Capítulo 30

Não é nada fácil levar Estelle para casa. Ela passa mal três vezes, num estado que se alterna entre o mau humor extremo e a surpresa total.

– A pizza estava estragada – ela diz. – Por isso estou passando mal.

– Você está bêbada – diz Janie, com toda a paciência, pela milésima vez.

– Que coisa mais rudícula… vesícula… ridícula. Eu nem bebo. Eu tomei uns dois drinques. Três. Talvez quatro.

– Metade do copo era vodca – digo. – E eu avisei vocês.

– Beleza, ô sabe-tudo – responde Estelle. – Vou lhe contar uma novidade: você não é. Inteligente.

Ela se vira para Janie:

– Ele leu meus diários. E isso não é legaaaaal.

– Não – concorda Janie. – Dan não é um cara legal.

– A gente não pode fazer isso com um amigo. Nuuunca.

Janie fica pensando.

– Bom, para falar a verdade, eu ficaria tentada. Se eu gostasse da pessoa, e se eles estivessem ali, dando sopa.

– Mas… e aquele negócio de tratar os outros como se quer ser tratado?

– Pode ser, mas eu não tenho diário, então não se aplica a mim – Janie responde.

– Mas ele era tããão lindo, tããão legal. Mas não era naaada. Ele é só um mentiroooso – diz Estelle. – Ele era o meu menino do CD.

Tento acreditar que houve um tempo em que Estelle me achava lindo e legal, mas não parece real.

– E por que menino do CD? – pergunto, sem esperar uma resposta de verdade.

Janie fica com dó. Ela fala “meninanês” e decifra tudo depois de um momento de reflexão.

– Então, música lembra CD, que também são as iniciais do seu nome, ao contrário, e vocês gostam do mesmo tipo de música, ou pelo menos ela achava que sim. Talvez você só estivesse espionando as coisas dela para fazer com que ela se interessasse…

– Mas não foi isso. É verdade. A gente gosta do mesmo tipo de música. Na real.

– Pois é, mas acho que isso não vai fazer muita diferença agora – diz Janie.

– Cadê aquela camisa legaaal que eu arrumei pra você? – Estelle quer saber.

– Perdi numa briga – respondo.

– Tá vendo? Brigando! Mas não é inteligente mesmo – diz ela.

Janie e eu seguimos em frente. Nossos dez minutos de caminhada até em casa se transformam em 15. O bolo vai virar cinzas se a gente continuar nesse ritmo.

Estelle decide sentar para descansar.

Eu tenho uns dois minutos para tirar o bolo do forno. Ou estou morto. Bom, já estou três quartos morto mesmo. Perco a paciência.

– Levanta, ou o bolo vai queimar e vou ficar na merda e vai ser tudo culpa sua!

Estelle fica de pé num segundo, com outro pique.

Não queima bolo não. Você deveria ter falado pra gente. Tá vendo? Não é inteligente, não – diz ela, e sai correndo. Janie e eu vamos atrás.

Estou rezando para a minha mãe não ter chegado em casa mais cedo. Sem chance de Estelle conseguir subir na árvore nesse estado.

A gente entra correndo na cozinha bem na hora em que o cronômetro do forno começa a apitar. Howard dá um bocejo alto, alonga as costas, abana o rabo e vem falar oi.

Está um cheiro gostoso na cozinha, quentinho e com um toque de fruta. Mas tirar o bolo do forno a salvo com Estelle assim não é fácil. Bolos de escala industrial são extremamente pesados, dez vezes mais pesados que bolos normais.

Então pego as luvas gigantes e estou tentando manobrar o bolo gigante para fora do forno e colocá-lo sobre a mesa de madeira num movimento único e ágil. Mas Estelle está bem no caminho.

– Como você foi capaz disso? Como foi capaz quando era o meu vizinho lindo? Hum, que cheiro bom.

Janie tira Estelle do caminho e eu coloco o bolo sobre a mesa com segurança. Pelo menos consegui fazer uma coisa certa. Com muito mau humor, faço café, na esperança de deixar Estelle um pouco mais sóbria antes da escalada pelo alçapão do sótão, enquanto Janie começa a empurrar Estelle em direção ao meu quarto – isso depois de a termos convencido de que ela não pode voltar para casa pela porta da frente.

– Mas eu tenho a chave – ela diz.

– Mas hoje você terá de voltar para casa pelo sótão. Porque sua mãe e seu pai não sabem que você saiu.

Quando a ficha finalmente cai, ela começa a sussurrar.

– Não conta nada pra ninguém. Porque eles vão botar nós duas de castigo. Para sempre. Eles vão matar a gente se alguém descobrir.

– É isso mesmo – respondo.

– Vamos subir na árvore – ela diz, indo para a porta.

– Tudo bem, minha mãe ainda não chegou; vamos subir a escada.

– Mas eles vão saber – insiste ela, indo para a porta de novo.

Janie balança a cabeça sem conseguir acreditar e diz em voz baixa:

– Se você se arrependeu do lance da confissão, acho que ela não se lembrará de muita coisa mesmo amanhã.

– Mas não consigo.

– Bom, você é quem terá de aguentar – diz ela.

Não sei como, Estelle consegue pegar uma faca e vai direto para o bolo. Janie tira a faca da mão dela bem a tempo.

– Graças a Deus que você nunca bebe; não aguento mais isso.

Lá no quarto, depois de fazer Estelle beber o máximo de café, precisamos de porções iguais de persuasão e força (minha) para empurrar e (de Janie) para puxar Estelle pela escadinha do sótão. Lá em cima, ela decide que deveria dormir no sótão, então precisamos persuadi-la de novo e meio que carregá-la para o quarto. Pelo menos chegamos até lá descendo uma escada dobrável decente, que Estelle exige que a gente guarde de novo, apesar do fato de que vou precisar dela de novo em alguns minutos. Nós fazemos a vontade dela. Não faz sentido discutir com Estelle nesse estado.

O quarto dela é incrível. Como o restante da casa, parece uma foto de revista em 3D – tudo supermoderno e muito diferente do sótão. Ela tem uma cama de casal sobre uma plataforma. Uma porta leva a um closet, e outra, ao banheiro.

Bem quando a gente estava pensando que tinha finalmente conseguido, e sem ninguém ter visto nada, ouvimos as vozes dos pais de Estelle do lado de fora da porta. Nós congelamos, olhando uns para os outros e segurando a respiração. Estelle até fica sóbria com esse choque. Ou talvez o café esteja finalmente fazendo efeito. Pelo jeito, Vivien acabou de chegar em casa depois da inauguração e Peter está dizendo para ela falar baixo porque as meninas estão dormindo.

– Até parece. Elas nunca vão dormir antes da meia-noite quando a Janie está aqui.

– Não ouvi nem um pio a noite inteira.

– Só vou ver se elas estão acordadas.

Nós três temos a mesma ideia no mesmo instante. Janie apaga a luz, e, em dois segundos, estamos todos debaixo da colcha da cama.

Quando a porta se abre, a luz que vem do corredor brilha por entre as costuras da colcha. Estou tentando respirar bem baixo e rezando para não espirrar. As vozes deles estão bem perto.

– Meninas, vocês estão acordadas? – pergunta Vivien, num sussurro quase inaudível.

– Vivien… eu falei para você…

Janie consegue soltar um ronco bem convincente e, depois de os dois saírem na ponta dos pés, a porta se fecha. As vozes estão abafadas de novo, mas ouvimos Vivien dizendo:

– Preciso perguntar a Estelle onde é que ela arrumou isso.

– Isso pode esperar até amanhã.

Eles vão embora e, por milagre, não pegam a gente.

Estelle e Janie caem numa gargalhada silenciosa, fazendo a cama tremer, chorando e soltando uns roncos de tanto rir.

– Vou fazer xixi na calça – Janie diz, enquanto sai correndo para o banheiro.

Assim, Estelle e eu estamos sozinhos na cama. Meus sonhos mais malucos se tornam realidade. Mas com duas diferenças: sinto cheiro de vômito e Estelle me odeia. Eu me levanto, abro a escadinha dobrável e vou para o sótão.

– Até mais.

– Ahã, falou.