UMA VÍTIMA DA ORDEM

UMA VÍTIMA DA ORDEM

No começo de 1936, telefonemas anônimos para a Instrução Pública procuravam, “com veladas ameaças”, o endereço de Graciliano. Ele desprezou a intimidação, mas as chamadas continuaram, o que o levou a deixar um recado para os interessados: poderiam encontrá-lo diariamente na repartição, das 9 às 12 horas e das 14 às 17 horas. Se preferissem, teriam chance de achá-lo no Palácio dos Martírios até a meia-noite; após o expediente, revisava Angústia.

Apesar da frieza com que reagira às ameaças, intimamente se preocupava. Quem estaria por trás daquilo? Com certeza eram “picuinhas de algum inimigo débil”.

Um fato estranho tinha sido a publicação, na coluna de José Silveira na Gazeta de Alagoas, em 8 de dezembro de 1935, de uma nota mencionando supostas irregularidades na Instrução Pública. Quatro dias depois, Graciliano remeteu uma carta a Silveira, em tom diplomático, esclarecendo o preenchimento das vagas na Escola Normal de Maceió. Segundo o colunista, muitos alunos foram excluídos por falta de critérios na seleção, e os matriculados ainda tiveram de pagar taxas. Graciliano confirmou que trezentos inscritos disputaram as 112 vagas fixadas pelo Decreto 1.898, mas assegurou que o processo de escolha observara rigorosamente o regulamento. Quanto às taxas, informou que nenhum aluno da rede pública era obrigado a pagar um centavo sequer para se matricular.

Ele aproveitou para prestar contas sobre sua gestão na Instrução Pública: aumento de matrículas no curso primário – de 9.691, em 1933, para 12.286, em 1934 –, menor evasão escolar, inauguração de uma biblioteca no grupo Diégues Júnior, além da distribuição de uniformes e sapatos. “Este ano [1935] só em um dia demos 3 mil metros de fazenda às crianças pobres daqui e do interior.”

Na verdade, urdia-se uma trama contra Graciliano, através de intrigas e pressões.

Na noite de 21 de fevereiro, depois de assinar aquele que seria seu último despacho como diretor da Instrução Pública – designando professores para compor bancas examinadoras para o concurso de admissão ao curso normal em São José da Laje –, entrou em seu gabinete Rubem Loureiro, filho do governador. Acanhado, olhando pela janela que dava para o jardim do palácio, Rubem lhe explicou que Osman se encontrava em dificuldades e precisava substituí-lo no cargo, mas não queria demiti-lo sem motivo e, por isso, pedia o seu afastamento voluntário. “Evidentemente era aquilo o início de uma perseguição que Osman não podia evitar: constrangido por forças consideráveis, vergava; se quisesse resistir, naufragaria”, diria Graciliano.

Não esperou um minuto para recolher papéis na gaveta e retirar-se. Mas não se demitiria; o governador é que teria de dispensá-lo. No fundo, não se surpreendera com a decisão de Osman. Em dois anos, haviam passado pelo cargo oito pessoas, e ele resistira por três anos, mesmo descontentando uns e outros, sem se dobrar às pressões. Até a execução do hino proibira. E não comparecera à solenidade pela Semana da Pátria, como registrara em carta a José Lins do Rego: “Isto por aqui está uma peste. Hoje a Gazeta de Alagoas me atacou porque não fui ouvir um discurso do Armando Wucherer sobre a pátria, no dia 7 de setembro. Imagine”.

Os integralistas, cada vez mais influentes, deviam ter pedido a sua cabeça. Mas não só eles. E as “incapacidades abundantes” que seus atos na Instrução Pública vez por outra contrariavam? “Essas incapacidades deviam aproveitar-se de qualquer modo, cantando hinos idiotas, emburrando as crianças. O emburramento era necessário. Sem ele, como se poderiam aguentar políticos safados e generais analfabetos?”

Um redemoinho de aflições o fustigava. Sem emprego, teria de recomeçar a vida, de preferência longe de Alagoas; o casamento com altos e baixos; “uma penca de filhos, alguns bem miúdos” para sustentar; o romance a exigir-lhe suor até o ponto final; os integralistas doidos para tirar-lhe o sangue feito vampiros. Nem o revólver emprestado pelo poeta José Auto servia-lhe de proteção – com apenas três balas, estava escondido em uma gaveta, difícil de ser encontrado. Na carteira, um conto e duzentos para sobreviver.

Na manhã de 3 de março de 1936, depois de entregar os originais de Angústia à datilógrafa Jeni, Graciliano recebeu a visita desagradável de uma parenta. “Essa pessoa indiscreta deu-me conselhos e aludiu a crimes vários praticados por mim. Agradeci e pedi-lhe que me denunciasse, caso ainda não o tivesse feito. A criatura respondeu-me com quatro pedras na mão e retirou-se.”

Duas pessoas o alertaram de que poderia ser preso a qualquer momento. A primeira foi Luccarini, seu ex-funcionário na Instrução Pública. E a segunda, Alberto Passos Guimarães, através de um bilhete que lhe fizera chegar. Na clandestinidade desde novembro, Alberto soubera que o recém-nomeado comandante da 7a Região Militar, general Newton de Andrade Cavalcanti, ordenara um cerco aos “comunistas” nas capitais do Nordeste, inclusive Maceió.

“Newton Cavalcanti era integralista e tremendamente reacionário”, recordaria Alberto. “Chegou ao conhecimento do partido que Graciliano era uma das pessoas visadas. Fiz um bilhete dizendo que se cuidasse porque havia o perigo de ser preso. Mas ele não deu bola.”

Inexplicavelmente, Graciliano aguardou em casa que fossem buscá-lo.

Se quisesse andar alguns metros, chegaria à praia, esconder-me-ia por detrás de uma duna, lá ficaria em segurança. Se me resolvesse a tomar o bonde, iria até o fim da linha, saltaria em Bebedouro, passaria o resto do dia a percorrer aqueles lugares que examinei para escrever o antepenúltimo capítulo do romance. Não valia a pena. Expliquei em voz alta que não valia a pena.

Nas Memórias, confessaria que o desalento com a vida era tamanho que a perspectiva de ser privado da liberdade não o perturbava tanto.

Naquele momento a ideia da prisão dava-me quase prazer: via ali um princípio de liberdade. Eximira-me do parecer, do ofício, da estampilha, dos horríveis cumprimentos ao deputado e ao senador; iria escapar a outras maçadas, gotas espessas, amargas, corrosivas. Na verdade, suponho que me revelei covarde e egoísta: várias crianças exigiam sustento, a minha obrigação era permanecer junto a elas, arranjar-lhes por qualquer meio o indispensável. Desculpava-me afirmando que isto se havia tornado impossível.

Heloísa, que regressara a Maceió, ainda tentou dissuadi-lo a não se entregar, mas ele preferiu arrumar a mala. “No fundo era a ilusão do pequeno-burguês. Nem ele nem eu estávamos preocupados, achávamos que ele voltaria logo. Ele fez a mala com pijamas, cuecas, como se fosse voltar em poucos dias”, observaria ela.

Um último apelo para que fugisse foi feito por seu filho Júnio, que, tal como o irmão Márcio, militava na União da Juventude Comunista. Em vão.

Às sete da noite, Graciliano recebeu, de terno e gravata, um oficial do Exército.

– Que demora, tenente! Desde meio-dia estou à sua espera.

– Não é possível! – espantou-se o oficial.

– Como não? Está aqui a valise pronta, não falta nada.

Reconheceu no tenente o mesmo homem que, um mês antes, fora à Instrução Pública pedir a aprovação de uma sobrinha reprovada no concurso para admissão ao curso normal. O oficial havia insistido para que se nomeasse uma banca especial para reexaminá-la, mas Graciliano terminantemente se recusara. Um dia da caça, outro do caçador.

O tenente testou a sua confiança:

– Vai apenas essa maleta? Aqui entre nós posso dizer: acho bom levar mais roupa. É um conselho.

Graciliano se despediu de Heloísa e entrou no automóvel desconfiado de que tinham cessado suas “prerrogativas bestas de pequeno-burguês”.

* * *

Por que Graciliano foi preso?

Só é possível responder se considerarmos a brutalidade da coerção política após a rebelião de novembro. O aparato repressivo atuou com tal desenvoltura que escapou ao controle do Palácio do Catete. Sob a capa da manutenção da “ordem pública”, o governo neutralizou as dissensões, esfacelou a esquerda e fez submergir a mobilização alcançada pela ANL.

As consequências do levante não poderiam ter sido mais funestas: a opinião pública massacrada pela propaganda anticomunista; a eficácia da ordem liberal contestada; e as forças democráticas acuadas e desmanteladas. Nesse quadro, as prisões em massa e os expurgos no serviço público e nas Forças Armadas encontraram eco junto à maioria silenciosa. Era preciso varrer do mapa o “perigo vermelho”, vociferavam as altas patentes militares. Isso significava que o conceito de segurança interna deveria prevalecer sobre os direitos e garantias individuais.

Graciliano foi detido no “arrastão” comandado pelo general Newton Cavalcanti, um dos próceres da linha-dura no Exército e com quem o líder integralista Plínio Salgado se orgulhava de ter “amizade sincera e confiança recíproca”, além da mais perfeita “comunhão de ideias e sentimentos relativos à salvação do Brasil das garras do comunismo, do capitalismo internacional e das sociedades secretas”.

Os “arrastões” eram verdadeiras operações de guerra para prender, indiscriminadamente, suspeitos de terem colaborado com o levante. Estima-se que 35 mil pessoas tenham sido detidas, muitas delas sem processos formais. Na prática, o que se pretendia era retirar de circulação todo e qualquer cidadão que algum dia tivesse torcido o nariz para o governo Vargas – como era o caso de Graciliano. Para conseguir o seu intento, o comando militar estimulava as delações e valia-se tanto dos fichários da Polícia Política como dos informes dos chefes integralistas estaduais. Com base na Lei de Segurança Nacional, foram instaurados 6.998 processos, com indiciamento de mais de 10 mil pessoas, das quais 4.099 condenadas pelo Tribunal de Segurança Nacional.

Newton Cavalcanti fora designado para a 7a Região Militar, sediada em Recife, no bojo do remanejamento no alto escalão do Exército. O objetivo era fortalecer a lealdade ao governo no momento em que se desencadeava a ação repressiva. Ligado ao integralismo e ferrenhamente anticomunista, ajudou a reorganizar a Liga de Defesa Nacional, convocando a nação para uma cruzada contra a “ideologia bolchevique”: “Não é só a polícia que deve combater o comunismo. Somos todos nós. É o governo, são as famílias, é a sociedade, é cada cidadão”.

Os métodos truculentos contra o “extremismo de esquerda” transformaram Cavalcanti em figura de proa do regime. “Não sei falar, só sei agir. Qualquer barulho comunista acabarei à bala”, disse ele em Fortaleza. Com costas quentes, o general atropelou a justiça, ordenando que fossem novamente presas as pessoas soltas por habeas corpus concedidos por juízes de Natal e Maceió. “São elementos perniciosos à ordem pública e à estabilidade do regime”, justificou.

É bem verdade que, mesmo prestigiado, Cavalcanti estava longe de ser uma unanimidade. O historiador e general da reserva Nelson Werneck Sodré, à época um jovem oficial que se opunha à marcha para a ditadura, era um dos que sentiam asco só de ouvir a sua voz. Para Sodré, a prisão de Graciliano – de quem se tornaria amigo em 1937 – foi “pura perseguição política”:

Não foram os problemas locais que determinaram a prisão de Graciliano; foram questões de ordem ideológica. Na Instrução Pública, ele seguia à risca os seus princípios, era igual para todos, premiava os que mereciam, defendia os professores – era um homem de primeira ordem. Havia desgostosos, pessoas que foram feridas em seus interesses. A tarefa de prendê-lo, o oficial a executou a mando do general Newton Cavalcanti, cujo nome eu evito declinar para que não sobreviva ao esquecimento. Mesmo quando escrevi o prefácio de Memórias do cárcere, não mencionei o nome dele; não quero salvá-lo da merecida obscuridade em que deve jazer. Foi um dos homens mais facinorosos e imbecis que esta terra já produziu, uma mancha no Exército brasileiro. Como comandante da 7a Região Militar, e já adepto do integralismo, tratou de fazer uma limpeza de todos aqueles que suspeitava serem simpatizantes do comunismo. Nessa leva foi apanhado o Graciliano.

De fato, não havia motivos concretos para a prisão. Tanto que Graciliano jamais seria processado ou acusado publicamente por algum deslize.

Mas pretextos não faltavam, por mais tolos ou torpes que fossem. Poderiam imputar-lhe “graves” delitos de opinião, como escrever um ou outro artigo na imprensa alagoana criticando a situação dominante. Ainda assim, teriam dificuldade em indiciá-lo, porque não atacava ninguém diretamente nem ofendia a ordem constituída. Era sutil. Em 17 de fevereiro de 1935, por exemplo, alvejou os literatos que viviam a cortejar os poderosos, receitando “o sorriso como excelente remédio para a crise”. Tal literatura, dizia ele, “é exercida por cidadãos gordos, banqueiros, acionistas, comerciantes, proprietários, indivíduos que não acham que os outros tenham motivo para estar descontentes”.

Poderiam puni-lo também pelo “crime” de ser amigo de “subversivos” perigosos. Dois – Valdemar Cavalcanti e Alberto Passos Guimarães – seriam processados com base na Lei de Segurança Nacional. Rachel de Queiroz ficaria incomunicável, de outubro de 1936 a janeiro de 1937, em um quartel do Corpo de Bombeiros do Ceará.

Se tivessem violado a correspondência para Heloísa, talvez encontrassem elementos para trancafiá-lo por heresias contra os chefes de 1930. Vejam esta carta de março de 1935: “Tudo se esculhambou por causa da ideologia dos revolucionários marca Juarez Távora. Depois tudo se endireita, porque a revolução daqui foi miudinha, uma revolução besta, sem mártires, sem santos, sem doutores”.

Na falta de provas documentais, poderiam invocar as mais disparatadas alegações: seus filhos Márcio e Júnio eram comunistas fichados; como diretor da Instrução Pública contrariara privilégios de figurões, despertando rancores; Caetés e São Bernardo não se enquadravam nos cânones morais e políticos vigentes; lia autores russos... Não fora ele que proibira o hino do estado nas escolas públicas e se recusara ao chamado patriótico do 7 de setembro?

Esse absurdo sumário de culpa deve ter passado pela mente de Graciliano. Horas antes de o tenente do Exército vir buscá-lo, especulava:

É degradante. Demais eu estaria certo de não haver cometido falta grave? Efetivamente não tinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes, únicas armas disponíveis, via com satisfação os muros pichados, aceitava as opiniões de Jacob [ativista em Maceió] [...]. E se quisessem transformar em obras os meus pensamentos, descobririam com facilidade matéria para condenação. Não me repugnava a ideia de fuzilar um proprietário. Era razoável que a propriedade me castigasse as intenções.

Horas depois, impotente diante dos coqueiros da praia de Pajuçara que desfilavam à janela do carro do Exército que o conduzia à cadeia, prosseguiria o interrogatório dentro de si. “Tinha-me alargado em conversas no café, dissera cobras e lagartos do fascismo, escrevera algumas histórias. Apenas. Conservara-me na superfície, nunca fizera à ordem ataque sério, realmente era um diletante.”

* * *

De Pajuçara, Graciliano foi levado para o Batalhão dos Caçadores, onde estivera preso uma noite em 1930. O interrogatório deveria ser cheio de alçapões, pensava ele. Cartas e escritos comprometedores o apunhalariam pelas costas; testemunhas o desmascarariam. Mas ninguém o molestou nas horas passadas no quartel.

Na manhã seguinte, de chofre, o sentinela mandou que se preparasse para viajar. No trem ordinário da Great Western, rumou, com outros detidos, para Recife. Despedida imprevista – as estações sumiam no traçado da linha férrea. “Nenhuma saudade, nenhuma dessas meiguices românticas, enervadoras: sentia-me atordoado, como se me dessem um murro na cabeça.”

Em uma das paradas, a lembrança mais dolorosa da viagem forçada. Um conhecido seu, o deputado e usineiro José da Rocha, que o vira de relance no vagão, informado de seu destino, exclamou:

– Comunista!

Engoliu em seco a palavra dita em tom de repulsa. “Este resumo aniquilava-me. Ingrato. E qualquer acréscimo, gesto ou vocábulo era redundância”, assinalaria nas Memórias. “Absurdo: eu não podia considerar-me comunista, pois não pertencia ao partido; nem era razoável agregar-me à classe em que o bacharel José da Rocha, usineiro, prosperava. Habituara-me desde cedo a odiar essa classe, e não escondia o ódio.”

Sempre achara o Exército “uma inutilidade”. Paradas, ordens do dia e toques de corneta eram “uma chatice arrepiadora”. Mas quando chegou preso ao Forte das Cinco Pontas, em Recife, pensou que seus movimentos dependeriam agora dos regulamentos e das imposições marciais. Poderia ter sido pior se o tivessem recolhido a uma cela – alojaram-no em um dormitório reservado a oficiais, em companhia do loquaz capitão Francisco Alves da Mata, também detido em Alagoas.

Para espantar o ócio, Graciliano anotava as ocorrências diárias desde Maceió, com letras bem pequenas, economizando ao máximo as poucas folhas de papel de que dispunha. “Só me abalanço a expor a coisa observada e sentida”, diria ele nas Memórias, convencendo-se a registrar o testemunho direto do cárcere. “A cadeia não é um brinquedo literário. Obtemos informações lá fora, lemos em excesso, mas os autores que nos guiam não jejuaram, não sufocaram numa tábua suja, meio doidos. [...] Impossível conceber o sofrimento alheio se não sofremos.”

No forte, travaria contato com o capitão José de Figueiredo Lobo, “moço grave, de olhos ligeiramente estrábicos, fumando por uma longa piteira”. Encarregado dos presos políticos, Lobo transmitiu secamente as instruções, andando de um lado a outro, com gestos rijos. Parecia insensível e frio.

Na segunda visita, Lobo o deixou ressabiado ao dizer:

– Respeito as suas ideias. Não concordo com elas, mas respeito-as.

– Quais são as minhas ideias?

– Ora, ora! – resmungou o capitão, retirando-se.

Como se adiantara em condenar suas ideias? O que Graciliano não sabia é que Lobo, amante da literatura, conhecia-o de nome por ter lido e apreciado Caetés e São Bernardo. Mas, naquela incômoda situação, não podia quebrar a disciplina militar e perder-se em discussões literárias com um preso sob sua responsabilidade.

Por via transversa, evidenciou a admiração secreta pelo romancista, mandando apanhar em sua casa roupas de cama e toalhas limpas para ele. Diariamente, a pretexto de vistoriar o local, procurava estreitar a convivência. Percebia que Graciliano media as palavras para não se enredar. “Como bom nordestino, ele era muito desconfiado, julgava que meus diálogos eram para espioná-lo. Estava com horror à farda”, relembraria, na década de 1970, o general reformado Lobo.

Aos poucos, Graciliano formou uma impressão favorável do oficial. “A linguagem clara, modos francos, às vezes estabanados, a exceder os limites da polidez incomum, diziam-me que ali se achava um homem digno.” O caráter de Lobo ficou patenteado quando da saída de Graciliano do forte. Cumprida a formalidade de notificar os presos de que embarcariam no dia seguinte em um navio do Lloyd Brasileiro, para destino ignorado, Lobo discretamente ofereceu ajuda financeira a Graciliano – um cheque em branco a ser preenchido pelo prisioneiro e descontado no banco pelo próprio capitão.

Ajudante de ordens do general Euclides Figueiredo na Revolução Constitucionalista de 1932, Lobo tivera de se exilar, sendo depois anistiado. Também por isso se compadecia da situação de Graciliano. “Eu sabia que ele ia ser transferido para uma prisão no Rio de Janeiro”, contaria o general reformado. “Ia viajar sem dinheiro, sem saber quanto tempo a viagem demoraria, quanto tempo ficaria preso, quando seria solto. Quis ajudá-lo com algumas economias que guardava no banco.”

Perplexo, Graciliano se limitou a uma “recusa chocha”, pensando estar sendo vítima de uma pilhéria. Lobo insistiu:

– Não lhe estou oferecendo dinheiro. Estou facilitando-lhe um empréstimo. E não é lá grande coisa, as minhas reservas são pequenas. Naturalmente não há prazo: paga-me lá fora quando se libertar. Sai logo, isso não há de ser nada.

Com “as orelhas em fogo”, Graciliano abriu mão da oferta. “Achava-me diante de uma incrível apostasia, não me cansava de admirá-la, arrumava no interior palavras de agradecimento que não tinha sabido expressar.”

O gesto humanitário calou fundo em seu coração. Aquele homem não se confundia com a imagem de “oficial do Exército opressor” que, até então, se embaralhava em sua cabeça. “A exceção nos atrapalha, temos de reformar julgamentos”, admitiria.

Dias antes, Graciliano havia conhecido o protótipo da embófia na caserna: Newton Cavalcanti. Nas Memórias, sem citar o nome do general, descreveria a cena patética do único encontro entre ambos.

Finda a apresentação, o homem alto pregou-me um olho irritado:

– Comunista, hein?

Atrapalhei-me e respondi:

– Não.

– Não? Comunista confesso.

– De forma nenhuma. Não confessei nada.

Espiou-me um instante, carrancudo, manifestou-se:

– Eu queria que o governo me desse permissão para mandar fuzilá-lo.

– Oh, general! – murmurei. – Pois não estou preso?

 

Cavalcanti deu-lhe as costas com desprezo. A ameaça de ser fuzilado não chegou a traumatizá-lo.

Eu era bem insignificante e a minha morte passaria despercebida, não serviria de exemplo. E se me quisessem elevar depois de finado, isto seria talvez prejudicial à reação: dar-me-iam papel de mártir, emprestar-me-iam qualidades que nunca tive, úteis à propaganda, embrulhar-me-iam em folhetos clandestinos, mudar-me-iam em figura notável.

Meia-volta volver. Como um exercício militar, os presos de Alagoas foram para o Norte; de Recife, um giro de 180 graus em direção ao Sul. Sob intenso calor, embarcaram no vapor Manaus, “um calhambeque horrível”. Em alto-mar, o capitão Mata descobriu que estavam sendo recambiados para o Rio de Janeiro.

Durante os dias de encarceramento no Forte das Cinco Pontas, nenhum interrogatório nem vestígio de processo. Por que as autoridades se comportavam daquele jeito? Pelo menos, pensava Graciliano ainda no cais, havia sido bem tratado. Não tardaria a queimar a língua.

O Manaus equivaleu a um afogamento nas trevas. No primeiro degrau da escada para o porão, Graciliano sentiu um objeto roçar-lhe as costas – a pistola de um guarda que, sadicamente, espetava-o, com o dedo no gatilho. Apavorado, apressou os passos para juntar-se à multidão de presos pelos corredores, animais enxotados para as jaulas.

Ao entrar no porão, lívido, o segundo choque:

Certamente a perturbação visual durou um instante, mas ali de pé, sobraçando a valise, a abanar-me com o chapéu de palha, tentando reduzir o calor, afastar o cheiro horrível de suor e amoníaco, um pensamento me assaltou, fez-me perder a noção de tempo. Que homens eram aqueles que se arrumavam encaixados, tábuas em cima, embaixo, à frente, à retaguarda, à esquerda, à direita? Imaginei-os criminosos e vagabundos.

A maioria havia sido presa em Recife e Natal após a insurreição de novembro, inclusive os membros do meteórico governo revolucionário do Rio Grande do Norte. Em meio ao fedor e à fornalha, as visões mais horripilantes lhe atravessaram os olhos, na madrugada passada em claro. Homens amassados sobre malas e trouxas, ou simplesmente arriados no chão infecto. Um negro a masturbar-se sem pudor. Centenas de redes se embaralhando, no milagre da multiplicação do espaço. “Tínhamos de andar em zigue-zagues e curvaturas, evitando os choques dos balanços, passando por baixo dos punhos. A porcaria aumentava consideravelmente.”

Estirado em uma tábua de madeira, Graciliano engatinhou para alcançar um copo de água que aplacasse a garganta seca. Nos acessos ao convés, revezavam-se os olhos vigilantes de 45 praças armados de fuzis-metralhadoras.

Na breve escala em Maceió, um conhecido conseguiu passar-lhe um pacote com roupas, a mando de Heloísa, que tentara em vão avistá-lo. Por um instante, o coração apertou: e os filhos, como estariam? O vapor zarpou mudo.

Dali até o desembarque no Rio, com passagem por Salvador, Graciliano ouviu discussões estéreis sobre a Aliança Nacional Libertadora; relatos repetitivos sobre a rebelião de Natal; conselhos para evitar a ação dos larápios que se misturavam aos revolucionários. Na barafunda do porão, havia também vagabundos e ladrões. As diferenças sociais suprimiam-se. Propositalmente, a repressão nivelava homens que queriam mudar o mundo e homens que viviam para roubar o mundo. Amontoados, desqualificavam-se todos.

Graciliano sofreu com a comida intragável, o odor insuportável de urina, os enjoos, as dores na perna operada anos antes e uma hemorragia intestinal. Arranjou papel e lápis para prosseguir nas anotações, mal acomodado em um cubículo cedido por um padeiro, onde havia um beliche, mesa estreita e cadeira. E se afligiu por estar ali, quando lá fora muitas pessoas se apinhavam sobre malotes e trouxas. Difícil empreitada no ambiente sórdido, com gente a bisbilhotar-lhe da porta. A cabeça escapulindo da tarefa. Nem os goles de aguardente, comprado pelo triplo do preço no comércio clandestino que prosperava no Manaus, conseguiram tornar o trabalho menos vagaroso.

* * *

Quando o navio entrou na Baía de Guanabara, em 14 de março de 1936, correram como faíscas rumores de que o itinerário terminaria na temida Colônia Correcional de Dois Rios, na Ilha Grande. “A mais simples referência ao desgraçado lugar gelava as conversas e escurecia os rostos”, contaria Graciliano. Rebate falso. Atracaram no cais da praça Mauá. Centenas de curiosos se postavam no salão de desembarque para ver a chegada dos 116 presos – 114 homens e duas mulheres. Olhavam-nos como a bichos no zoológico.

Desde que Prestes e sua mulher, Olga Benario, caíram nas garras do todo-poderoso chefe de polícia Filinto Strubing Müller, os êxitos na caçada aos “extremistas de novembro” disputavam as primeiras páginas dos jornais com a sangrenta ofensiva dos fascistas italianos na Etiópia. No dia seguinte à chegada dos presos ao Manaus, por exemplo, o Correio da Manhã noticiou o fato com a seguinte manchete: “Os sucessos de novembro”. Dolorosa ironia.

Sob forte aparato de segurança, os prisioneiros foram transportados em lotações para a Casa de Detenção, na rua Frei Caneca, depois de perambularem por presídios superlotados. A falta de vagas nas cadeias era um problema tão grave que oficiais do Exército e da Aeronáutica, detidos após a rebelião, permaneciam no navio Pedro I, requisitado ao Lloyd Brasileiro e fundeado na Baía de Guanabara. Outra leva de “extremistas” ocupava os cárceres da Ilha das Flores.

Filinto orgulhava-se de, em quatro meses de trabalho insano, ter atirado nos xadrezes cerca de 3 mil pessoas supostamente envolvidas no levante, sendo 901 civis e 2.146 militares, e isso somente na jurisdição do Rio de Janeiro. O combate sem trégua à “subversão” contava com a colaboração de agentes do serviço secreto britânico e, dizia-se, da Gestapo de Hitler. Uma coluna de guerra que invadia, sem mandado judicial, casas e locais de trabalho, incentivava delações com benesses e obtinha confissões sob tortura. Advogados desdobravam-se por habeas corpus, inclusive para os estrangeiros que haviam participado da insurreição, como Harry Berger e sua mulher Elisa, Rodolfo e Carmen Ghioldi e Olga. Os pedidos eram sistematicamente negados por um Poder Judiciário cujas prerrogativas definhavam a cada dia.

Alheia aos castigos infligidos aos presos políticos, a maioria da população enfrentava o arrocho da política econômica do ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, que concedia facilidades cambiais aos bancos. O Rio mal se refizera das enchentes de verão e já se anunciava um inverno rigoroso. Os letreiros dos cinemas talvez fossem o termômetro mais confiável para medir a pressão atmosférica, exibindo filmes como A dança dos ricos, Sublime obsessão e Calma, pessoal.

Vamos reencontrar Graciliano na fila para a triagem na Casa de Detenção. Apenas três funcionários preenchiam, com mau humor e impaciência, os prontuários da horda de nordestinos. O tumulto era inevitável. Na sua vez, o questionário empacaria no item “religião”.

– Pode inutilizar esse quesito.

– Não posso fazer isso. Todos se explicam.

– O senhor não vai me convencer de que eu tenho uma religião qualquer. Faça o favor de escrever. Nenhuma.

Depois de muita relutância, o funcionário, irritado, anotou, no espaço em branco, a palavra sugerida pelo preso. Vencido o óbice, Graciliano perguntou por que fora assinalada, à margem de sua ficha, uma cruz a lápis vermelho.

– Quer dizer que o senhor vai para o Pavilhão dos Primários. É uma prisão diferente.

Que vantagem poderia auferir com aquilo? Ressabiado, indagou a um guarda que o escoltava:

– Melhor ou pior que isto aqui?

– Melhor, melhor. Vivem lá cantando e berrando como uns doidos.