III. Fim de semana em Miami

Como tinham combinado, Marisa e Chabela se encontraram no aeroporto Jorge Chávez uma hora e meia antes da saída do voo noturno da LAN para Miami. Foram tomar uma água mineral na sala VIP enquanto esperavam a partida. Quase todos os lugares estavam ocupados, mas descobriram uma mesinha isolada, perto do bar. Marisa estava sem maquiagem e de cabelo solto, só com uma fita, com os fios louros esvoaçando, uma expressão fresca, calça cor de canela, mocassins e uma bolsa grande da mesma cor. Chabela, por sua vez, maquiada com esmero, usava uma saia verde-pálido, uma blusa decotada, um casaquinho de couro e sandálias. Seu cabelo preto estava preso com a longa trança de sempre, que descia por suas costas até a cintura.

— Que bom que o Quique deixou, que maravilha você fazer esta viagem comigo — disse Chabela, rindo, quando se sentaram. — E como veio bonita esta noite. Por que será?

— Achei que ia ser difícil convencê-lo, já tinha inventado um monte de histórias — riu Marisa, corando. — À toa. Ele me disse logo que sim, pode ir. Na verdade, meu marido anda um pouco estranho nos últimos dias. Meio avoado, nas nuvens. Mas, falando em beleza, você está linda, também, com essa trança exótica.

— Sei perfeitamente o que está acontecendo com Quique — disse Chabela, muito séria de repente. — A mesma coisa que acontece com Luciano, com você, comigo e com todo o mundo, filhinha. Vendo esses apagões, bombas, sequestros e assassinatos todo santo dia, ninguém pode ficar tranquilo nesta cidade. Neste país. Ainda bem que nós vamos nos livrar de tudo isso, pelo menos durante este fim de semana. Ainda não se sabe nada sobre o Cachito?

— Parece que os sequestradores pediram seis milhões de dólares à família — disse Marisa. — Um gringo da companhia de seguros veio de Nova York para negociar. O coitado já está desaparecido há mais de dois meses, não é?

— Eu conheço a Nina, mulher dele — fez que sim Chabela. — A pobre ficou muito abalada. Está indo a um psicólogo. Sabe o que mais me apavora, Marisa? Não é por Luciano nem por mim. É pelas minhas duas filhas. Tenho pesadelos pensando que podem ser sequestradas.

E contou a Marisa que ela e Luciano estavam cogitando contratar os serviços da Prosegur, uma empresa de segurança, para cuidar da casa e da família, principalmente das duas meninas. Mas custava uma fortuna!

— Quique também pensou nisso, depois que sequestraram o Cachito — disse Marisa. — Mas afinal desistimos, porque nos disseram que é perigoso. A gente contrata uns seguranças e depois eles mesmos nos roubam ou sequestram. Em que país resolvemos nascer, Chabelita!

— Parece que na Colômbia é pior ainda, Marisa. Lá não apenas sequestram, mas também cortam os dedos ou as orelhas da vítima para convencer a família e não sei quantos horrores mais.

— Que bom passar três dias em Miami, livres de tudo isso — disse Marisa, tirando os óculos e fitando a amiga com os olhos azuis cheios de malícia. Viu que Chabela estava um pouquinho ruborizada e, rindo para disfarçar, pegou e apertou seu braço. Ela então estendeu a mão, passou-a pelo cabelo da amiga e acrescentou: — Você sabe que esta trança fica fantástica em você, não sabe, amor?

— Morri de medo de que não aceitasse o meu convite — murmurou Chabela, abaixando um pouco a voz e apertando de novo o seu braço.

— Nem louca — exclamou Marisa e não conteve o gracejo: — Você sabe como eu adoro Miami!

Deu uma gargalhada, e Chabela a imitou. Riram por alguns momentos, as duas ruborizadas, olhando-se nos olhos com cumplicidade e uma pontinha de descaramento, disfarçando a turbação que sentiam.

Como de costume, a classe business estava lotada no voo da LAN. Elas tinham reservado a primeira fileira, de modo que ficaram um pouco isoladas do resto dos passageiros. Nenhuma das duas quis jantar, mas tomaram uma taça de vinho. Durante as cinco horas de voo falaram de muitas coisas, menos do que havia acontecido naquela noite, e quando, de repente, alguma alusão parecia evocar o assunto, desviavam a conversa para outra coisa dando uma risadinha nervosa. “O que vai acontecer em Miami?”, perguntava-se Marisa, de olhos fechados, sentindo que às vezes o sono a vencia. “Vamos continuar evitando o assunto?” Sabia muito bem que não, mas havia algo insinuante, perturbador, algo deliciosamente atrevido em tentar imaginar o que iria suceder e como sucederia. De repente Marisa pensou que, quando chegassem ao apartamento de Chabela, queria desmanchar devagarzinho a longa trança da amiga, sentir seu cabelo liso e pretíssimo correr entre os dedos, de vez em quando se inclinando para beijá-lo.

Chegaram a Miami junto com as primeiras luzes do dia. No aeroporto, Chabela pegou o carro que havia alugado em Lima e, como havia pouco trânsito àquela hora, chegaram rapidamente ao apartamento de Luciano num edifício de frente para o mar e para Key Biscayne, na Brickell Avenue. O porteiro de uniforme e boné, que tinha um sotaque cubano, pegou as malas e levou-as para o apartamento, uma cobertura moderna com vista panorâmica para a praia. Marisa estivera lá uma vez, a caminho de Nova York, mas já fazia uns anos desde então. Teve a impressão de que havia quadros novos nas paredes — entre eles o Lam que estava antes na casa de Lima, junto com outro de Soto e um desenho de Morales — e que tinham mudado a decoração.

— Ficou maravilhoso, Chabelita — disse. — Que bonito olhar o mar daqui. Vamos para a varanda.

O porteiro tinha deixado as malas na entrada. A vista da varanda, àquela hora do amanhecer, com a luz incerta, as copas das árvores, a longa fileira de edifícios de Key Biscayne e a espuma branca das ondas cortando simetricamente a superfície verde-azulada do mar, era soberba.

— Podíamos descansar um pouco, primeiro, e depois descer e tomar um banho de mar — disse Chabela, e Marisa, com o coração aos pulos, sentiu que a amiga falava em seu ouvido exalando um hálito morno junto com as palavras. Já a tinha segurado pelos quadris e a apertava contra seu corpo.

Não disse nada, mas, fechando os olhos, virou-se e procurou aquela boca que tinha começado a beijá-la e a morder devagarzinho seu pescoço, as orelhas, o cabelo. Ergueu as mãos, pegou a trança e meteu os dedos entre os fios de cabelo da amiga, murmurando: “Vai me deixar soltar esta trança? Quero ver seu cabelo solto e beijá-lo todinho, amor”. Abraçadas, agora sérias, saíram da varanda e, atravessando a sala de estar, a sala de jantar e um corredor, chegaram ao quarto de Chabela.

As cortinas estavam fechadas e reinava uma discreta penumbra no amplo dormitório atapetado, com quadros nas paredes — Marisa chegou a identificar um Szyszlo, um Chávez, o pequeno Botero e duas gravuras de Vasarely — e dois mimosos abajures, um de cada lado da cama, que parecia recém-arrumada. Enquanto uma despia a outra em silêncio, iam se acariciando e se beijando. Tonta de excitação e prazer, Marisa teve a sensação, durante aquele tempo congelado e intenso, de que uma delicada melodia vinha até elas, de algum lugar, como se tivesse sido expressamente escolhida para servir de fundo à atmosfera de abandono e felicidade em que estava imersa. As duas se amaram e gozaram e, enquanto isso, fora do quarto, longínquas, iam surgindo vozes, motores, buzinas, a luz externa recrudescia e Marisa chegou a pensar que as ondas estavam estourando cada vez mais forte e mais perto. Devagarzinho, exausta, foi escorregando para o sono. A trança de Chabela tinha sido desmanchada e sua cabeleira estava espalhada sobre o rosto, o pescoço e os peitos de Marisa.

Quando acordou já era pleno dia. Sentiu o corpo de Chabela encostado no seu; sua cabeça não estava no travesseiro, mas no ombro da amiga, e sua mão direita, sobre a barriga lisa e rígida que encostava na sua.

— Bom dia, dorminhoca — ouviu-a dizer e sentiu que roçava sua testa com os lábios. — Sonhando com os anjinhos? Você estava dormindo com um sorriso na boca.

Marisa se apertou contra Chabela, espreguiçando, beijando-a no pescoço, acariciando-lhe a barriga e as pernas com a mão livre. “Acho que nunca me senti tão feliz na vida, juro”, murmurou. Era verdade, sentia-se mesmo assim. A amiga então se virou, abraçando-a também, e disse com a boca grudada na sua, como se quisesse incrustar as palavras dentro do seu corpo:

— Eu também, amor. Passei todos esses dias sonhando em dormirmos juntas e acordar assim, como estamos agora. E me masturbava toda noite, pensando em você.

Beijaram-se de boca aberta, enlaçando as línguas, engolindo as salivas e esfregando as pernas, mas ambas estavam extenuadas demais para fazer amor de novo. Ficaram conversando, ainda abraçadas, com a cabeça de Marisa repousada no ombro de Chabela, a mão desta enleando os dedos, quase brincando, nos pelos púbicos ralos da sua amiga.

— Era verdade, havia música aqui — disse Marisa, escutando. — Eu ouvi, mas pensei que estava sonhando. De onde saiu?

— Deve ter sido a empregada que ligou quando veio limpar o apartamento — disse Chabela em seu ouvido. — Bertola, uma salvadorenha simpaticíssima, você vai conhecer. Ela mantém tudo impecável, paga as contas, deixa a geladeira cheia quando eu venho e é de toda confiança. Você não está com fome? Quer que eu faça um café da manhã?

— Não, ainda não, assim está gostoso, não levante — disse Marisa, segurando Chabela pelos quadris. — Gosto de sentir seu corpo. Você não sabe como estou feliz, coração.

— Vou confessar um segredo, Marisita. — E ela sentiu que a amiga, enquanto sussurrava em seu ouvido, mordia o lóbulo da orelha, devagarzinho. — Foi a primeira vez na vida que fiz amor com uma mulher.

Marisa tirou a cabeça do ombro de Chabela para olhá-la nos olhos. Estava muito séria e meio encabulada. Tinha uns olhos profundos, escuros, feições muito marcadas, uma cútis lisa e sem manchas, uma boca de lábios grossos.

— Eu também, Chabela — murmurou. — Primeira vez. Acredite se quiser.

— É mesmo? — respondeu a amiga, com cara de incredulidade.

— Juro. — Marisa voltou a pousar a cabeça no pescoço de Chabela. — E não é só isso. Quer saber de uma coisa? Eu tinha preconceito, quando ouvia falar que fulaninha gostava de mulher, que era invertida, eu sentia um pouco de nojo. Que idiota, não é mesmo?

— Eu, nojo não, sentia mais uma curiosidade — disse Chabela. — Mas, de fato, você só se conhece mesmo quando as coisas acontecem. Porque, naquela noite, quando eu acordei sentindo sua mão na minha perna e seu corpo coladinho nas minhas costas, senti uma excitação que nunca havia sentido. Comichão entre as pernas, o coração pulando pela boca, fiquei toda molhadinha. Não sei como tive coragem de pegar sua mão e…

— … colocá-la aqui — murmurou Marisa, tateando, abrindo-lhe as pernas, tocando o púbis, esfregando de levinho os lábios do seu sexo. — Posso dizer que amo você? Não vai se incomodar?

— Eu também amo você. — Chabela retirou a mão com carinho, beijando-a. — Mas não me faça gozar de novo, eu nunca mais me levantaria desta cama. Vamos abrir a cortina? Quero que veja como o mar está bonito.

Marisa viu-a sair nua da cama — constatou de novo que sua amiga tinha um corpo jovem e duro, sem um pingo de gordura, cintura estreita, peitos firmes —, e viu-a abrir a cortina apertando um botão na parede. Agora entrava pela janela uma luz intensa que iluminou todo o quarto. Era elegante, sem excessos nem afetação, tal como sua casa de Lima, tal como eram Chabela e Luciano em sua maneira de vestir-se e de falar.

— Não é linda a vista? — Chabela voltou depressa para a cama, cobrindo-se com o lençol.

— Sim, mas você é ainda mais linda, amor — disse Marisa, abraçando-a. — Obrigada pela noite mais feliz da minha vida, Chabela.

— Já fiquei excitada de novo, sua bandida — disse Chabela, procurando sua boca, tocando seu corpo. — E, agora sim, você me paga.

Levantaram-se no meio da manhã e prepararam o café de roupão, descalças, conversando. Marisa telefonou para o escritório e Enrique a tranquilizou, disse que estava muito bem, mas ela o achou esquisito e tristonho. Chabela não conseguiu falar com Luciano, mas sim com a mãe — que ficava na sua casa quando ela viajava —, que lhe disse que as duas meninas tinham ido para o colégio na hora certa e que iam telefonar logo que voltassem.

— Não se preocupe com Quique, Marisa — garantiu sua amiga. — Com certeza não aconteceu nada de especial com ele, é só o que todos os peruanos estão sentindo agora por causa dos malditos terroristas. Às vezes Luciano também tem essas depressões, como Quique. Na semana passada, por exemplo, ele disse que se as coisas continuarem assim vai ser mais sensato sair do Peru. Ele poderia trabalhar em Nova York, no escritório onde estagiou depois de se formar na Columbia University. Mas eu não me empolgo muito com a ideia. Não quero ficar longe da minha mãe, que já vai fazer setenta anos. E não sei se gostaria que minhas filhas fossem educadas como duas gringuinhas.

Tomaram um bom café da manhã, com suco de frutas, iogurte, ovos quentes, english muffins e café, e decidiram não almoçar para de noite irem jantar num bom restaurante em Miami Beach.

Quando Marisa perguntou a Chabela quais eram os consertos que precisava fazer no apartamento, esta soltou uma gargalhada:

— Nenhum. Foi só um pretexto; inventei isso só para fazer esta viagem e trazer você a Miami.

Marisa pegou sua mão e beijou-a. Vestiram roupa de praia e, armadas de toalhas, cremes, óculos escuros e chapéus de palha, foram tomar sol na areia. Havia pouca gente e, apesar de fazer muito calor, uma brisa fresca suavizava o clima.

— E se Luciano soubesse? — perguntou Marisa à amiga.

— Morreria — respondeu Chabela. — Meu marido é o homem mais conservador e puritano do mundo. Imagine que até hoje quer fazer amor de luz apagada. E Quique, o que ele diria?

— Não sei — disse ela. — Mas não creio que ficasse tão horrorizado. Com aquele jeitinho todo bem-comportado, ele tem muita coisinha suja na cabeça. Quer saber um segredo? Às vezes ele me diz que a fantasia mais excitante que tem é me ver fazendo amor com uma mulher e depois com ele.

— Ah, caramba, quem sabe poderíamos lhe dar esse prazer — riu Chabela. — Quem diria, com aquela cara de mosquinha-morta que seu marido tem...

Depois as duas confessaram que tinham muita sorte com seus maridos, que os amavam muito, que eram felizes com eles. Aquilo que estava acontecendo entre elas tinha que ficar no maior segredo para não prejudicar em nada seus casamentos; serviria, mais, para temperá-los e mantê-los sempre ativos.

À tarde iriam fazer compras, talvez ir a um cinema, e depois jantar no melhor restaurante de Miami Beach ou de Key Biscayne, com champanhe francês. Ia ser um fim de semana verdadeiramente inesquecível.