Juan Peineta começou a manhã, como quase todos os dias, escrevendo com um lápis e sua mão trêmula uma cartinha contra Rolando Garro. Dirigida ao jornal El Comercio. Nela protestava porque o decano da imprensa nacional não havia publicado suas três missivas anteriores “contra esse meliante, inimigo da arte e dos espetáculos de qualidade que é o sr. Rolando Garro”, o qual continuava “fazendo das suas nos seus pasquins e programas caluniadores, destruindo reputações e atentando contra tudo o que é decente, criativo e talentoso no meio artístico nacional, do qual ele não passa de uma pestilenta excrescência”. Assinou e pôs a carta num envelope onde colou um selo e guardou-o no bolso para deixar na primeira caixa de correio que encontrasse pelo caminho. Esperava não esquecer. Porque às vezes isso acontecia, e algumas das cartas vegetavam por muitos dias em seus bolsos sem lembrar-se de enviá-las.
Ia almoçar três ou quatro vezes por semana no refeitório popular que as carmelitas descalças mantinham no seu mosteiro de Nossa Senhora do Carmo, na oitava quadra do largo Junín, em Carmen Alto. A comida não era substanciosa, mas tinha a vantagem de ser gratuita. Havia sempre uma longa fila, com nuvens de gente pobre; melhor chegar cedo porque a entrada era limitada, somente cinquenta pessoas por turno, e muitas outras ficavam sem entrar. Por isso Juan saía com bastante antecedência do Hotel Mogollón. Não era uma caminhada tão longa ir de lá até os Bairros Altos; ele subia toda a avenida Abancay e, contornando a plaza de la Inquisición e o Congresso da República, remontava o largo Junín até perto de Cinco Esquinas. Mas para ele, sim, era longa porque, com suas varizes e suas distrações, tinha que andar bem devagarzinho. Levava quase uma hora e precisava dar pelo menos duas ou três paradinhas durante o percurso.
Serafín não o acompanhava nesses trajetos. Saía ao seu lado do Hotel Mogollón, mas, quando percebia que Juan rumava para os Bairros Altos, sumia silenciosamente. Por que temia tanto aquela área empobrecida do centro de Lima? Talvez porque, com a inteligência natural dos gatos, o amigo de Juan Peineta tenha chegado à conclusão de que era um bairro perigoso, onde podia ser sequestrado e virar guisado ou cozido de gato e devorado como um manjar pelos comedores de felinos do bairro, que deviam ser numerosos. Para Juan Peineta comer um bichinho tão próximo, tão doméstico, era uma forma de canibalismo, praticamente o mesmo que comer um ser humano.
Chegou cedo ao mosteiro das Descalças, e mesmo assim já havia uma boa fila de pobres, mendigos e vagabundos, gente sem trabalho, velhinhos e velhinhas que pareciam recém-chegados a Lima das suas remotas comunidades nas montanhas. Eram facilmente reconhecíveis porque olhavam para tudo em volta meio apatetados, como se tivessem perdido o rumo e receassem nunca mais encontrar. Depois de ficar na fila por uma meia hora, Juan viu que se abriam os portões do refeitório popular e os comensais do primeiro turno começavam a entrar. Ainda na porta, viu circulando entre as mesas a volumosa e amorfa silhueta da sua amiga Crecilda; fez um gesto com a mão, mas ela não o viu. Já se conheciam havia muitos anos, desde a época em que ela era dona de uma academia de dança tropical no bairro de Magdalena Vieja. Mas só ficaram amigos aqui, no refeitório popular, onde as irmãs carmelitas ofereciam almoços gratuitos desde tempos imemoriais.
O cardápio era quase sempre o mesmo, servido em uns pratos metálicos velhos e amassados: sopinha de macarrão, um guisado de verduras com arroz e, de sobremesa, compota de maçã ou de limão. Quando chegavam, os pratos já estavam nas mesas; umas empregadas de avental e lenço na cabeça serviam a comida usando grandes conchas de sopa, mas quando acabavam de comer eram os próprios pobres que tinham que levar os pratos para um tanque onde as mesmas moças que tinham servido a comida dos caldeirões os recebiam e lavavam. E Crecilda dirigia tudo aquilo, com mão suave mas enérgica; por isso estava sempre se movendo de um lado para o outro, com agilidade, apesar da gordura dos seus peitos enormes, pernas musculosas e nádegas balouçantes. Agora foi ela que o descobriu, sentado ao lado de um casal de Ayacucho que conversava em quéchua. Veio cumprimentá-lo e dizer que não fosse embora depois do almoço, que ficasse para tomar um matezinho de coca com ela, assim poderiam palestrar um pouco.
Juan Peineta acabara estimando Crecilda — e achava que ela também a ele —, principalmente quando descobriu que tinha passado muitos anos no mundo do espetáculo e que, tal como ele, sua carreira de bailarina terminara por culpa daquele demônio à paisana que era o filhote de satã Rolando Garro. Sentia pena da história de Crecilda porque, tal como ele, a mulher era sozinha no mundo. Tinha um filho, mas este a abandonara fazia muitos anos e não existia mais contato nenhum entre eles; ao que parece o rapaz foi ganhar a vida na selva, o que deixava Crecilda com a pulga atrás da orelha, pensando que talvez estivesse metido em alguma coisa errada, contrabando ou algo pior: o tráfico de drogas. Por outro lado, também lhe dava pena ver como seu rosto ficara deformado depois de uma operação para eliminar as rugas. Ela lhe contou a história, e de fato era tristíssima; uma amiga dela tinha esticado o rosto com um cirurgião, um tal de Pichín Rebolledo, e rejuvenesceu muito. Crecilda se animou a imitá-la; chegou a pedir um empréstimo no banco para pagar adiantado, como o médico exigia. E vejam só como a deixou! Tão inchada e deformada que quase não podia fechar os olhos, porque suas pálpebras tinham encolhido. Todo o rosto, até o começo do pescoço, havia perdido a cor e adquirido uma tonalidade cerúlea, como um tuberculoso ou um cadáver. “Esse cirurgião e Rolando Garro são a tragédia da minha vida”, costumava dizer ela, com sagacidade. “E não transei com nenhum dos dois.” Não era amargurada nem ressentida, muito pelo contrário, tinha um espírito sempre bem-disposto e sabia enfrentar as adversidades sem perder seu humor chulo e grosseiro. Isso era uma das coisas de Crecilda que mais agradavam a Juan Peineta: ela sabia enfrentar o mau tempo com boa cara e desafiava o infortúnio com suas saborosas gargalhadas.
Quando terminou o primeiro turno do almoço, Crecilda veio buscá-lo e o levou para o pequeno parlatório de onde podia observar tudo o que acontecia no local. Sentaram-se para tomar as duas xícaras de chá que ela já tinha preparado e, enquanto conversavam, Crecilda ficava dando umas espiadas no amplo refeitório para ver se estava tudo em ordem e nada exigia a sua presença.
— E se as freiras descobrissem que você foi bailarina de music hall e gostava da boemia, Crecilda?
— Não aconteceria nada. As freirinhas descalças são muito boa gente — respondeu. — Sabem que tudo isso já é coisa passada e ultrapassada. Que agora vivo minha velhice me comportando como uma santa. Venho à missa e comungo todos os domingos. Não reparou como eu me visto? Não pareço uma freira também?
Parecia. Estava usando uma túnica de tecido rústico que a cobria dos ombros até quase os chinelos.
— Deviam incluir carne no cardápio de vez em quando, Crecilda — disse Juan, saboreando o chá açucarado. — Esse guisado de verduras já conheço até de cor. E olhe que minha memória está uma droga, cada dia esqueço mais coisas.
— Se você soubesse o milagre que é continuar produzindo este almoço, Juanito — ela ergueu os ombros. — Um verdadeiro milagre. Os donativos estão cada vez mais escassos. E com essa história de crise, até as coitadas das freirinhas acabam passando fome porque quase não comem. Não me surpreenderia se fecharem este refeitório a qualquer momento.
— E nesse caso o que você faria, Crecilda?
— Então teria que pedir esmola, Juanito. Porque duvido que consiga outro trabalho. Já passou o tempo em que podia me dedicar à vida devassa.
— Bem, uma possibilidade é casar comigo e vir morar no Hotel Mogollón.
— Acho que prefiro ser mendiga à sua proposta de casamento — riu Crecilda, fazendo um gesto de negação. — Você acha que nós três caberíamos naquela caverninha onde você mora?
— Nós três? — surpreendeu-se Juan.
— Com o seu gato — lembrou ela. — Não me diga que se esqueceu dele também. Chama-se Serafín, não é?
— É, Serafín. Sabe por que acho que ele não me segue quando venho para cá? Tem medo de ser sequestrado pelos vagabundos do bairro para virar cozido de gato.
— Dizem que, bem preparado, é gostoso — admitiu Crecilda. — Mas, digam o que disserem, eu não como gato nem morta. Escute, Juan, mudando de assunto, já viu o último número da Revelações?
— Como você há de imaginar, eu não comprei nem nunca comprarei uma revista do sr. Rolando Garro, Crecilda.
— Eu também não, compadre — replicou ela, rindo e negando outra vez com a mão direita. — Mas às vezes leio quando a vejo pendurada nas bancas. Então você não viu o último escândalo. As fotos de um milionário numa orgia incrível, em Chosica. Eu nunca imaginei que se podiam publicar fotos como aquelas. Aparece até fazendo um 69 com uma dona.
— Um 69? — suspirou Juan Peineta. — Sabe que eu nunca fiz isso com a minha Atanasia, Crecilda? Pelo menos não me lembro de ter feito. Nós dois éramos um pouco puritanos, acho.
— Um pouco bobões, diga logo, Juanito — riu Crecilda. — Não sabe o que perderam.
— É, talvez você tenha razão. E quem é esse milionário das fotos? É daqui, um criollo?
Ela confirmou:
— Sim, sim, chama-se Enrique Cárdenas e é um minerador milionário, parece. Umas fotos de cair para trás, Juanito. Acho que desta vez aquele anão safado do Garrito foi longe demais. E quem sabe agora tenha que pagar caro por todas as suas maldades.
— Deus lhe ouça, Crecilda — suspirou Juan Peineta. — Tomara que esse minerador contrate um matador de aluguel para acabar com ele. Dizem que agora há uns colombianos muito baratos, que vieram trabalhar no Peru porque está faltando serviço lá na Colômbia. Parece que liquidam uma pessoa por uns dois ou três mil soles, apenas.
— Eu prefiro que ele vá em cana, Juanito. O que ganhamos com sua morte? É preferível que sofra, que pague com anos de prisão todo o mal que fez. A morte não é suficiente para gente como ele. Mas mofar anos e anos numa cela, isto sim é um castigo de verdade.
— É, sim, e que seja torturado — riu Juan Peineta. — Que arranquem as unhas dele, os olhos, que o cozinhem em fogo lento, como faziam os inquisidores com os sacrílegos.
Ficaram ali rindo, imaginando maldades contra Rolando Garro, o responsável por suas respectivas desgraças, até o final do segundo turno do almoço. Crecilda teve que ir cuidar da lavagem dos talheres e da limpeza geral. Juan Peineta despediu-se dela e pensou que na volta para o Hotel Mogollón iria procurar alguma banca com a Revelações pendurada, despertara a sua curiosidade o tal milionário nu fazendo o famoso 69 que ele e Atanasia, por pura timidez, nunca tinham praticado. Ou tinham? Não lembrava. Em compensação, lembrava muito bem que Atanasia se recusou a fazer o tal boquete que os homens tanto comentavam. Ele havia sugerido timidamente que sua esposa lhe fizesse. Mas ela, sempre recatada, como julgava recordar, se negava, alegando que seu confessor lhe havia dito que mesmo sendo casados era pecado mortal fazer essas porcarias. E ele, que a amava tanto, se havia resignado? Não tinha muita certeza. Deu uma risadinha: “Você ia morrer sem saber como era essa história de 69 e de minete, Juanito”. Ora, por acaso ele e Atanasia não tinham sido tão felizes sem experimentar essas extravagâncias?
Encontrou, de fato, uma banca de jornais exibindo a Revelações e teve dificuldade para se aproximar do exemplar da revista pendurado no teto com dois ganchos. Estavam expostas duas páginas: a capa e a página dupla central. Em volta se aglomerava um punhado de gente observando as escandalosas fotografias; alguns se esticavam, tentando ler as legendas e a informação que as fotos ilustravam. Juan Peineta reconheceu a cara daquele figurão que aparecia nu em todas as posições imagináveis, e que bem acompanhado estava! Não chegou a ver a foto do 69. Devia estar em alguma página interna, que pena. Juan Peineta pensou que teria que confessar que passara muito tempo vendo todas aquelas porcarias. Refletiu, assombrado, que provavelmente Crecilda tinha razão. Desta vez Rolando Garro tinha ido longe demais. Aquele era um sujeito importante, um dos grandes magnatas do Peru. Mostrá-lo assim, naquelas posições, com aquelas fêmeas, era demais. Garro ia pagar caro, desta vez não se safaria com facilidade como tantas outras vezes no passado. E de imediato começou a urdir mentalmente a carta que ia escrever assim que chegasse ao Hotel Mogollón.
Voltou ao seu percurso, devagarzinho, sem conseguir tirar da cabeça as imagens da Revelações. Quer dizer que essas coisas não só se sonhavam, também se viviam na realidade. Bem, os ricaços, não os pobres. Ele nunca se interessou por esses exotismos. Ou talvez sim, em alguma noite de bebedeira? Também não sabia ao certo. Os esquecimentos eram um problema para ele na hora da confissão. O padre se exasperava: “Não se lembra mais nem sequer dos seus pecados? Veio aqui caçoar de mim?”. Talvez não tenha tentado aquelas coisas porque era muito feliz fazendo amor com a pobre Atanasia do jeitinho normal mesmo. Lembrou como a esposa tremia todinha quando faziam amor, e seus olhos ficaram úmidos.
Quando estava a três quadras do Hotel Mogollón, notou que Serafín tinha reaparecido silenciosamente e caminhava coladinho aos seus pés. “Olá, companheiro”, disse, alegre por vê-lo. “Quer dizer que pelo menos por hoje você se livrou de ser sequestrado e jogado numa panela para virar cozido de gato. Não se preocupe, enquanto estiver comigo ninguém vai encostar a mão em você, Serafín. Agora, no hotel, vou lhe dar um pouquinho de leite que guardei na garrafa. Tomara que não tenha azedado.”
No quarto do Hotel Mogollón, depois de fazer a ponta no seu lapisinho, escreveu uma carta ao “Sr. Rolando Garro, diretor da Revelações”. Nela o acusava de ter transgredido a privacidade desse minerador degenerado que praticava perversões sexuais com prostitutas e ofendido a honra e a moral dos seus leitores publicando essas imundícies obscenas que, se caíssem nas mãos de crianças e menores de idade, poderiam escandalizá-los e pervertê-los. Sem dúvida havia leis que foram violadas por essas fotos escandalosas e esperava que o procurador-geral interviesse no assunto e mandasse fechar a tal revista e multar e processar seu tortuoso diretor.
Releu a cartinha, assinou e, satisfeito consigo mesmo, foi dormir. Amanhã cedo — se lembrasse — iria enviá-la.