Capítulo 24

Lou só quer saber de falar sobre Fred – ela não está acreditando que gosta de um menino que gosta dela também. E Estelle e Janie só querem saber de falar sobre o baile – elas não estão acreditando que não poderão ir e nessa injustiça toda.

Agora sentamos todos juntos porque Lou ajudou fazendo a voz da mãe de Janie. Estou aproximando outras pessoas, pela primeira vez na vida.

– Estou de castigo porque me atrevi a ser criativa – reclama Janie. – Isso deve ser contra alguma convenção das Nações Unidas, pô.

– Acho que o problema está mais no lugar onde você resolveu ser criativa – diz Uyen.

– Estou de saco cheio de ter de conviver com gente que se apega a esses detalhezinhos sem importância – Estelle responde.

– E se a gente for ao baile mesmo assim? – Janie pergunta.

– Vão. Assim vocês ficam conhecendo Fred – Lou diz.

– Seria demais. Se a gente conseguisse dar um jeito nisso – replica Estelle. – Mas acho que não vai rolar.

Janie está com aquela cara de louca de novo.

– Por que a gente não pode simplesmente ir ao baile?

– Porque eles matariam a gente.

– E isso seria pior do que perder o único baile que a gente teve na vida?

– Vocês conseguem sair de casa sem ninguém saber? – pergunta Lou.

– Estelle consegue – Janie responde, olhando para mim como quem diz “dessa você não escapa”.

– Não, a árvore não.

– Dan, você precisa superar esse medo irracional de descer por aquela árvore – afirma Estelle, parecendo a mãe dela.

O olhar concentrado e calculista de Janie está começando a me preocupar.

– Você sabe como eles ficam superbravos e enchem o saco logo depois que você faz alguma coisa errada? – ela pergunta.

– Ahã, mas depois melhora um pouco.

– Exatamente. Então, que tal experimentar um “eu sei que estou de castigo, mas, como vou perder o baile, posso pelo menos dormir na casa de Estelle”?

Elas me olham, esperando uma resposta.

– Vocês duas querem descer pela árvore?

– Você tem alguma ideia melhor? – questiona Estelle.

– Ficar em casa?

– Dan!

– Mas com que roupa a gente vai? – Janie pergunta. – Já que as nossas mães malvadas devolveram nossos vestidos.

Estelle sorri.

– O sótão de Dan tem um monte de caixas cheias de umas coisas antigas lindas. Roupas também.

– Ah, então vai ser um lance vintage? Tá, gostei – responde Janie.

– Mesmo que eles descubram depois e as coloquem de castigo por uns dois meses, pelo menos vocês terão ido ao baile – concorda Lou.

– Se eu fizesse isso, meus pais me deixariam de castigo por um ano – diz Uyen.

– Se eles pegarem a gente, vai ser prisão perpétua no mínimo – diz Estelle.

– Então a gente dá um jeito de eles não descobrirem, ué – fala Janie, dando de ombros. – As soluções mais simples são sempre as melhores.

Pittney está encarando a gente e ensaiando um chilique se continuarmos conversando, mas posso ver que ele está se metendo num problemão com a equação de segundo grau que está colocando na lousa. Estou pronto para distrair o professor com isso se ele começar a encher o saco.

– Dan, você pode usar um daqueles ternos antigos bem legais.

– Mas eu não vou – respondo.

– Como assim? – Janie pergunta.

– Não vou, ué.

– Mas não dá para você não ir – diz Estelle. – Você está no comitê.

– Eu não pedi para participar.

– Mas você fez de tudo para eu e Fred irmos juntos, e não vou deixá-lo não ir – Lou fala.

Parece que foi ontem que eu era o cara novo da escola. Mas agora estou aqui na sala com gente que se importa de verdade se vou ou não vou a uma festa. Então, de alguma forma, e aos trancos e barrancos, as coisas estão dando certo. Essa sensação reconfortante evapora quando Pittney começa a chamar minha atenção.

– Sr. Cereill – berra ele. – Já que metade da sala está prestando atenção em você, que tal continuar explicando esse problema?

Manobra esperta. Está na cara que ele quer incluir um pouco de humilhação pública no pacote. Mas ele é que está pisando na bola, e sei exatamente onde ele errou. Então, vou até o quadro branco, pego a caneta e resolvo o problema – refazendo alguns passos para consertar o erro dele.

Ele não fica muito feliz.

Um pessoalzinho ergue a mão para me cumprimentar enquanto volto para minha carteira. Todo mundo gosta de ver um professor desmoralizado uma vez ou outra. Confesso que estou adorando a atenção, e é por isso que nem percebo quando Jayzo coloca o pé na minha frente. Vou de peixinho para o chão, batendo meu cotovelo com tudo. Quanto maior a altura, maior a queda. Acabo criando uma migalha inédita de amizade entre Pittney e Jayzo, e sou obrigado a lembrar que nunca posso baixar a guarda com Jayzo por perto.

Na saída, Estelle e Janie estão esperando por mim no portão da escola para a nossa excursão de ciências. Vamos para o jardim botânico. Para desenhar espécies do clima seco. Que emoção.

Elas não aceitarão um “não” como resposta para o plano de fuga para o baile.

No metrô de superfície, enquanto o vagão vai de um lado para o outro deslizando pelos trilhos, Estelle tenta me convencer a todo custo. Olho nos olhos sérios dela e tenho de fazer força para me concentrar e não demonstrar que sou todo dela e que, basicamente, faria qualquer coisa que ela pedisse – legal, ilegal, prazerosa, dolorosa, moral, imoral, segura, arriscada, divertida, chata…

Ela sacode o meu braço.

– Dan, você está me ouvindo? Você nem se importa, né?

Se eu me importo? Como é que é? Estou no mesmo nível do “gosto muito de você”, o que me faz pensar de novo naquela dúvida cruel: quem é o menino do CD? Será que eles namoram sério? Será que é por isso que ela está tão desesperada para ir ao baile? Se eu for ao baile, será que vou aguentar ver os dois juntos?

– Dan!

– É claro que eu me importo. Só não sei se essa é a decisão mais sábia.

– E quem está falando de sabedoria aqui? – berra Janie, compartilhando sua visão sobre o assunto com o metrô inteiro. – Você está me achando com cara de coruja?

– Elas só querem se divertir um pouco – diz a senhora do banco em frente ao nosso, que usa um casaco de lã abotoado até o pescoço e uma boina combinando.

Janie adora o apoio da plateia. Ela concorda e começa a cantar na maior altura uma música sobre meninas que só querem se divertir.

Estelle se junta ao coro mais afinada, rindo, e a velhinha bate o guarda-chuva no chão acompanhando o ritmo. Acho que faz tempo que ela não se diverte assim.

– Ele vai concordar – diz Estelle, de olho em mim. – Isso aí foi um sorriso. – Ela me dá o braço. – Fala que sim, vai.

– Eu concordo, mas só se vocês tiverem consciência daquilo que estão arriscando.

– A gente tem consciência – respondem em uníssono.

Contudo Uyen não está tão convencida assim.

– Mas foi por mentirem assim que vocês acabaram ficando de castigo – ela diz.

– Na verdade, não – responde Janie.

Concordo com Uyen.

– Vocês estão mentindo sobre dormir na casa de Estelle de novo – digo.

– Não é bem assim. Dessa vez a gente vai dormir lá de verdade. Só vamos dar uma saidinha rápida antes – Estelle argumenta.

– Mas os seus pais não vão ficar de olho em vocês? – pergunta Uyen.

– Minha mãe tem a inauguração da exposição, e meu pai passa a noite toda ao telefone fazendo negócios com gente que mora em lugares com outros fusos horários. Ele não vai chegar nem perto da gente.

Bom, acho que não tem jeito mesmo de dissuadir as duas. Penso na carta que acabei de escrever aos pais de Janie e tento acalmar a minha consciência pensando que pelo menos me esforcei para convencer as meninas a não seguirem em frente com o plano.

Quero ser bom, mas a bondade é um cliente difícil de agradar. Decido me contentar em ser leal aos meus amigos. Será que isso faz de mim um banana? Bom ou ruim? Certo ou errado? Vai saber!

A gente tem de encontrar o “jardim árido”, o “gramado de eucaliptos” ou o “jardim californiano”, mas a maior parte do pessoal se manda para a estufa tropical para se esquentar um pouco e relaxar. Lou e Uyen vão para o jardim árido. Estelle e eu também partimos nessa direção, mas ela está tremendo de frio, então entramos na estufa dos cactos para nos aquecer no caminho.

Está tão quente aqui que a condensação escorre pelas superfícies, mas aqueles espinhos todos fazem o calor parecer perigoso.

– Assim é melhor – diz Estelle, ainda batendo os dentes de frio.

Quero colocar meus braços ao redor dela para ajudá-la a se esquentar, mas é claro que não coloco.

– Isso nem parece planta – ela comenta, levemente horrorizada. – É uma afronta ao reino das plantas.

– Eles têm um jeitão de doença – concordo.

– Tumores.

– Ou mutantes que se formaram depois do fim do mundo…

– É, quando as plantas cruzaram com umas coisas melequentas…

– … com arame farpado.

– E são todos nojentos – diz ela enquanto anda pela estufa. – A não ser você. – Ela está falando com uma babosa. – Oi, babosa. – Ela quebra a pontinha da folha. – Você está com algum arranhão?

Bem que eu queria. Seria o ponto alto da minha vida: ser besuntado de babosa por Estelle. Eu poderia escrever uma música sobre isso. Ou um poema épico. Ou uma tragédia. Dependendo do resultado.

Sem querer, apoiei-me numa besta espinhenta, que está presa no meu moletom.

– Ai.

– Esse negócio está tentando comer você. Apesar de você não ser um inseto, obviamente – diz Estelle, tentando me soltar.

– Ops! Consegui soltar o menor, mas tem um maior aqui. Ai, credo, isso aqui não é folha, parece um remo gordo, sei lá.

– Está espetando as minhas costas – digo. Ai, que dor. Vou precisar de babosa a qualquer momento agora.

– Fique quietinho – Estelle pede.

Estelle está bem perto de mim agora, então ficar quietinho é bem difícil. A proximidade dela vira a chavinha que manda na distribuição de sangue pelo meu corpo. Garganta fechada, cabeça girando. Paralisado. É como querer sair correndo num sonho e não conseguir.

– Acho que fica mais fácil se você tirar o moletom – ela diz, e começa a levantar minha blusa de levinho. Não é nada confortável ficar com tesão e ser cutucado por um cacto ao mesmo tempo. Deve até ser um lance bem comum em algumas comunidades, mas não para mim.

Eu tenho de me lembrar de continuar respirando, então tiro meus braços com cuidado de dentro do moletom, e depois a cabeça, e, ao me afastar lentamente do cacto, vou direto para os braços de Estelle, que estão erguidos, segurando meu moletom agora vazio. Estou prestes a lhe dar um beijo – sem nenhum aviso, e o mais incrível é que ela parece estar esperando exatamente por isso, aceitando – quando as portas de vidro embaçadas se abrem e Uyen e Lou entram com uma rajada de ar frio.

– Ah, então vocês estão aqui.

– A gente achou que vocês tivessem se perdido. – Lou me lança um olhar do tipo “sei o que vocês estavam aprontando”.

– O cacto me espetou – tento explicar.

Estelle tira meu moletom do cacto.

– Acho que todo mundo vai ter de ajudar dessa vez. Olha só.

Encaramos o moletom. Ele está coberto de espinhos.

– Não é tão ruim assim – diz Lou. – Esses grandões são muito mais fáceis de tirar que aqueles pequenininhos peludos.

Olho para Estelle, mas, fosse o que fosse o que estava prestes a acontecer, fugiu pelas portas abertas.

Quando chego ao Phrenology depois da aula, quase não reconheço Ali. Ele está na cozinha apoiado num banco, conversando com a minha mãe. Sorrindo. Isso deixa o rosto dele tão diferente! Ela está sorrindo também. Eles estão conversando sobre comida e parecendo… à vontade? Tem alguma coisa errada aqui. Ali me passa um avental com tudo e me manda começar a limpar as mesas.

De mesa em mesa, noto que as criancinhas estão adorando os biscoitos de carinha que minha mãe faz – uns de cara feia, outros mostrando a língua de lado, outros bigodudos ou dando uma piscadona. Eles são um sucesso.

Vamos a pé para casa juntos depois do trabalho, e há mais notícia boa vindo aí. A sobrinha da Sra. Da Silva vai se casar e encomendou um bolo: o Marylin. (Não vale a pena explicar. O bolo fica sobre uma cama de penas de avestruz cor-de-rosa.) A Sra. Da Silva foi junto fazer a encomenda e não deixou minha mãe começar aquela conversa de conselheira matrimonial. Elas conversaram apenas sobre o bolo, o preço e os detalhes da entrega.