Capítulo 26

O tempo passa rápido demais, e faltam só cinco dias para o baile, e então quatro, três – tudo parece estar organizado – e então só faltam dois dias.

E eis que acontecem duas coisas.

A primeira é que o pessoal fica doido para comprar os convites. Todo mundo que ainda não se decidira, ou que estava esnobando o baile ou achando caro demais, de repente se resolve. Como uma mensagem invisível recebida pelo rebanho, ir ao baile é a coisa mais aceitável a fazer.

Pode ter a ver com a Corpos Podres, cuja reputação se firmou com base em shows decentes que rolaram numas festas esses dias.

O que torna a segunda coisa que acontece dois dias antes do baile ainda pior. E é tudo culpa minha.

Eu consigo dar um encontrão sem querer, no meu estilo clássico de fazer uma curva correndo, com o guitarrista principal. E pelo jeito ele fica irritado. Muito. O cara se ama.

Quando peço desculpas, ele me xinga berrando, e então falo para ele se acalmar, e ele diz “Isso aqui vai te deixar calminho” e tenta me acertar um soco.

Como fã dedicado que sou de evitar dores em geral, consigo me esquivar num ataque de puro medo, e o soco acaba pegando na porta do armário de metal. Caio do pedestal de aluno-empreendedor-inesperadamente-popular num único grito de dor.

Jayzo recebe a ligação na aula de inglês.

– Agora você conseguiu ferrar com tudo mesmo, seu idiota – diz ele para mim. – Você quebrou a porra do meta-sei-lá-o-quê dele.

– Metacarpo? – Lou pergunta.

– É, isso aí – ele responde.

– Um desses ossos – diz Lou, apontando para as costas da mão.

– Sem guitarra por um mês – diz Jayzo. Ele está adorando isso. – Não vai rolar mais show.

Uma atmosfera de terror envolve a sala.

– Quer dizer que a gente não vai ter banda para o baile? – Janie pergunta.

– É isso aí. E tudo por causa dele – Jayzo responde.

– Ele tentou dar um soco em mim – relembro a todo mundo, numa tentativa ridícula de defesa. Mas ninguém se importa com os detalhes.

Acabo com a festa de todo mundo e recebo olhares perfurantes da sala inteira.

Eu esperava o ódio de Jayzo, mas até meus amigos estão se virando contra mim.

– Eles iam tocar a nossa música – Lou diz.

– A gente não tem uma música – respondo, sem jeito.

– A minha música e do Fred – ela diz. – Obviamente.

– Minha música e do Fred, minha música e do Fred – repito, bem infantil.

– O que foi? Você está com inveja? Você não consegue ficar feliz pela gente? Apresenta nós dois e depois se arrepende?

Penso em tentar me defender dizendo que sou tão egoísta que nem pensei neles.

– Nenhuma das alternativas anteriores – acabo respondendo. – Só não achei que vocês todos iam reagir desse jeito tão adolescente.

Ela olha para mim. E não está nem um pouco impressionada.

– Você está dizendo isso porque está sob pressão. Eu entendo. Mas não se esqueça de ser legal e de quem são os seus amigos – diz e sai andando.

Mas não é cedo demais para os dois terem uma música? Já? Se continuar assim, eles estarão casados e com filhos no ano que vem.

Estelle e Janie me encurralam perto dos armários.

– O lance do baile já não estava difícil o bastante sem você aprontar essa? – Estelle pergunta.

– Foi um acidente.

– Bela hora para um acidente, Dan – diz Janie, enfiando a caneta na fechadura de alguém.

– Mas é capaz de vocês nem conseguirem ir!

Elas me encaram com os olhos arregalados.

– Valeu, estou me sentindo melhor agora – Estelle retruca.

– Mas posso dar um jeito na música – digo, já imaginando como é que vou fazer isso.

– Boa sorte com isso – Janie responde. – Aquele ginásio engole mais o som que o Grand Canyon. No mínimo você precisará de um aparelho de som animal.

Fico pensando no rádio grande de plástico que tenho em casa. Era de Adelaide. Um dos primeiros modelos com FM e que sofre para pegar AM também.

– O negócio é o clima da festa – explica Estelle. – Todas as meninas esperam chegar lá para ter uma noite inesquecível.

Ela fica meio pensativa; deve estar sonhando com o menino do CD. Dou um suspiro desesperado.

– Olha, estamos irritadas, mas foi você que pisou na bola – Estelle diz.

Se existisse justiça no universo, eu chegaria com tudo com a minha guitarra-modestamente-nunca-mencionada-antes e elas ficariam malucas e insistiriam para eu tocar no baile. E Estelle se apaixonaria por mim e até subiria no palco comigo.

– Dá para não ficar com essa cara olhando para o nada, como se a gente estivesse aborrecendo você? Um pedido de desculpas seria legal.

– É claro que eu sinto muito, mas…

Mas nada. Não vale a pena. Chega de “não foi culpa minha”. Agora vou ser obrigado a aguentar.

– O que você quer é o equivalente a mil sessões de comédias românticas sobre bailes de formatura. E nós queremos a versão do diretor – diz Janie, com uma voz calma, tipo “deixe-me explicar”. – E com todas as partes boas.

– Incluindo a banda – completa Estelle.

Na hora do almoço, Dannii vem na minha direção com um batalhão cheio de raiva e começa a lançar os parênteses em mim como se fossem armas.

– Cara, eu não acredito. Aimeudeus, a gente já fez encomendas. Essas coisas não podem ser canceladas – ela diz.

– Tudo bem, o baile não foi cancelado – tento.

Ela revira os olhos para o batalhão, e elas respondem do mesmo jeito.

– Vai ser tão sem graça sem música!

– Eu vou dar um jeito na música.

– É melhor dar um jeito mesmo, ou você é um loser gay total.

E então elas giram todas juntas sobre os sapatos de salto (pretos, pesados e de amarrar) e saem andando.

Ao final do dia, já me fizeram sentir mal de mais de cem maneiras diferentes, contudo ninguém me enche o saco tanto quanto Jayzo. Claro. Ele está adorando essa situação e fazendo questão de dizer que o guitarrista é amigo dele.

Então, depois de falar um monte para mim o dia todo, ele espera até a última aula, de inglês, pega uma caneta bem grossa, segura o meu cabelo e risca o meu rosto. Ele já conseguiu desenhar no meu rosto inteiro antes de eu conseguir pegar a caneta e empurrá-lo para longe. A professora me manda para o banheiro lavar o rosto, mas é pincel atômico, não sai.

Vou para a frente da sala voluntariamente pela segunda vez na vida. Quando os xingamentos e assobios diminuem um pouco, deixo bem claro para todo mundo que vou dar um jeito no baile. E que vou conseguir uma banda tão boa ou melhor do que a que perdemos. E vou conseguir fazer tudo isso até amanhã à noite. Não vou deixar ninguém na mão. Eles deveriam confiar em mim. Acreditar em mim. O baile ainda acontecerá.

Vou andando sozinho para casa, pensando. Meus problemas são como ondas – assim que um termina, lá vem outro tentando me derrubar. Primeiro eu ligo para umas agências especializadas. Três ligações depois, fica óbvio que até as bandas de cover mais patéticas estão muito além do nosso orçamento. A única solução são as jukeboxes. Essas a gente consegue para alugar, mas a seleção de músicas é uma porcaria – e a qualidade do som também. Nessa altura, também não dá para ficar escolhendo muito. Faço mais algumas ligações. Apesar de não me sentir 100% confortável sendo obrigado a ficar com a segunda melhor opção, as coisas pioram quando descubro que a jukebox não está disponível para a noite do baile. Deve ser época de festa, sei lá. A única coisa que consigo arranjar e que está dentro do orçamento é uma que vem com uma coleção de músicas da Galinha Pintadinha. Não vai rolar para essa galera de 15 anos. Agora já são cinco e meia da tarde, o comércio está fechando, estou falando com secretárias eletrônicas e estou morto. Não consigo nada. É bem provável que eu seja linchado às oito e meia da manhã de amanhã.

Talvez minha mãe tenha uma solução, algo como me mandar para outra escola, ou me colocar num serviço de proteção a testemunhas.

Mas ela também está com problemas novos. E tantos que ela nem pisca ao me ver com a cara toda rabiscada. Ela precisa de uma coroa. No dente, não na cabeça. E vai custar bem caro. A notícia a deixa totalmente desorientada e arrasada. Todo o trabalho para equilibrar as contas e as dívidas está indo por água abaixo.

– Sabe o que dá vontade de fazer? Pegar uma pedra pontuda e um martelo e arrancar esse maldito dente como Tom Hanks fez naquele filme quando estava na ilha.

– Ele usou uma lâmina de patins para gelo e uma pedra – digo.

– Então é isso mesmo!

A ideia é tão maluca que caímos na risada. Mas vejo que ela está preocupada de verdade e provavelmente nada a fim de ter de lidar com uma sessão de “ajudar o filho adolescente a dar um jeito nas consequências de seus próprios atos idiotas”. Fico aliviado quando o telefone toca e é Oliver dizendo que posso ir lá para a casa dele cortar o cabelo.

Quando começo a explicar por que meu rosto está todo riscado, falo sem querer sobre a pisada de bola fenomenal e como tentei consertar a situação.

Eles ouvem com a maior paciência enquanto Em ataca meu cabelo de um jeito meio maluco, porém muito confiante. Ela escolhe um tufo de cabelo, dá uma torcida nele e o corta sem nenhuma ordem aparente, e então escolhe outro.

Voilà! – diz ela, soltando a tesoura quando acho que ela ainda está na metade do corte. Olho para o espelho. Meu cabelo está uma bagunça total, com uns pedaços mais compridos e outros mais curtos. Mas sou obrigado a improvisar com os dois rostos sorridentes à minha frente e agradeço.

– Não falei que ela era boa? – pergunta Oliver.

– É, falou mesmo.

– Nunca, nunca, nunca penteie o cabelo – Em diz. – Nunca. – Ela me dá um tubo de gel. – Esfrega um pouco disso no cabelo depois de lavar. Mas não lave muito o cabelo também.

Faço que sim com a cabeça como se estivesse entendendo o que ela diz e tento me lembrar de perguntar a Estelle sobre isso.

– E quanto ao baile – ela diz –, de repente eu posso tocar.

Quase caio do banquinho. Será que minha vida está prestes a ser salva?

– Onde vai ser? – ela pergunta.

– No ginásio da escola. Mas é amanhã à noite. Você tem certeza?

– Não tenho nada marcado até o próximo fim de semana.

Por causa de Oliver, sei que Em é a famosa DJ Pony. Tem pôsteres dos shows dela pela cidade inteira.

Quando menciono a grana que a gente tem para pagar a banda, ela dá risada.

– Tudo bem. A gente usa para alugar os alto-falantes.

– Mas e o seu cachê?

– Ah, sabe como é, você é amigo do Oliver… vamos deixar por isso mesmo.

Meu rosto deve ser o retrato perfeito de quem não está acreditando.

– Não se preocupe – ela diz –, não vou dar o som, vou só tocar uma das minhas playlists. Para todo mundo dançar. E talvez levar umas luzes também. Tubos fluorescentes em caixas de arame não têm nada a ver comigo.

Olho para os dois, sem conseguir entender de onde veio essa sorte toda. Oliver é como um milagre – um tipo híbrido de irmão mais velho legal e fada madrinha-guru de estilo.

– E não se preocupe com o rosto rabiscado – Em diz quando vou embora. – Ficou uma coisa meio guerreiro urbano. Fofo.

Depois tento esfregar de novo o meu rosto, e nada de a tinta sair. Parece tatuagem.

De volta ao meu quarto, ouço alguém batendo lá de cima e Estelle desce pela escadinha do armário. Ela trouxe removedor de maquiagem.

– Sinto muito por hoje – diz ela. – Eu deveria tê-lo apoiado. Ou seria ter apoiado você?

– Tanto faz.

Ela está passando o produto no meu rosto. Esse negócio está dissolvendo a minha concentração, mas aparentemente não tem efeito algum sobre a tinta. Ela dá um passo para trás, confusa.

– Mas isso tira até maquiagem de teatro. – Ela para de repente, olhando para mim. – O seu cabelo! Que demais! Como é que não percebi antes? Você está ficando mais ajeitado desde o começo das aulas.

– Valeu. E consegui música para o baile.

– Que máximo! Quem?

– A DJ Pony.

– O quê? Como assim?

– Ela é a namorada do Oliver.

Ela ainda está de queixo caído.

– Eu sou vizinha da DJ Pony? Eu? Ela está lá? Tipo agora?

Faço que sim com a cabeça.

– Mas onde a gente vai arrumar o dinheiro para isso?

– Ela vai fazer como um favor, com a grana que a gente tem.

– Mas que demais! Eu nem queria pensar em amanhã de manhã.

– Nem eu. Eles iam me matar.

Ela passa o algodão de novo no meu rosto.

– Não sei por que não está dando certo.

Está dando certo para mim.

Ficamos ali por um segundo que se estica por mais tempo, olhando um para o outro. É estranho dizer isso, mas é como aquele momento do “quem vai pular primeiro?” à borda de uma piscina. Nós dois ficamos com vergonha desta vez, falando de qualquer coisa enquanto Estelle vai até a janela.

Alívio e decepção, de novo. Queria tanto saber o que estou fazendo.

– Então, a árvore – diz ela.

– A gente ainda tem de descobrir como descer pela árvore – comento.

Abro a janela e a gente dá uma olhada nela. Como em todas as árvores, os galhos ficam mais finos quanto mais se afastam do tronco. Então, apesar de eles arranharem a minha janela, são os galhos mais fininhos, e não aqueles que aguentariam nosso peso.

– Eu estava pensando: e se amarrarmos uma corda na minha cama e no tronco da árvore, para ter alguma coisa nos segurando até chegarmos aos galhos mais fortes?

– E a árvore é bem alta, né? – Estelle pergunta, com quase metade do corpo para fora da janela.

– Era disso que eu estava falando.

– Hum, entendi. Mas esse lance da corda pode dar certo. Você tem corda?

– Acho que eles vendem na loja da instituição de caridade. Passo lá depois da aula.

– E eu ainda preciso arranjar alguma coisa para vestir – diz ela, apontando para o sótão.

– Os seus pais já deixaram Janie vir dormir na sua casa?

– Ainda não. – Ela rói a unha do dedinho da mão esquerda, distraída. – Na verdade, não mesmo.

– Você iria sem Janie?

– Nem sonhando.

– A sua mãe está dando algum sinal de que vai ceder?

– Não dá para saber. Está sendo mais difícil do que eu esperava. Acho que vou ter de tentar convencer meu pai também. Vou arrumar umas roupas para você também, tá? – Ela bagunça o meu cabelo. – Se tiver alguma coisa legal para você lá em cima.

Não consigo dormir. E não consigo decidir se quero que Estelle consiga ir ao baile ou não. Quando penso nela dançando com aquele menino do CD, que não vale nada, meus dentes rangem de raiva. Se isso é amor, então machuca. Dor no coração e na mandíbula. A outra dor é mais fácil de lidar.