Qual o lugar da imagem na pesquisa antropológica?

Até aqui exploramos alguns aspectos do desenvolvimento paralelo do cinema e da antropologia demarcando os pontos de contato e a consolidação de uma prática audiovisual no campo antropológico. Olhando, porém, para esse longo processo de desenvolvimento, cabe perguntar acerca dos usos da imagem em geral e da imagem em movimento, em particular no âmbito da antropologia. Imagem como método ou técnica adotados na pesquisa de campo, dado bruto de pesquisa ou registro, expressão de um processo de pesquisa e ainda a imagem, ou narrativas visuais e audiovisuais, como objeto de análise para a antropologia são alguns dos caminhos abertos nesse sentido.

Se é verdade que a antropologia sempre teve grande interesse pelo visual, é também evidente sua dificuldade quanto à maneira de lidar com ele na prática antropológica, o que se expressa na própria dificuldade em definir um estatuto claro para esse campo.

Historicamente, como vimos, o foco na utilização de imagens estava a princípio direcionado para o conteúdo, para uma alternativa “mais segura” e mais “objetiva” de registro das observações de campo. A câmera era considerada quase um instrumento de precisão, mas aos poucos o recurso da imagem na pesquisa antropológica foi-se descolando da função de registro de dados etnográficos e ganhou outras possibilidades.

Produção de imagens como método ou técnica adotado na pesquisa de campo. Mesmo quando o propósito do uso de imagens na pesquisa possui um cunho mais “documental” de registro de informações e situações de campo, elas podem ser utilizadas no trabalho com uma série de variações. A produção de imagens no âmbito da pesquisa de campo pode, nesse sentido, ater-se a uma aderência “realista”, na qual elas figuram como material comprobatório da presença do antropólogo em campo, um exemplo “palpável” de situações e contextos etnográficos ou ainda como descrições visuais destas mesmas situações.

Há, contudo, outra aproximação, segundo a qual essas imagens captadas no processo de pesquisa são, elas mesmas, objeto de reflexão e análise. Neste último caso, a imagem não é vista como dado empírico objetivo, mas como ponto de partida para uma reflexão conjunta sobre determinados contextos e situações, e podem ou não constituir material a ser incluído no formato final de apresentação dos resultados da pesquisa, seja tese, artigo ou relatório. São imagens de um processo e a decisão de expô-las na reflexão final depende das escolhas e dos objetivos do pesquisador.

Nessa situação, podemos citar, como exemplo, imagens captadas que são utilizadas como parte da devolução do trabalho do antropólogo aos grupos pesquisados, como vídeos e fotografias que são mostrados e comentados pelos sujeitos durante o próprio processo de pesquisa, e também imagens utilizadas com mediadores para o estabelecimento de vínculos com os sujeitos no campo, como retratos e gravações em vídeo por eles solicitadas e cuja realização firma importante reciprocidade para o desenvolvimento da pesquisa.

A imagem como expressão de um processo de pesquisa. O desenvolvimento estético do documentário influenciou profundamente os moldes do filme etnográfico. Se, por um lado, os cineastas contribuem para o questionamento da objetividade e do realismo do registro fílmico — e desse aspecto a antropologia dificilmente conseguirá se desvencilhar —, por outro lado, os antropólogos contribuem para o questionamento sobre a forma de apreensão e interpretação da realidade filmada.

A antropologia que mobiliza imagens em sua prática mostra que, isoladamente, a observação possui limitações quanto à produção de conhecimento. Mostra que a pertinência da observação etnográfica está centrada na construção de um olhar compartilhado, resultante da interação e do confronto entre universos culturais distintos. Pensamos que é nesse aspecto que o filme etnográfico pode potencialmente distanciar-se do filme documentário convencional.

Existe uma longa discussão sobre a pertinência ou não da denominação filme etnográfico e ela também se confunde com a discussão mais geral da definição de um campo para a prática antropológica que lida com a imagem. De forma geral, essa categoria é pleiteada por antropólogos que realizam filmes e vídeos em suas pesquisas e sentem necessidade de distinguir essa realização das empreendidas pelos meios de comunicação de massa ou mesmo por cineastas e jornalistas, que atuariam orientados por objetivos diversos do projeto antropológico.

O primeiro elemento levantado como bandeira é a presença de uma longa pesquisa que informa e forma o filme. Não basta o tema ou o contexto de realização do filme ser “tipicamente” etnográfico, como grupos minoritários ou tradicionais, ou conflitos sociais. Para ser classificado como etnográfico, seu processo de realização deve ser informado por preocupações antropológicas. A realização do filme deve fazer parte de um processo de reflexão antropológica na qual ele se afirma como expressão.

À parte toda uma discussão sobre os graus de valor etnográfico, ou sobre o quanto um filme pode estar mais próximo ou mais distante dos propósitos antropológicos, encabeçada por Karl Heider em seu livro sobre o filme etnográfico, talvez a busca de uma especificidade desse tipo de filme se coloque no âmbito de um processo também específico de realização. Nesse sentido, nem sempre essa característica é visível no produto final.

Muitas pessoas julgam precipitadamente que o filme etnográfico deva ter técnica e estética toscas, como se esse dado fosse menos importante que o conteúdo tratado. Contudo, percebemos nos exemplos de Jean Rouch e David MacDougall que tanto técnica como estética são elementos constitutivos do que a linguagem audiovisual pode oferecer como possibilidades para uma reflexão acerca de um tema de interesse antropológico.

O julgamento que se apóia em morfologias a fim de conferir ao filme um rótulo ou mesmo um status — e, no fundo, é disso que se trata — vai depender de informações que invariavelmente estão fora do filme e esvaziam discussões de natureza classificatória.

Quando falamos a respeito da imagem como expressão de um processo de pesquisa, estamos de certa forma assumindo o quão estéril pode ser a tentativa de classificar e rotular uma prática, o que não significa, entretanto, que estamos renunciando a refletir sobre a especificidade dessa prática.

Podemos retomar, nesse sentido, o conceito de “cinema intertextual” de David MacDougall, ou seja, que o espaço de realização do filme serve também à reflexão, desde que pensado como o lugar do encontro e possibilitando, dessa forma, um entendimento da produção de imagens ou narrativas audiovisuais como inseparáveis da produção de questões teóricas no âmbito de uma pesquisa etnográfica.

Nesse caminho vão também as reflexões de Etienne Samain ao afirmar que as linguagens audiovisuais definem formas específicas de apreensão do mundo e proporcionam estilos cognitivos e modos de compreensão e interpretação próprios. Elas oferecem alternativas para a construção de modos de ver, elaborar e construir o conhecimento.

Assim, além de método, as linguagens visuais e audiovisuais promovem “matrizes gerativas de uma outra maneira de pensar novos e velhos campos da antropologia” e se mostram particularmente eficazes para compreender em novas direções o imaginário humano, individual e coletivo.

Imagens ou narrativas visuais e audiovisuais como objeto de análise. Imagens fotográficas, fílmicas e, mais recentemente, videográficas retratam a história visual de uma sociedade, expressam situações significativas, estilos de vida, gestos, atores sociais e rituais e aprofundam a compreensão de expressões estéticas e artísticas. Nesse caso, o que está em jogo é a análise de imagens e discursos visuais, produzidos no âmbito de uma cultura, como uma possibilidade para dialogar com as regras e os códigos dessa cultura. Imagens podem ser utilizadas como meio de acesso a formas de compreensão e interpretação das visões de mundo dos sujeitos e das teias culturais em que eles estão inseridos.

Nossa sociedade confere ao olhar um enorme poder. Até mesmo os atos de pensar e de conhecer parecem ter origem no olhar, se levarmos em conta disciplinas como a antropologia, que se baseia sobretudo no método da observação. Partindo desse princípio, construímos todo um conjunto de códigos e significações fundamentados na experiência visual que são, na maioria das vezes, naturalizados. Podemos perceber facilmente o quanto a leitura e a escrita requerem um longo esforço de aprendizagem, mas não costumamos considerar o mesmo em relação às linguagens visuais. Talvez por estarem ligados a nossas relações mais primárias com o mundo, olhar e ver não se distinguem.

O antropólogo que lida com a imagem não pode, no entanto, destituir o olhar de sua força de significação. O olhar capta o que pode significar, diferentemente da visão, que é uma competência física do corpo humano. Sua visão é genérica, o olhar é intencional, e as formas de olhar são resultado de uma construção que é cultural e social.

Os trabalhos antropológicos que lidam com a análise da imagem nessa perspectiva lidam também com o cruzamento de olhares: o do autor das imagens, os dos sujeitos da imagem e o do próprio pesquisador. É nesse cruzamento de intencionalidades que reside a possibilidade de pensar a imagem como um objeto fértil para a reflexão antropológica.

A imagem sempre esteve presente na experiência humana se a entendermos como qualquer representação da “realidade”. No entanto, no mundo contemporâneo, ela se tornou o centro das formas de fruição do mundo — está nas ruas, nas casas, no céu, nas roupas, nos jornais, nos carros, formando uma espécie de banco de referências para a construção da experiência cotidiana. A comunicação se estabelece por meio de signos e estes se transformam culturalmente em significações. As representações são justamente as manifestações exteriores dessa significação construída pelos indivíduos em seu fazer cotidiano. Uma representação não é uma realidade observável, mas um conjunto abstrato que só conhecemos por certas manifestações exteriores que reconstituímos mediante relatos, imagens e narrativas.

Nesse sentido, o contexto em que as imagens são construídas e articuladas é fundamental para percebermos os possíveis significados criados. O contexto é crucial na análise dos filmes não por ser definitivo, mas por ser provocativo, sugestivo, por viabilizar a construção de um quadro de possibilidades. As imagens que compõem um filme são elementos que, considerados em conjunto, nos permitem pensar, articular significados que, de forma isolada, não aconteceriam.

Que representações surgem na produção cinematográfica de uma época ou de um grupo social? Que imagens se integram às representações? Em que medida, no cinema, essas representações se tornam coletivas? Trabalhar com filmes exige saber que se está trabalhando com a representação de um imaginário cotidianamente recriado e em movimento.

Uma forma bastante comum de olhar a relação entre cinema e sociedade é a que define o primeiro como um reflexo da segunda. Talvez essa seja a forma mais imediata, embora também a mais enganosa, de lidar com essa relação.

Outra visão, a nosso ver mais rica e cheia de possibilidades, é a que encara a relação entre cinema e sociedade como uma rua de mão dupla. O cinema é, sim, produto das formas pelas quais uma sociedade constrói suas representações. Um filme opera os códigos culturais da sociedade da qual ele é originário. Ele faz parte de um contexto. Mas esse mesmo filme, por suas características de interação com o indivíduo por meio de sua linguagem, possibilita um retorno, de forma “digerida” ou “ressignificada”, dessas representações para a sociedade. O cinema faz parte da realidade social contemporânea e, como parte irredutível do social, constitui uma dimensão pela qual os homens constroem a percepção de si mesmos e do mundo.

Dessa perspectiva, o cinema não pode ser entendido como algo pronto e operacionalmente utilizado para fortalecer regras e definir relações sociais, nem tampouco só ser considerado em seus termos técnicos ou estéticos. Como Clifford Geertz alertou: a arte faz parte da vida. É preciso entendê-la, então, como parte de um complexo processo pelo qual procura-se dar sentido ao mundo, e o cinema como um processo que busca imprimir uma significação possível para o mundo operando sua reelaboração visual e sonora.

Elementos estéticos como a luz, a cor e o enquadramento, quando observados desse ponto de vista, tornam-se elementos simbólicos, e os filmes, artefatos culturais extremamente férteis para o estudo antropológico. Em um movimento espiralado estamos continuamente ordenando e, de maneira simbólica, recriando o mundo e, nesse sentido produzindo conhecimento.

De acordo com a antropóloga Sylvia Caiuby Novaes, a análise de filmes e vídeos permite outra entrada na história cultural de grupos sociais, bem como um melhor entendimento dos processos de mudança social, do impacto do colonialismo e da dinâmica das relações interculturais. Dessa forma, imagens de arquivo ou contemporâneas coletadas em pesquisa de campo podem e devem ser utilizadas como fontes que conectam os dados à tradição oral e à memória dos grupos estudados.

Assim, o uso da imagem acrescenta novas dimensões à interpretação da história cultural, permitindo aprofundar a compreensão do universo simbólico que, por sua vez, se exprime em sistemas de atitudes pelos quais se definem grupos sociais, se constroem identidades e se apreendem mentalidades.

Como antropólogos, nos interessamos pelo estudo de mitos, máscaras e rituais, procurando, mediante análises detalhadas, elementos que nos permitam uma melhor compreensão da organização social de uma determinada sociedade e do universo de valores que orientam padrões de comportamento e mesmo as categorias básicas de um pensamento que é culturalmente marcado.

Muitas vezes não percebemos que, tanto quanto esses aspectos da organização social e da cultura material, imagens fílmicas e fotográficas podem revelar dados fundamentais sobre nossa própria sociedade e nosso modo de pensar. Da mesma maneira que essas outras temáticas, abordadas tradicionalmente por antropólogos e sociólogos quando querem ter acesso à esfera simbólica de um coletivo social específico, também o cinema, enquanto artefato cultural, é uma via de acesso privilegiada para os objetivos a que a antropologia e as ciências sociais em geral se propõem.

As imagens fílmicas, tal como mitos, rituais, vivências e experiências, condensam sentidos e dramatizam situações do cotidiano, descortinando a vida social e seus contextos de significação. Os aspectos recorrentes e inconscientes do agir social estão igualmente presentes nas imagens fílmicas e fotográficas, cabendo ao pesquisador investigar as relações que se constroem e os significados que as constituem.

Se mesmo contemporaneamente cientistas sociais vêem com reservas uma maior aproximação com a imagem, isso talvez seja pelo fato de eles ainda associarem a imagem a signos naturais em oposição às palavras como signos convencionais. Uma oposição dessa ordem ignora o fato de que olhar não é apenas um fenômeno fisiológico — assim como imagens fílmicas ou fotográficas não são apenas cópias do mundo visível — e também nossa capacidade de perceber por meio da linguagem exatamente aquilo que procuramos estruturar e ordenar, sobretudo aquilo que conhecemos. Concebemos o mundo por valores que delimitam nossa capacidade de olhar, nossa percepção e nossas possibilidades de apreensão de sentido.

Dessa forma, a problematização dos modos de ver impõe-se como uma tarefa que possibilita a expansão do olhar e a delimitação de novos problemas, permitindo a passagem de um exercício de construção de conhecimento baseado na imagem como objeto para outro, em que as imagens podem ser pensadas como modos de ver, olhar e pensar, ampliando as possibilidades de análise dos domínios do visível.