Capítulo 34

Alguém esteve dormindo na minha cama, e ainda está lá. Eu toco sua mão, e ela abre os olhos de uma vez e se senta, resmungando de leve.

– Não dormi muito a noite passada – diz ela.

– Nem eu.

– Vomitei mais um pouco, então tomei um banho, fui para o sótão para me sentir melhor, e achei isto na minha escrivaninha. – Ela está segurando o meu diário e o bilhete que deixei para ela.

– Eu não espero que tudo fique bem só porque deixei você ler meu diário também – digo.

– Janie disse que eu não fui muito legal ontem à noite. Desculpe.

Ela está pedindo desculpas para mim?

– Ela disse que você teve muita paciência e fez de tudo para me levar para casa em segurança, sem se importar com quanto eu xinguei e enchi o seu saco. Heroico – ela diz.

Janie estava me defendendo para Estelle?

– Nem tanto.

– Desculpe ter deitado na sua cama, mas estava tão quentinha – Estelle comenta.

– Quando você quiser.

– Você me beijou.

– Beijei.

– Pareceu… O que deu em você para fazer aquilo… tão de repente?

Dou de ombros.

– Eu precisava beijá-la.

– Achei que teria de beijar você primeiro. Eu pensei que você fosse tímido demais.

– Eu me lembrei do seu bilhete.

– Que bilhete?

– Este bilhete. – Fuço na minha escrivaninha. Não está lá.

– Você quer dizer este bilhete aqui? – Ela está segurando o bilhete também. – Eu ia escrever no verso dele, mas caí no sono. Por que você guardou isto?

Ela lê o bilhete em voz alta, confusa:

– Devo muito a você!?

Devo muito? E não “Gosto muito de você”? Devo?

Um “Aahhh…” do tamanho de um meteorito vem voando na minha direção e aterrissa na minha cabeça. Eu não entendi a letra dela. Umas mil vezes.

Mas decido não compartilhar meu erro. Ainda.

Ela olha de novo para o bilhete.

– Eu sempre falo “beijos”. Seria um motivo bem fraquinho para tudo isso.

– Acho que era tudo de que eu precisava.

Então ela desdobra o bilhete que escrevi para ela. Meu bilhete de uma frase só. Minha última esperança.

– Então eu li isto aqui – diz ela – e depois li o seu diário. – Os olhos dela se enchem de lágrimas. Ela está triste, e por mim. – As férias inteiras… o pessoal catalogando os móveis… Então eu meio que entendi, só um pouquinho, por que você fez isso.

Passo-lhe um lenço de papel, e ela assoa o nariz.

Meu bilhete dizia: “Eu estou tão sozinho”!

Mas não mais.