Modernices

O PALEOANTROPÓLOGO FRANCÊS YVES COPPENS — membro da equipa que descobriu o esqueleto de Lucy (um Australopithecus afarensis com mais de três milhões de anos) em 1974, mudando para sempre a nossa compreensão da evolução humana — contou, quando passou por Lisboa nos anos noventa, uma história deliciosa. A avó era profundamente católica e, como tal, não queria de maneira nenhuma aceitar que o homem descendesse do macaco (Australopithecus significa, aliás, «macaco do Sul»). No entanto, diante do reconhecimento universal de que o neto era alvo, começou a pensar que talvez estivesse a ser demasiado radical. Chamou-o então ao seu quarto, fechou a porta para que ninguém a ouvisse e, depois de o felicitar pelo êxito das suas conquistas, atalhou: «Olha, Yves, tu até podes descender do macaco, mas eu não.»

São muito antigas as dissensões entre a Igreja católica e a ciência — pobre Giordano Bruno, pobre Galileu… — e só há relativamente pouco tempo o Vaticano foi capaz de engolir o sapo e dizer alto e bom som que teorias científicas como as do Big Bang ou da origem do homem não são incompatíveis com o catolicismo. Em 2014 — curiosamente o ano em que Yves Coppens se tornou membro da Pontifícia Academia das Ciências — o Papa Francisco declarou que a evolução da natureza não colide com a ideia de criação nem Deus pode ser visto como um feiticeiro munido de varinha-de-condão, desencorajando assim uma leitura da Bíblia demasiado literal ou mesmo fundamentalista (como aconteceu no Brasil, onde um conselheiro de Bolsonaro para a educação chegou a sugerir durante a campanha eleitoral que o criacionismo fosse ensinado nas escolas públicas). Parece, pois, que a Igreja de Roma está decidida a andar ao lado do progresso e a trocar o mofo das velhas sacristias por uma mais do que bem-vinda modernização, como de resto o comprovam a decisão de digitalizar e disponibilizar online mais de um milhão de livros da Biblioteca Apostólica Vaticana e a sugestão de um grupo de bispos reunidos em Roma de ordenar homens casados na Amazónia para ultrapassar a falta de padres naquela região.

Mas, cuidado, também não é preciso ir depressa demais. Encorajar a oração entre os jovens com uma pulseira-terço ligada a uma app chamada «Click to Pray eRosary», que só precisa do sinal da cruz para ser activada e propõe três modalidades (terço padrão, terço contemplativo e terço temático) já me parece um bocadinho excessivo. Sobretudo ao preço de cem euros… Adeus, futuro.