DEZOITO

— Connor — disse Tess. — Só vim abastecer.

— Não brinca! — zombou ele.

Tess levou um tempo para entender.

— Você me assustou — confessou ela, com um toque de petulância na voz, por estar constrangida. — Achei que fosse um maníaco.

Ela encaixou a pistola no tanque de combustível. Connor continuou ali de pé, sem se mover, segurando o capacete debaixo de um dos braços e olhando para ela como se estivesse esperando alguma coisa. Ok, muito bem, chega de papo, certo? Suba na moto. Dê o fora. Tess preferia que as pessoas de seu passado continuassem no passado. Ex-namorados, velhos amigos de escola, antigos colegas — sério, qual o sentido deles? As vidas seguiam em frente. Tess até gostava de se lembrar das pessoas que conheceu, mas não com elas. Ela apertou o gatilho da pistola de combustível, sorrindo para ele de um jeito cauteloso e educado, enquanto tentava lembrar como exatamente o relacionamento que tiveram tinha terminado. Fora quando ela e Felicity se mudaram para Melbourne? Connor foi um namorado entre muitos outros. Tess costumava terminar com eles antes que terminassem com ela. Em geral, depois de Felicity ter zombado deles. Sempre havia um novo garoto para assumir o lugar do anterior. Tess achava que isso acontecia porque ela era atraente na medida certa: não muito intimidante. Sempre dizia sim para qualquer um que a chamasse para sair. Não passava pela sua cabeça dizer não.

Lembrou que Connor sempre fora mais entusiasmado do que ela — Tess o considerava velho e sério demais. Fora em seu primeiro ano na universidade; ela tinha apenas dezenove, e, de certo modo, ficara perplexa com o intenso interesse que aquele garoto mais velho e caladão demonstrava por ela.

Ela bem que podia tê-lo tratado muito mal. Era tão insegura na adolescência, o tempo todo preocupada com o que as pessoas pensavam dela e como poderiam magoá-la, que nem considerava o impacto que ela mesma poderia causar nos sentimentos dos outros.

— Eu estava mesmo pensando em você — disse Connor. — Depois que a vi na escola esta manhã, fiquei me perguntando se você gostaria de, hã, dar uma volta? Tomar um café, talvez?

— Ah! — exclamou Tess.

Um café com Connor Whitby. Isso era tão, tão inoportuno, parecia quando Liam sugeria que montassem um quebra-cabeça bem na hora em que Tess estava tentando resolver um problema com o computador ou com o encanamento. Toda a sua vida tinha acabado de desmoronar! Ela não iria tomar um café com esse doce, porém essencialmente entediante, ex-namorado da adolescência.

Ele não sabia que ela era comprometida? Tess mexeu a mão na pistola de combustível, de modo que a aliança ficasse bem à vista. Ainda se sentia casada.

Pelo visto, voltar para casa era como entrar no Facebook, onde ex-namorados de meia-idade saíam rastejando de todos os cantos como baratas, convidando para tomar drinques, mostrando as anteninhas nojentas para possíveis affaires. Connor era casado? Ela olhou de relance para as mãos dele, procurando uma aliança.

— Não estou falando de um encontro, se é isso que está pensando — disse ele.

— Não estava pensando nisso.

— Sei que você é casada, não se preocupe. Não sei se você se lembra do filho da minha irmã, Benjamin? Enfim, ele acabou de se formar e quer trabalhar com publicidade ou marketing. Essa é a sua área, não é? Na verdade, estava pensando em me aproveitar da sua experiência profissional. — Ele mordeu o interior da bochecha. — Talvez “me aproveitar” seja uma escolha errada de palavras.

— Benjamin já terminou a faculdade? — Tess estava pasma. — Mas não é possível… Ele estava no jardim de infância!

As memórias voltaram numa enxurrada. Um minuto atrás ela não teria sido capaz de lembrar o nome do sobrinho de Connor, ou até mesmo que ele tinha um. Agora, de repente, ela podia ver o tom exato de verde pálido das paredes do quarto de Benjamin.

— Faz dezesseis anos que ele estava no jardim de infância — disse Connor. — Agora ele tem um metro e noventa, é cabeludo e tatuou um código de barras na nuca. Estou falando sério. Um código de barras.

— Nós o levamos ao zoológico — comentou Tess, impressionada.

— É possível.

— Sua irmã estava dormindo pesado. — Tess se lembrou de uma mulher de cabelo escuro enroscada no sofá. — Estava doente. — Ela não era mãe solteira? Não que Tess tivesse admirado isso na época. Devia ter se oferecido para ir fazer as compras de casa para ela. — Como vai sua irmã?

— Ah, bem, na verdade, nós a perdemos há alguns anos. — Ele soava defensivo. — Ataque cardíaco. Tinha apenas cinquenta anos. Estava saudável e em boa forma, então foi… um choque terrível. Sou o tutor de Benjamin.

— Meu Deus, sinto muito, Connor. — A voz de Tess falhou diante daquela notícia inesperada.

O mundo era um lugar desesperadoramente triste. Ele não era muito ligado à irmã? Qual era o nome dela? Lisa. Isso, era Lisa.

— Um café seria ótimo — disse ela de repente, por impulso. — Você pode se aproveitar do meu cérebro. Se é que ele vai ser útil.

Ela não era a única que sofria. As pessoas perdiam seus entes queridos. Maridos se apaixonavam por outras mulheres. Além do mais, um café com alguém completamente alheio à sua vida atual seria a distração perfeita. Connor Whitby não era assustador.

— Seria ótimo. — Connor sorriu. Ela não lembrava que ele tinha um sorriso tão atraente. Ele ergueu o capacete. — Eu ligo ou mando um e-mail.

— Ok, você precisa do meu…

A pistola de combustível estalou, indicando que o tanque estava cheio. Tess a retirou do carro e a encaixou de volta na bomba.

— Agora você é uma das mães da St. Angela — disse Connor. — Consigo localizá-la.

— Ah. Que bom.

Uma das mães da St. Angela. Ela se sentiu estranhamente exposta. Virou-se para encará-lo com a chave do carro e a carteira na mão.

— A propósito, belo pijama. — Connor olhou-a de cima a baixo e sorriu.

— Obrigada — disse Tess. — Gostei da sua moto. Não me lembro de você ter uma.

Ele não dirigia algum tipo de sedã pequeno e sem graça?

— Crise de meia-idade.

— Acho que meu marido está passando por isso — comentou Tess.

— Espero que não esteja sendo muito difícil para você.

Tess deu de ombros. Ha ha. Voltou a olhar para a moto e falou:

— Quando eu tinha dezessete anos, minha mãe disse que me pagaria quinhentos dólares se eu assinasse um contrato prometendo que nunca andaria na garupa da moto de um garoto.

— Você assinou?

— Assinei.

— Nunca burlou o contrato?

— Não.

— Tenho quarenta e cinco anos — disse Connor. — Não sou bem um garoto.

Seus olhares se encontraram. Aquela conversa estava se tornando… um flerte? Ela se lembrava de acordar ao lado dele num quarto todo branco com uma janela que dava para uma avenida movimentada. Ele não tinha um colchão d’água? Ela e Felicity não haviam rido de um jeito bobo por causa disso? Ele usava um medalhão de São Cristóvão que ficava balançando acima do rosto dela quando transavam. De repente ela se sentiu enjoada. Infeliz. Isso era um erro.

Connor pareceu perceber a mudança em seu humor.

— Enfim, Tess, ligo para você qualquer hora dessas para marcarmos o café.

Ele pôs o capacete, virou a moto, ergueu a mão com uma luva preta e se afastou, fazendo o motor rugir.

Tess o observou ir embora, e então lhe ocorreu, com certo choque, que ela tivera seu primeiro orgasmo naquele ridículo colchão d’água. Na verdade, agora que pensava no assunto, também fizera algumas outras coisas pela primeira vez naquele colchão. Slosh, slosh, fazia a cama. Naquela época, o sexo, sobretudo para uma garota católica como Tess, era muito dolorido, sujo e novo.

Ao entrar na loja de conveniência iluminada demais para pagar a gasolina, ela ergueu os olhos e viu seu reflexo num espelho de segurança. Seu rosto, notou, estava bastante corado.