Meu iPod está carregado e já com uma playlist: músicas para Dan. Meu pai escreveu os nomes das músicas e por que gosta delas. A primeira é da época em que ele tinha a minha idade, “Walking on the Moon”, do The Police. Passos gigantes.
Enquanto ouço a música, chego à conclusão de que tenho de ir ao sótão uma última vez. Tem uma coisa que preciso dar a Estelle. Nada de desculpas, só o começo de uma explicação.
Subo a escadinha e fico sentado à escrivaninha dela no sótão por um tempão, decidindo o que meu bilhete deveria dizer. No final, escrevo apenas uma única frase. E finalmente posso arrastar meu corpo dolorido para a cama.
Acordo me balançando numa árvore, amarrado por um pé só, e tentando me soltar para conseguir chegar à igreja e fazer o sino parar de tocar, para que Estelle e Janie consigam sair do elevador a tempo… Mas o sino continua batendo com tudo por várias camadas de consciência. É a nossa campainha, o carrilhão Big Ben.
Pulo da cama sem pensar na briga e sinto meu rosto, meu ombro, minhas costas e cada uma das costelas berrando em protesto enquanto vou mancando até a janela e abro a cortina, tentando descobrir que horas são. Parece que ainda é cedo. Coloco uma calça e uma blusa de moletom, paro no banheiro para garantir que os rabiscos disfarcem os piores sinais da briga – um pouco –, e vou lá para baixo, morrendo de fome.
Ali está na cozinha. Mal tenho tempo de registrar esse fato bizarro quando minha mãe entra, trazendo Vivien.
E não é que pegaram a gente, no final?
Agora vou ter de encarar a bronca. Todas as afirmações falsas que fiz sobre ser um amigo responsável… bom, naquela hora, eu estava sendo sincero.
Olho para as minhas mãos estouradas. Como é que vou explicar isso?
– Como você explica isso? – pergunta Vivien.
Mas o tom dela está errado. Ela está curiosa, animada. Olho para cima. Minha mãe está servindo café, na boa. Vivien está olhando para a palma da própria mão.
– Sério, onde você arrumou isso? – ela pergunta.
Fico pensando em bater na minha cabeça como aqueles personagens de desenho para ver se estou mesmo ouvindo bem. Ela não deveria estar exigindo saber por que eu desobedeci as instruções específicas dela e ajudei Estelle a desafiar o castigo?
Ela está mostrando a mão aberta para mim. É aquele bichinho entalhado em madeira que dei a Estelle.
– Adelaide deixou para mim – diz minha mãe, distribuindo café para todo mundo.
– É um netsuke tão bem preservado que poderia ir para o museu. Eu teria pegado emprestado para a exposição, se soubesse antes – diz Vivien.
– Mas como é que foi parar na sua mão? – pergunta minha mãe.
– Dan, você deu isso a Estelle. É isso mesmo? – Vivien questiona.
– Hum, é.
O que Ali estava fazendo aqui? E de terno? Ele me oferece uma torrada. Eu aceito.
– Quando cheguei em casa ontem à noite, lá estava, sobre a mesa da cozinha, em cima do livro de Estelle. Perguntei a Peter: “De onde veio isso?”. E ele disse que era de Estelle, e fui lá para o quarto, porém as meninas já estavam dormindo, claro. Mas, de qualquer maneira, isso é muito emocionante!
– Eu tenho mais um monte – diz minha mãe.
Vivien arregala os olhos.
– Você sabe que eles valem uma fortuna?
Eu arregalo os olhos.
– Eles são enfeites japoneses antigos usados em cintos – diz ela. – Marfim entalhado.
– Jura? – pergunta minha mãe. – Eu devo ter pelo menos uma dúzia.
– Dezesseis, contando esse – digo. – Mas esse é de Estelle.
Vivien passa o enfeite para mim.
– Não é, não. É valioso demais para dar de presente.
Talvez Ali tenha bebido demais e minha mãe o tenha deixado dormir no sofá.
É, deve ser isso.
Vivien se levanta.
– Se você quiser vender esses objetos, posso colocá-la em contato com uma boa casa de leilões. Eles deveriam ir a leilão internacionalmente, se você quiser conseguir um bom preço.
Mas tenho certeza de que Ali não bebe, então o que está rolando?
– Obrigada, Vivien. E quando você diz uma fortuna…
Howard olha para cima, prestando atenção na conversa, esperando que a gente se lembre da grande cirurgia.
– Se os outros forem bons como esse, vai ser o bastante para tirar umas férias longas e não se preocupar muito se o seu negócio não der certo.
Minha mãe se senta de repente.
Ali se levanta, beija minha mãe na testa (!) e diz:
– Tenho de abrir o café.
Ele vai embora. Ele acabou mesmo de dar um beijo na minha mãe?
Vivien se levanta, pronta para ir também.
– Enquanto isso, você deveria fazer seguro para eles e guardá-los num cofre – ela diz.
– Boa ideia – responde minha mãe.
Minha mãe e eu ficamos num silêncio chocado por um ou dois minutos.
– Howard precisa de uma cirurgia – digo.
– Eu sei.
– Eu não queria preocupar você – dizemos ao mesmo tempo.
– Eu o levei ao veterinário. Eu tentei economizar um dinheiro para isso, mas então a porcaria do meu dente… – Ela começa a chorar. E consigo colocar meus braços ao redor dela e dar um abraço na minha mãe.
– Não estou triste, Dan, só aliviada. Esse negócio dos bolos de casamento não vai dar certo. Já espantei mais clientes do que você imagina. E, com isso, posso desistir. Muito obrigada por tirar aquilo do forno, aliás – ela diz, acenando com a cabeça na direção do bolo da meia-noite.
– E como foi ontem à noite?
Inclino a cabeça num sinal afirmativo.
– Tudo bem.
– E você? – Noto então que ela ainda está usando o mesmo vestido de ontem à noite. – A festa foi boa?
– Foi. Ainda não fui dormir. Ali e eu ficamos acordados a noite inteira conversando. A gente decidiu que provavelmente vai conseguir trabalhar juntos e namorar ao mesmo tempo.
Como é que é?
Ela sorri ao ver minha cara de choque. Ela parece mais jovem e bonita, e muito cansada.
– Vai ser um pouco estranho demais para você?
– Não. Quer dizer, sim, mas acho que não.
– Preciso dormir. E acho que você também – ela diz.
Como ela pode estar calma assim? Acho que ela ainda está em choque, como eu.
E acho que dormi só umas três horas, então não vou discutir.
Fecho a porta do meu quarto e apoio a testa nela. Minha mãe e Ali? Minha mãe e qualquer cara? Preciso me acostumar. Nas atuais circunstâncias, meus pais com certeza não iriam ficar juntos de novo mesmo.
Fico distraído pela ideia terrível de que não sei mais onde está a caixa de netsukes. Eu a encontro no fundo do guarda-roupa e a deixo lá. Só quando me viro é que percebo que tem uma menina dormindo na minha cama. Uma menina de pijama listrado dormindo e roncando baixinho.