FRONDOSA FLORA

 

Tranquilize seu coração
Nosso amor virou pedra e não
Temos força pra quebrar não

(“Quatro coisas”)

 

No depoimento de seis horas que deu ao Museu da Imagem e do Som, em 2012, ano em que completou setenta anos, Gil falou com imenso carinho da mulher que organizou sua vida e seus afetos, e conduziu com maestria, desde que se casaram, em 1980, tudo o que revolve em torno dele. “Flora teve um papel importante na minha vida, o de unificar a família, essa superfamília, a transfamília que se formou em torno de mim. Ajudou a recuperar minha amizade com (as ex-mulheres) Belina, Sandra e Nana.” Na célebre foto do aniversário de cinquenta anos de Gil, em junho de 1992, ele aparece com Flora e suas três ex-mulheres reunidas em sua casa.

Flora impulsionou os negócios de Gil, recuperou na Justiça os direitos autorais sobre a sua parte em 120 músicas compostas por ele nos primeiros vinte anos de carreira, que agora estão na sua própria empresa, a Gege. Ela dirige a Gege Produções, o selo de música Geleia Geral e é sócia da Refazenda Webdesign no Rio de Janeiro, além da Alafia Produções e da Editora FG em Salvador. É dona, também, do selo Preta Music, que controla os direitos autorais das músicas de Gilberto Gil em Nova York.

“Quando casamos as músicas do Gil estavam em algumas editoras administradas por grandes gravadoras. Ele fazia uma música e editava na Gapa (G Araújo), outra no Waldemar Marchetti, estava tudo espalhado. Resolvi então pegar tudo e trazer para a Gege Edições. Demorou muitos anos e muitas brigas na Justiça. Hoje temos mais de mil músicas de Gil e de outras pessoas e tenho muito orgulho disso. É o que fica para a família, para os filhos, é o que vamos deixar. Está tudo organizado. Eu sou uma pessoa organizada. Gosto de organizar.”

Empreendedora incansável, Flora garante que nada disso teria acontecido se Gil não tivesse participado. Sentada no sofá da ampla sala, com vista para a baía de Todos os Santos e Itaparica, do seu apartamento em Salvador, em setembro de 2012, Flora fala da solidez do seu encontro de uma vida inteira com Gil: “Estamos casados há 32 anos. Foi meu primeiro casamento. Eu tinha 19 anos. Não me vejo casada com outra pessoa. Começar tudo de novo? Com Gil me sinto muito junto”.

Ao trabalhar na Gege Produções, Flora passou a ler os contratos minuciosamente e comprou briga com velhos amigos do cantor para reaver a exploração dos direitos autorais de músicas antigas. Com sua administração financeira, a família tem hoje um bom e seguro patrimônio, um apartamento em São Conrado, no Rio de Janeiro, e outro no Corredor da Vitória, em Salvador. Quando ela conheceu Gil, ele tinha apenas um sítio em Jacarepaguá.

Mas Flora é muito mais que uma “organizadora” da carreira de Gil. Ela cuida do marido, dos filhos e das casas com dedicação invejável. Seu filho mais velho, Bem, diz que ela resolve tudo: em casa, no trio elétrico ou no camarote. Flora criou com Gil o Camarote Expresso 2222, um dos mais famosos, que abre suas portas no Carnaval de Salvador para receber convidados e participar da folia baiana. Isabela e José são seus outros dois filhos com Gil, mas, para ela, a família Gil é uma só e engloba todos os filhos e netos do marido.

Num depoimento para a revista Rolling Stone, Gil exaltou o papel de Flora na sua vida:

“Eu tinha vários filhos, várias ex-mulheres e tudo mais quando a conheci. Um pacote do Gil Moreira que a Flora botou no colo, integralmente! Mesmo ali, no próprio reduto afetivo da minha vida, ela também foi ali. Meus filhos, meus parentes, meus amigos, meus pais, minha mãe. Tudo! Ela assumiu que há uma grande família Gil, e que é dela também. Jogou com habilidade esse jogo afetivo amplo dentro das famílias e unificou tudo, incluindo o entorno da família, como os amigos todos”.

No mesmo artigo, Preta dá uma opinião certeira:

“Flora sabe gerir, empreender, tudo com uma precisão muito grande. As coisas partem sempre da vontade dele. O que ele está vislumbrando, as ideias que ele começa a rabiscar na cabeça, a Flora tem a capacidade de transformar num projeto rapidamente, o que é muito bom para um artista. Eu vejo isso acontecer há muito tempo. É sempre um disco por ano, um filme por ano, acho que funciona muito bem. Mas ele que rege a carreira dele, ele decide o que quer, ao contrário do que as pessoas pensam. Tem muito essa visão de que a Flora manda. Na verdade ela é uma realizadora dos desejos dele”.

Flora conhece bem o marido e entende seu universo:

“Gilberto é simples, mas misterioso. Ele fica ali quieto no quarto, ele medita. Não atrapalho, não pergunto nada, faço as coisas como se ele não estivesse ali. Convivemos na paz, adoro isso. Não brigo com Gil, e olha que sou muito briguenta. Às vezes ele é meio ranzinza. Mas brigamos pouquíssimas vezes na vida. Ele gosta muito mais da contemplação do que da briga ou da discussão. É um cara zen”.

São tão raras as brigas que Flora se lembra de um episódio num show em Recife, no Teatro Guararapes, quando ela brigou com Gil no camarim, “uns vinte anos atrás”. Gil subiu no palco ainda escuro e quando acenderam as luzes ele deu um tapa no microfone de pedestal e o microfone caiu. Estava irritadíssimo. Alguém foi lá e levantou. Ele deu outro tapa e o microfone caiu de novo. Flora estava na plateia. Então, ele saiu do palco e entrou de novo. E disse: “Desculpem, vou fazer um show perfeito para vocês, mas é que estou com um problema pessoal”.

Flora fala de Gil com carinho:

“É uma pessoa generosa. No palco deixa os outros aparecerem. É diplomático. Gil facilita, com ele é fácil, é do temperamento dele. Mas também só faz o que quer. Só faz o show que quer, canta o que quer. Sempre foi assim. Acho incrível, por outro lado, a generosidade dele. Essa coisa de ficar mais quieto é assim também com a família. Não é aquele pai que liga para os filhos todo dia pra saber se está tudo bem. Quando me casei ele já tinha cinco filhos: Nara, Marília, Pedro, Preta e Maria. No começo eu ficava ligando para eles e ele achava aquilo ótimo. Gil gosta de trazer os filhos para perto, mas não faz o movimento. Eu gosto de casa cheia, de todo mundo junto. Ele não gosta de briga, de confusão, longe disso. Mas não é do tipo ‘não me perturbe, sou um gênio, estou criando’. Pode estar criando vendo novela”.

Flora adotou também a cidade onde Gil nasceu. Tem uma forte ligação com Salvador. Criou-se católica, como Gil, mas frequenta o terreiro Ilê Omorode Axé Orixa N’la, de pai Augusto César. Antes frequentava a casa de Mãe Menininha, que descobriu que Flora é filha de Ewa, “orixá misterioso, invocado, arredio, valente e cismado”.

Depois que Bem nasceu, Flora e Gil foram viver em Salvador. Isabela, a segunda, nasceu lá. Nessa época Preta e Maria moraram com eles. Quando voltaram para o Rio de Janeiro, nasceu José. Flora tinha então trinta anos.

Para Gil a presença da mulher é uma tranquilidade.

“Ele não precisa se preocupar com nada. Se perguntar para ele qual o banco em que ele tem conta talvez não saiba. Não sabe nada do cartão de crédito, vencimento, valor, nada. O escritório paga. Ao mesmo tempo, se eu morrer amanhã, ele não vai ficar perdido porque ele sabe fazer tudo isso, ele estudou administração. Só que vai achar um saco. Além disso, temos um time bom.”

Sobre a criação, Flora admira a agilidade do marido.

“Ele tem uma ideia, rabisca um pouco, senta e faz direto. Nunca vi demorar mais de três dias fazendo uma canção. Mas pode virar a noite. Anos atrás eu ia dormir com ele tocando na sala, acordava e lá estava ele, ainda com o violão na sala. ‘Ah, fiz uma música ontem.’ Às vezes ele está lá com o violão e me chama. Sai assim. Parece que aperta um botão.”

Flora organizou a vida profissional de Gil e a equipe que trabalha com ele. “É uma superequipe, e tudo muito família.” Maria, filha de Gil, cuida da agenda de entrevistas, das viagens, coisas não relacionadas com música.

“Ela viaja com a gente, cuida do camarim, da roupa. Fafá, minha irmã, é a produtora. Viaja com a Maria. Eveline toma conta de todo o direito autoral. Regina cuida da Gege pessoa jurídica. André e Neuci cuidam da parte de internet. Jerry só viaja no internacional. São 12 pessoas no escritório. Gilda Mattoso é a assessora de imprensa, que trabalha fora da produtora. Gil é muito requisitado, tem muito pedido de show, de participação em programa de TV, de seminários, palestras, de música para comercial, prefácio de livro, roda de samba, composição, gravação no CD ou DVD de alguém. Queria reunir tudo dele, consegui um patrocínio e estamos fazendo o acervo. Uma parte grande na internet, no portal Gilberto Gil e no portal do Instituto Antônio Carlos Jobim, e a parte física na Gege.”

Como diz a música que Gil fez para Flora logo que se conheceram, ela “multiplicou a ramagem” em todos os aspectos de sua vida e tornou-se “árvore frondosa”.

“Flora”

Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora

Mais tarde, no repertório do disco Banda larga cordel, de 2008, Gil incluiu outra música que fez para Flora:

“A faca e o queijo”

Você reclama
Que eu não lhe faço uma canção
Acha que a chama
A velha chama da paixão
Não nos inflama mais
Com tanto ardor
Como na época em que éramos
A faca e o queijo

A faca e o queijo
E o desejo tinha mãos
E as mãos, traquejo
No bom manejo da emoção
No jeito de tomar
No ato de cortar
No simples fato de juntar
A faca e o queijo

A gente ama
E o amor produz transformações
A velha chama
Acende novas ilusões
Com mãos bem mais sutis
Novos desejos
Vão tornando nossos beijos
Mais azuis, menos carmins

Você reclama
E eu sei que é só por reclamar
Como quem chama
Outra criança pra jogar
Seus jogos infantis
Ainda nos vejo como outrora
Faca e queijo, sim
Num tempo mais feliz