TRINTA
Tinha sido um erro sugerir um drinque. O que ela estava pensando? O bar estava cheio de gente jovem, bonita e bêbada. Tess ficava olhando para elas. Todos lhe pareciam alunos do ensino médio, que deveriam estar em casa estudando, e não na rua num dia de semana, fazendo aquela algazarra. Connor conseguira uma mesa para eles, o que foi uma sorte, mas ficava bem ao lado de uma fileira de máquinas de pôquer, iluminadas e barulhentas, e o pânico no rosto concentrado de Connor toda vez que ela falava deixava claro que ele estava tendo dificuldade para ouvi-la. Tess bebericou seu vinho não muito bom e sentiu sua cabeça começar a doer. Suas pernas estavam doloridas depois daquela longa caminhada ladeira acima ao sair da casa de Cecilia. Ela fazia apenas uma aula de body combat com Felicity nas terças-feiras à noite, mas não tinha mais nenhum horário livre para fazer exercícios entre o trabalho, e a escola e todas as atividades de Liam. De repente, lembrou-se de que pagara cento e noventa dólares no material de um curso de artes que Liam deveria ter começado em Melbourne hoje. Merda, merda, merda.
O que ela estava fazendo ali, afinal? Havia esquecido quão ruins eram os bares de Sydney, se comparados aos de Melbourne. Era por isso que não tinha ninguém com mais de trinta anos naquele lugar. Se você morasse na Costa Norte, era obrigado a beber em casa e se enfiar na cama às dez da noite.
Ela sentia falta de Melbourne. Sentia falta de Will. Sentia falta de Felicity. Sentia falta da sua vida.
Connor se inclinou para a frente.
— Liam tem uma coordenação muito boa dos movimentos dos olhos e das mãos — gritou ele.
Pelo amor de Deus, isso agora era uma reunião de pais e professores?
Quando Tess foi buscá-lo na escola naquela tarde, Liam parecera feliz e não mencionara nada sobre Will ou Felicity. Em vez disso, falara sem parar sobre como definitivamente tinha sido o melhor na caça aos ovos de Páscoa, e como dividira alguns de seus ovos com Polly Fitzpatrick, que ia dar uma festa de pirata incrível e todos na turma haviam sido convidados, e como ele tinha brincado daquele jogo divertido com um paraquedas na pista de corrida, e que haveria um desfile de chapéus de Páscoa no dia seguinte, e a professora dele ia se vestir de ovo de Páscoa! Tess não sabia dizer se era apenas o fator novidade ou se era o excesso de chocolate que o deixara tão animado, mas pelo menos por enquanto Liam não estava sentindo falta de sua antiga vida.
— Você queria que Marcus estivesse aqui também? — perguntara ela.
— Na verdade, não — dissera Liam. — Marcus era muito mau.
Ele recusara ajuda com seu chapéu de Páscoa e fizera uma criação própria, estranha e maravilhosa, a partir de um chapéu velho de Lucy, incorporando a ele flores falsas e um coelho de brinquedo. Depois comeu todo o jantar, cantou no banho e, às sete e meia, dormia profundamente. Não importava o que acontecesse, ele não voltaria para aquela escola em Melbourne.
— Ele herdou do pai — comentou Tess com um suspiro. — A boa coordenação.
Ela tomou um grande gole do vinho ruim. Will nunca a levaria a um lugar como aquele. Conhecia os melhores bares de Melbourne: bares intimistas, estilosos, com pouca iluminação, nos quais ele se sentaria de frente para ela à mesa e os dois conversariam. Nunca faltava assunto. Um ainda era capaz de fazer o outro rir. Saíam a cada dois meses. Só eles. Iam a um show ou jantavam. Não era isso que se deveria fazer? Investir no casamento com “noitadas” boas e regulares? (Ela não suportava essa frase.)
Felicity ficava cuidando de Liam quando eles saíam. Sempre tomavam um drinque com ela ao voltar para casa e lhe contavam como tinha sido a noite. Às vezes, se estava muito tarde, ela dormia lá, e todos tomavam café juntos na manhã seguinte.
Sim, Felicity era parte integrante de uma noitada.
Será que ficava deitada no quarto de hóspedes desejando estar no lugar de Tess? O comportamento de Tess teria sido inacreditavelmente cruel (mesmo que de forma inconsciente) com Felicity?
— O que você disse? — Connor inclinou-se para a frente, estreitando os olhos para ela.
— Ele herdou…
— Uhuul! — Houve uma explosão de gritos em volta de uma das máquinas de pôquer.
— Seu filho da mãe, seu maldito filho da mãe! — Uma das mocinhas bonitas (“vulgar”, como Felicity a teria descrito) deu um tapa nas costas do amigo enquanto uma enxurrada de moedas caía da máquina.
— Uhuul! Uhuul! Uhuul! — Um garoto de costas largas batia no peito como um gorila e começou a se desequilibrar para o lado, caindo em cima de Tess.
— Cuidado aí, cara — disse Connor.
— Cara, me desculpe! Acabamos de ganhar… — O garoto se virou e seu rosto se iluminou. — Sr. Whitby! Olha, gente, esse era o meu professor de educação física da escola! Ele foi, tipo, o melhor professor de educação física de todos os tempos.
Ele estendeu a mão e Connor se levantou e a apertou, lançando um olhar constrangido para Tess.
— Caramba, como você está, Sr. Whitby?
O garoto enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans e balançou a cabeça olhando para Connor, parecendo ter sido dominado por uma espécie de emoção filial.
— Estou bem, Daniel — respondeu Connor. — E você?
De repente, o garoto teve uma ideia incrível.
— Quer saber? Vou lhe pagar um drinque, Sr. Whitby. Seria um puta de um prazer. Sério. Desculpe meu linguajar. Devo estar meio bêbado. O que está bebendo, Sr. Whitby?
— Sabe, Daniel, seria ótimo, mas nós já estávamos mesmo de saída.
Connor estendeu a mão para Tess e, com um gesto automático, ela pegou sua bolsa, levantou-se e segurou a mão dele, de forma muito natural, como se eles tivessem um relacionamento de anos.
— Essa é a Sra. Whitby? — O garoto olhou Tess de cima a baixo, fascinado. Virou-se para Connor, deu uma piscadela travessa e descarada, e fez sinal de positivo com os polegares. Virou-se para Tess e disse: — Sra. Whitby, seu marido é uma lenda. Definitivamente, uma lenda. Ele me ensinou, tipo, salto a distância, e hóquei, e críquete, e, e, tipo, todos os esportes da porra do universo e, sabe, pareço atlético, eu sei, e sou mesmo, mas a senhora pode ficar surpresa em saber que eu não tinha uma coordenação motora muito boa, mas o Sr. Whitby, ele…
— Temos que ir, Daniel. — Connor deu um tapinha no ombro do garoto. — Foi bom ver você.
— Ah, também achei, cara. Também achei.
Connor levou Tess para fora do bar, para o ar noturno, maravilhosamente silencioso.
— Desculpe-me — disse ele. — Eu estava enlouquecendo lá dentro. Acho que estou ficando surdo. E depois um ex-aluno se oferecendo para me pagar um drinque… Meu Deus. Bem, parece que ainda estou segurando sua mão.
— Parece que sim.
O que você está fazendo, Tess? Mas ela não soltou a mão dele. Se Will podia se apaixonar por Felicity, se Felicity podia se apaixonar por Will, ela poderia passar alguns instantes de mãos dadas com um ex-namorado. Por que não?
— Eu lembro que sempre adorei suas mãos — confessou Connor. Ele pigarreou. — Acho que isso está beirando o inapropriado.
— É, bem… — disse Tess.
Ele deslizou o polegar tão delicadamente pelos nós dos dedos dela, que foi quase imperceptível.
Ela havia se esquecido disto: o modo como seus sentidos explodem e sua pulsação acelera, como se você estivesse enfim acordada depois de um longo sono. Tinha se esquecido da emoção, do desejo, da sensação de estar derretendo. Nada disso era possível depois de dez anos de casamento. Todo mundo sabia. Fazia parte do acordo. Ela aceitara o acordo. O que nunca fora um problema. Ela nem se dera conta de que sentia falta daquilo. Se alguma vez pensava nisso, parecia infantil, bobo — “soltar faíscas” —, tanto faz, quem se importa, ela tinha um filho para criar, um negócio para administrar. Mas, meu Deus, esquecera a força daquilo. Como nada mais parecia ter importância. Era isso que Will estava vivenciando com Felicity, enquanto Tess se ocupava da vida mundana de casada.
Connor aumentou só um pouquinho a pressão do polegar, e Tess sentiu uma onda de desejo.
Talvez o único motivo pelo qual Tess nunca havia traído Will fosse por não ter tido oportunidade. Na verdade, nunca traíra nenhum de seus namorados. Seu histórico sexual era impecável. Nunca teve um envolvimento de uma só noite com um rapaz inadequado, nunca beijou o namorado de outra garota enquanto estava bêbada, nunca acordou com um arrependimento sequer. Sempre fizera a coisa certa. Por quê? Pelo quê? Quem se importava?
Tess não desviou os olhos do polegar de Connor, observando, hipnotizada e surpresa, ele deslizar com tanta delicadeza pelo nó de seu dedo.
* * *
Junho de 1987, Berlim: O presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, fez um discurso em Berlim Ocidental, no qual disse: “Secretário-Geral Gorbachev, se o senhor quer a paz, se busca a prosperidade para a União Soviética e para a Europa Oriental, se quer a liberalização: venha a este portão! Sr. Gorbachev, abra este portão! Sr. Gorbachev, derrube este muro!”
Em Sydney, Andrew e Lucy O’Leary conversavam em voz baixa e com uma sinceridade brutal à mesa da cozinha, enquanto a filha de dez anos dormia no andar de cima.
— Não é que eu não possa perdoá-la — disse Andrew. — É que não me importo. Eu nem me importo.
— Só fiz isso para que você olhasse para mim — justificou Lucy.
Mas os olhos de Andrew já estavam voltados para além dela, para a porta.