Capítulo 23

A última parte do plano mais perfeito que Sydney já viu é uma ligação da mãe de Janie para a escola, dizendo que ela não irá à aula hoje. A gente apela para a voz grave e de quem sabe o que está falando de Lou, que tira uma atuação digna de Oscar não sei de onde. Então, tudo resolvido, a gente só precisa esperar para ver se Janie ganha ou não a parada.

Enquanto o dia passa, Estelle verifica seu celular 1 trilhão de vezes. Ela tem de ficar checando porque está no silencioso. Então, quando finalmente chega uma mensagem na última aula, Estelle está tão ansiosa que dá um grito e então finge que viu uma vespa, e a professora fala para ela parar de criancice. E, depois de tudo isso, a mensagem só dizia quase lá, divirta-se na aula de matemática. kkkk bjs .

Depois da aula, Estelle fica me esperando como se fosse uma coisa normal a gente ir andando junto para casa. Ela está mordendo de leve a manga da blusa e me convida para dividir o fone de ouvido e escutar um pouco de Hot Chip. A gente se toca no ombro e no braço várias vezes e parece, pelo menos para mim, que ficamos unidos por um tipo de descarga elétrica daquelas de filme de terror antigo, quando eles estão fazendo um transplante de cérebro. Ela parece não ligar ou ser imune a esses efeitos colaterais. Mas talvez por fora eu também seja.

– Quer ir lá para casa e ver o que acontece? – pergunta ela.

Lógico!

– Levo um DVD pra gente – respondo, tentando lembrar meu coração de que ele é um músculo em muito boa forma, e não um tambor detonado.

– Legal.

Entro em casa e dou uma cheirada nos sovacos só por precaução. Tudo bem. Lambo as costas da minha mão, deixo o cuspe secar e dou uma cheirada também – dizem que é um jeito mais eficaz de checar o hálito do que expirar o ar na mão fazendo uma conchinha. Tudo bem também. Deixo Howard vir comigo até a casa de Oliver pegar um DVD.

– O que você acha de Donnie Darko? É um dos favoritos dela. E quem gosta desse filme sempre curte ver mais uma vez. E vai ser mais uma coisa que a gente tem em comum.

Howard late aprovando/desaprovando.

– Se você está querendo me dizer que eu não deveria saber que ela gosta desse filme, tem razão. E se acha que a gente vai se aproximar mais ao assistir esse filme, tem razão também. E se você está pensando em como é que vou conciliar esses dois fatos, eu não tenho a mínima ideia.

Ele faz aquele barulhinho, quase um choro, de quando fica preocupado. Isso quer dizer que ele tem de fazer xixi ou acha que minha moral já foi para o saco.

Os créditos estão rolando sobre a tela, a gente acabou de comer a pizza e fico pensando se posso perguntar a Estelle quem ela convidou para o baile. Eu acho que é o menino do CD. Não consigo decidir se vou aguentar ouvir Estelle falando disso ou não. Agora estamos numa fase nova no nosso relacionamento – ou seja, agora temos um relacionamento –, e ela talvez ache que pode confiar em mim e me contar o quanto ela gosta dele. Bom, isso com certeza eu não vou aguentar. Provavelmente é melhor não saber. Acabo de decidir que com certeza é melhor não saber quando Estelle recebe uma mensagem no celular: não ganhei, vida loka, amo vc bjs.

Estelle liga para ela na hora e ficamos sabendo das más notícias. Apesar de Janie não ter ganhado, a plateia adorou o filme – deram muita risada e aplaudiram muito. Mas uma das razões pelas quais ela não podia ganhar era o lance dos direitos autorais por causa do elenco: Barbie, Ken e os Power Rangers.

– Eu nem pensei nisso – diz Estelle.

– Nem eu – berra Janie –, mas o cara que manda lá adorou o meu estilo. Ele disse que vai manter contato.

– Nós adoramos o seu estilo também – responde Estelle.

– “Nós” quem? – quer saber Janie.

– Eu e Dan – Estelle responde, sorrindo para mim.

– Vê se não perde o ônibus – grito.

Ainda estamos empolgados quando ouvimos o barulho da chave na porta da frente. Estelle dá um pulo, assustada.

– Alguém está invadindo a casa. E eles têm uma chave!

Olho ao meu redor em busca de uma arma e pego o controle remoto – tá, não tão mortal quanto eu gostaria, mas era isso ou um livro grande sobre alguém chamado Cy Twombly. Ficamos os dois de pé, prontos para entrar em ação.

Mas é só Vivien. Ela entra com os braços cheios de pastas e uma bolsa de laptop trespassada sobre o peito.

– Mãe? – pergunta Estelle, tentando se recuperar do choque.

– Querida, eu moro aqui, sabia?

– Mas é sexta-feira. Você só chega mais tarde.

– Bom, me desculpe, mas a galeria está uma confusão. Não consigo fugir do meu telefone e preciso de espaço para pensar.

Ela se vira. Alguém está vindo atrás dela quando ela tira a chave da porta.

O rosto de Estelle fica branco quando ela ouve:

– Vivien, oi.

Com pânico nos olhos, Estelle diz, sem som algum, “fodeu!” e continua, falando bem baixinho:

– É a mãe de Janie! O que a gente faz?

Dou de ombros, sem saber. Mesmo tendo previsto esse problema, não tem lampadinha nenhuma piscando sobre a minha cabeça.

– Sarah. Entre – diz Vivien.

– O que você está fazendo aqui a esta hora? – pergunta Sarah.

– Estou fugindo do trabalho para conseguir trabalhar!

– Boa sorte. Não vou entrar, mas você pode dar isso aqui para Janie? Uma noite sem escova de dentes, tudo bem, mas duas? O negócio vai ficar feio.

– Eu nem sabia que ela vinha. Ai, me desculpe, de verdade, mãe negligente! Estou ficando doida por causa da exposição. Estelle, cadê Janie? Sarah trouxe a escova de dentes dela.

Posso ver que Estelle está tão perdida quanto eu. Será que ela está pensando se deveria simplesmente tentar dizer “tomando banho”, “no quintal”, “presa no guarda-roupa”?

– E ela vai ficar amanhã também? Mas que bom ela fazer companhia a Stell enquanto estou ocupada desse jeito – comenta Vivien.

Agora a mãe de Janie está de pé junto à entrada e com cara de dúvida.

– Mas ela dormiu aqui ontem à noite.

– Não… na quinta? Não! Ela não dormiu aqui, né, Estelle? – Vivien fica pensando se anda tão distante da vida em sua própria casa que nem sabe mais quem é que está ficando ali.

– Sarah, entre um pouquinho. Faz um tempão que não vejo você. Diga o que eu preciso saber sobre a escola. Nossas filhas. A vida. O universo…

Estelle sabe que não conseguirá fingir. Uma hora Vivien conseguiria se lembrar do jantar da noite anterior, e do fato de que Janie não estava lá.

Agora mesmo seria o momento perfeito para eu entrar em cena e salvar o dia, mas ainda não tenho a menor noção do que dizer.

A mãe de Janie já entendeu o olhar de preocupação de Estelle.

– Meu Deus, o que foi?

Estelle e eu nos entreolhamos, reconhecendo que é o fim da linha.

– Cadê a Janie?

– Ela está bem – responde Estelle. – Não tem por que você se preocupar.

– O que você quer dizer com isso, Estelle? Onde está Janie? – pergunta Vivien, trazendo Sarah para dentro de casa e fechando a porta.

– Ela vai pegar um ônibus daqui a pouquinho.

– Daqui a pouco mesmo – completo. Ridículo, mas é tudo que tenho.

– Que ônibus? De onde? – pergunta Vivien, já impaciente.

– Na verdade, de Sydney – conta Estelle. – Mas não fiquem bravas.

A mãe de Janie se senta como se os ossos de suas pernas tivessem amolecido de um segundo para o outro.

Cinco minutos depois, minha mãe está sentada à nossa frente também, e o interrogatório segue a todo vapor.

Elas estão bravas, furiosas, e, mesmo sem ter tempo para conversar entre a gente, eu e Estelle percebemos que é melhor não responder. Às vezes, montar uma estratégia de defesa só piora as coisas. Então nós concordamos que fomos idiotas, irresponsáveis, imaturos, mentirosos e encorajamos uma amiga a assumir um comportamento bem arriscado.

Depois que Sarah fala com Janie ao telefone, e se convence de que a filha está bem mesmo, Estelle tenta me livrar desse crime.

– A gente já tinha planejado tudo antes de contar ao Dan. Tudo o que ele fez foi acompanhar a gente até a rodoviária. Ele até tentou convencer a gente a não ir em frente com o plano.

– Nós não precisamos ser convencidas de que você e Janie são os gênios do mal dessa história – responde Vivien, com os lábios finos e roxos.

– E eu não quero saber se a sua participação nisso foi pequena, Dan; não é certo – minha mãe diz. – E, quando eu fiz uma pergunta direta para você hoje cedo, você mentiu.

– Não é bem assim – começo, mas minhas palavras congelam quando percebo como ela está brava. Vamos para casa.

– Você está de castigo por um mês e isso não é negociável – diz Vivien a Estelle.

– Mas e o baile?

A última coisa que ouço Vivien dizer é “Você deve estar de brincadeira!”.

Quando chegamos em casa, a raiva da minha mãe já virou decepção, o que é muito pior de aguentar.

A gente se senta à mesa da cozinha, e ela fica me olhando com os olhos rasos de lágrimas. Eu me sinto tão mal, tão para baixo. Estou em algum lugar entre a sola do meu sapato e a calçada nojenta, entre os intestinos de uma cobra e a areia lisa do deserto, ou até mais baixo, entre os canos do esgoto e o núcleo incandescente da Terra. Também estou entre a cruz e a espada, ferrado. Já era.

– Você está escutando o que estou dizendo?

Ah, não. A velha combinação gritaria-e-tristeza. Eu me ligo e começo a prestar atenção de novo.

Continuo concordando com as acusações. Fico me sentindo como Howard quando ele rola no chão com a barriga para cima e as pernas para o ar. Sou seu humilde súdito. Você está tão, tão certa – eu estou tão, tão errado. E, para falar a verdade, concordo mesmo com ela. Ela me dá os mesmos argumentos que eu tentara usar com Estelle e Janie, sobre como não era seguro uma menina novinha e desacompanhada se aventurar em Sydney; sobre como não era certo mentir sobre a idade; sobre por que é preciso haver uma relação de confiança entre pais e filhos. Nesse último ponto, nossos caminhos se separam. Os pais não precisam saber de tudo, mas, como é bem capaz que acabem descobrindo, é melhor falar a verdade desde o começo.

Ouvindo e fazendo que sim com a cabeça, chego à conclusão de que eu, eu mesmo, daria um pai perfeitamente razoável. Sei todo o discurso de cor.

– Não vou colocar você de castigo, Dan. – Minha mãe está finalmente terminando. – Só Deus sabe como a gente precisa que você continue trabalhando. – Isso traz à tona um lote fresquinho de lágrimas. Não lembro minha mãe de que o castigo geralmente se aplica a atividades sociais “divertidas”. Ela está se abrindo para mim, e quem sou eu para impedi-la?

– Sei que você tem a cabeça no lugar e fico feliz por você ter tentado convencer as meninas a não seguirem em frente com essa bobagem. Vou considerar isso como um fato isolado. Preciso confiar em você. É a única maneira de a gente se entender.

Faço que sim com a cabeça, encorajado, mantendo a expressão mais culpada e solene que consigo improvisar. Acho que está dando certo; até que estou escapando de boa dessa.

– E você tem muita sorte por não ter acontecido nada com a casa de Oliver.

Tá, acabei de morder a língua, mas faço que sim com a cabeça de novo, pensando que problema terrível poderia ter provocado uma menina dormir no sofá dele por algumas horas.

– Poderia ter acontecido qualquer coisa. Ela poderia ter ateado fogo a esse lugar. Ou deixado a porta destrancada para os ladrões…

Enquanto imagino Janie entrando em combustão espontânea e queimando a casa inteira, minha mãe começa a viajar. Acho que ela não conseguiu convencer nem a si mesma de que Janie poderia ter aprontado muito.

– Você vai escrever uma carta aos pais de Janie se desculpando por sua parte nesse plano.

– Você acha mesmo que é uma boa ideia? Isso não pode acabar estendendo o assunto demais? – Ela afoga minha objeção com um olhar que deve conter um quilômetro cúbico de água gelada.

Então escrevo:

Caros Sr. Preston e Sra. Bacon,

Venho por meio desta me desculpar por ter participado do plano para possibilitar a viagem de Janie a Sydney a fim de comparecer ao concurso “Por um Fio de Telefone”.

Estou realmente arrependido de tê-la ajudado nessa empreitada potencialmente perigosa. Muitas coisas poderiam ter acontecido, mas, graças a Deus, nada aconteceu.

Por favor, aceitem meu pedido de desculpas e a garantia de que irei opor-me com mais ênfase se um esquema similar for planejado com o meu conhecimento. O que, tenho certeza, não acontecerá.

Atenciosamente,

Dan Cereill

Fico me sentindo um idiota completo, mas vou sobreviver. Passar vergonha é uma das minhas principais tendências.

Fico pensando que a carta é um pouco prematura; pode ser que role um acidente fatal com o ônibus na estrada. Colocarei no correio só amanhã cedo. Também percebo que, como por milagre, o papel do sótão nessa grande fuga passou totalmente despercebido.

Meu estômago se manifesta e ajuda a mudar de assunto ao produzir um rugido de fome. A gente cozinha macarrão e mistura com um pouco de molho de latinha que sobrou. Enquanto temperamos a comida com uma conversa educada e discreta, percebo que a cozinha está cheia de biscoitos e bolos e um monte de coisas gostosas.

– Esses daí estão com uma cara boa.

– Ali disse que gosta da ideia de experimentar umas coisas diferentes enquanto eu ficar responsável pela cozinha.

– Que bom que você conseguiu o emprego.

– Bom, não é bem um emprego.

– São oito semanas.

– É melhor que nada.

– E pode levar a outras coisas.

– Sim, oito semanas de pagamento. – Ela soa meio amarga. Também pudera. É fácil esquecer como a vida dela era diferente alguns meses atrás.

– Admiro muito a maneira como você está lidando com tudo isso – digo, e fico meio envergonhado. Alguém tem de dar uma força para ela. E só tem eu aqui.

Ela me abraça. Levo Howard para fazer seu xixi antes de ir dormir e subo para dormir mais cedo.

Ao fechar a porta do meu quarto, ouço um sussurro alto vindo do alçapão no teto:

– Dan, você está aí?

Estelle está me olhando pela fresta do alçapão, e abre a tampa mais um pouco.

– Posso descer?

– Claro.

Vejo se a porta está trancada e ligo o rádio para encobrir nossa conversa.

Quando Estelle desce a escadinha, consigo ver que ela está chorando.

– Você acha que Janie está bem? Minha mãe me deixou tão preocupada, falou que ela pode ser assaltada ou atacada no ônibus, ou que pode sofrer um acidente, ou qualquer outra coisa terrível. E que será culpa minha, porque não a impedi de ir.

– Mas a decisão foi dela. Ela teria ido de qualquer jeito.

– Ela não teria como ir sem a grana que dei a ela.

– Bom, pelo menos assim ela não teve de pedir carona.

– Talvez – diz ela, permitindo sentir-se um pouco reconfortada.

– Vai dar tudo certo. O único perigo que Janie terá de enfrentar agora são os pais dela.

– Minha mãe vai devolver meu vestido para a loja – Estelle conta entre soluços e mais lágrimas. – Ela é horrível.

Não faço ideia do que ela está falando.

– O vestido cinza. Eu falei para ela. O vestido que eu amo; nunca mais vou achar um vestido assim!

– … Que saco!

– Uau, o que é isso? – Estelle foi até a minha escrivaninha e está fuçando na caixinha de bichos entalhados a mão que Adelaide deixou para a minha mãe.

– Insetos. Sapos. Uns carinhas estranhos.

– Que fofos! – ela funga.

– Pegue um para você, o que mais gostar.

Ela sorri para mim.

– Só emprestado. Para me animar.

Ela analisa a coleção com calma e escolhe um carinha gordo sentado em cima de um sapo. É o meu favorito também, porém ela pode levar sem problemas. É mais um sinal de como a gente combina. Se ela percebesse…

– Odeio como a gente tem de ser independente e mostrar iniciativa, mas só se for nos termos deles. No segundo em que você mostra iniciativa de verdade, eles só querem enfiar você de volta na caixa, como um brinquedo.

– Você vai ficar mesmo de castigo por um mês?

– Em teoria, vou. Mas posso vir visitar você. E sempre tem a árvore também.

– A árvore não, por favor.

– Você tem de parar de se preocupar tanto – ela diz. – E você, ficou muito enrolado por causa dessa história?

– Não muito. Acho que, como a gente está vivendo no limite aqui em casa, esse tipo de coisa acaba encolhendo.

– Rolou gritaria?

– Um pouco.

– Minha mãe berrou muito quando vocês foram embora. Não estou de brincadeira, acho que ela quase perdeu a voz. Ela finge ser racional na frente dos outros, mas parece uma maluca quando estamos sozinhas. E é claro que o mundo gira em torno dela. Acabei com a noite dela! Ela ficou ainda mais estressada exatamente quando precisava de um pouco de paz para pensar! Acho que ela pensa que vive numa novela.

Estelle se dirige para a escada.

– Eu preferia ficar aqui com você e Howard, mas é capaz de ser mais um motivo para ela mostrar como eu sou irresponsável e inconveniente.

Mais tarde, por meio de uma série de mensagens que recebo pelo celular, descubro que Janie chegou em casa sã e salva, no horário marcado, e já foi direto para o castigo. Os pais dela estão furiosos. Enquanto ela e Estelle decidem ficar quietinhas, tenho um compromisso social (ou melhor, um desafio) que precisa da minha atenção. Vou apresentar Lou a Fred.

Marcamos de nos encontrar no shopping Richmond Gardens e ir ao cinema; assim, se eles não se derem bem, pelo menos ninguém terá perdido muito tempo.

Fred já está na entrada do cinema quando eu chego. Lou aparece um minuto depois. Acho que ela estava só de olho lá do mezanino do Boliche Skittle City, esperando que eu aparecesse. Quando os apresento, os dois se medem de cima a baixo. Lou vai direto ao assunto.

– O nosso baile acontece daqui a duas semanas, e Dan disse que eu deveria convidar você. Eu confio na opinião dele, e ele falou que não seria terrível demais sair com você. Então, quer ir comigo?

Fred não consegue acreditar no que está ouvindo.

– Você é bem direta, né? – diz ele.

Lou dá de ombros. É a cara dela fazer isso.

– Nós dois sabemos por que viemos aqui. Não sei fazer sala. Se a gente conseguir resolver isso, pode esquecer o assunto e aproveitar o filme.

– Tá. Beleza. Claro que quero ir – responde Fred. – Quando é?

– Daqui a pouco mais de duas semanas. No dia 24.

– Melhor ainda. Minha madrasta está tentando fazer com que eu saia com a filha de uma amiga dela no mesmo dia. Consegui resistir até agora, mas isso resolve o problema de vez.

– Minha mãe também está me enchendo o saco por causa do filho de uma amiga dela. Então isso me deixa livre também. Até parece que posso levar dois caras ao baile.

Fred pergunta:

– O nome da sua mãe… não é Maggie, é?

– Você está me tirando? Quer dizer que a sua madrasta é Harriet? Do departamento de História?

– É.

– Caraca. Então você é o menino charmoso – diz Lou, sorrindo.

– E você é a gracinha de menina.

Essa notícia dá origem a um debate intenso sobre a teoria da probabilidade. Não é o tipo de conversa clássica para um primeiro encontro, mas pelo menos quebra o gelo. Eu lembro que os dois adoram os livros do Philip Pullman, e, quando trago isso à tona, não há o que faça os dois pararem de falar.

Quando Fred vai pegar uns folhetos sobre os filmes, Lou aproveita a oportunidade para conversar comigo a sós.

– Você estava certo. Ele é gente boa. Tipo uma versão mais baixinha e nervosa de você. E as espinhas dele não são tão horrorosas assim.

Bom, pelo jeito parece que o amor é mesmo (pelo menos) míope.

Fred volta e pergunta quem quer uma casquinha de sorvete com cobertura de chocolate. Lou diz que só quer se tiver de amora. Nossa! É o sabor favorito de Fred também. Aqui o compatibilidômetro acabará explodindo.

Quando Lou vai jogar o papel no lixo, Fred me dá seu parecer.

– Ela é bem estilosa. E não fica com aquela conversinha de menina que a gente nunca consegue decifrar. E ela nem tem tanta espinha assim.

Uau!

Eu deveria ter previsto o que acontece em seguida. Faço questão de que eles se sentem um ao lado do outro no cinema; assim eles podem conversar. No minuto em que a última mordida de sorvete é engolida, eles já estão de mãos dadas. O filme começa e, cinco minutos depois, ouço aquele barulho de beijo molhado.

Se você já se sentou com dois amigos dando o maior amasso no escuro, então sabe como é desconfortável.

– Gente – digo –, não estou conseguindo ver o filme direito daqui. Vou sentar mais perto da tela.

Nenhuma resposta.

Quando encontro os dois depois do filme, eles já têm planos para se encontrar no fim de semana.

Estou perdendo tempo trabalhando no café… está na cara que eu deveria abrir uma agência de namoro.