NOVE

— Então foi num domingo que eles ergueram o Muro. O dia ficou conhecido como o Domingo do Arame Farpado. Querem saber por quê? — perguntou Esther, no banco de trás do carro. Era uma pergunta retórica. É claro que elas queriam. — Porque todo mundo acordou de manhã e lá estava ela, aquela enorme cerca de arame farpado cortando a cidade.

— E daí? — desdenhou Polly. — Já vi uma cerca de arame farpado antes.

— Mas eles não podiam passar por ela! — argumentou Esther. — Estavam presos! Você sabe que nós moramos deste lado da Pacific Highway e a vovó, do outro lado, não é?

— Sei — respondeu Polly, em dúvida. Ela não sabia muito bem onde ninguém morava.

— Era como se tivesse uma cerca de arame farpado ao longo de toda a Pacific Highway e nós não pudéssemos mais visitar a vovó.

— Isso seria mesmo uma pena — murmurou Cecilia, olhando por sobre o ombro para mudar de pista.

Ela tinha ido visitar a mãe naquela manhã, depois da aula de zumba, e perdera vinte minutos que não podia ter desperdiçado, olhando um “portfólio” dos trabalhos do sobrinho na pré-escola. Bridget matriculara Sam numa pré-escola exclusiva e obscenamente cara, e a mãe de Cecilia não conseguia decidir se devia ficar maravilhada ou horrorizada com isso.

— Aposto que você não recebeu um portfólio como este daquela escolinha comum onde suas filhas estudam — dissera sua mãe, enquanto Cecilia tentava passar as páginas mais rápido.

Ela iria comprar todos os itens não perecíveis de que precisaria no domingo antes de buscar as meninas.

— Na verdade, acho que maioria das pré-escolas fazem coisas assim hoje em dia — afirmara Cecilia, mas a mãe estava ocupada demais enaltecendo o autorretrato de Sam pintado a dedo.

— Imagine só, mamãe — disse Esther —, se nós três tivéssemos ido passar o fim de semana na casa da vovó, em Berlim Ocidental, quando o Muro foi erguido, e você e papai estivessem presos na Berlim Oriental. Você teria que nos dizer: “Fiquem na casa da vovó, crianças! Não voltem! Pela liberdade de vocês!”

— Isso é horrível — exclamou Cecilia.

— Eu ia voltar para a mamãe mesmo assim — confessou Polly. — A vovó nos faz comer ervilhas.

— Isso é História, Mãe — disse Esther. — Foi o que realmente aconteceu. Todo mundo foi separado. Eles não se importavam. Veja! Essas pessoas estão segurando seus bebês no alto para mostrá-los aos parentes do outro lado.

— Tenho que ficar de olho na estrada — afirmou Cecilia, com um suspiro.

Graças a Esther, Cecilia tinha passado os últimos seis meses imaginando-se resgatando crianças afogadas das águas geladas do Atlântico enquanto o Titanic afundava. Agora ela estaria em Berlim, separada de suas filhas por causa do Muro.

— Quando o papai volta de Chicago? — perguntou Polly.

— Sexta de manhã! — Cecilia sorriu para Polly pelo espelho retrovisor, agradecendo a mudança de assunto. — Ele chega na Sexta-feira Santa. Vai ser uma sexta realmente abençoada porque o papai estará de volta!

Houve um silêncio reprovador no banco de trás. Suas filhas tentavam não encorajar conversas muito sem graça.

Elas estavam bem no meio da loucura quase normal que eram suas atividades extracurriculares. Cecilia tinha acabado de deixar Isabel no cabeleireiro, e agora estava a caminho da aula de balé de Polly e da consulta com a fonoaudióloga de Esther. (Aparentemente, o ceceio quase imperceptível de Esther, que Cecilia achava uma graça, era inaceitável no mundo atual.) Depois disso seria correria, correria, correria para preparar o jantar, ajudar com o dever de casa e as leituras antes de sua mãe chegar para tomar conta das crianças para Cecilia poder ir a uma reunião da Tupperware.

— Tenho outro segredo para contar ao papai — declarou Polly. — Quando ele chegar em casa.

— Um homem tentou pular para o outro lado saltando da janela do seu apartamento, e um bombeiro do lado Ocidental tentou pegá-lo com uma rede de segurança, mas ele errou e o cara morreu.

— Meu segredo é que não quero mais uma festa de pirata — disse Polly.

— Ele tinha trinta anos — continuou Esther. — Então acho que teve uma boa vida.

— O quê? — perguntou Cecilia.

— Falei que ele tinha trinta anos — repetiu Esther. — O homem que morreu.

— Você não. Polly!

O sinal vermelho piscou e Cecilia pisou fundo no freio. O fato de Polly não querer mais uma festa de pirata era absolutamente insignificante em comparação com aquele pobre homem (trinta anos!) se arrebentando no chão pela liberdade que Cecilia não valorizava. Mas, naquele momento, ela não podia parar para honrar a memória dele, porque uma mudança de última hora no tema da festa era inaceitável. Era isso que acontecia quando se tinha liberdade. Perdia-se a cabeça por causa de uma festa de pirata.

— Polly. — Cecilia tentou parecer sensata, não psicótica. — Nós já mandamos os convites. O tema da festa vai ser pirata. Você pediu uma festa de pirata. Vai ganhar uma festa de pirata.

Um depósito não reembolsável tinha sido feito para Penelope, a Pirata Cantora e Dançarina, que sem dúvida cobrava o mesmo que um pirata de verdade.

— É um segredo só para o papai — disse Polly. — Não para você.

— Ótimo, mas eu não vou mudar a festa.

Ela queria que a festa de pirata fosse perfeita. Por algum motivo, queria impressionar especialmente aquela Tess O’Leary. Cecilia sentia uma atração irracional por pessoas misteriosas e elegantes como Tess. A maioria das amigas de Cecilia era tagarela. Suas vozes se sobrepunham no desespero por contarem suas histórias. Sempre detestei legumes e verduras… Brócolis será a única verdura que meu filho vai comer… Meu filho adora cenoura crua… Adoro cenoura crua! Era preciso falar sem esperar uma pausa na conversa ou então você nunca teria chance. Mas mulheres como Tess pareciam não ter essa necessidade de compartilhar os fatos corriqueiros de sua vida, e isso fazia Cecilia querer saber mais sobre eles desesperadamente. Será que o filho dela gosta de brócolis?, perguntou-se. Tinha falado demais naquela manhã, ao encontrar Tess e sua mãe depois do funeral da Irmã Ursula. Havia tagarelado. De vez em quando podia se ouvir fazendo isso. Enfim.

Cecilia escutou o som metálico de vozes exaltadas gritando alguma coisa em alemão no vídeo do YouTube a que Esther estava assistindo no iPad.

Era incrível como acontecimentos históricos turbulentos podiam ser repassados bem ali, naquele momento comum em que ela dirigia pela Pacific Highway em direção a Hornsby, e ainda assim, ao mesmo tempo, isso provocava em Cecilia uma insatisfação confusa. Ela desejava viver alguma coisa importante. Às vezes sua vida parecia tão insignificante.

Será que ela queria que algo grandioso e terrível acontecesse, como um muro erguido atravessando a cidade, para que ela pudesse apreciar sua vidinha comum? Será que queria ser a protagonista de uma tragédia como Rachel Crowley? Rachel parecia quase desfigurada pelo incidente terrível que acontecera com sua filha, e às vezes Cecilia tinha que se forçar a não desviar os olhos, como se ela tivesse marcas de queimaduras, e não a aparência perfeitamente agradável e bem-cuidada de uma mulher com belas maçãs do rosto.

É isso que você quer, Cecilia? Uma grande e emocionante tragédia?

É claro que não.

As vozes alemãs do tablet de Esther chegavam aos seus ouvidos, deixando-a irritada.

— Você pode desligar isso, por favor? — pediu a Esther. — Está me distraindo.

— Deixe só eu…

— Desligue agora! Será que vocês não podem fazer o que eu peço de primeira, pelo menos uma vez? Sem negociar? Só uma vez?

O som foi desligado.

Pelo retrovisor, ela viu Polly arquear as sobrancelhas e Esther dar de ombros e levantar as palmas das mãos. O que deu nela? Não faço ideia. Cecilia se lembrava de ter conversas silenciosas desse tipo com Bridget no banco de trás do carro da mãe.

— Desculpem-me — disse Cecilia humildemente depois de alguns segundos. — Sinto muito, meninas. Eu só estou…

Preocupada porque talvez o pai de vocês esteja mentindo para mim sobre alguma coisa? Precisando de sexo? Desejando não ter tagarelado daquele jeito com Tess O’Leary no pátio da escola naquela manhã? Na pré-menopausa?

— …com saudade do papai — completou ela. — Vai ser bom quando ele voltar dos Estados Unidos, não é? Ele vai ficar tão feliz em ver vocês!

— É, vai sim — disse Polly, suspirando. Ela fez uma pausa e completou: — E Isabel.

— Claro — concordou Cecilia. — Isabel também, claro.

— O papai olha para Isabel de um jeito esquisito — comentou Polly ao acaso.

Aquilo era muito estranho.

— O que você quer dizer? — perguntou Cecilia.

Às vezes Polly falava coisas muito intrigantes.

— O tempo todo — disse Polly. — Ele olha para ela de um jeito esquisito.

— Não olha nada — rebateu Esther.

— Olha, sim. Como se machucasse os olhos dele. Como se estivesse zangado e triste ao mesmo tempo. Principalmente quando ela usa aquela saia nova.

— Bem, isso é uma coisa boba de se dizer — comentou Cecilia.

Pelo amor de Deus, o que aquela menina estava falando? Se ela não conhecesse bem o marido, poderia pensar que Polly estava descrevendo o olhar de John-Paul para Isabel de uma forma sexual.

— Talvez o Papai esteja zangado com Isabel por algum motivo — disse Polly. — Ou ele só está triste por ela ser filha dele. Mãe, você sabe por que o papai está bravo com Isabel? Ela fez alguma coisa errada?

Uma sensação de pânico fez um nó brotar na garganta de Cecilia.

— Pode ser que ele quisesse assistir ao jogo de críquete na TV — ponderou Polly. — E Isabel quisesse ver alguma outra coisa. Ou então sei lá.

Isabel andava tão irritada ultimamente, recusando-se a responder a perguntas e batendo a porta. Mas não era isso que todas as garotas de doze anos faziam?

Ela se lembrou das histórias sobre abuso sexual que tinha lido. Reportagens do Daily Telegraph em que a mãe afirmava: “Eu não fazia ideia”, e Cecilia pensava: Como você podia não saber? Ela sempre terminava de ler essas histórias com uma confortável sensação de superioridade. Isso não aconteceria com as minhas filhas.

John-Paul podia ser estranhamente mal-humorado às vezes. Seu rosto ficava tão inflexível quanto granito. Não dava para argumentar com ele. Mas todos os homens não ficam assim de vez em quando? Cecilia se lembrava de como ela, a mãe e a irmã ficavam pisando em ovos por causa das variações de humor de seu pai.

Mas John-Paul nunca machucaria as filhas. Isso era ridículo. Era coisa que só aparecia em programas sensacionalistas como o de Jerry Springer. Era uma traição com John-Paul deixar que a menor sombra de dúvida pairasse em sua mente. Cecilia apostaria sua vida em que o marido não abusaria de uma das filhas.

Mas seria capaz de apostar a vida de uma das meninas?

Não. Se houvesse algum risco, por menor que fosse…

Santo Deus, o que ela deveria fazer? Perguntar a Isabel: “O papai alguma vez já tocou em você?” Vítimas mentiam. Os agressores as mandavam mentir. Ela sabia como isso funcionava. Tinha lido todas aquelas histórias horríveis. Ela gostava de ter um pequeno choque, numa catarse rápida, antes de dobrar o jornal, jogá-lo na lixeira de materiais recicláveis e se esquecer daquilo. Aquelas histórias lhe davam uma espécie de prazer doentio, embora John-Paul sempre se recusasse a lê-las. Será que isso era uma pista de sua culpa? Arrá! Se você não gosta de ler sobre pessoas doentes é porque você mesmo é um doente!

— Mãe! — chamou Polly.

Como ela poderia confrontar John-Paul? “Você já fez algo inadequado com uma de nossas filhas?” Se ele lhe fizesse uma pergunta desse tipo, ela jamais o perdoaria. Como um casamento poderia continuar depois de uma questão dessas? “Não, nunca molestei nossas filhas. Passe a manteiga de amendoim, por favor.”

— Mãe! — chamou Polly de novo.

— O quê?

Você não deveria precisar perguntar, diria ele. Se não sabe a resposta, então não me conhece.

Ela sabia a resposta. Sabia!

Por outro lado, todas aquelas mães idiotas também achavam que sabiam a resposta.

E John-Paul tinha agido de modo tão estranho ao telefone quando ela perguntara sobre a carta. Ele andava mentindo sobre alguma coisa. Ela tinha certeza disso.

E havia a questão do sexo. Será que ele tinha perdido o interesse em Cecilia porque desejava o jovem corpo de Isabel em transformação? Isso era ridículo. Revoltante. Ela ficou enjoada.

— MÃE!

— Humm?

— Olhe! Você passou direto da rua! Vamos chegar atrasadas!

— Desculpe. Droga. Desculpe.

Ela pisou com força nos freios para pegar o retorno. Atrás delas soou uma buzina aguda, e o coração de Cecilia saltou no peito quando ela olhou pelo retrovisor e viu um caminhão enorme.

— Merda. — Ela ergueu uma das mãos para se desculpar. — Desculpe. Sim, sim, eu sei!

O motorista do caminhão não a perdoaria, e manteve a mão na buzina.

— Desculpe, desculpe!

Ao terminar de fazer o retorno, ela olhou para cima, para acenar mais uma vez, desculpando-se (o logo da Tupperware tinha sido estampado em uma das laterais do carro — não queria prejudicar a reputação da empresa). O motorista tinha aberto a janela, e estava com quase metade do corpo para fora, o rosto contorcido numa careta de raiva enquanto batia repetidamente com o punho na palma da outra mão.

— Ora, pelo amor de Deus — murmurou Cecilia.

— Acho que aquele homem quer matar você — disse Polly.

— Aquele homem é muito mau — opinou Cecilia, em tom severo.

Seu coração batia disparado conforme ela dirigia de volta para o estúdio de dança, como se estivesse sedada, checando duas vezes cada espelho e indicando suas intenções aos outros motoristas com muita antecedência.

Ela abriu a janela do carro e ficou observando Polly correr para dentro do estúdio, seu tutu de tule rosa balançando, suas omoplatas delicadas se sobressaindo embaixo das alças do collant.

Melissa McNulty apareceu à porta e acenou para indicar que tomaria conta de Polly, como haviam combinado. Cecilia acenou de volta e saiu de ré.

— Se estivéssemos em Berlim e o consultório da Caroline ficasse do outro lado do muro, então eu não poderia ir à consulta de fonoaudiologia — disse Esther.

— Tem razão — concordou Cecilia.

— Poderíamos ajudá-la a fugir! Poderíamos colocá-la no porta-malas. Ela é bem pequena. Acho que caberia. A menos que tenha claustrofobia, que nem o papai.

— Acho que Caroline é o tipo de pessoa que provavelmente iria planejar a própria fuga — declarou Cecilia.

Já gastamos demais com ela! Não vamos ajudá-la a fugir de Berlim Oriental! A fonoaudióloga de Esther era assustadora, com suas vogais perfeitas. Sempre que falava com ela, Cecilia acabava articulando todas as sílabas mui-to cui-da-do-sa-men-te, como se estivesse fazendo um teste de dicção.

— Não acho que o papai olhe para Isabel de um jeito estranho — disse Esther.

— Ah, não? — perguntou Cecilia, alegre.

Bom Deus. Como ela tinha sido melodramática. Polly fizera uma de suas observaçõezinhas peculiares e a mente de Cecilia pulou direto para abuso sexual. Ela devia estar assistindo a programas ruins demais na TV.

— Mas ele estava chorando outro dia, antes de ir para Chicago — continuou Esther.

— O quê?

— No chuveiro — disse a menina. — Entrei no banheiro para pegar a tesourinha de unha e o papai estava chorando.

— Bem, querida, você perguntou a ele por que estava chorando? — indagou Cecilia, tentando não demonstrar o quanto se importava com a resposta.

— Não — respondeu Esther, despreocupada. — Quando estou chorando, não gosto que me interrompam.

Droga. Se tivesse sido Polly, ela teria puxado a cortina do chuveiro e exigido uma resposta imediata do pai.

— Eu ia perguntar a você por que o papai estava chorando — justificou Esther. — Mas esqueci. Tenho muita coisa na cabeça.

— Não acho que ele estivesse chorando de verdade. Provavelmente estava só… fungando ou algo assim.

A ideia de John-Paul chorando no banho era tão incomum, tão estranha. Por que ele estaria chorando se não por algo realmente terrível? Ele não era disso. Quando as meninas nasceram, seus olhos ficaram brilhantes, e ao perder o pai de forma inesperada ele desligou o telefone e fez um ruído estranho, frágil, como se tivesse engasgado com algo pequeno e peludo. Mas, fora essas ocasiões, Cecilia nunca o vira chorar.

— Ele não estava fungando — insistiu Esther.

— Talvez estivesse com uma daquelas enxaquecas — sugeriu Cecilia.

No entanto, ela sabia que, se John-Paul estivesse sofrendo com uma de suas enxaquecas debilitantes, a última coisa que faria seria tomar um banho. Ele precisava ficar sozinho, na cama, no quarto escuro e silencioso.

— Hum, Mãe, o papai nunca toma banho quando está com enxaqueca — disse Esther, que conhecia o pai tão bem quanto Cecilia conhecia o marido.

Depressão? Parecia estar na moda hoje em dia. Recentemente, num jantar, metade dos convidados revelara tomar Prozac. Afinal, John-Paul sempre passara por… momentos. Muitas vezes eles vinham depois das enxaquecas. Por uma semana, mais ou menos, ele parecia fazer tudo de modo mecânico, sem interesse. Dizia e fazia tudo do jeito certo, mas havia algo faltando em seus olhos, como se o verdadeiro John-Paul tivesse se ausentado por um tempo e mandado uma réplica idêntica ficar em seu lugar. “Você está bem?”, perguntava Cecilia, e ele sempre demorava alguns instantes para se concentrar nela antes de responder: “Claro. Estou ótimo.”

Mas era sempre temporário. De repente, ele voltava, completamente presente, ouvindo a esposa e as filhas com toda a atenção, e Cecilia se convencia de que havia imaginado tudo aquilo. Esses momentos deviam ser apenas um efeito prolongado das enxaquecas.

Mas chorar no chuveiro? Que motivo ele teria para chorar? As coisas estavam indo bem.

John-Paul tentara cometer suicídio uma vez.

Esse fato emergiu em sua mente devagar, com certa repulsa. Era algo em que ela procurava não pensar com muita frequência.

Aconteceu quando ele estava no primeiro ano da faculdade, antes de começar a namorar Cecilia. Ao que parecia, ele tinha saído dos trilhos por um tempo, e então, certa noite, engoliu um frasco de comprimidos para dormir. O colega com quem dividia o apartamento, que deveria ter ido passar o fim de semana na casa dos pais, voltou inesperadamente e o encontrou. “No que você estava pensando?”, perguntara Cecilia ao ouvir aquela história pela primeira vez. “Tudo parecia difícil demais”, respondera John-Paul. “Dormir para sempre apenas me surgiu como a opção mais fácil.”

Nos anos seguintes, Cecilia o havia pressionado com frequência para conseguir mais informações daquela época de sua vida. “Mas por que parecia tão difícil? O que exatamente era tão difícil?” No entanto, John-Paul não se mostrava capaz de dar mais esclarecimentos. “Acho que eu era apenas o típico adolescente angustiado”, dizia ele. Mas Cecilia não engolia. Ela nunca se sentira angustiada quando adolescente. Por fim, teve que desistir e aceitar que a tentativa de suicídio de John-Paul era um acontecimento não característico do passado do marido. “Eu só precisava de uma boa mulher”, dissera John-Paul a ela. Era verdade que ele nunca tivera uma namorada séria até Cecilia aparecer. “Eu estava mesmo começando a achar que ele fosse gay”, confidenciara um de seus irmãos a ela uma vez.

Outra vez a questão de ser gay.

Mas tinha sido só brincadeira do irmão dele.

Uma inexplicável tentativa de suicídio na adolescência e agora, tantos anos depois, ele estava chorando no chuveiro.

— Às vezes os adultos têm coisas importantes na cabeça — disse Cecilia para Esther, com cuidado. É óbvio que sua maior responsabilidade era fazer com que a filha não ficasse preocupada. — Tenho certeza de que o papai estava apenas…

— Ei, Mãe, por favor, posso ganhar de Natal esse livro da Amazon sobre o Muro de Berlim? — perguntou Esther. — Quer que eu compre agora? Todas as resenhas deram cinco estrelas!

— Não — respondeu Cecilia. — Você pode pegar na biblioteca.

Se Deus quiser, já teremos escapado de Berlim no Natal.

Ela entrou no estacionamento no subsolo do consultório da fonoaudióloga, baixou o vidro e apertou o botão do interfone.

— Pois não?

— Temos uma consulta com Caroline Otto — disse ela.

Até quando falava com a recepcionista ela caprichava nas vogais.

Enquanto estacionava, refletia sobre cada novo fato.

John-Paul lançando a Isabel olhares esquisitos, tristes, zangados.

John-Paul chorando no chuveiro.

John-Paul perdendo o interesse por sexo.

John-Paul mentindo sobre alguma coisa.

Era tudo tão estranho e preocupante, mas havia algo por trás disso que não era de todo desagradável, que na verdade lhe dava uma leve sensação de expectativa.

Ela desligou o carro, puxou o freio de mão, soltou o cinto de segurança.

— Vamos — disse para Esther, e abriu a porta.

Sabia o motivo daquele pequeno vislumbre de prazer. Era porque tinha tomado uma decisão. Alguma coisa claramente não estava certa. Ela tinha a obrigação moral de fazer algo imoral. Era o menor de dois males. Tinha uma justificativa.

Assim que as garotas tivessem ido para a cama à noite, ela faria o que tivera vontade de fazer desde o início. Abriria aquela maldita carta.