XIX. A Baixinha e o poder

A Baixinha sabia que podia acontecer. Mas nunca imaginou que ia ser assim e, principalmente, com quem. Desde que denunciou que seu chefe, Rolando Garro, o diretor da Revelações, provavelmente tinha sido assassinado por ordem do minerador Enrique Cárdenas, cujas fotos numa bacanal com prostitutas tinha publicado na revista, ela estava no centro das atenções: fotos, entrevistas em rádios, jornais, revistas e canais de televisão, e intermináveis interrogatórios na polícia, diante do promotor e do juiz de instrução. Graças à sua audácia e à gigantesca publicidade gerada pela denúncia, por ora ela se sentia a salvo. Tinha repetido até cansar em todas as entrevistas: “Se um carro me atropelar ou um bêbado partir minha cabeça na calçada, já sabem que mão estará por trás da minha morte: a mesma que pagou ao capanga que assassinou com tanta crueldade o meu chefe, professor e amigo Rolando Garro”.

Mas será que agora sua vida estava realmente segura, com a publicidade que tinha? No momento, sem a menor dúvida. O que não impedia que, de noite, quando ia se deitar em sua casinha na avenida Tenente Arancibia, em Cinco Esquinas, de repente tivesse um ataque de pavor desses de congelar a coluna vertebral. Por quanto tempo mais continuaria a salvo graças à denúncia? Quando o caso deixasse de sair na imprensa, o perigo voltaria. Principalmente agora que o engenheiro Enrique Cárdenas, depois de ficar preso por alguns dias para ser interrogado, obtivera a liberdade provisória pelo juiz, mas com ordem de não sair do país.

Dessa vez o carro não chegou de noite, e sim ao amanhecer. Já havia uma fresta de luz na janela do seu quarto quando a Baixinha acordou ouvindo uma freada na rua, em frente ao beco onde morava. Pouco depois, ouviu batidas na porta. Eram três homens, os três à paisana.

— A senhorita vai ter que nos acompanhar, srta. Leguizamón — disse o mais velho, um cholo roliço que tinha um dente de ouro, e estava com um casaco de couro e um cachecol no pescoço; quando falava, mostrava a pontinha vermelha da língua como uma lagartixa.

— Aonde? — perguntou ela.

— Já vai saber — replicou o homem, com um sorriso que pretendia ser tranquilizador. — Não se assuste. Uma pessoa importante está à sua espera. Imagino que a senhorita seja inteligente o bastante para não recusar este convite, certo? Se quiser se lavar e se arrumar um pouco, não há problema. Nós esperamos aqui.

Lavou o rosto, escovou os dentes e se vestiu de qualquer jeito. Uma calça de brim, sandálias, uma blusa azul e a bolsa com seus papéis e canetas. Visita importante? Era uma armadilha, claro. No celular escreveu: “Três homens vieram me buscar. Não sei aonde estão me levando. Amigos jornalistas, fiquem atentos, pode me acontecer alguma coisa”. Tentava se controlar e não demonstrar o medo que sentia. Teve a sensação de que aquele era um momento decisivo, desses que mudam uma vida ou acabam com ela. Será que foi uma boa aposta fazer essa denúncia, ou tinha amarrado uma corda em volta do próprio pescoço? Agora você vai saber, Baixinha. “Não tenho medo da morte”, pensou, tremendo da cabeça aos pés. Mas temia que a fizessem sofrer. Será que iam torturá-la? Lembrou que tinha lido, em algum lugar, que o Doutor mandou injetar o vírus da aids em uns militares que conspiraram contra Fujimori. Sentiu umas gotinhas de xixi manchando sua calça.

O carro não foi para o centro de Lima; dobrou na plaza Italia, desceu pela avenida Huanta até a avenida Grau e depois, para sua surpresa, entrou na Panamericana, na direção das praias. Quando entraram na autoestrada do Sul, um dos homens entre os quais estava sentada lhe deu um capuz de tecido cru dizendo que era para cobrir a cabeça. Ajudou-a com a maior delicadeza a colocá-lo na cabeça. Não lhe puseram algemas nem amarraram suas mãos. O capuz era acolchoado, não raspava o rosto, provocava uma sensação suave, quase de carícia. Via tudo preto. Achou que tinham dado muitas voltas; afinal ouviu vozes e, após algum tempo, o carro freou. Eles a ajudaram a descer e, segurando-a pelos braços, a fizeram subir uns degraus e percorrer o que devia ser um longo corredor. Notou que a tratavam com consideração, tomando cuidado para que não tropeçasse nem esbarrasse em algum lugar. Finalmente ouviu que abriam e fechavam uma porta.

— Já pode tirar esse pano da cabeça — disse uma voz de homem.

Tirou, efetivamente, e a pessoa que estava à sua frente era quem ela havia pensado, devido à voz. Ele, ele mesmo. A surpresa foi tão grande que, agora, os joelhos da Baixinha tremiam mais que antes. Tinha certeza de que era ele? Apertou os dentes com força para que não batessem por causa do medo. Estavam num lugar sem janelas, com todas as luzes acesas, vários quadros de cores berrantes nas paredes, cadeiras e sofás, mesinhas com bibelôs, um tapete grosso que silenciava as pisadas. Não muito longe, ouvia-se o murmúrio de um mar agitado. Era aqui o famoso refúgio secreto de Praia Arica? A Baixinha não saía do seu assombro. Era ele, sem a menor dúvida, e a observava, intrigado, inspecionando-a com uma desfaçatez total, como se ela não fosse um ser humano, e sim um objeto ou um bichinho. Pousava nela seus olhos aguados de cor parda, um pouco esbugalhados, dos quais emanava um olhar glacial. Já o tinha visto em centenas de fotografias, mas agora parecia diferente: mais velho, mais baixo que alto, o cabelo que começava a ralear e deixava à mostra partes do seu crânio, as bochechas volumosas, a boca aberta numa careta de fastio ou desagrado, um corpo com sinais de obesidade no peito e na barriga. Então era aquele o amo e senhor do Peru. Não estava de uniforme militar, e sim à paisana, de calça marrom, mocassins sem meia e uma camisa amarela um pouco amarrotada, com estampa de estrelinhas. Tinha nas mãos uma xícara de café que, de vez em quando, levava à boca para beber um gole, sem interromper a minuciosa inspeção ocular que lhe fazia.

— Julieta Leguizamón — murmurou de repente, com uma voz pastosa, como se estivesse saindo ou entrando em uma gripe. — A famosa Baixinha, de quem Garro tanto me falava. Sempre bem, aliás.

Apontou para uma mesa com xícaras, travessas, sucos e cafeteiras.

— Um suco de frutas, um café, torradas com geleia? — perguntou, secamente. — Este é o meu café da manhã. Mas se preferir outra coisa, ovos quentes, por exemplo, eles preparam na hora. Você é minha convidada e está em casa, Baixinha.

Ela não disse nada; tinha se acalmado um pouco e agora esperava, ainda assustada, que o famoso Doutor lhe dissesse por que a trouxera para lá. Mas ele continuava tomando seu café e mordendo umas torradas com geleia como se ela não estivesse mais ali. Quer dizer que era esse o famoso refúgio, o bunker que ele construiu numa das praias do sul. Segundo os boatos, ali se faziam grandes orgias.

O que sabia sobre ele? Não muito mais que o resto dos peruanos, na verdade. Que havia sido um cadete e um oficial do Exército obscuro até o golpe militar, do general Velasco Alvarado, de 3 de outubro de 1968, depois do qual se tornou ajudante do general Mercado Jarrín, responsável pelas Relações Exteriores no governo de facto. Estava nesse cargo quando o Exército descobriu que ele espionava e entregava segredos militares para a CIA. O regime de Velasco, que se proclamava socialista, havia estreitado as relações com a URSS, que se tornou nesses anos a principal fornecedora de armamentos ao Peru. O então capitão de artilharia foi preso, julgado, condenado, expulso do Exército e encarcerado numa prisão militar. Enquanto cumpria a pena, estudou direito e se formou como advogado. Foi nessa época que recebeu o apelido de Doutor. Depois que saiu da prisão, com uma anistia, ganhou certa notoriedade como advogado de traficantes, que tirava da prisão ou conseguia reduzir suas penas corrompendo ou intimidando juízes e promotores. Diziam que foi o homem no Peru de Pablo Escobar, o rei da droga na Colômbia. Ao que parece, chegou a conhecer o submundo da justiça como a palma da mão e a aproveitar em seu próprio benefício — e dos seus clientes — tudo o que havia de bagunça e de corrupção nos tribunais.

Mas a verdadeira sorte lhe veio, segundo a lenda que cercava sua figura, nas eleições de 1990, vencidas pelo engenheiro Alberto Fujimori. Entre o primeiro e o segundo turnos dessas eleições, a Marinha descobriu que Fujimori não era peruano, e sim japonês. Tinha chegado ao Peru com sua família de imigrantes e esta, para garantir seu futuro, como faziam muitas famílias de asiáticos com intenção de dar segurança aos seus descendentes, havia falsificado (ou comprado) uma certidão de nascimento que registrava seu aniversário no dia da Festa Nacional, 28 de julho. Também tinham forjado um batizado que formalmente confirmava sua nacionalidade peruana. Quando começou a circular na imprensa, entre as duas eleições, que em breve a Marinha de Guerra ia divulgar sua descoberta, Fujimori ficou apavorado. O fato de ser japonês anulava automaticamente sua candidatura, a Constituição era inequívoca quanto a isso. Foi nesse momento que ocorreu, ao que parece, o primeiro contato entre o referido Doutor e o candidato encurralado. O Doutor foi célere e genial. Em poucos dias sumiram todos os indícios da falsificação, e os chefes da Marinha que a descobriram foram subornados ou intimidados para ficarem calados e destruírem aquelas provas. Elas nunca apareceram. A certidão de batismo foi arrancada misteriosamente do livro de registros da paróquia e desapareceu para sempre. A partir de então, o Doutor passou a ser o braço direito de Fujimori e, como chefe do Serviço de Inteligência, presumível autor das piores atrocidades, negociatas, roubos e crimes políticos que vinham sendo cometidos no Peru havia quase dez anos. Dizia-se que a fortuna que ele e Fujimori possuíam no exterior era vertiginosa. O que esse demônio podia querer com uma pobre jornalista de espetáculos, redatora de um jornaleco de pouca expressão que, ainda por cima, tinha acabado de perder tragicamente seu diretor?

— Suco e café está ótimo, Doutor — articulou a Baixinha, quase sem voz. Não estava mais assustada, e sim estupefata. Por que a tinha trazido para cá? Por que ela estava na frente do homem mais poderoso e mais misterioso do Peru? Por que o chefe do Serviço de Inteligência a tratava com tanta familiaridade e falava de Rolando Garro como se os dois tivessem sido íntimos? Seu chefe nunca havia sequer mencionado que conhecia aquele personagem. Se bem que, às vezes, falava dele com uma indisfarçável admiração: “Fujimori pode ser o presidente, mas quem manda e desmanda é o Doutor”. Então os dois se conheciam. Por que Rolando nunca lhe disse nada?

— Eu ainda não dormi, Baixinha — afirmou, bocejando, e ela percebeu que o Doutor estava com os olhos fundos e avermelhados por causa da noite em claro. — Muito trabalho. Só de noite é que posso me concentrar nas coisas importantes, sem me interromperem com bobagens de todo tipo.

Fez um silêncio e olhou-a da cabeça aos pés, devagar, expurgando-a de novo, como se quisesse descobrir as coisas mais secretas que ela guardava na memória e no coração.

— Sabe por que estou olhando assim para você, Baixinha? — disse o Doutor, adivinhando seu pensamento. Falava com uma entonação que às vezes deixava transparecer o sotaque de Arequipa. Agora sorria com amabilidade, para tranquilizá-la. — Porque parece até mentira que você, pequenina como é, tenha colhões tão grandes. Quer dizer, ovários tão grandes, desculpe. E desculpe também pela grosseria.

Festejou as próprias palavras com uma risadinha que enrugou seu rosto, mas ela não riu. Tinha cravado seus grandes olhos imóveis nesse personagem poderoso e não agradeceu o elogio inesperado que acabara de receber. Ia se lembrando: “Ele já deve ser o homem mais rico do Peru e, também, aquele que manda matar com a voz e a mão firmes”, disse-lhe um dia Rolando Garro.

— Acusar o engenheiro Enrique Cárdenas de assassino! — exclamou ele, saboreando devagar o que dizia e num tonzinho de voz que queria mostrar respeito e admiração pela Baixinha. — Você sabe que ele é um dos homens mais poderosos do Peru, não sabe? Que, pela maldade que você lhe fez, poderia liquidá-la num piscar de olhos?

— Fiz aquilo para que ele não mandasse me matar também, como mandou matar Rolando Garro — disse ela, falando devagar, sem deixar a voz tremer. — Depois da minha denúncia, não podia me fazer nada; minha morte teria quase a assinatura dele.

— Certo, certo — respondeu, tomando outro gole de café e passando-lhe a xícara em que também acabava de servir para ela um café americano com um bocadinho de creme. — Você sabe muito bem o que faz e não lhe faltam coragem nem miolos, Baixinha. Desta vez se enganou, mas não tem importância. Quer saber uma coisa que vai achar surpreendente? Venho seguindo a sua pista há algum tempo, e você é direitinho como eu imaginava. Até melhor. Sabe por que mandei chamá-la aqui?

— Para que retire minha acusação contra o engenheiro Cárdenas — respondeu ela de imediato, com absoluta certeza.

Viu que o Doutor, após um instante de desconcerto, começou a rir. Uma risada franca, aberta, que, de novo, a tranquilizou. Sentiu que não estava mais em perigo, apesar de estar ali e com aquele homem. Lembrou que Rolando Garro também lhe disse, um dia: “Dizem que é cruel, mas generoso com aqueles que o ajudam a matar e a roubar: estes também ficam ricos”.

— Na verdade, simpatizei com você, Baixinha — disse o Doutor, agora sério e esquadrinhando-a com o olhar amarelado, inquisitivo mas sem luz, dos seus olhos cansados. — Eu já suspeitava, pelo que Rolando me falou de você, mas agora tenho certeza: nós fomos feitos para nos entendermos bem. Isso mesmo, minha querida Julieta Leguizamón.

— Não foi para isso que mandou me chamar? — perguntou ela.

— Não — respondeu ele de imediato, negando com a cabeça ao mesmo tempo. — Mas, na verdade, já que você tocou no assunto, seria bom para nós dois que desmentisse essa acusação o quanto antes. Deixe o pobre milionário desfrutar em paz suas minas e seus milhões. Não vai haver problema. O procedimento é simples. Diga ao juiz que você estava muito abalada pela morte do seu chefe e grande amigo, o diretor da revista. Que estava fora de si quando fez essa acusação absurda. Não se preocupe, o engenheiro não vai lhe fazer nada. Mandei um bom advogado ajudá-la em todos os passos. Você não tem que pagar um centavo, naturalmente. Eu me encarrego disso também. É melhor para nós desmentir, Baixinha. Sim, isso mesmo: para você e para mim. Além de tudo, assim já vamos começando a trabalhar juntos. Mas, enfim, não é por esse motivo que você está aqui.

Ficou calado, observando-a e bebendo golinhos de uma segunda xícara de café. A Baixinha ouviu o som do mar; parecia que se aproximava, parecia que ia irromper na sala, e depois se retirava e se apagava.

— Se não foi por isso, a que devo então a honra de estar aqui, Doutor? E de que o senhor tenha me trazido nada menos que para o seu tão falado refúgio secreto na praia?

Ele fez que sim, agora sério, escondendo com a mão mais um bocejo. A Baixinha viu uma luz amarela ardendo nos seus olhos cansados e notou que sua voz estava diferente: agora dava ordens, e já não havia qualquer sinal de amabilidade em suas palavras.

— Como você há de imaginar, não posso perder tempo ouvindo mentiras, Baixinha. Então, por favor, quero que me conte com franqueza total e limite-se aos fatos concretos. Entendido?

A Baixinha concordou. Ao ver a entonação do Doutor mudar, voltou a ficar assustada. Mas, no fundo do coração, alguma coisa lhe dizia que não estava mais em perigo; que, pelo contrário, misteriosamente essa visita abria para ela uma oportunidade que não devia desperdiçar. Sua vida podia mudar para melhor se aproveitasse a ocasião.

— Essa história das fotografias que Garro publicou na Revelações — disse o Doutor. — As do engenheiro Cárdenas, pelado, se divertindo com umas prostitutas em Chosica. Me conte essa história.

— Só posso contar o que eu sei, Doutor — disse ela, ganhando tempo.

— Com todos os detalhes e sem conversa fiada — precisou ele, muito sério. — Repito: fatos concretos e nada de conjeturas.

A Baixinha entendeu na mesma hora que não tinha alternativa. E então contou a estrita verdade com todos os detalhes. Desde que, um par de meses antes, um belo dia Ceferino Argüello, o fotógrafo da Revelações, veio à sua mesa na redação da revista com um ar misterioso. Queria conversar a sós: era um assunto confidencial, ninguém mais do semanário podia saber. Ela nunca iria imaginar que o coitadinho do Ceferino Argüello, tão apoucadinho, tão respeitoso, tão tímido, tão sofrido que não só o diretor, mas qualquer redator da revista podia se dar ao luxo de desprezá-lo, maltratá-lo e increpá-lo a qualquer pretexto, tivesse algo tão explosivo nas mãos.

Por volta das cinco da tarde, a Baixinha e Ceferino foram fazer um lanche no La Delicia Criolla, estabelecimento da sra. Mendieta, situado na esquina da rua Irribarren, não muito longe da delegacia policial de Surquillo. Pediram dois cafés com leite e dois sanduíches de torresmo com cebola e pimentão. A Baixinha, achando graça, viu que o fotógrafo torcia as mãos antes de falar, empalidecia, abria e fechava a boca, sem coragem de dizer uma palavra.

— Se você está assim na dúvida, é melhor não me contar nada, Ceferino — sussurrou-lhe. — Tomamos o nosso lanche, esquecemos o assunto e continuamos amigos como sempre.

— Quero que dê uma olhada nestas fotos, Baixinha — balbuciou Ceferino, espiando desconfiado em volta. Entregou a ela uma pasta presa com dois elásticos amarelos. — Cuidado, ninguém mais pode ver.

— Eram as fotos que Garro publicou na Revelações? — interrompeu o Doutor.

A Baixinha confirmou.

— E como foi que chegaram às mãos do tal Ceferino? — perguntou ele. Estava muito atento, agora seu olhar parecia perfurá-la.

— Foi ele mesmo quem tirou as fotos — disse a Baixinha. — Foi contratado pelo sujeito que organizou a bacanal. Um estrangeiro, parece.

— O sr. Kosut — sussurrou Ceferino Argüello, tão baixinho que Julieta teve que chegar um pouco mais perto para poder ouvir. Ainda estava com o rosto em brasa pelo choque que aquelas fotos lhe causaram. — Eu já tinha feito outros serviços meio escabrosos para ele. Gostava de ser fotografado na cama com mulheres. E queria muitas fotos daquela cilada, sem que o sujeito percebesse. Um figurão, um cara importante, cheio da grana, disse ele. Levou-me antes à tal casa em Chosica, para preparar tudo. Ou seja, os esconderijos de onde eu poderia tirar as fotos. Vimos até a melhor maneira de colocar a luz. Gastei não sei quanto em rolos de filme. Estava acertado que ele pagaria todo o material e mais quinhentos dólares pelo meu trabalho. Mas me deu um calote. Morava no Hotel Sheraton. E, de repente, sumiu. Evaporou, é. Saiu do hotel e sumiu. Nunca mais eu soube nada dele. Até hoje.

— Quanto tempo tinha passado? — perguntou o Doutor.

— Dois anos já, Baixinha — disse Ceferino. — Dois anos, imagine. Eu estou na pindaíba. Pensei que o sr. Kosut ia voltar, mas não apareceu mais. Talvez esteja morto, sabe-se lá o que houve com ele. Eu tenho mulher e três filhos, Julieta. Você acha que se pode fazer alguma coisa com essas fotos? Para eu ganhar um dinheirinho, quero dizer. E, pelo menos, recuperar o que investi.

— Isto aí é um caso muito sério, Ceferino — disse a Baixinha, preocupada, abaixando a voz. — Você não sabe quem é esse homem que fotografou fazendo essas porcarias?

— Sei perfeitamente, Baixinha — disse Ceferino, num sussurro quase inaudível. — Foi por isso mesmo que perguntei. Será que um sujeito tão importante não poderia me pagar muito bem por estas fotos que o deixam tão encrencado?

— Quer chantagear esse endinheirado? — riu a Baixinha, assombrada. — Você, Ceferino? Teria mesmo coragem? Você sabe o risco que corre chantageando um cara tão influente com uma coisa assim?

— Teria coragem com a sua ajuda, Baixinha — balbuciou Ceferino. — Eu não sou muito ousado, é verdade. Mas você é, até demais. Talvez pudéssemos ganhar um dinheirinho juntos, não gostaria?

— Muito obrigada, Ceferino, mas a resposta é não — disse a Baixinha, de forma terminante. — Eu sou jornalista, não chantagista. Além disso, conheço os meus limites. Sei com quem posso me meter e com quem não. Tenho ousadia, é verdade, mas não sou masoquista nem suicida.

Tinha uma das fotos da bacanal na mão; olhava para ela com desagrado e, ao mesmo tempo, com uma sensação esquisita. Podia ser inveja o que estava sentindo? Tinha certeza de que nunca na vida ia fazer com um homem as coisas que essa puta fazia, nunca ia participar de um entrevero como aquele sendo comida por vários e por todos os lados. Lamentava isso? Não: sentia nojo, vontade de vomitar.

— Em todo caso, Ceferino, se você quer um conselho, seria melhor consultar o chefe. Fale com ele, conte a história do tal Kosut. Ele conhece essas coisas melhor que você e eu. Talvez possa lhe ajudar a ganhar o dinheirinho de que está precisando.

— E então você e Ceferino foram levar as fotos para Rolando Garro e contar a história de Chosica — adiantou-se o Doutor, com certeza do que afirmava. — E Garro decidiu chantagear o engenheiro Enrique Cárdenas sem pedir minha autorização nem me avisar do assunto. Sabe quanto ele pediu?

A Baixinha engoliu saliva antes de responder. Por que Rolando Garro tinha que pedir autorização ao chefe do Serviço de Inteligência para fazer o que tinha feito? Então Rolando trabalhava mesmo para esse sujeito? Era mesmo verdade aquilo que ela sempre havia pensado ser um boato espalhado pelos inimigos do seu chefe? Que ele trabalhava para aquele, que era um dos seus mastins jornalísticos?

— Na verdade não foi uma chantagem, Doutor — insinuou a Baixinha, escolhendo cuidadosamente as palavras, pensando que se dissesse algo inadequado podia ficar numa situação difícil. — Mostrou as fotos para animá-lo a investir na revista. Era o sonho de Rolando, se o senhor o conheceu deve saber. Transformar a Revelações num grande semanário, mais famoso e bem vendido que Oiga ou Caretas. Rolando acreditava que se o engenheiro Cárdenas se tornasse acionista ou, ainda melhor, presidente do conselho da Revelações, todas as agências de publicidade passariam a publicar anúncios, porque a imagem do semanário teria mais prestígio.

— Sonhar não custa nada — murmurou o Doutor, entre os dentes. — O que demonstra que Rolando Garro era muito menos inteligente do que se pensava. Mas você ainda não respondeu à minha pergunta. Quanto ele pediu?

— Cem mil dólares para começar — disse a Baixinha. — Como primeiro investimento. Depois, quando o engenheiro visse que as coisas iam bem, pediria mais. Para mostrar que jogava limpo, Rolando lhe disse que ele mesmo podia nomear um gerente, um auditor, para controlar como se gastava essa nova injeção de capital.

— Foi essa a besteira do Garro — disse o Doutor, compungido. — Não querer chantageá-lo e pedir essa quantia ridícula. Se em vez de cem tivesse pedido meio milhão, talvez ainda estivesse vivo. A insignificância das suas ambições o derrotou. E então o minerador, em vez de aceitar, o expulsou do seu escritório?

— E o tratou muito mal — confirmou a Baixinha; não entendia bem o sentido do que o Doutor dizia, mas agora tinha certeza de que entre ele e seu chefe havia uma cumplicidade bem maior do que poderia suspeitar. E não só jornalística, alguma coisa mais suja também. — Ele o xingou, dizendo que nunca daria um tostão para aquele pasquim asqueroso. E o botou para fora do escritório ameaçando dar-lhe uns pontapés no traseiro se não saísse dali a galope.

— E então, magoado e humilhado, o imbecil publicou as fotos da bacanal — concluiu o Doutor, bocejando de novo e fazendo um gesto de fastio. — Ele se deixou levar pela ira e fez a pior besteira da sua vida. Pagou caro, você viu. E olhe que eu avisei.

Encarou a Baixinha por longo tempo, em silêncio; ela não piscou nem fechou os olhos. Por que o Doutor lhe dizia essas coisas? O que queria exatamente que ela soubesse? Que tipo de ameaça ou advertência estava fazendo com as coisas que lhe contava e os segredos que revelava? Começou a tremer novamente. Ouvir o que estava ouvindo a deixava de novo numa situação de perigo.

— Não sei o que o senhor está tentando me dizer, Doutor — murmurou. — Não quero saber de mais nada, eu lhe peço. Sou apenas uma jornalista que quer viver e trabalhar em paz. Não me conte nada que ponha minha vida em risco, por favor.

— Rolando fez coisas que não devia ter feito — disse o Doutor, sem desviar a vista, como se não tivesse ouvido. Falava com uma postura filosófica, enquanto tomava mais um gole do café. — Em primeiro lugar, tentou chantagear o milionário pela ninharia de cem mil dólares. Depois, publicou aquelas fotos por conta de um chilique estúpido. E, principalmente, se comportou de forma irresponsável, sem me avisar o que pretendia fazer. Se tivesse agido com mais lealdade comigo, com mais serenidade, como se devem fazer as coisas, ele estaria vivo e talvez até fizesse um bom negócio.

— Por favor, não me diga mais nada, Doutor — suplicou a Baixinha. — Estou lhe implorando, não quero saber mais uma palavra sobre este assunto.

O Doutor fez uma expressão estranha sem tirar a vista da Baixinha, e esta achou que, de repente, estava hesitando.

— Como você vai trabalhar para mim, precisa saber de certas coisas — murmurou, levantando os ombros, sem dar muita importância ao caso. — Precisa se comprometer. Eu confio na sua discrição. Por interesse próprio, é bom você guardar a sete chaves tudo o que ouvir aqui. Muda como um túmulo.

— Certo, Doutor — concordou a Baixinha. E, quase sem transição, sabendo muito bem que não deveria fazer essa pergunta, acrescentou: — O senhor acha que Enrique Cárdenas mandou matá-lo?

O Doutor balançou a cabeça, negando.

— Ele não tem coragem para matar ninguém, é um molenga, um garoto mimado — afirmou, levantando os ombros de novo, num gesto depreciativo. — A essa altura já não tem a menor importância saber quem o matou, Baixinha. Rolando apostou errado e pagou por isso. Bem, não podemos perder mais tempo, vamos ao ponto. O que vai acontecer com a Revelações?

— Vai acabar — disse ela. — Que outro destino poderia ter a revista, sem Rolando?

— Poderia ressurgir com você na direção, por exemplo — respondeu imediatamente o Doutor, olhando-a com um brilho irônico nos olhos. — Tem capacidade para isso? Rolando achava que sim. Vou levar a sério essa boa opinião dele a seu respeito. Estou disposto a ajudá-la e a sustentar a revista. Decida sozinha quanto quer ganhar como diretora. Nós dois vamos nos ver pouco. Eu quero aprovar o número diagramado antes de ir para a gráfica e, às vezes, fazer as manchetes. Sou bom mancheteiro, pode acreditar. Só vamos nos encontrar em casos excepcionais. Mas teremos um contato semanal, por telefone, ou, se o caso for delicado, por intermédio de um mensageiro. O capitão Félix Madueño, não esqueça esse nome. Eu lhe direi quem tem que investigar, quem tem que defender e, principalmente, quem tem que foder. Peço desculpas outra vez pela grosseria. Mas repito, porque é a parte mais importante das suas obrigações comigo: foder quem quer foder o Peru. Como Rolando Garro fazia muito bem. Só isso, por enquanto. Fique sabendo, de hoje em diante você vai se dar muito bem. Mas não esqueça a lição: eu perdoo tudo, menos os traidores. Exijo lealdade absoluta dos meus colaboradores. Entendido, Baixinha? Até logo, então, e boa sorte.

Dessa vez, em vez de apertar sua mão, o Doutor se despediu dela com um beijo no rosto. Enquanto a Baixinha, encapuzada de novo, desandava o corredor, as escadas, e entrava no carro, sentiu o coração batendo com muita força. Estava assustada e exaltada, horrorizada e esperançosa. Em sua cabeça se cruzavam ideias e impulsos contraditórios. Por exemplo, organizar uma entrevista coletiva e, diante de uma sala repleta de jornalistas, sacudida pelos flashes dos fotógrafos, pedir desculpas públicas ao engenheiro Enrique Cárdenas e afirmar que o verdadeiro assassino de Rolando Garro era o Doutor, um gênio do mal. Um segundo depois, já se via sentada na cadeira do falecido diretor do semanário, chamando os redatores para preparar a edição da semana e cogitando quando iria se mudar, em que bairro se instalaria, como ia ser bom saber que nunca mais — nunca mais — precisaria pôr os pés nos becos caindo aos pedaços de Cinco Esquinas.