— Deixa eu voltar para casa, amor — implorou Quique; tinha a voz embargada e o rosto desfeito. Marisa notou que, naqueles poucos dias, seu marido havia perdido vários quilos. Estava sem gravata, a camisa meio amarrotada. — Por favor, Marisa, estou lhe pedindo de joelhos.
— Aceitei que você viesse aqui para falar de coisas práticas — respondeu ela, secamente. — Mas se vai ficar insistindo nesse assunto que já está mais do que encerrado, é melhor ir embora.
Estavam na salinha ao lado da varanda onde eles costumavam, antes, tomar café da manhã. Começava a escurecer. Lima era uma mancha sombria e uma miríade de luzinhas que se perdiam ao longe, dissolvidas na neblina incipiente. Quique tinha à sua frente, na mesinha de vidro, um copo de água mineral pela metade.
— Claro que vamos falar de coisas práticas, gringuinha — assentiu ele, entre magoado e choroso. — Mas não posso continuar morando na casa da minha mãe, com todas as minhas coisas aqui. Reconsidere, por favor, eu lhe peço.
— Leve de uma vez suas coisas para a casa da sua mãe, Quique — levantou a voz Marisa; falava com muita determinação, sem hesitar um segundo, olhando-o fixamente nos olhos, sem piscar. — Para esta casa você não volta, pelo menos enquanto eu morar aqui. Vá se acostumando de uma vez com a ideia. Porque nunca vou perdoar a canalhice que você me fez. Eu já lhe disse. Quero me separar de você. Já me separei de você…
— Eu não fiz nada, não sou aquele das fotos, você tem que acreditar em mim — suplicou ele. — Fui vítima de uma calúnia monstruosa, Marisa. Não é possível que você, minha mulher, em vez de me ajudar, apoie meus inimigos e dê razão a eles.
— É você, sim, não seja mentiroso, não seja cínico, Quique — interrompeu Marisa, com um olhar que relampejava. Estava com uma blusinha muito decotada, mostrando os ombros e um despontar dos peitos, a pele muito branca, o cabelo louro solto para trás, sandálias recortadas que deixavam à mostra seus pés. — Tudo bem que, por questões legais, você negue que é aquele das fotos. Mas comigo não cola, filhinho. Já esqueceu quantas vezes na vida eu já vi você pelado? É você mesmo, fazendo aquelas porcarias, e ainda por cima se deixando fotografar naquelas posições horríveis com umas rameiras asquerosas. Você é a piada do dia em toda Lima, e eu também, por sua culpa. A cornuda mais famosa do Peru, como diz a Revelações. Sabe como meus pais e meus irmãos estão se sentindo depois de tudo o que você me fez passar nesses dias?
Enrique bebeu um golinho de água mineral do copo. Tentou pegar a bem cuidada mão de sua mulher, mas esta a tirou, fazendo uma careta de desagrado.
— Eu nunca vou me separar, porque gosto de você, meu amor — suplicou ele, quase choramingando. — Sempre gostei, Marisa. Você é a única mulher que amei. E vou reconquistar o seu amor, fazendo o que for preciso, juro. Você acha que não lamento no fundo da alma estarmos envolvidos neste escândalo? Você acha que…?
O toque do celular no seu bolso interrompeu o que estava dizendo. Pegou-o e viu que era Luciano.
— Desculpe, gringuinha — disse à sua mulher. — É Luciano, pode ser alguma coisa urgente. Alô? Sim, Luciano, pode falar, estou aqui, com Marisa. Sim, claro que pode falar. Alguma novidade?
Marisa viu que o marido, à medida que ouvia o que Luciano lhe dizia ao telefone, ia ficando mais pálido, seu rosto se transformava, abria a boca e um fio de saliva escorria pela comissura dos lábios sem ele perceber, sem se limpar. O que havia acontecido para deixar Quique assim? Estava piscando sem parar, com uma expressão de idiota. Luciano também devia ter notado que algo estranho estava acontecendo com Enrique, porque Marisa ouviu o marido murmurar em dois momentos “sim, sim, estou escutando”. Depois ouviu que se despedia com um fio de voz: “Sim, Luciano, vou para aí agora mesmo”. Mas, em vez de se levantar, Quique, branco como neve, continuou sentado na poltrona, à sua frente, com o olhar perdido, balbuciando: “Não é possível, meu Deus, não é possível, ainda por cima isso”.
Marisa se assustou.
— O que foi, Quique? O que disse o Luciano? — perguntou. — Mais problemas?
Enrique olhou para ela como se só naquele instante descobrisse que ela estava ali, sentada à sua frente, ou como se não a estivesse reconhecendo.
— Assassinaram Rolando Garro — ouviu-o dizer com uma voz de além-túmulo. Seus olhos estavam alucinados, parecia um louco. — Com uma ferocidade horrível, aparentemente. Não sei quantas punhaladas e, ainda por cima, destroçaram seu rosto com pedradas. Acabaram de encontrar o cadáver jogado na rua, em Cinco Esquinas. Você entende o que isso significa, Marisa?
Tentou se levantar, mas escorregou; tentou se segurar no encosto da poltrona, mas não conseguiu e desmoronou, caindo primeiro de joelhos e depois estendido ao longo do tapete da salinha. Quando Marisa se agachou para ajudá-lo, viu que Quique estava de olhos fechados, com a testa molhada de suor e a boca cheia de espuma. Tiritando.
— Quique, Quique! — gritou, segurando seu rosto, sacudindo. — O que você tem? O que houve?
Estava falando muito alto e Quintanilla, o mordomo, e a empregada vieram correndo para a salinha.
— Ajudem a levantá-lo — ordenou. — Vamos deitá-lo no sofá. Devagarzinho, para não machucá-lo. Temos que chamar o dr. Saldaña. Rápido, rápido, procurem o número dele na caderneta de telefones, por favor.
Os três o levantaram e, quando o mordomo e a empregada estavam aplicando uma toalhinha molhada em sua testa e Marisa tentando localizar o dr. Saldaña pelo telefone, Quique entreabriu os olhos, aturdido. “O que foi, o que foi?”, perguntou, com a voz ainda travada. Marisa soltou o telefone, correu para o sofá e abraçou o marido. Estava pálida e lacrimosa.
— Ai, Quique, que susto — disse —, você desmaiou, pensei que estivesse morrendo, já ia ligar para o dr. Saldaña. Quer que eu chame uma ambulância?
— Não, não, já estou melhor — balbuciou ele, pegando a mão da mulher e beijando-a. E a conservou junto aos lábios enquanto dizia: — Foi a tensão de todos esses dias, amor. E, agora, essa notícia terrível.
— Não tem nada de terrível, é uma notícia para se comemorar — exclamou Marisa; tinha entregado sua mão à mão do marido e deixava que ele continuasse beijando-a. — Que importância tem a morte do desgraçado que nos meteu nesta confusão, o diretor dessa revista imunda. Bem-feito se o mataram.
— De você, eu gosto, de você, eu necessito, meu amor — disse ele, levantando a cabeça e procurando o rosto de Marisa para beijá-la. — Não se deve desejar a morte de ninguém, amor. Nem mesmo desse bandido. Mas imagine o que esse assassinato significa para mim. Para começar, vai ressuscitar o maldito escândalo.
— Como está se sentindo? — perguntou ela, tocando-lhe a testa; a fúria tinha se eclipsado do seu rosto; agora olhava para o marido com um misto de preocupação. — Não, não está com nada de febre.
— Já me sinto melhor — respondeu ele, levantando-se. — Luciano está me esperando no escritório, tenho que ir.
— Arrume-se um pouco, Quique — disse ela, alisando sua camisa com as mãos. — Ficou todo despenteado com a queda. E sua camisa e seu terno estão uma vergonha, tudo amarrotado.
— Você ficou preocupada — disse ele, acariciando-lhe o cabelo e sacudindo um pouco o paletó, a calça. — Ficou sim, não me diga que não, amor. E se assustou quando eu desmaiei. O que significa que ainda me ama um pouquinho, não é, gringuinha?
— Claro que me preocupei — concedeu Marisa, fingindo uma severidade que não existia mais. — Mas não amo coisa nenhuma. Você me decepcionou para sempre. E eu nunca vou perdoá-lo.
Falou isso de uma forma tão mecânica, tão pouco convincente, que Quique se atreveu a pegá-la pela cintura e puxá-la para si. Marisa não resistiu muito. Ele encostou a boca em seu ouvido. Vendo o que estava ocorrendo, Quintanilla e a empregada, trocando um olhar, optaram por retirar-se.
— Vou ao escritório de Luciano para conversar sobre esse assunto diabólico — sussurrou ele, beijando e mordiscando sua orelha. — E depois volto para fazer amor com você. Porque você está muito bonita, nunca senti tanto desejo de tê-la nua nos meus braços como neste momento, gringuinha.
Procurou seus lábios, e sua mulher deixou-o beijá-la, mas não lhe devolveu o beijo e conservou os lábios fechados enquanto era beijada.
— Vai fazer comigo as mesmas porcarias que fazia com aquelas putas nas fotos? — disse Marisa, enquanto o acompanhava até a porta.
— Vamos fazer amor a noite toda, porque com certeza nunca vi você tão bonita como hoje — sussurrou ele, abrindo a porta. — Volto agorinha mesmo, não caia no sono, pelo amor de Deus.
Viera com o chofer — desde o escândalo da Revelações não tinha voltado a dirigir — e mandou que este o levasse ao escritório de Luciano. Pensou que, graças a essa tragédia, pelo menos ia poder voltar para o seu apartamento no Golfe, para a sua cama, para a sua casa e para as suas coisas. E a fazer amor com Marisa. Não era fingimento o que tinha acabado de dizer à mulher. Era verdade; a gringuinha estava mais bonita com a crise; enquanto estavam discutindo, de repente sentiu desejo por ela e agora, com toda certeza, de noite voltaria a gozar com Marisa como nas melhores épocas. Havia quanto tempo não faziam amor? Pelo menos três semanas, desde o horrível dia em que Rolando Garro levou aquelas fotografias ao seu escritório. E agora o sujeitinho estava morto, assassinado dessa forma atroz nos Bairros Altos. O que sucederia? De qualquer maneira, o escândalo ia ressurgir e ele voltaria para as primeiras páginas dos jornais, as rádios e as televisões. Sentiu um calafrio: de novo aquele banho de publicidade nojenta, de insinuações repugnantes, de precisar tomar cuidado com o que dizia, aonde ia, quem via, para escapar da maldita curiosidade mórbida do povo.
— Finalmente fez as pazes com a Marisa? — perguntou Luciano ao recebê-lo no escritório. — Pelo menos já deixa você entrar em casa de novo.
— É, pelo menos nisso tenho feito progressos — assentiu Quique. — Que história é essa do assassinato de Garro? Já sabem quem foi? Por que o mataram?
Luciano havia recebido um telefonema do próprio Doutor, com quem já tivera duas reuniões relativas ao escândalo das fotografias e da tentativa de chantagem de Garro.
— Ligou para me dizer que o encontraram morto a facadas e com o rosto destroçado num lixão de Cinco Esquinas, lá nos Bairros Altos, na porta de uma casa de jogatina — explicou Luciano. — A polícia ainda não se manifestou. Ele queria me avisar que, por causa disso, é inevitável que agora recrudesça o caso que estávamos tentando enterrar. Sinto muito, mas temo que vá ser assim mesmo, Quique.
— Já informaram o assassinato de Garro?
— Ainda não, mas, segundo o Doutor, a polícia ia divulgar agora mesmo, numa coletiva. A notícia vai estar em todos os telejornais da noite. Você não deve fazer nenhuma declaração sobre o assunto. E evite, de qualquer maneira, que relacionem essa morte com o escândalo. Mesmo sabendo que, obviamente, vão relacionar.
Luciano ficou em silêncio, olhando para Quique de um jeito que este achou estranho, esquadrinhando-o com uma expressão grave e desconfiada. Será que o chefe do Serviço de Inteligência lhe dissera mais alguma coisa e seu amigo estava escondendo dele?
— O que houve, Luciano? Posso saber por que está me olhando desse jeito?
O advogado se aproximou, pegou em seus dois braços e por um instante o encarou em silêncio, muito sério; seus olhinhos um pouco puxados revelavam preocupação, dúvidas.
— Vou lhe fazer uma pergunta, Quique, e preciso que você seja absolutamente sincero comigo. — Deu duas palmadinhas nos seus braços, afetuoso. — Não estou pedindo como seu advogado. E sim em nome de todos os anos de amizade que temos.
— Não acredito que você vai me perguntar o que estou pensando, Luciano — murmurou ele, horrorizado.
— Ainda assim vou perguntar, Quique — insistiu Luciano. — Você tem algo a ver com isso?
Quique teve uma vertigem e pensou que ia perder os sentidos de novo. Sentiu uma forte pressão no peito, tudo à sua volta tinha perdido nitidez e começava a oscilar. Apoiou-se na beira da escrivaninha.
— Será possível — balbuciou. — Não pode ser, Luciano. Você está me perguntando se eu matei aquele verme? Se mandei matar? Está me perguntando isso? Você me acha capaz de uma coisa dessas?
— Responda, Quique. — Luciano continuava com as mãos em seus ombros. — Simplesmente me diga que não tem nada a ver com o assassinato de Rolando Garro.
— Claro que não tenho absolutamente nada a ver com esse assassinato, Luciano! Não é possível que você, que me conhece a vida toda, me considere capaz de matar alguém, de mandar matar alguém.
— Está bem, Quique — respirou Luciano, aliviado. Ensaiou um sorriso. — Acredito em você, claro que acredito. Mas queria ouvir dos seus lábios.
Luciano soltou os braços do amigo e apontou para uma das poltronas do escritório, embaixo das gravuras inglesas e das prateleiras de livros encadernados em couro.
— Preciso saber com todos os detalhes o que você fez nas últimas quarenta e oito horas, Quique.
Luciano continuava sério, falando com muita calma e tinha nas mãos um caderninho e uma caneta. Havia recuperado a serenidade e a calma costumeiras; ao contrário de Quique, todo desarrumado, estava com a camisa de listras vermelhas e brancas perfeitamente passada, uma gravata bordô, sapatos mais lustrosos que espelho. As abotoaduras da camisa eram de prata.
— Mas por quê, Luciano, quer me dizer de uma vez o que está acontecendo ? — Agora Quique estava assustado.
— Acontece, Quique, que você é o primeiro suspeito desse crime — disse o amigo, muito calmo, falando novamente com a voz afetuosa de sempre, tirando os óculos e segurando-os no ar. — Como não percebe? Garro envolveu você nesse escândalo maiúsculo, que repercutiu até no estrangeiro. Arruinou sua vida, de certa forma. Destruiu seu casamento, seu nome, seu prestígio etc. Agora todas as revistas de escândalo e de fofoca vão cair em cima de novo, dizendo que você pagou um bandido para executar sua vingança. Dá para entender?
Aturdido, idiotizado, Enrique ouvia isso e tinha a sensação de que Luciano estava falando de outra pessoa, não dele.
— Eu preciso que você se sente ali, na minha mesa, agora mesmo, e me faça uma lista, a mais detalhada possível, das pessoas que viu, dos lugares onde esteve nestas últimas quarenta e oito horas. Agora mesmo, Quique, sim. Estamos à beira de um novo escândalo e é melhor nos prepararmos para enfrentá-lo. É indispensável ter todos os álibis, se acontecer o que eu temo. Vamos, sente-se ali e faça a lista de uma vez.
Ele obedeceu docilmente a Luciano e, sentado à mesa, tentou durante uma boa meia hora enunciar por escrito tudo o que tinha feito nos últimos dois dias. Pensava que ia ser fácil; mas assim que começou a escrever descobriu que confundia as horas, principalmente, e esquecia muita coisa. Quando terminou, entregou a lista a Luciano. Este a examinou com cuidado.
— Pode ser que não aconteça nada e tenha sido à toa, Quique — disse para tranquilizá-lo. — Tomara. Mas nunca se sabe, temos que estar preparados. Se por acaso se lembrar de mais alguma coisa, mesmo que seja um detalhe insignificante, pode me ligar.
— Quer dizer que o maldito pesadelo vai ressuscitar — suspirou o engenheiro. — Quando eu já achava que a tempestade começava a amainar, vem isso. Uma desgraça nunca vem só, como diz o ditado.
— Quer tomar um uísque? — perguntou Luciano. — Talvez caia bem.
— Não, prefiro ir para a cama — disse Quique. — Sinto-me como se tivesse acabado de correr a maratona de Nova York, velho.
— Tudo bem, então descanse, Quique — despediu-se Luciano. — E faça as pazes de uma vez com Marisa. Amanhã nós conversamos.
Quando chegou ao seu edifício, Quique dispensou o chofer e subiu até a cobertura um pouco preocupado, pensando que talvez Marisa tivesse ligado o alarme e trancado a porta. Mas, não, entrou em casa sem dificuldade. Os empregados lhe disseram que a patroa estava deitada e perguntaram se queria alguma coisa para comer. Ele respondeu que não estava com fome e deu boa-noite a todos. Quintanilla, um ayacuchano que trabalhava na casa havia muitos anos, sussurrou-lhe quando passou: “Que bom que o senhor voltou, don Enrique”.
O quarto estava na penumbra e ele não acendeu a luz do abajur. Tirou a roupa na escuridão e, sem vestir o pijama, entrou nu sob os lençóis. A presença e o cheiro de Marisa o excitaram de novo e, sem dizer nada, deslizou até onde ela estava e abraçou-a.
— Eu amo você, amo demais — murmurou, beijando-a, juntando seu corpo ao dela, abraçando-a. — Perdoe-me pelos momentos difíceis que você passou por minha culpa todos esses dias, Marisa, meu amor.
— Acho que nunca vou conseguir perdoá-lo, seu desgraçadinho — disse ela, virando-se para ficar de frente para ele, beijando-o e abraçando-o também. — Você vai ter que fazer por merecer.