Indicando os pontos de contato e interlocução entre antropologia e imagem, pretendemos trazer à luz o quanto a antropologia, disciplina dedicada ao estudo de “alteridades”, se torna ela mesma aberta a variações no processo de construção do conhecimento. Graças ao fato de estar em permanente contato com outras formas de pensar e inventar o mundo, a antropologia é uma área do conhecimento que necessita de engenho e criatividade para se reinventar em face dos novos desafios cotidianamente colocados.
Estamos aqui utilizando o termo “invenção” no sentido de criação, como fictio, algo construído. A antropóloga Marilyn Strathern, aliás, em artigo da década de 1980 — quando se vivia um momento de grande questionamento pós-moderno quanto às representações construídas nas etnografias clássicas —, classifica a produção etnográfica como “ficções sérias”.
O que esse momento crítico traz é uma provocação bastante pertinente, na medida em que toca o ponto central da disciplina: a relação do antropólogo com o conhecimento que produz. Essa reflexividade no interior da antropologia, desencadeada naquele período e direcionada sobretudo para a crítica da representação escrita do conhecimento etnográfico, acaba por possibilitar a abertura do enquadramento e o retorno a discussões de trabalhos como os empreendidos por Margaret Mead, Gregory Bateson, Jean Rouch e David e Judith MacDougall que, como sublinhamos, vinham sendo desenvolvidos, desde muito tempo, à margem das grandes discussões realizadas no meio acadêmico antropológico. Mesmo o trabalho que Mead e Bateson, antropólogos de grande popularidade, desenvolvem com as imagens permanece sem grande repercussão.
A inventividade sempre esteve presente, e a incorporação da imagem, seja ela fotográfica ou em movimento, ao processo de construção da prática antropológica constitui, assim, não mera questão de método, mas sobretudo uma questão epistemológica. Não se trata, portanto, de um novo meio para simplesmente produzir dados de pesquisa ou de estabelecer contatos e vínculos no campo, mas de propor, a partir da inclusão da imagem, novas questões e novos problemas.
Terminamos sugerindo aos leitores que assistam aos filmes comentados ao longo do texto. É certo que nem todos são de fácil acesso, e esta é uma séria dificuldade que ainda temos de enfrentar: a péssima distribuição dos documentários em geral e, especificamente, daqueles de cunho antropológico. Vale, porém, o esforço para quem tem interesse em enveredar por essa seara. Nos filmes os leitores poderão perceber as questões apontadas ao longo deste texto e possivelmente muitas outras, dado o caráter polissêmico da imagem, que também foi aqui tratado.