Até parece que vou conseguir dormir agora, então saio para o quintal com uma lanterna e uma faca para acabar com as provas do crime. Espanto uns gambás no jardim enquanto corto a escada de corda do tronco da árvore. Desamarro a corda e a enrolo ao redor do corpo, como se fosse um montanhista. Quando volto para o chão, as nuvens já se abriram, e a lua cheia projeta as sombras de Oliver e Em na grama pintada de preto e branco.
– Opa! E aí, cara? – cumprimenta Oliver. Ele está brincando. Está falando desse jeito pseudo-hipster só para fazer-me sorrir.
– Valeu por hoje à noite. E sinto muito pela bebedeira.
– Já vi coisa muito pior – responde Em. – Você foi o único que se meteu em briga, e todo mundo foi embora à meia-noite. Trabalho fácil. O irmão de Dannii trouxe a caminhonete dele, e as meninas levaram todas as garrafas vazias.
– E o que aconteceu com você e Estelle? – pergunta Oliver.
– Foi o relacionamento mais curto da história.
– Ah, mas vai ficar tudo bem amanhã.
– Ela vai ficar sóbria. Mas não vai me perdoar.
– Mas por quê?
– Você não quer saber.
– No dia seguinte, tudo sempre parece melhor – diz Em.
Talvez isso seja verdade para algumas coisas, mas o fato de eu ter lido os diários de Estelle parecerá ainda pior quando o sol nascer.
Sob o desastre hemorrágico do meu problema com Estelle, tem um monte de coisas para resolver. Penso na minha lista: tirei o bolo do forno; as meninas chegaram em casa sem ninguém ver. Não rolou nada de muito terrível no baile. Howard precisa de uma cirurgia, mas não há nada que eu possa fazer a respeito disso, a não ser comprar um bilhete de loteria. Minha mãe chegará em casa logo. Sozinha. Deve ser muito estranho depois desses anos todos indo para casa com o meu pai…
É isso. Meu pai. Desde aquela conversa profunda com Estelle, o presente dele está sempre vindo à tona. Eu já ignorei esse presente por tanto tempo! Será que consigo encará-lo hoje à noite?
Vou esperar.
Puxo a escadinha de corda pela janela para o interior do meu quarto e a jogo dentro do guarda-roupa.
Arrasto a cama de volta para o lugar dela.
Coço as orelhas de Howard. Ele mexe as duas, irritado. Ele não gosta de ser usado como mecanismo de procrastinação.
Vou para o banheiro.
Tomo um banho e dou uma olhada nos meus machucados: rosto, costela, ombro. Escovo os dentes. Pelo menos não quebrei nenhum, mas a parte de dentro da minha boca está inchada e cortada.
Tiro a poeira do presente e o coloco sobre o criado-mudo.
Olho para ele, e minhas mãos tremem. Deve ser por causa da briga.
Não é como se fosse uma bomba.
Desembrulho o presente. Lá dentro tem um pacote e um envelope.
No pacote há um iPod.
E no envelope, uma carta.
Talvez eu tenha passado uma hora com a carta aberta sobre o meu joelho, talvez cinco minutos.
Por fim, acho que leio a carta mais rápido que os diários de Estelle. Passo voando pelas páginas, engolindo trechos e devorando parágrafos com um apetite tão grande que acaba me consumindo.
…entendo… não quer falar comigo… muito idiota… não saber… gay… sinto muito… frio e triste… como é que não pude… guardei tudo num quarto separado do restante da minha vida… como… meus pais malucos… porque… sua mãe… melhor amiga… a amei, ainda amo… divertido… tão feliz… grávida… então é assim que acontece… os dois tão empolgados… você, nosso querido… a melhor coisa do mundo… você aceita… sexualidade diferente… mentira… mais uma verdade pela metade… nossa relação… sempre verdadeira… partindo o meu coração… você deve estar se sentindo… abandonado… envergonhado… como se eu fosse um idiota e um falso… não tão simples assim… sua vida boa… mudar de escola… coisa boa… como eu perdi a fortuna da família… dívidas demais… meus erros… idiota… pessoas em quem eu confiava… decepcionei muita gente… quando você estiver pronto… entendo… tempo… te amo… debaixo da raiva toda… você sabe… mamãe não ficou muito feliz… o melhor para todos nós… música para você…
Começo a respirar de novo, e diminuo o ritmo. A carta termina assim:
Não estou dizendo que isso seja uma desculpa para o que aconteceu, Dan, mas espero que comece como uma explicação. Preciso conversar com você, então ligue para mim quando estiver pronto para isso, nem que seja só para gritar comigo. Qualquer forma de contato será bem-vinda.
Vamos ficar bem, todos nós. A gente só precisa achar um formato novo para nós.
Com amor,
Papai.
Que saudade do meu pai!
Vou para a minha cama e leio a carta três vezes, agora com calma. E então me lembro das coisas que mais amo no meu pai – a honestidade, a confiança, o carinho e o bom humor.
Fuçando debaixo da cama, encontro o diário que comecei a escrever quando a gente se mudou para cá e, na última página, a lista de coisas que eu achava impossíveis de acontecer.