CHORO PORQUE
SOU HUMANO

Aconteceu uma coisa incrível comigo: tirei minha roupa de super-herói. Deixei de lado a capa, os supostos superpoderes e até mesmo meu coração de pedra, aquele insensível que só bombeia sangue para enrijecer os músculos, para me dar uma força incomensurável para continuar.

É meio louco isso que acabei de dizer, não é? Sei que você deve estar pelo menos um pouquinho curioso. “Que porra é essa de superpoderes que ele está falando? Será o efeito de alguma droga alucinógena? Será que ele bebeu?” A resposta é sim para todas essas perguntas e mais uma porção de outras que você vai fazer até o final deste desabafo.

Eu era um jovem como milhares de outros espalhados mundo afora. Confesso que nunca fui o mais sexy, o mais engraçado nem mesmo o mais extrovertido. Sempre morei dentro de mim. Sempre participei das rodas de conversa falando mais comigo mesmo do que com qualquer outra pessoa que estivesse à minha frente. Mas isso são só detalhes. Trejeitos. Até aí, nada de anormal.

Minha vida mudou mesmo na primeira decepção amorosa. Nossa... Que grande merda! Até então eu me sentia inteiro. Depois, aos pedaços. E cada caco do meu peito trouxe consigo uma sequela diferente depois que lutei contra todos os sentimentos possíveis para colocar cada coisa em seu devido lugar.

Desde que o amor me fez de trouxa, o ciúme, a insegurança, a ansiedade, a insônia, a falta de apetite ou a fome exagerada, a angústia, o medo e vários outros amigos sombrios começaram a me oferecer alento, carinho. Me deram abrigo e me mostraram um caminho seguro por onde andar. Apontaram a saída para escapar do fundo daquele poço.

Você já pode imaginar onde tudo isso foi dar. Deu no que sou hoje. Para facilitar as coisas, não precisa me analisar muito. Acontece que, com o passar das noites em claro, renasce dentro de cada um de nós uma versão mais sóbria, durona e que engole o choro. Cada topada é um novo trauma, um novo bloqueio, principalmente sentimental. E me tornei assim. Sou frio. Ou fui, até ontem à noite.

Quando tirei a roupa de super-herói ontem, antes de dormir, me permiti entrar em contato com sentimentos que eu jurava ter matado dentro de mim. E, de antemão, garanto uma coisa: chorei como poucas vezes em toda a minha existência. Parecia que uma barragem havia se rompido e meu peito se esvaía em lágrimas. Em prantos. Um choro baixinho, silencioso, calado, para ninguém acordar. Para nem sequer as paredes se darem conta do que estava acontecendo. Não me julgue por me esconder assim... Esse foi só o primeiro passo.

Sei que até agora nada faz muito sentido para você, mas talvez, depois desse conselho, sua vida mude e tudo o que eu disse ganhe algum significado: não morra dentro de você. Não permita que nada nem ninguém mate a sua essência. O que e quem você é. Seus sentimentos.

Em hipótese alguma permita que filho da puta nenhum arranque de você o direito de chorar. De se arrepiar. De se arrepender. De se apaixonar. De pirar. De enlouquecer. De se lembrar a cada anoitecer de que o dia seguinte vai ser melhor do que a noite de hoje, porque é justamente isso o que acontece.

Durante muito tempo, eu me senti dormente. Adormecido. Como se alguém tivesse anestesiado meu corpo, minhas sensações, meus sentidos. Talvez a barragem que se rompeu em mim tenha deixado vazar uma espécie de xilocaína que amortece sentimentos. Essa era a droga com a qual eu me dopava. Esse era o meu superpoder. A vodca com que me embebedava. O HOMEM QUE NÃO SENTIA NADA. Que tosco!

Eu poderia ser o Batman!

Deixei minha capa de lado para vestir meu pijama e chorar vendo uma série, o comercial do Dia dos Namorados. Aceitei minha condição de ser humano que ri, que perde a linha, que nem sempre sabe o que falar, que nem sempre sabe o que quer comer, que não tem só uma cor favorita e que adora as músicas que causam arrepios.

Hoje não sou mais o mesmo cara que acordou ontem pela manhã porque me permiti uma coisa que a sociedade dos contentes condena: eu chorei. Feito criança de colo com fome. Feito a minha mãe assistindo a um filme. E foi bom. Pela primeira vez eram lágrimas de felicidade. Até isso mudou. Nunca tinha experimentado deixar a felicidade me invadir em forma de lágrimas.

Por isso eu peço: não se transforme em mais um insensível que passa o dia replicando que está feliz em todas as redes sociais e não se comove com a situação do país, com as crianças que sentem fome, com a guerra no Oriente Médio, com a porra do amor que a gente queria a todo custo que fosse correspondido ou que durasse pelo menos cem anos e só acabasse quando os motivos fossem suficientes para recomeçar. UFA!

Sou um super-herói aposentado. De hoje em diante, o dia será salvo pela minha consciência tranquila ao encostar a cabeça no travesseiro e ter a certeza absoluta de que me permiti sentir tudo que era possível.

E antes que este papo acabe, quero dar uma banana imaginária para todos aqueles repressores dos choros em público. Para todos aqueles que acham besteira se emocionar, se render aos sentimentos. Minha próxima etapa é assistir a um filme água com açúcar e ver no que dá... Mentira. Não preciso mudar meu gosto para dizer que sou chorão.

É isso. Até logo.

Eu disse chorão? Não precisa tirar sarro por isso.