CINQUENTA E TRÊS

Cecilia estava agachada perto da cadeira de Rachel, falando baixinho, mas com clareza, os olhos a apenas alguns centímetros de distância. Rachel conseguia ouvir e entender cada palavra que ela dizia, mas parecia não estar acompanhando. A mensagem não era absorvida. As palavras pareciam escorregar da superfície de sua mente. Ela tinha uma sensação apavorante, como se corresse desesperadamente para alcançar alguma coisa de importância vital.

Espere, ela queria dizer. Espere. Cecilia. O quê?

— Só descobri esses dias — afirmou Cecilia. — Na noite da reunião da Tupperware.

John-Paul Fitzpatrick. Ela estava tentando lhe dizer que John-Paul Fitzpatrick matara Janie? Rachel agarrou o braço de Cecilia com força.

— Você está dizendo que não foi Connor — confirmou ela. — Tem certeza de que não foi Connor? Que ele não teve nada a ver com isso?

Uma tristeza profunda atravessou o rosto de Cecilia.

— Tenho certeza — ratificou ela. — Não foi Connor. Foi John-Paul.

John-Paul Fitzpatrick. Filho de Virginia. Marido de Cecilia. Um homem alto, bonito, bem-vestido e educado. Um conhecido e respeitado membro da comunidade escolar. Rachel o cumprimentaria com um aceno e um sorriso se o visse no mercado do bairro ou num evento da St. Angela. John-Paul sempre liderava o grupo de pais voluntários nos projetos de reforma da escola. Usava um cinto de ferramentas e um boné simples, preto, e segurava a trena com uma confiança impressionante. No mês passado, Rachel vira Isabel Fitzpatrick correr direto para os braços do pai quando ele foi buscá-la após o acampamento do sexto ano. Rachel ficara impressionada com a alegria no rosto de Isabel ao ver John-Paul, e também com a semelhança que a menina tinha com Janie. John-Paul girara a filha descrevendo um arco no ar, as pernas dela voando, como se ela fosse muito mais nova, e Rachel sentiu um arrependimento terrível por Janie nunca ter sido aquele tipo de filha, e Ed nunca ter sido aquele tipo de pai. Sua preocupação com o que as outras pessoas iriam pensar parecia uma bobagem. Por que haviam sido tão cuidadosos e contidos com suas demonstrações de amor?

— Eu deveria ter lhe contado — disse Cecilia. — Deveria ter lhe contado assim que descobri.

John-Paul Fitzpatrick.

Ele tinha um cabelo tão bom. De aparência respeitável. Diferente da cabeça careca de Connor, que o fazia parecer ardiloso. John-Paul dirigia um carro de família, limpo e brilhante. Connor circulava por aí com sua moto suja rugindo. Aquilo não poderia estar certo. Cecilia devia ter entendido errado. Rachel não conseguiria desviar seu ódio de Connor Whitby. Ela o odiara por tanto tempo, mesmo quando não tinha certeza, mesmo quando só suspeitava, ela o odiara pela possibilidade de ele ter feito aquilo. Ela o odiara por simplesmente ter existido na vida de Janie. Ela o odiara por ter sido o último a vê-la com vida.

— Eu não entendo — disse ela a Cecilia. — Janie conhecia John-Paul?

— Eles tinham uma espécie de relacionamento secreto. Estavam namorando, acho que podemos afirmar isso — falou Cecilia.

Ela continuava agachada no chão perto de Rachel, e seu rosto, que tinha perdido a cor, agora estava bastante corado.

— John-Paul estava apaixonado por Janie, mas aí ela disse que havia outro, e ela acabou escolhendo o outro garoto, e então ele… Bem. Ele perdeu a cabeça. — As palavras dela sumiram. — Ele tinha dezessete anos. Foi um momento de loucura. Parece que estou dando uma desculpa. Juro que não estou tentando justificar o que ele fez. É óbvio que não. É claro que não tem desculpa. Sinto muito. Tenho que me levantar. Meus joelhos. Meus joelhos estão doendo.

Rachel observou Cecilia ficar de pé com dificuldade, olhar ao redor procurando outra cadeira e arrastá-la para perto antes de se sentar e se inclinar na sua direção, com as sobrancelhas tão franzidas que mais parecia um bebê com prisão de ventre.

Janie dissera a John-Paul que havia outro garoto. Então o outro garoto era Connor Whitby.

Havia dois rapazes interessados em Janie, e Rachel não fazia a menor ideia disso. O que Rachel fizera de errado como mãe para saber tão pouco sobre a vida da filha? Por que elas não trocaram confidências enquanto comiam biscoitos e bebiam leite de tarde, depois da escola, como faziam as mães e filhas dos seriados americanos? Rachel só cozinhava sob pressão. Janie comia biscoitos com manteiga no chá da tarde. Se ao menos ela cozinhasse um lanche para Janie, pensou com uma súbita explosão de autodesprezo. Por que ela não tinha cozinhado um lanche? Se tivesse feito isso, se Ed tivesse girado a filha no ar daquela forma, então talvez tudo pudesse ter sido diferente.

— Cecilia?

As duas ergueram os olhos. Era John-Paul.

— Cecilia. Eles querem que a gente assine alguns formulários… — Ele interrompeu a frase ao ver Rachel. — Oi, Sra. Crowley.

— Oi — disse Rachel.

Ela não conseguiu se mexer. Era como se estivesse anestesiada. Ali estava o assassino de sua filha, bem na sua frente. Um pai de meia-idade, exausto e angustiado, com os olhos vermelhos e a barba grisalha por fazer. Era impossível. Ele não tinha nada a ver com Janie. Era velho demais. Adulto demais.

— Eu contei a ela, John-Paul — disse Cecilia.

Ele deu um passo para trás, como se alguém tivesse tentado atingi-lo.

Fechou os olhos por um instante, então tornou a abri-los e fitou Rachel diretamente com tamanho arrependimento nos olhos que, para ela, não restou mais nenhuma dúvida.

— Mas por quê? — perguntou Rachel, assustada com a sua voz que parecia comum e civilizada, discutindo o assassinato da filha no meio do dia, enquanto dezenas de pessoas passavam por ali, ignorando-os, achando que aquela era apenas mais uma conversa rotineira. — Você poderia ao menos me dizer por que faria uma coisa dessas? Ela era só uma garotinha.

John-Paul baixou a cabeça e passou ambas as mãos pelo belo cabelo respeitável e, quando voltou a erguer os olhos, era como se seu rosto tivesse se despedaçado em mil partes.

— Foi um acidente, Sra. Crowley. Nunca tive a intenção de machucá-la, porque, entenda, eu a amava. Eu a amava de verdade. — Ele passou as costas da mão no nariz, num gesto descuidado, impotente, como um bêbado numa esquina. — Eu era um adolescente idiota. Ela me disse que estava saindo com outra pessoa e depois riu de mim. Sinto muito, mas é o único motivo que tenho. Sei que não é nem de longe um motivo. Eu a amava, e ela riu de mim.

* * *

Cecilia tinha uma leve consciência de que as pessoas continuavam andando pelo corredor onde elas estavam sentadas. Corriam ou passeavam, gesticulavam e riam, conversavam animadamente nos celulares. Ninguém parava para observar a mulher de cabelos brancos sentada com as costas eretas na cadeira de couro marrom, as mãos nodosas apertando as laterais, os olhos fixos no homem de meia-idade de pé na frente dela, com a cabeça baixa numa profunda contrição, o pescoço à mostra, os ombros curvados. Ninguém pareceu notar nada de extraordinário em seus corpos congelados, em seu silêncio. Estavam numa bolha própria, isolados do restante da humanidade.

Cecilia sentiu o couro da cadeira, frio e macio, embaixo de suas mãos, e, de repente, o ar saiu de seus pulmões.

— Preciso voltar para ficar com Polly — anunciou ela, se levantando tão rápido que sua cabeça pareceu girar.

Quanto tempo havia se passado? Quanto tempo fazia que estavam lá fora? Sentiu um certo pânico, como se tivesse abandonado Polly. Olhou para Rachel e pensou: Não posso me preocupar com você agora.

— Preciso falar com o médico de Polly de novo — disse ela a Rachel.

— Claro — respondeu ela.

John-Paul mostrou as palmas das mãos para Rachel, os pulsos virados para cima, como se esperasse ser algemado.

— Sei que não tenho nenhum direito de lhe pedir isso, Rachel, Sra. Crowley, não tenho o direito de lhe pedir nada, mas, olhe, Polly precisa de nós dois neste momento, então só quero um tempo…

— Não vou tirar você de perto da sua filha — interrompeu Rachel. Ela soava fria e furiosa, como se Cecilia e John-Paul fossem dois adolescentes que não vinham se comportando direito. — Eu já… — Ela parou, engoliu em seco e olhou para o teto, como se estivesse tentando controlar uma ânsia de vômito. Dispensou-os com um gesto. — Vão. Vão logo ficar com a sua menininha. Os dois.