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Um mês depois, Bak Jeonghun recebeu um adiantamento de salário de alguns meses de José, o barbeiro. Então caminhou até o restaurante chinês onde Yeonsu trabalhava e negociou com o dono. Bastou olhar o rosto de Bak Jeonghun e o dono percebeu sua determinação. Não apenas isso; sentiu que as coisas acabariam muito mal se ele o ignorasse. Ele era um comerciante chinês que vivia e morria pelo ganho material. Bak Jeonghun entregou­-lhe cento e cinquenta pesos e levou Yeonsu embora.

— Eu não acredito — disse ela, a ponto de chorar. — O que poderia ter acontecido comigo se você não tivesse aparecido?

Com isso, uma nova vida começou para Yi Yeonsu. Ela levou seus pertences para a barbearia. José tocou violão para comemorar o recomeço dos dois. Era uma música ardente que deixaria solta até a pessoa mais dura. Os clientes regulares do lugar apareceram aos montes e beberam, cantaram e dançaram. Yeonsu ficou bêbada pela primeira vez em sua vida e se atirou nos braços de Bak Jeonghun.

É apenas natural que aquilo que não é usado por um longo tempo se atrofie. O corpo de Bak Jeonghun estava mais atrofiado que seu espírito; não reagiu de forma alguma ao corpo de uma mulher. Então, na sua primeira noite juntos nada aconteceu, e Bak Jeonghun ficou frustrado. Mas Yeonsu não o culpou. Pensou que talvez tivesse sido melhor assim. O corpo dela não estava exatamente indiferente, mas seus sentimentos ainda não eram urgentes.

— Está tudo bem — consolou Yeonsu ao abraçá­-lo. — Provavelmente é por causa do álcool — disse ela. O antigo atirador de elite bebeu um licor forte e caiu no sono.

No geral, eles viviam felizes. A vida anterior de Yeonsu fora tão horrível, que ela sentia felicidade nas coisas mais simples. Adorava a liberdade de poder ir e vir como bem entendesse, como quando caminhava ao cair da noite com Bak Jeonghun. Ainda assim, havia problemas que Yeonsu deveria resolver. Esperou e esperou, até que um dia resolveu abrir a boca.

— Você acha que poderíamos ir buscar meu filho?

— Ah, é verdade, você teve um filho, não é? Então precisamos buscá­-lo. Mas vamos ter de pagar para trazê­-lo conosco — Yeonsu mordeu os lábios. — Não se preocupe — disse Bak Jeonghun. — Daqui a dois meses eu serei pago. Então iremos para Mérida.

Não muito tempo depois disso, um homem com farda militar entrou na barbearia e se atirou em uma cadeira vazia. Os seus subordinados entraram apressados atrás dele. O homem tinha um elegante bigode escuro e disse que queria fazer barba e cabelo. Bak Jeonghun amarrou a toalha ao redor de seu pescoço, pegou as tesouras e começou a cortar o cabelo do homem. Quando terminou de aparar o cabelo e barbeá­-lo, Bak Jeonghun educadamente abaixou a cabeça em reverência. O cliente sorriu ao se olhar no espelho. Um de seus homens pagou a conta. Depois que os soldados foram embora, José se aproximou de Bak Jeonghun com os olhos arregalados.

— Aquele era o general Obregón, o braço direito do presidente Carranza. Pode até ser que agora tenha se retirado daqui e esteja a caminho de Veracruz, mas espere só para ver. Ele voltará para a Cidade do México em breve. Um ladrão como Pancho Villa não conseguirá derrotar Obregón.

Daquele dia em diante, Bak Jeonghun se tornou o barbeiro pessoal de Obregón. O general derramava dinheiro sobre ele; cédulas impressas pelo governo de Carranza. Cada um dos exércitos revolucionários imprimia sua própria moeda, e, nas áreas que controlavam, cada facção proibia as pessoas de usar pesos impressos por outros, então a população não podia nem comprar produtos básicos mesmo que tivesse os bolsos cheios de dinheiro com vários tipos de cédulas. Rompeu uma inflação terrível. Ainda assim, Bak Jeonghun zelosamente guardava o dinheiro de Obregón. Por fim, rumou até o restaurante chinês onde Yeonsu havia sido confinada e trocou o dinheiro pelos cento e cinquenta pesos que pagara por ela. O dono do restaurante não ofereceu oposição ao barbeiro de Obregón. Até tentou recusar o dinheiro, dizendo que Bak Jeonghun não precisava entregar­-lhe a moeda de Obregón. Mas Bak Jeonghun jogou os pesos de Obregón no rosto do dono e retornou para a barbearia.

Um dia, quando Bak Jeonghun estava passando em frente a um campo de tiro, Obregón perguntou:

— Você não disse que já foi soldado antes?

Quando Bak Jeonghun respondeu que sim, Obregón rapidamente apanhou um rifle americano do soldado ao lado e o jogou para ele.

— Atire para mim.

Bak Jeonghun recusou, dizendo que fazia muito tempo que ele não usava uma arma, mas Obregón insistiu. Bak Jeonghun descarregou dez tiros deitado no chão e acertou o alvo a cem metros de distância com oito tiros. Deram a ele mais dez balas sob um comando de Obregón, e ele descarregou todas as dez no centro do alvo. Obregón o ajudou a se levantar.

— Não precisa se preocupar mais em ser barbeiro.

Obregón gostava daquele asiático taciturno. Sempre mantivera um relacionamento amigável com os nativos, como os indígenas iaques, então a nacionalidade do barbeiro não era um problema para ele. Além disso, o homem não tinha interesse no México, então praticamente não havia perigo de que o traísse, e não conseguia entender conversas complicadas em espanhol. Bak Jeonghun disse a Obregón:

— Eu tenho uma esposa jovem, então para mim será difícil rumar para um campo de batalha.

Obregón sorriu ao responder.

— Não vai demorar muito. Villa e Zapata são ambos amadores em assuntos de guerra. Podem estar sorrindo na Cidade do México agora, mas isso não vai durar. Você logo poderá retornar e comer comida chinesa com sua jovem esposa.