Alguém esteve dormindo na minha cama, e ainda está lá. Eu toco sua mão, e ela abre os olhos de uma vez e se senta, resmungando de leve.
– Não dormi muito a noite passada – diz ela.
– Nem eu.
– Vomitei mais um pouco, então tomei um banho, fui para o sótão para me sentir melhor, e achei isto na minha escrivaninha. – Ela está segurando o meu diário e o bilhete que deixei para ela.
– Eu não espero que tudo fique bem só porque deixei você ler meu diário também – digo.
– Janie disse que eu não fui muito legal ontem à noite. Desculpe.
Ela está pedindo desculpas para mim?
– Ela disse que você teve muita paciência e fez de tudo para me levar para casa em segurança, sem se importar com quanto eu xinguei e enchi o seu saco. Heroico – ela diz.
Janie estava me defendendo para Estelle?
– Nem tanto.
– Desculpe ter deitado na sua cama, mas estava tão quentinha – Estelle comenta.
– Quando você quiser.
– Você me beijou.
– Beijei.
– Pareceu… O que deu em você para fazer aquilo… tão de repente?
Dou de ombros.
– Eu precisava beijá-la.
– Achei que teria de beijar você primeiro. Eu pensei que você fosse tímido demais.
– Eu me lembrei do seu bilhete.
– Que bilhete?
– Este bilhete. – Fuço na minha escrivaninha. Não está lá.
– Você quer dizer este bilhete aqui? – Ela está segurando o bilhete também. – Eu ia escrever no verso dele, mas caí no sono. Por que você guardou isto?
Ela lê o bilhete em voz alta, confusa:
– Devo muito a você!?
Devo muito? E não “Gosto muito de você”? Devo?
Um “Aahhh…” do tamanho de um meteorito vem voando na minha direção e aterrissa na minha cabeça. Eu não entendi a letra dela. Umas mil vezes.
Mas decido não compartilhar meu erro. Ainda.
Ela olha de novo para o bilhete.
– Eu sempre falo “beijos”. Seria um motivo bem fraquinho para tudo isso.
– Acho que era tudo de que eu precisava.
Então ela desdobra o bilhete que escrevi para ela. Meu bilhete de uma frase só. Minha última esperança.
– Então eu li isto aqui – diz ela – e depois li o seu diário. – Os olhos dela se enchem de lágrimas. Ela está triste, e por mim. – As férias inteiras… o pessoal catalogando os móveis… Então eu meio que entendi, só um pouquinho, por que você fez isso.
Passo-lhe um lenço de papel, e ela assoa o nariz.
Meu bilhete dizia: “Eu estou tão sozinho”!
Mas não mais.