TREZE

— Alô? — disse Tess, cautelosa, consultando o relógio de pulso ao atender o telefone da casa da mãe.

Eram nove da noite. Não podia ser outra ligação de telemarketing.

— Sou eu.

Era Felicity. O estômago de Tess embrulhou. Sua prima passara o dia todo ligando para o celular dela e deixara mensagens de voz e de texto que Tess não ouvira nem lera. Ela se sentia estranha ignorando Felicity, como se estivesse obrigando a si mesma a fazer algo que não era natural.

— Não quero falar com você.

— Não aconteceu nada — disse Felicity. — Ainda não dormimos juntos.

— Pelo amor de Deus! — exclamou Tess, e então, para sua surpresa, começou a rir. Não era nem uma risada amarga, mas sincera. Aquilo era ridículo. — Qual é o empecilho?

Mas então viu seu reflexo no espelho acima da mesa de jantar da mãe e seu sorriso desapareceu, como se visse alguém que tivesse sido vítima de uma pegadinha cruel.

— Só conseguimos pensar em você — disse Felicity. — E em Liam. O site das roupas de cama não deu certo… mas enfim, não vou falar de trabalho com você. Estou no meu apartamento. Will está em casa. Ele está um caco.

— Você é patética. — Tess deu as costas para o espelho. — Vocês dois são patéticos!

— Eu sei — respondeu Felicity. A voz dela estava tão baixa que Tess teve que apertar o fone no ouvido para escutar. — Sou uma vaca. Sou aquela mulher que nós odiamos.

— Fale mais alto! — pediu Tess, irritada.

— Eu disse que sou uma vaca! — repetiu Felicity.

— Não espere que eu vá discordar.

— Não — disse Felicity. — Claro que não.

— Vocês querem que eu fique bem com tudo isso. — Tess estava chocada. Conhecia-os bem demais. — Querem que eu faça tudo ficar bem.

Esse era o seu trabalho. O seu papel na relação triangular deles. Will e Felicity esbravejavam e se enfureciam, deixavam os clientes os aborrecerem, acabavam magoados por estranhos que socavam o volante e gritavam: “Você está de sacanagem comigo?” Era função de Tess acalmá-los, reanimá-los, fazer o discurso do “copo meio cheio”, “tudo vai dar certo”, “você vai se sentir melhor amanhã”. Como eles poderiam ter um caso sem ela por perto para ajudar? Eles precisavam de Tess lá para dizer: “A culpa não é de vocês!”

— Não espero isso — continuou Felicity. — Não espero nada de você. Você está bem? Liam está bem?

— Estamos ótimos — respondeu Tess, fria. — Liam vai começar na St. Angela amanhã.

Amanhã. Por que a pressa?

— Haverá uma caça aos ovos de Páscoa.

— Ah, chocolate — disse Felicity. — A kriptonita de Liam. Ele não vai ter aulas com nenhuma daquelas freiras psicóticas que foram nossas professoras, vai?

Tess pensou: Não bata papo comigo, como se tudo estivesse normal! Mas por algum motivo continuou falando mesmo assim. Já estava muito arraigado em sua psique. Ela havia conversado com Felicity todos os dias da sua vida. Era sua melhor amiga. Sua única amiga.

— Todas as freiras morreram — contou ela. — Mas o professor de educação física é Connor Whitby. Você se lembra dele?

— Connor Whitby — repetiu Felicity. — Era aquele cara triste e sinistro com quem você estava saindo antes de nos mudarmos para Melbourne, não era? Mas achei que ele fosse contador.

— Ele mudou de área. Mas ele não era sinistro, era? — perguntou Tess.

Ele não tinha sido absolutamente legal? Ele era o namorado que amava as mãos de Tess. Ela se lembrou disso de repente. Que estranho. Tinha pensado nele na noite passada, e agora ele reaparecia em sua vida.

— Ele era sinistro — afirmou Felicity, em tom decisivo. — Também era bem velho.

— Tinha dez anos a mais que eu.

— Enfim, lembro que havia alguma coisa assustadora nele. Aposto que é ainda mais assustador agora. Há alguma coisa desagradável em professores de educação física, com suas roupas esportivas, apitos e pranchetas.

A mão de Tess se apertou em volta do telefone. A presunção de Felicity. Sempre achava que sabia tudo, que era a suprema julgadora do caráter das pessoas, que era mais sofisticada e instigante que Tess.

— Então pelo visto você não foi apaixonada por Connor Whitby — disse ela, em tom severo e malicioso. — Will é o primeiro a despertar essa atração em você?

— Tess…

— Não se preocupe — interrompeu-a. — Você quer mais alguma coisa?

— Acho que eu não poderia dar boa-noite ao Liam, não é? — perguntou Felicity, com uma vozinha baixa e doce que não combinava com ela.

— Não — respondeu Tess. — Aliás, ele já está dormindo.

Ele não estava. Ela tinha acabado de ir ao seu quarto (o antigo escritório do pai de Tess) e o vira deitado na cama, jogando Nintendo DS.

— Diga a ele que mandei um beijo.

Liam tinha uma risada exclusiva para Felicity.

Tess suspirou.

— Ele está na cama. Vou dar uma olhada… se estiver acordado, passo o telefone para ele.

— Obrigada — disse Felicity, humilde.

Tess apertou o aparelho no peito e começou a caminhar pelo corredor, em direção ao quarto de Liam. Então parou, se virou e foi para o extremo oposto da casa. Levou o telefone de volta à orelha.

— Não me importo se você dormir com Will ou não — disse ela. — Na verdade, acho que você deveria ir para a cama com ele. Resolva logo isso. Mas não vou deixar Liam crescer com pais divorciados. Você esteve ao meu lado quando meus pais se separaram. Sabe como foi para mim. É por isso que não consigo acreditar…

Ela sentiu uma dor imensa e levou a mão ao peito. Felicity ficou em silêncio.

— Você não vai viver feliz para sempre com ele — continuou Tess. — Sabe disso, não sabe? Porque estou pronta para esperar que isso chegue ao fim. Vou aguardar você terminar com ele. — Ela respirou fundo, trêmula. — Tenha seu casinho nojento e depois devolva meu marido.

* * *

7 de outubro de 1977: Três adolescentes foram mortos quando a polícia da Alemanha Oriental entrou em conflito com manifestantes que esbravejavam “Abaixo o Muro!”. Lucy O’Leary, grávida de seu primeiro filho, viu a história no noticiário e chorou sem parar. Sua irmã gêmea, Mary, que também estava grávida do primeiro filho, ligou para ela no dia seguinte e perguntou se as notícias a estavam fazendo chorar também. Conversaram por um tempo sobre as tragédias que aconteciam no mundo e depois mudaram para um assunto muito mais interessante: seus bebês.

— Acho que teremos meninos — disse Mary. — E eles serão melhores amigos.

— É mais provável que queiram se matar — rebateu Lucy.