirou isso? Mas o que aqueles caras estavam procurando? E se eles tivessem perguntado mais sobre o lance do remo? É melhor ela ganhar esse concurso mesmo, depois de fazer a gente madrugar…

Passamos pelo parque em diagonal, e então cruzamos a Victoria Parade e corremos para as lojas mais próximas na Rua Gertrude. Tem um café recebendo entrega de uma van lotada de pães e doces. Juntamos nossas moedas e compramos um pão doce no café para dividir.

A gente se empoleira num ponto de ônibus com os joelhos no banco, e Howard aninhado entre nós como uma bolsa de água quente.

– Quais são os seus créditos no filme? – pergunto.

– Roteiro, produção executiva e efeitos especiais.

– Você que fez aquilo? O barulho quando eles cortam a cabeça dele fora? Que macabro!

– Graças ao violoncelo – diz ela modestamente.

– Mas o que acontece se ela ganhar e eles quiserem comprar o filme?

– A gente ainda não chegou nessa parte.

– Eles não vão poder oferecer um contrato a ela, por causa da idade.

– Isso pertence à categoria de problema muito bom. Vamos deixar para nos preocupar quando acontecer.

Nem posso acreditar na minha sorte, tendo todo esse tempo sem interrupções com Estelle. Ela está mais linda que nunca, com aquele cabelo bagunçado, roupas simples e nem um pingo de maquiagem. Seus olhos são tão claros quanto o céu que amanhece. Como sempre, não consigo parar de olhar para ela.

Ela limpa a boca, meio que com vergonha.

– Tem alguma coisa no meu rosto?

Eu quero dizer “Também gosto muito de você”, mas vou de: “Só estou admirando a sua beleza”, frase que ela resolver encarar como um comentário irreverente.

– Engraçadinho. – Ela passa o dedo pelo meu queixo. – Migalhas. Vamos, é melhor irmos andando.

Ainda faltam 30 minutos para a hora de qualquer pessoa acordar na minha casa, mas ela tem razão – o dia está ficando mais claro a cada segundo.

Ofereço a minha mão. Ela aceita.

– Estou pronta para dormir mais – ela diz, erguendo-se do banco. – É cedo demais para correr.

Vamos para casa em silêncio, parando na viela que dá para os portões dos fundos das nossas casas.

– Sabe, o baile… – começo.

– Ah, não vá começar com aquela conversa sobre o DJ de novo. Só porque estou cansada não quer dizer que eu vá ceder.

– Claro. Mas é que…

– Eu já lhe contei que achei o vestido perfeito?

– Não.

Ao se lembrar de que sou um menino, e o que isso significa em termos de moda, ela faz uma cara de quem pede desculpas.

– Provavelmente você não está nem aí para essas coisas.

– Claro que estou – minto.

– Então tá: é tomara que caia, de organza cinza-escuro com um corpete, e a saia tem um forro preto por baixo. É lindo!

– Que ótimo, mas eu só queria…

Ela está escutando. Fecho a mandíbula com força para meus dentes pararem de bater e me distraio por um momento com o piado de um filhote de passarinho ao longe.

– Você só queria…

Howard faz um barulho como quem está desapontado. Ele está tão impaciente comigo quanto eu mesmo.

Fuço na minha mochila em busca de um biscoito para manter Howard quieto. Pelo jeito tem um pouco de coragem lá dentro também.

– Eu só queria saber se você quer ir comigo.

Ela olha para mim.

– Ao baile.

– Ai, Dan – ela fala, parecendo… decepcionada ou só com vergonha? – Eu já convidei outra pessoa. Sinto muito.

– Tudo bem. Não tem problema.

– Mas obrigada. Muito mesmo.

– Claro, sem problemas.

Quando entramos na cozinha, já tem alguma coisa no fogão. Ouço o barulho de água no banheiro lá em cima. Por que a minha mãe acordou tão cedo?

Faço Estelle sair rapidinho da cozinha assim que a porta do banheiro no final do corredor começa a se abrir, consigo levá-la para a sala de estar e começo a desamarrar meus tênis com cara de paisagem quando minha mãe aparece.

– Dan! Onde você estava?

– Correndo.

– Você saiu antes das seis horas? – O tom de voz dela está agudo de incredulidade.

– Hum, saí.

– Mas você corre à tarde.

– Geralmente, mas não sempre.

– E o que Howard está fazendo dentro da sua mochila?

Ops.

– A perna dele está doendo.

– Então por que você não o deixou em casa?

– Achei que ele fosse curtir a paisagem.

– No escuro? Quanto tempo você ficou correndo? Sua cama estava gelada.

– Não muito. E por que você acordou tão cedo?

– Estou fazendo umas coisas para o Phrenology.

Ela me lança um olhar de raio X tipo “essa conversa ainda não terminou”, que não é sinal de coisa boa, e volta para a cozinha.

Vou até a sala de estar, onde Estelle está congelada, as sobrancelhas arqueadas tipo “socorro!”, e corremos lá para cima de novo. Antes de subir pela escadinha do sótão, ela me dá um abraço rápido.

– A gente não teria conseguido sem você.