Outras histórias paralelas:
Flaherty e Malinowski

É interessante traçar um paralelo entre dois trabalhos cujos métodos e propostas estiveram bem próximos sem necessariamente terem se tocado. Estamos nos referindo ao cineasta Robert Flaherty com seu Nannok of the North, de 1922, por muitos considerado o marco inicial do cinema documental, e ao antropólogo Bronislaw Malinowski com Argonautas do Pacífico Ocidental, também de 1922, considerado o marco do método do moderno trabalho de campo na antropologia.

O século XIX, em seu contexto social e histórico, marcado pela busca da compreensão e assimilação do mundo pelos europeus, caracteriza o surgimento e consolidação da etnografia e dos registros visuais, como a fotografia e o cinema, apontando para questões fundamentais sobre essas formas de representação da realidade social. As expedições científicas multidisciplinares e as técnicas fotográficas e fílmicas, que se multiplicam a partir dessa época, vão possibilitar o registro de acontecimentos de um mundo mais amplo que o delimitado pelo continente europeu e permitir a apreensão da diversidade racial e social.

É também no final desse século que a ambição do Ocidente em organizar o mundo se traduzirá em processos como o da expansão colonial. A ciência, o cinema e a fotografia assumem lugares fundamentais como disciplina e instrumentos privilegiados para a observação da experiência humana. A investigação científica propicia à empresa civilizadora dos estados-nações europeus a certeza da existência de uma medida racional que explica a diversidade racial e cultural do mundo, que a expansão colonial explora, e mesmo justifica a legitimidade dessas formas de ação. O cinema e a fotografia garantem a esse mesmo movimento civilizador um caráter de objetividade ao materializar corpos e hábitos que se tornam assim passíveis de catalogação e classificação.

Ainda nesse período, a etnologia dos “antropólogos de gabinete” realiza-se a partir dos registros visuais e escritos que os missionários e funcionários do governo e das expedições científicas traziam do campo. Nesse método de organização dos dados científicos, o cinema assumirá o papel de objeto significante que representará em imagens uma determinada realidade empírica. O registro de outros povos, em imagens fílmicas e fotográficas, é, dessa forma, construído por meio de elementos que distinguem e caracterizam a relação ambígua entre homem e natureza, apresentando imagens de seres humanos que os europeus pensam estar mais próximo da natureza do que da civilização.

O período entre o final do século XIX e o início do XX é, portanto, fundamental para o desenvolvimento da antropologia e do cinema. Nele, nem documentário, nem etnografia científica são categorias consolidadas, e esse momento pode ser considerado de formação, no qual se reconhece a necessidade de novos métodos, abordagens e técnicas para lidar com a humanidade, em seu sentido amplo. Com a expansão do capitalismo, a criação de mercados mundiais e a intensificação da industrialização há uma revisão dos conceitos de tempo e espaço e das teorias evolucionistas. Conceitos como bárbaros e civilizados passam por profundo processo de revisão e a fotografia e o cinema se afirmam como parte integrante e ao mesmo tempo integradora do mundo, mostrando coisas até então não vistas por olhos europeus.

As primeiras décadas do século XX foram um período de grandes turbulências e transformações. As ciências e as artes, com suas buscas metodológicas, estéticas e de linguagem, procuram criar novas formas de conhecimento e representação de um mundo imerso em processos de transformação acelerada, crises e turbulências. Nessa busca, torna-se importante o contato com o mundo em primeira mão, tarefa naquele momento pensada como possível com os novos métodos etnográficos e instrumentos de registro audiovisual. Cientistas e cineastas, lançando mão de diferentes recursos, buscam de alguma maneira responder à questão a respeito de para onde caminharia a “civilização”.

A Primeira Guerra Mundial introduz vários elementos no processo de conhecimento sobre os povos não europeus; coloca em xeque, por exemplo, os modelos evolucionistas da humanidade, evidenciando a “barbárie” presente no homem civilizado europeu e abrindo a possibilidade de se perceber uma “civilização” no coração do homem selvagem. Inseridos nesse contexto, tanto Malinowski quanto Flaherty vão em busca da construção de um novo olhar sobre os chamados povos primitivos. Para o primeiro, era necessária a construção de um novo método de pesquisa que possibilitasse à antropologia ter acesso ao “ponto de vista do nativo”. O segundo aspirava a um novo método de realização capaz de construir um filme que apresentasse os nativos em sua luta cotidiana. Ambos realizaram em seus trabalhos um movimento de perceber esses povos em seus próprios termos por meio da identificação de semelhanças aparentes que eram transformadas em diferenças pelos processos de construção das respectivas representações etnográficas e fílmicas.

Novo olhar etnográfico. Malinowski inicia sua carreira como antropólogo nesse momento de definição e consolidação da disciplina, no qual as experiências das expedições científicas do final do século anterior incentivaram, pelo menos na Inglaterra, as pesquisas realizadas em campo, em oposição aos estudos de gabinete empreendidos até então. Nos Estados Unidos Franz Boas também fará um trabalho pioneiro nesse sentido, mas é o de Malinowski que será consagrado como aquele que inaugura o moderno método etnográfico. Em 1914 Malinowski foi surpreendido em campo, na Melanésia, pela Primeira Guerra Mundial. Impedido de retornar à Europa, iniciou uma nova pesquisa nas ilhas Trobriand, onde permaneceu por quase dois anos distribuídos em duas viagens. Essa longa permanência em meio ao grupo estudado introduziu uma nova postura no método do trabalho de campo, que permitia o acompanhamento e a participação do pesquisador na vida social e cotidiana de seu objeto de estudo. A experiência trouxe para discussão não só ricos dados etnográficos sobre os trobriandeses, como também uma série de questões de ordem epistemológica que influenciaram profundamente os fundamentos da disciplina.

Para Malinowski a pesquisa de campo é fundamental justamente por permitir, pela convivência intensiva, o acesso a um rico material sobre as várias instâncias da vida do grupo, sempre orientado pelo cotejamento do que seus informantes dizem com o que ele observa. Segundo Malinowski, salienta Eunice Durham, “é necessário contrapor as idéias às emoções, o comportamento observado ao comentário que sobre ele tece o nativo, a visão que o antropólogo constrói da cultura à síntese inconsciente que, presente na ‘cabeça do nativo’, orienta e dá significado às suas ações”.

Esse cuidado com a observação e as formas de utilização dos dados empíricos é fundamental no trabalho que ele desenvolve, pois é essa a forma possível de penetrar e compreender a especificidade dos diferentes grupos sociais. A busca de maneiras de perceber e entender a lógica própria de cada grupo é um dos princípios que norteiam sua prática antropológica. Seu objetivo é reconstruir uma realidade cultural específica como um universo integrado e singular de significados.

Essa postura é uma crítica contundente à forma evolucionista de pensar os diferentes grupos humanos, pois na abordagem de Malinowski não fazia sentido uma comparação entre eles por meio de elementos isolados da vida social. É preciso entender o grupo em sua lógica e seus contextos específicos, pois eles formam um sistema integrado no qual um elemento depende do outro. A realidade social de cada grupo é considerada uma totalidade que deve ser compreendida internamente.

Esse procedimento teórico leva Malinowski a construir um modelo de análise, que chamamos de “presente etnográfico”, em que o pesquisador isola um determinado grupo no tempo e no espaço, mergulhando nessa realidade justamente para dar conta de perceber e compreender seu funcionamento como uma totalidade. Para Malinowski, cultura não é apenas um conjunto de manifestações rituais, mas um conjunto amplo que inclui também as técnicas e tecnologias empregadas na vida prática, a arte, a religião e as próprias relações sociais, todas integradas e inter-relacionadas. O ponto de partida para a compreensão dessas múltiplas facetas é a ação concreta dos indivíduos.

A novidade do trabalho de Malinowski está no método de pesquisa e no conteúdo a partir dele elaborado, e também na forma com que organizava e trazia a público sua pesquisa. Seus textos etnográficos são muito ricos em imagens. Neles, os trobriandeses são descritos em toda sua vivacidade e humanidade. Os leitores são levados a esse mundo tão diferente do nosso pela compreensão. Os costumes “estranhos” ou “selvagens” tornam-se pouco a pouco familiares, já que são compreensíveis. Suas atitudes não são apenas do mundo da natureza, mas profundamente humanas, posto que investidas de sentido, de uma lógica própria, e referenciadas a um universo simbólico compartilhado.

Novo olhar cinematográfico. Ainda no início do século XX, algumas experiências de realização fílmica vinculadas a contextos etnográficos acontecem na América, e o cinema consagrado ao real torna-se bastante popular. Edward Curtis, conhecido por suas séries fotográficas sobre os índios norte-americanos, faz um épico sobre os Kwakiutl denominado In the Land of the Head Hunters (1914), renomeado ao ser relançado em 1973 como In the Land of the War Canoes, após remontagem e sonorização realizadas a partir de fragmentos do original pela University of Washington e o Burke Museum. Nesse filme Curtis constrói uma ficção, uma história romântica protagonizada por um casal kwakiutl, entremeada de danças, rituais e diversos aspectos da cultura material dos Kwakiutl. A visão romântica desse filme, associada à feitiçaria e a rituais exóticos, deixou marcas importantes no imaginário construído a respeito dos grupos indígenas norte-americanos e no cinema produzido por Hollywood nos anos 1940 e 50.

Também nesse período, no Brasil, o major Luiz Thomaz Reis, responsável pela Seção de Cinematografia e Fotografia da Comissão Rondon, enveredou por um caminho em que a realização fílmica estava vinculada a contextos de grande interesse etnográfico. As atividades da Comissão abrangeram um amplo território fronteiriço e, até aquele momento, pouco conhecido do interior do Brasil, e ao longo dos anos de atuação, seus membros travaram contato com inúmeros grupos indígenas, muitos ainda desconhecidos.

Desses anos de atividades resulta o enorme legado a que hoje temos acesso na forma de publicações, documentos, relatórios, estudos de caráter etnográfico e lingüístico, fotografias e filmes. O major Reis foi peça fundamental nesse processo de documentação imagética, deixando-nos filmes como Rituais e festas Bororo, de 1917, de expressiva importância para a história do filme etnográfico, dados seu pioneirismo e sua proposta narrativa, alinhada às novidades da época. Reis aborda de maneira singular um importante ritual do grupo indígena bororo, do Mato Grosso, buscando construir seu sentido a partir de elementos da lógica local, fato raro em contexto de absoluta exotização, cuja pauta era tratar filmicamente elementos de outras culturas.

Esse filme faz parte de um conjunto mais amplo de imagens produzidas pela Comissão Rondon e traduz um momento da construção da imagem do índio como ser intocado, exemplo de uma cultura que mantém intacta suas práticas tradicionais e que, em virtude do contato permanente com as frentes de expansão, é “assimilado”, “civilizado” e finalmente incorporado à sociedade nacional, como apontam os filmes posteriores.

Em 1922, Robert Flaherty realiza seu filme sobre os esquimós, Nanook of the North, e, tal como Malinowski fizera entre os trobriandeses, segue um plano de inserção no contexto de trabalho baseado numa longa permanência entre o grupo. Ao observar a cultura nativa, Flaherty introduz o conceito de câmera participante, que não só toma parte dos eventos registrados, mas também procura refletir a perspectiva do nativo. Isso se realiza por meio das exibições do material filmado, ao longo da produção do filme, aos Inuit (denominação moderna para os esquimós) e na abertura para seus comentários, que iam sendo incorporados ao processo de realização do filme.

Outro grande mérito desse filme reside no fato de o espectador ser levado a identificar-se com pessoas reais que pertencem a um contexto social definido e distinto. A representação desses indivíduos é marcada por sua luta incessante contra uma natureza hostil e pela afirmação do homem como agente, temas recorrentes nos filmes posteriormente produzidos por Flaherty, como Moana (1926), Man of Aran (1934) e Louisiana Story (1948).

Tanto quanto Malinowski, Flaherty acreditava que a história deveria emergir do material de campo. Ele, contudo, reconstrói esse mundo a partir de uma perspectiva que é, em alguns sentidos, fixa. Sua câmera é estática, obviamente também por causa dos limites técnicos da época, que colocavam à disposição dos realizadores câmeras pesadas e películas lentas. No entanto, essa postura também contribui para a circunscrição da abordagem que, como na etnografia de Malinowski, cria uma idéia de presente etnográfico. Flaherty passou 12 meses filmando Nanook, interessado, como estivera Malinowski, em traçar o perfil de uma cultura por meio das ações dos indivíduos que lhe dão corpo. Havia então grande consciência da pessoa como indivíduo único e da importância de falar sobre as culturas por meio de seus sujeitos e de suas práticas.

Seu interesse pelos Inuit inicia-se com uma viagem realizada em 1910 a fim de trabalhar em estudos preliminares para a construção de uma ferrovia no norte do Canadá. Flaherty produziu, durante seis expedições que realizou à área ocupada por esse grupo, uma grande quantidade de material fílmico, que foi perdido em um incêndio depois de seu retorno a Toronto. Felizmente, comenta o próprio Flaherty em artigo escrito na época sobre a realização de Nanook, justificando-se por considerar aqueles filmes ainda muito amadores.

A partir daí cresceu seu interesse pelo cinema e, em 1920, inicia uma nova filmagem, agora com patrocínio de uma empresa que comercializava peles. Seu aparato técnico incluía também a possibilidade de revelar os filmes em campo, o que permitia mostrá-los aos Inuit à medida em que eram feitos, compartilhando dessa forma o processo de realização.

Nanook era um dos líderes do grupo de esquimós e tornou-se seu principal informante. Durante as filmagens, três rapazes também auxiliavam Flaherty, porém muitas outras variáveis estavam envolvidas — esposas, famílias, cachorros, trenós, caiaques e equipamento de caça. No filme, uma seqüência se destaca pela dramaticidade: a caça à foca. Nela, acompanhamos Nanook munido de um arpão andando em solo gelado e olhando com atenção para onde seus pés pisam. Ele procura algo. Pouco depois o vemos observar um pequeno orifício em meio a grossa camada de gelo e arremessar seu arpão em direção a algo dentro dele. A partir daí um longo processo se inicia. Parece que Nanook de fato acertou com seu arpão um animal, que, contudo, parece resistir bravamente à captura. Nanook puxa e é puxado. Tenta novamente içar o animal da água e é novamente puxado. Após várias tentativas, chama seus companheiros e sua família para ajudá-lo.

Essa é uma das mais belas cenas do filme: num plano com enorme profundidade de campo vemos em primeiro plano Nanook agarrado à corda presa ao buraco e, atrás dele, chegando até o horizonte longínquo, um imenso branco, no qual alguns pontos pretos atestam a presença de outros homens. Aos poucos, num grande plano-seqüência vemos essas pessoas e, agora também, cães se aproximarem. Todos, homens, mulheres e crianças, num esforço coletivo, finalmente conseguem trazer o animal à superfície. Ao final dessa longa seqüência, na qual nos envolvemos intensamente, todos comem com expressão de rejúbilo a carne da foca recém-caçada.

Essa foi justamente a primeira seqüência filmada e a todos mobilizou. Foi também a primeira parte do filme vista pelos esquimós durante o processo de realização de Nanook, e a primeira vez que eles assistiram a um filme. O diálogo estabelecido com Nanook e seus companheiros ao longo de todo o processo de filmagem — intensificado justamente por essa experiência de devolução do material filmado ao grupo — é o que firma uma relação de confiança entre Flaherty e seus sujeitos e marca todo o trabalho realizado. Nanook contava suas façanhas a Flaherty e esperava que ele tivesse interesse em filmá-las. No caso da seqüência da caça à foca, foi exatamente isso que aconteceu.

Tanto Flaherty quanto Malinowski estavam interessados em um modo particular de ver e reconstruir a realidade tratada: uma representação estável em termos de tempo e espaço e com uma certa “aura”. As transformações não eram o foco de interesse, como se ao serem abordadas pudessem colocar em risco a permanência da especificidade desses povos. Tanto o trabalho de campo quanto a imagem em movimento foram utilizados para elaborar uma imagem totalizante e única dessas sociedades, além de serem narrativas contundentemente realistas. Enquanto Malinowski procurou retratar o ponto de vista do nativo trobriandês, o filme de Flaherty procurou descrever o mundo dos Inuit a partir de Nanook.

Nanook of the North foi o primeiro filme ao qual se aplicou o termo documentário, cunhado por John Grierson, cineasta inglês atuante nos anos 1930 que defendia a criação de um gênero fílmico específico, preocupado com a representação da realidade. Flaherty era um cineasta amador e viajante, exatamente o tipo de perfil de trabalho do qual a moderna antropologia científica queria se distanciar nesse período de consolidação de novos paradigmas na disciplina. Provavelmente por esse fato ele foi ignorado pelos antropólogos por muitos anos. No entanto, podemos perceber que a ameaça não estava na figura do aventureiro, mas na postura consciente, compartilhada por Malinowski, da necessidade de provocar uma reflexão sobre a natureza da humanidade.