TRINTA E DOIS

Cecilia sentou-se no sofá ao lado de Esther, assistindo a vídeos no YouTube daquela noite fria e clara de novembro de 1989, quando o Muro de Berlim foi derrubado. Ela própria estava ficando obcecada pelo Muro. Depois que a mãe de John-Paul fora embora, Cecilia ficara sentada à mesa da cozinha, lendo um dos livros de Esther até que desse a hora de buscar as meninas na escola. Havia tantas coisas que ela deveria estar fazendo — entregas de Tupperware, preparativos para o domingo de Páscoa e para a festa de pirata —, mas ler sobre o Muro era uma boa maneira de fingir que não estava pensando no que ela realmente estava pensando.

Esther tomava leite morno. Cecilia bebia sua terceira — ou seria a quarta? — taça de Sauvignon Blanc. John-Paul ouvia Polly praticar leitura. Isabel estava ao computador, na sala de estar, baixando músicas para seu iPod. A casa deles era uma bolha de vida doméstica, aconchegante e à meia-luz. Cecilia fungou. O cheiro do óleo de gergelim agora parecia ter impregnado a casa inteira.

— Olhe, mãe. — Esther a cutucou com o cotovelo.

— Estou vendo — disse Cecilia.

As recordações de Cecilia das cenas que vira nos noticiários em 1989 eram mais fortes do que aquela. Lembrava-se de multidões dançando em cima do muro, os punhos socando o ar. David Hasselhoff não estava cantando em algum lugar? Mas havia uma tranquilidade estranha e assustadora nos vídeos que Esther encontrara. As pessoas que saíam da Berlim Oriental pareciam ligeiramente surpresas, alegres, porém calmas, andando em fila de modo muito ordenado. (Eram alemães, afinal de contas. Pessoas parecidas com Cecilia.) Homens e mulheres com cortes de cabelo dos anos 1980 bebiam champanhe direto da garrafa, com a cabeça jogada para trás e sorrindo para as câmeras. Eles assobiavam, se abraçavam e choravam, apertavam as buzinas de seus carros, mas pareciam todos bem-comportados, muito gentis com relação a tudo aquilo. Mesmo as pessoas que batiam no muro com grandes martelos pareciam fazer isso com uma alegria contida, não com uma fúria descontrolada. Cecilia viu uma mulher mais ou menos da sua idade dançar em círculos com um homem de barba que usava jaqueta de couro.

— Por que você está chorando, mãe? — perguntou Esther.

— Porque eles estão muito felizes — respondeu Cecilia.

Porque haviam resistido àquela coisa insuportável. Porque era provável que aquela mulher tivesse pensado, como tantas outras pessoas, que o muro um dia cairia, mas não enquanto ainda fosse viva, e que ela jamais veria aquele dia, mas tinha visto, e por isso estava dançando.

— É estranho como você sempre chora por causa de coisas felizes — comentou Esther.

— Eu sei — concordou Cecilia.

Finais felizes sempre a faziam chorar. Era o alívio.

— Quer uma xícara de chá?

John-Paul se levantou da mesa de jantar, e Polly deixou o livro de lado. Ele olhava para Cecilia ansiosamente. Durante toda a noite, ela esteve consciente dos olhares dele, tímidos e solícitos. Isso a estava enlouquecendo.

— Não — disse Cecilia, em tom severo, sem encará-lo. Ela sentiu o olhar perplexo das filhas. — Não quero uma xícara de chá.