QUARENTA E DOIS
— Oi — Tess atendeu o telefone.
Era Connor. O corpo dela reagiu instantaneamente à voz dele, como um cão de Pavlov babão.
— O que você está fazendo? — perguntou ele.
— Estou comprando pãezinhos de passas — respondeu Tess.
Ela buscara Liam na escola e o levara ao shopping para comer um doce. Ao contrário do dia anterior, ele estava quieto e mal-humorado depois da escola, e não demonstrava interesse em conversar sobre o prêmio que ganhara no desfile. Ela também estava comprando uma lista de coisas para a mãe, que de repente se dera conta de que as lojas estariam fechadas no dia seguinte, por um dia inteiro, e entrara em pânico com a situação de sua despensa.
— Adoro pão de passas — disse Connor.
— Eu também.
— Sério? Temos tanta coisa em comum.
Tess riu. Notou que Liam a olhava curioso e então virou um pouco de costas para ele, para que o filho não visse seu rosto corado.
— Enfim — continuou Connor. — Não liguei por nenhum motivo especial. Só queria dizer que a noite passada foi muito… legal. — Ele tossiu. — Na verdade, legal é pouco.
Ai, meu Deus, pensou Tess. Pressionou a palma da mão na bochecha, que ardia.
— Sei que as coisas estão muito complicadas para você agora — prosseguiu Connor. — Não tenho nenhuma, hum… expectativa, juro. Não vou dificultar ainda mais a sua vida. Mas só queria que você soubesse que eu adoraria vê-la outra vez. Qualquer hora dessas.
— Mãe? — Liam puxou a bainha do seu cardigã. — É o papai?
Tess balançou a cabeça.
— Quem é? — insistiu o menino. Os olhos dele estavam arregalados e preocupados.
Tess afastou o telefone da orelha e levou um dedo aos lábios.
— É um cliente.
Liam perdeu o interesse na mesma hora. Estava acostumado a conversas com clientes.
Tess deu alguns passos para longe da multidão que esperava ser atendida na padaria.
— Tudo bem — disse Connor. — Como falei realmente não quero…
— Você está livre hoje à noite? — interrompeu-o Tess.
— Nossa, estou.
Ela aproximou a boca do telefone, como se fosse uma agente secreta.
— Irei à sua casa depois que Liam dormir. Vou levar pães de passas.
* * *
Rachel andava em direção ao carro quando viu o assassino de sua filha.
Ele falava ao celular, balançando o capacete que segurava com os dedos frouxos. Ao se aproximar, de repente ele jogou a cabeça para trás ao sol, como se tivesse recebido uma notícia inesperada e maravilhosa. A luz da tarde refletia em seus óculos escuros. Ele fechou o telefone e o guardou no bolso da jaqueta, sorrindo para si mesmo.
Rachel pensou mais uma vez no vídeo e na expressão dele ao se virar para Janie. Podia ver com tanta clareza. O rosto de um monstro: o olhar atravessado, malicioso, cruel.
E olhem só para ele agora. Connor Whitby estava bem vivo e bastante feliz, e por que não estaria, afinal havia se safado. Se a polícia não fizesse nada, como parecia ser o mais provável, ele jamais pagaria pelo crime que cometera.
Ela chegou ainda mais perto. Connor viu Rachel e seu sorriso desapareceu imediatamente, como se uma luz tivesse sido apagada.
Culpado, pensou ela. Culpado. Culpado. Culpado.
* * *
— Isso chegou via entrega expressa para você — disse Lucy assim que Tess voltara para casa e começara a tirar as compras das sacolas. — Parece que é do seu pai. Imagine só, ele mandando algo por entrega expressa.
Intrigada, Tess sentou-se à mesa da cozinha com a mãe e abriu o pequeno embrulho envolto em plástico-bolha. Lá dentro havia uma caixa fina e quadrada.
— Ele não lhe mandou joias, não é? — perguntou a mãe, esticando o pescoço para espiar.
— É uma bússola — revelou Tess. Era uma linda bússola antiquada de madeira. — Parece algo que o Capitão Cook usaria.
— Que peculiar — comentou sua mãe, torcendo o nariz.
Ao pegar a bússola, Tess viu um pequeno Post-it amarelo com um recado escrito à mão, preso ao fundo da caixa.
— Querida Tess — leu ela —, este provavelmente é um presente idiota para uma garota. Nunca sei o que comprar para você. Tentei pensar em algo que a ajudasse quando estivesse se sentindo perdida. Eu me lembro de me sentir assim. Foi horrível. Mas eu sempre tive você. Espero que encontre seu caminho. Com amor, papai.
Tess sentiu alguma coisa brotar em seu peito.
— Achei muito bonita — disse Lucy, pegando a bússola e girando-a de um lado para outro.
Tess imaginou o pai andando pelas lojas em busca do presente ideal para sua filha adulta. A expressão de leve terror que devia cruzar seu rosto calejado e enrugado sempre que alguém perguntava: “Posso ajudá-lo?” A maioria dos vendedores deve tê-lo considerado um velho grosseiro, carrancudo, bruto, que se recusava a olhá-los nos olhos.
“Por que você e o papai se separaram?”, Tess costumava perguntar à mãe. E Lucy respondia de forma suave, com um leve brilho nos olhos: “Ah, querida, éramos apenas duas pessoas muito diferentes.” Ela queria dizer: seu pai era diferente. (Quando Tess fez a mesma pergunta ao pai, ele dera de ombros, tossira e dissera: “Você vai ter que perguntar isso à sua mãe, querida.”)
Passara pela cabeça de Tess que seu pai também devia sofrer de ansiedade social.
Antes do divórcio, a mãe ficava enlouquecida com a falta de interesse dele em socializar. “Mas nós nunca vamos a lugar nenhum!”, dizia ela, frustrada, sempre que o pai de Tess se recusava a ir a algum evento.
“Tess é um pouco tímida”, a mãe dizia às pessoas num sussurro audível, tapando a boca com a mão. “Acho que puxou ao pai.” Tess ouvira a crítica discreta na voz da mãe e passara a acreditar que toda timidez era errada — moralmente errada, na verdade. Você deveria querer ir a festas. Você deveria querer estar cercada de pessoas.
Não era de espantar que ela sentisse vergonha da própria timidez, como se fosse uma deficiência física constrangedora que precisava ser escondida a todo custo.
Ela olhou para a mãe.
— Por que você não ia sozinha?
— O quê? — Lucy ergueu os olhos da bússola. — Ir aonde?
— Deixa para lá — disse Tess e estendeu a mão. — Devolva a minha bússola. Eu adorei.
* * *
Cecilia parou o carro na frente da casa de Rachel Crowley e se perguntou por que estava fazendo aquilo consigo mesma. Ela poderia ter entregado a encomenda de Tupperware de Rachel na escola depois da Páscoa. Só prometera as entregas aos convidados da reunião na casa de Marla para depois do feriado. Parecia que ao mesmo tempo que ela queria ir atrás de Rachel também queria evitá-la a todo custo.
Talvez quisesse vê-la porque Rachel era a única pessoa no mundo que tinha o direito e a autoridade para dizer alguma coisa sobre o atual dilema de Cecilia. “Dilema” era uma palavra gentil demais. Egoísta demais. Implicava que os sentimentos de Cecilia tinham mesmo importância.
Ela pegou a bolsa plástica com Tupperware no banco do carona e abriu a porta do carro. Talvez o verdadeiro motivo para estar ali era porque sabia que Rachel tinha todos os motivos do mundo para odiá-la e não conseguia suportar a ideia de que alguém a odiasse. Sou uma criança, pensou ao bater à porta. Uma criança de meia-idade, na pré-menopausa.
A porta se abriu mais rápido do que Cecilia esperava. Ela ainda estava preparando sua expressão.
— Ah! — exclamou Rachel, parecendo desapontada. — Cecilia.
— Desculpe-me — disse Cecilia. Eu sinto muito, muito mesmo. — Você está esperando alguém?
— Na verdade, não — respondeu ela, se recuperando. — Como vai? Meu Tupperware! Que maravilha! Muito obrigada. Gostaria de entrar? Onde estão as suas filhas?
— Na casa da minha mãe — disse Cecilia. — Ela estava se sentindo culpada por não ter ido ao Desfile de Chapéus de Páscoa hoje. Então preparou um chá da tarde para elas. Enfim. Isso não vem ao caso! Não vou entrar, vim apenas…
— Tem certeza? Acabei de pôr a chaleira no fogo.
Cecilia sentiu-se fraca demais para discutir. Faria qualquer coisa que Rachel quisesse. Suas pernas mal conseguiam sustentá-la, de tanto que tremiam. Se Rachel gritasse: “Confesse!”, ela o faria. Quase ansiava por isso.
Passou pelo vão da porta com o coração na boca, como se estivesse correndo perigo físico. A casa era muito parecida com a da família de Cecilia, assim como tantas outras casas da Costa Norte.
— Venha até a cozinha — convidou Rachel. — Liguei o aquecedor lá. Tem feito muito frio à tarde.
— Nós tínhamos aquele linóleo — comentou Cecilia seguindo-a até a cozinha.
— Tenho certeza de que era a última moda naquela época — afirmou Rachel, colocando saquinhos de chá nas xícaras. — Não sou do tipo que gosta de reformas, como pode ver. Simplesmente não me interesso por azulejos, carpetes, rodabancas e cores de tintas. Aqui está. Leite? Açúcar? Pode se servir.
— Essa é Janie? — perguntou Cecilia.
Ela tinha parado na frente da geladeira. Era um alívio pronunciar o nome de Janie. Sua presença era gigantesca na mente de Cecilia. Ela sentia que, se não dissesse seu nome normalmente, ele acabaria escapando de sua boca no meio de uma frase.
A foto na geladeira de Rachel estava presa de modo casual, com um ímã anunciando os serviços de Pete, Encanador 24 horas. Era uma foto colorida, pequena, esmaecida e descentralizada de Janie e seu irmão mais novo segurando latas de Coca-Cola em frente a uma churrasqueira. Os dois haviam se virado com uma expressão neutra, a boca entreaberta, como se o fotógrafo os tivesse surpreendido. Não era uma foto especialmente boa. De algum modo, a casualidade daquela imagem fazia parecer ainda mais impossível que Janie estivesse morta.
— Sim, é ela — respondeu Rachel. — Essa foto estava na geladeira quando Janie morreu, e nunca a tirei daí. Uma bobagem, eu sei. Tenho outras muito melhores. Pode se sentar. Tenho aqueles docinhos chamados macarons. Não macarrão, ah, não, se é isso que está pensando. Macarons. Você deve conhecê-los bem. Não sou muito sofisticada. — Cecilia viu que ela se orgulhava disso. — Coma um! São mesmo muito bons.
— Obrigada.
Ela sentou-se e pegou um macaron. Não tinha gosto de nada, parecia poeira. Ela deu um gole rápido demais no chá e queimou a língua.
— Obrigada por trazer meu Tupperware — falou Rachel. — Estou louca para usá-lo. Acontece que amanhã é o aniversário da morte de Janie. Vinte e oito anos.
Cecilia levou um tempo para compreender o que Rachel tinha dito. Não conseguiu entender a ligação entre o Tupperware e o aniversário de morte.
— Sinto muito — disse Cecilia.
Ela observou, com um interesse quase científico, que sua mão tremia visivelmente, e, com cuidado, pousou a xícara no pires.
— Não, eu que sinto muito — emendou-se Rachel. — Não sei por que falei isso. É que tenho pensado muito nela hoje. Ainda mais que o normal. Às vezes me pergunto com que frequência pensaria nela se estivesse viva. Não penso tanto assim no pobre do Rob. Não me preocupo com ele. Seria de imaginar que, depois de perder uma filha, eu me preocupasse que algo acontecesse com o outro. Mas não sou muito preocupada. Isso não é horrível? Mas me preocupo que algo aconteça ao meu neto, Jacob.
— Acho que isso é natural — comentou Cecilia.
De repente, ficou chocada com sua impressionante ousadia. Estava sentada ali naquela cozinha, fornecendo lugares-comuns junto com o Tupperware.
— Eu amo meu filho — disse Rachel, com a xícara na boca. — Odiaria que você pensasse que não me importo com ele.
— Claro que não penso isso!
Para seu horror, Cecilia notou que Rachel estava com um triângulo de macaron azul bem no meio do lábio inferior. Aquilo era humilhante demais e fazia Rachel parecer muito mais velha, quase como se tivesse demência senil.
— Apenas tenho a sensação de que agora ele pertence a Lauren. Como é mesmo que se diz? Um filho é da mãe até arranjar uma companheira; uma filha é da mãe pela vida inteira.
— Eu já… ouvi isso. Não sei se é verdade.
Cecilia estava agoniada. Não podia alertar Rachel sobre a migalha em seu lábio. Não enquanto ela falava de Janie.
Rachel levantou a xícara para tomar mais um gole, e Cecilia ficou tensa. Sem dúvida iria sumir agora. Rachel pousou a xícara. A migalha havia mudado de lugar e ficara ainda mais evidente. Ela precisava dizer alguma coisa.
— Não sei mesmo por que estou tagarelando sobre isso — disse Rachel. — Você deve estar pensando que perdi o fio da meada! Não sou eu mesma, como pode ver. Quando voltei para casa na outra noite, depois da sua reunião da Tupperware, encontrei uma coisa.
Ela lambeu os lábios e a migalha sumiu. Cecilia relaxou, aliviada.
— Encontrou uma coisa? — repetiu ela.
Tomou um grande gole de chá. Quanto mais rápido bebesse, mais cedo poderia ir embora. Estava muito quente. A água devia estar fervendo quando Rachel a despejou na xícara. A mãe de Cecilia também preparava chás quentes demais.
— Uma coisa que prova quem matou Janie — revelou Rachel. — É uma evidência. Uma nova evidência. Eu a entreguei à polícia… Ah! Ah, Cecilia, querida, você está bem? Depressa! Venha aqui e coloque a mão debaixo da pia.