– Nós esperamos que vocês se comportem legalmente e com responsabilidade. Nada de álcool. E lembrem-se: se vocês não se comportarem, vão ter de arcar com as consequências. Para começar, não haverá baile do nono ano no ano que vem…
Será que Pittney não se dá conta de que ninguém está ligando para o que acontecerá no ano que vem? Ninguém nem piscaria se os alunos do oitavo ano fossem varridos da face da Terra por um ataque extraterrestre na manhã seguinte. Se a gente conseguisse ver balões de pensamento sobre a cabeça dessa galera, saberia que agora o pessoal só consegue pensar em dançar, beber e ficar com alguém. Alguns estão mais focados em substâncias mais ilícitas que o álcool, e outros não têm nada além de penteados e maquiagem na cabeça neste momento. Ninguém está dando a mínima para o sermão de Pittney.
Meus olhos ainda estão se ajustando à cor berrante do spray bronzeador das parênteses intercambiáveis, que estão todas disfarçando para usar o celular na aula, confirmando os horários das limusines e fazendo os ajustes finais para as entregas. A única pessoa que vejo que está prestando um mínimo de atenção é Deeks, que está sentado meio de lado e imaginando Pittney bem no meio de um alvo e está acabando com a raça dele.
– E lembrem-se: comportem-se de acordo com a idade de vocês, turma! Não quero ver nenhum aluno do nono ano se agarrando como uma lapa!
– O que é lapa? – pergunta Billy, um dos caras que atacam os outros com canetinha, realmente confuso.
– É um molusco marinho gastrópode que vive agarrado a superfícies – responde Pittney.
Ele olha para o mar de rostos inexpressivos e mortos de tédio.
– Estou falando de pegar alguém, de ficar se agarrando, de dar um amasso – ele tenta.
Como resposta, a gente ouve barulhos meio roucos de aprovação e várias pessoas gritando coisas como “Ah, aí sim!”, ou “Aê, Pit Bull!”, “Camisinha de graça na porta!”.
Ele desiste.
– Lembrem seus pais de que o horário para buscar vocês é à meia-noite em ponto. Não queremos ver ninguém se transformando em abóbora.
– Mas do que ele está falando agora? – Billy pergunta ao moleque ao lado.
Jayzo levanta a voz, lançando um olhar venenoso para mim.
– E o que Cereill conseguiu fazer com o lance da música?
Fico de pé, seguro no salva-vidas que Oliver jogou para mim.
– Quem vai tocar é a DJ Pony.
A galera fica maluca. Pelo menos metade da sala sabe quem ela é. A outra metade só queria gritar mesmo. Todo mundo está impaciente e faz tempo que não ouço gente comemorar tanto – acho que nunca mesmo. Quando eles se acalmam, Jayzo diz:
– Falou. Vai sonhando.
Estelle se vira para olhar para ele.
– É verdade.
O sinal toca como uma sirene, e Pittney diz:
– Por favor, acalmem-se. Tá bom, a aula acabou.
E todo mundo sai da sala como num estouro de boiada enquanto Jayzo me encara com os olhos arregalados e com um carregamento extra de bombas de ódio.
Ninguém consegue se concentrar na aula hoje. Em e Oliver e uns caras mais técnicos vestidos de preto estão instalando os alto-falantes e luzes no ginásio, então de tempos em tempos a gente ouve uma palhinha da música enquanto eles testam tudo.
As parênteses intercambiáveis estão ali também, ticando itens em pranchetas enquanto as vans chegam com as encomendas.
Um monte de meninas vai embora mais cedo para ir ao dentista ou ao médico (cabeleireiro) à tarde.
Nesse clima de empolgação, Estelle e Janie estão chegando ao limite porque ainda não conseguiram convencer os pais a deixar uma dormir na casa da outra – o primeiro passo essencial para a grande fuga.
Agora elas têm um plano de última hora que eu bem desejaria que elas tivessem inventado: falar para a mãe de Janie que os pais de Estelle deixaram e simplesmente esperar que ela aceite e não verifique se é mesmo verdade.
– Olha só: vou sair de casa com uma cara triste, carregando os livros da escola, sem vestido para o baile e de castigo por causa da viagem para Sydney. Até parece que eu me arriscaria, né?
– Mas você está se arriscando – digo.
– Mas ela nem sonha que eu faria uma coisa dessas.
Por um milagre, pode ser que dê certo, mas elas estão tão desesperadas que tentarão qualquer coisa. E, ainda sem saber se ela conseguirá ir ao baile, meu sangue já está fervendo ao pensar em Estelle com o cara que ela vai levar. Dou uma olhada no pátio, procurando o tal menino do CD. Provavelmente ele está no décimo ano. Ou até no 11º. Provavelmente eles irão se beijar, e eu vou ver, e então vou ficar com vontade de bater nele, e, se eu fizer isso, Estelle ficará com vontade de bater em mim. Não estou muito animado para esse baile.
– Dan, tudo bem? Você está passando mal? – Estelle pergunta ao final do dia na escola.
Sofrendo de mal de amor, passando mal por causa do meu coração, passando mal de desejo, de tanto me sentir confuso, enciumado e desesperançado.
– Tudo bem – minto. – Mas vou ver se arranjo a corda. Nunca se sabe.
É claro que a Sra. Nelson tem corda. Aliás, o que é que ela não tem naquela loja? Compro um pouco de corda e também uma escada de corda, que ela diz que todo quarto de sobrado deveria ter em caso de incêndio. Então vejo os sapatos. Não sei nada sobre roupa de menina, mas eles conseguem chamar até a minha atenção.
– Esses aqui são novos?
– Chegaram hoje. Nunca foram usados. – Ela vira o sapato de um lado para o outro, admirando-o de todos os ângulos.
Os leitores de revista se juntam num corinho de admiração.
– Sapatos de fada.
– Sapatos de princesa.
– Sapatos de Cinderela.
Eles são verde-pistache claro e decorados com contas que formam flores e folhas. Para mim, eles são a cara de Estelle, e, apesar de eu não fazer a menor ideia do número que ela usa, compro os sapatos para ela. Dez dólares ao todo, incluindo a corda e a escada de corda. Fico pensando se a Sra. Nelson fez um preço especial para mim porque eu trabalhava lá, mas então me lembro que parece que todo mundo consegue um preço especial.
Prendo a escada de corda entre a minha janela e o tronco da árvore. Parece fácil, mas não é. É bem simples amarrar a ponta da escada ao tronco, mas demora uma década, e sou obrigado a usar uma pedra para fazer peso e conseguir jogar a outra ponta pela janela do meu quarto. Lá dentro, eu arrasto o estrado de ferro para perto da janela e amarro a ponta da escada com força à sua base.
Então, subo na árvore de novo para prender uma corda separada a mais ou menos um metro tronco acima, deixando as pontas soltas – assim a gente pode segurar nelas para se equilibrar. Preciso colocar um peso nas pontas da corda também, porque quem for primeiro vai ter que jogar as pontas de volta para o próximo. Ainda é bem capaz de a gente quebrar o pescoço fazendo isso, mas experimento algumas vezes, tomando cuidado para não olhar para baixo, e ajusto tudo para deixar o esquema o mais seguro possível para Estelle. E Janie.
Não vou precisar usar isso. Eu posso ir ao baile, então tenho permissão para usar a escada. Depois de descer pela segunda vez, volto para o meu quarto e vejo que Estelle deixou umas roupas para mim, para hoje à noite.
Ela escolheu um smoking com lapelas de cetim e uma camisa listrada sem gola. Visto o paletó e olho para o espelho na porta do guarda-roupa. Até que veste bem. Bem demais. As calças são do comprimento certo e meio largas, mas ficam boas quando coloco um cinto.
Ouço uma batida impaciente à minha porta. O que é isso? Minha mãe nunca vem ao meu quarto. Ela diz que é melhor não ver a bagunça – tudo em nome de manter o equilíbrio.
– O que você acha? Esse ou esse? – Ela está usando uma combinação e segurando dois cabides.
– Sei que não é a sua área, mas não consigo me decidir. – Ela ergue os vestidos à minha frente de novo. Se ela decidir entrar no meu quarto, não vai ser fácil explicar por que tem uma escada amarrada entre a minha janela e a árvore.
– Por que você não experimenta os dois? Aí eu vou lá olhar.
Vamos para o quarto dela. Ela coloca o primeiro vestido. Fica bonito. Então ela experimenta o outro. Fica bonito também. Que difícil. São as roupas da nossa ex-vida, chiques e de marca. Acabo percebendo que faz um tempão que ela não usa essas coisas. Estou acostumado a ver a minha mãe de jeans e moletom – para mim, é quando ela mais se parece consigo mesma. Conto isso, e ela dá risada.
– Pois é, achei o meu nível, mas não posso usar jeans hoje à noite.
Jogo um cara ou coroa imaginário.
– Que tal o roxo, então?
– Tá, maravilha.
Noto os brincos dela – diamantes do tamanho de ervilhas.
– São de Adelaide – diz ela. – Mary acha melhor a gente compartilhar as joias.
– Ah é? Então quer dizer que você pode vender algumas?
Falo isso sem pensar e juro que não estou pensando no dinheiro (para variar), mas isso acaba trazendo à tona uma “conversa séria”, reconhecível pelo tom de voz baixo e uma cara meio feia da minha mãe.
– Dan, sabe o que aprendi de verdade com tudo isso?
É uma pergunta retórica, então espero pacientemente, rezando para a resposta ser curta.
– O importante não é aquilo que se tem, mas o que se faz. É claro que nós já sabemos disso em teoria, mas tivemos a sorte, sim, sorte, de poder testar essa teoria. E é verdade mesmo.
Talvez para ela. Eu bem que queria contar para ela o quanto preciso de dinheiro para Howard (tão sem sorte), mas calo a boca.
– Consertei o meu dente hoje e com certeza isso não é nada bom para o nosso orçamento, mas nós estamos felizes, fazendo alguma coisa, nos preparando para sair à noite, cercados de pessoas generosas. E sabe de uma coisa? Estou redescobrindo quem eu sou e o que quero fazer.
– E o que você quer fazer? Os bolos de casamento não estão dando supercerto.
Ops, falei isso em voz alta. Isso só prolongará a conversa agora.
– Não vou desistir dos bolos, mas adoro fazer umas coisas para o café e ver como as pessoas gostam das minhas receitas. Conversar com elas e fazer parte dessa coisa de comer e conversar e dessa conexão em geral.
Ela finalmente nota o que estou usando.
– Você está lindo, querido. Muito bonito. Mesmo com esses rabiscos no seu rosto.
Ela dá aquele sorriso de mãe com os olhos marejados que antigamente me deixava tão bravo e fazia me sentir sufocado, mas que agora fico aliviado ao ver. É a prova de que ainda é ela no fundo, apesar de tudo.
– E tudo isso foi ótimo para você também, Dan, apesar de não parecer.
Não, ainda parece que fui abandonado pelo meu próprio pai.
– Você é tão independente!
Não mesmo, só faço o que preciso fazer.
– Você já se acostumou à escola nova.
Verdade.
– Você está forte e em boa forma.
Algumas pessoas diriam “trincado”.
– E sabe tomar conta de você mesmo e de Howard tão bem.
Se ela soubesse que não estou cuidando de Howard…
– E conseguiu um emprego.
Com um salário de merda.
– Você é um menino totalmente diferente daquele que só ficava enrolado na cama o dia todo quando a gente se mudou para cá.
– Estava frio.
– Estava. Mas a sua cama era como um casulo, e agora você… renasceu.
Então agora eu sou uma mariposa? Isso é uma coisa boa?
– Bom… valeu.
Ela dá uma batidinha na cama como quem diz “sente-se aqui ao meu lado”. Um beijinho na bochecha e para por aí, e olha que eu nem tinha aprontado nada. Ela pega e escreve “meia-noite” nas costas da minha mão.
– Estou contando com você para tirar o bolo do forno. E é sério. À meia-noite. Em ponto.
Dou um resmungo.
– Pode parar de se preocupar. Se eu falei que vou fazer isso, então vou mesmo. – Mas, para falar a verdade, eu me esquecera completamente daquela porcaria de bolo.
Ela olha para a minha mão.
– Combina com o seu rosto. – E me dá um beijo na bochecha.
– Você consegue fazer um sanduíche sozinho para o jantar?
– Ahã.
– Pena que Estelle não pode ir ao baile.
– Ahã.
– Ela está triste?
– Não sei.
– Mas eu a vi chegando em casa da escola com Janie.
– Ahã.
– Então pelo menos ela terá companhia.
– Ahã.
– Você fala pelos cotovelos, né?
– Ahã. Quer dizer, não. É melhor eu me arrumar.
– Eu também. Ali vai entrar para tomar um drinque quando vier me buscar.
– E a que horas será isso?
– Daqui a uma hora, mais ou menos.
Começo a fazer a barba e logo estou amargando a ideia venenosa do cara que Estelle levará ao baile se arrumando para a grande noite. E de Estelle se arrumando também, aqui ao lado, agora mesmo, e, sem dúvida, pensando nesse cara.
Isso me faz ir até Em e lhe pedir para não incluir nenhuma música lenta na playlist. Expliquei um pouco a história para ela entender melhor.
Você provavelmente já percebeu que é um pedido idiota. Em responde com toda a paciência que (a) algumas pessoas vão querer música para dançar juntinho; (b) vai que eu fico com alguém (até parece); (c) se Estelle quiser beijar alguém, ela pode e vou ter de me conformar com isso; (d) se Estelle não consegue ver como eu fiquei gatinho com o meu cabelo novo, ela não me merece (parece que estou me achando, mas foi ela quem disse); e (e) se você for sortudo o bastante para ter a DJ Pony tocando no seu baile de nono ano, é ela quem manda e você tem mais é de agradecer.