NOTAS E ABREVIATURAS
ACAU
: Archivio della Curia Arcivescovile di Udine.
ACVP
: Archivio della Curia Vescovile di Pordenone.
ASM
: Archivio di Stato di Modena.
ASP
: Archivio di Stato di Pordenone.
ASVAT
: Archivio Secreto Vaticano.
ASVEN
: Archivio di Stato di Venezia.
BCU
: Biblioteca Comunale di Udine.
BGL
: Biblioteca Governativa di Lucca.
PREFÁCIO
1
O homem comum, escreveu Vicens Vives, “se ha convertido en el principal protagonista de la Historia” (citação de P. Chaunu, “Une histoire religieuse sérielle”, in
Revue d’histoire moderne et contemporaine
(1965,
XII
: 9, nota 2).
A citação de Brecht foi extraída de “Fragen eines lesenden Arbeiters”, in
Hundert Gedichte, 1918-1950
(Berlim, 1951), pp. 107-8. Noto que o mesmo poema foi usado como epígrafe por J. Kaplow,
The Names of Kings
:
The Parisian Laboring Poor in the Eighteenth Century
(Nova York, 1973). Ver também H. M. Enzensberger, “Letteratura come storiografia”, in
Il Menabò
(1966), 9: 13.
2
Uso a expressão gramsciana
classes subalternas
por ser suficientemente ampla e despida das conotações paternalistas de que está imbuída
classes inferiores
. Sobre os temas levantados quando da publicação das anotações de Gramsci sobre folclore e classes subalternas, v. as discussões entre De Martino, C. Luporini, F. Fortini e outros (v. a lista dos participantes in L. M. Lombardi Satriani,
Antropologia culturale e analisi della cultura subalterna
[Rimini, 1974], p. 74, nota 34). V. sobre os termos atuais da questão, em grande parte já eficazmente antecipados, E. J. Hobsbawm, “Per lo studio delle classi subalterne”, in
Società
(1960),
XVI
: 436-49, cf.
infra
.
Os processos contra Menocchio se encontram no Archivio della Curia Arcivescovile di Udine (daqui em diante,
ACAU
),
Sant’ Uffizio
,
Anno integro 1583 a n. 107 usque ad 128 incl.
, proc. n. 126, e
Anno integro 1596 a n. 281 usque ad 306 incl.
, proc. n. 285. O único estudioso que faz menção a esses processos (mas não os consultou) é A. Battistella,
Il S. Oficio e la riforma religiosa in Friuli
:
Appunti storici documentati
(Udine, 1895), p. 65, o qual afirma, erroneamente, que Menocchio não foi executado.
3
A bibliografia sobre esses temas é obviamente muito vasta. Para uma introdução mais acessível, v. A. M. Cirese, “Alterità e dislivelli interni di cultura nelle società superiori”, in
Folklore e antropologia tra storicismo e marxismo
, A. M. Cirese (Palermo, 1972), pp. 11-92; Lombardi Satriani,
Antropologia culturale
, cit.;
Il concetto di cultura
:
I fondamenti teorici della scienza antropologica
, org. P. Rossi (Turim, 1970). A concepção do folclore como “acúmulo desorgânico de ideias etc.” foi adotada também por Gramsci, com algumas variações: v.
Letteratura e vita nazionale
(Turim, 1950), p. 215 ss. V. também Lombardi Satriani,
Antropologia culturale
, op. cit., p. 16 ss.
Uma cultura oral
: v. a respeito C. Bermani, “Dieci anni di lavoro con le fonti orali”, in
Primo Maggio
(primavera de 1975), 5: 35-50.
R. Mandrou,
De la culture populaire aux 17
e
et 18
e
siècles
:
La Bibliothèque bleue de Troyes
(Paris, 1964), observa que inicialmente
cultura popular
e
cultura de massa
não são sinônimos. (Note-se que
cultura de massa
e o termo correspondente em italiano equivalem à expressão anglo-americana
popular culture
— o que dá margem a muitos equívocos.)
Culture populaire
, designação mais antiga, exprime, dentro de uma perspectiva “populista”, “la culture qui est l’oeuvre du peuple”. Mandrou propõe o mesmo termo num sentido “mais amplo” (na verdade, diferente): “la culture des milieux populaires dans la France de l’Ancien Régime, nous l’entendons [...], ici, comme la culture acceptée, digérée, assimilée, par ces milieux pendant des siècles” (pp. 9-10). Dessa maneira, cultura popular acaba quase se identificando com cultura de massa, o que é anacrônico, já que cultura de massa em sentido moderno pressupõe a indústria cultural, que com certeza não existia na França do Ancien Régime (v. p. 174). O uso do termo
superestrutura
(p. 11) também é equivocado: teria sido melhor, dentro da perspectiva de Mandrou, falar de falsa consciência. Sobre a literatura de cordel como literatura de evasão e, atualmente, como reflexo da visão de mundo das classes populares, v. pp. 162-3. De qualquer forma, Mandrou tem plena consciência dos limites de um estudo pioneiro (p. 11) e, como tal, indubitavelmente meritório. De G. Bollème, v. “Littérature populaire et littérature de colportage au
XVIII
e
siècle”, in
Livre et société dans la France du XVIII
e
siècle
, 2 v. (Paris, ’s Gravenhage, 1965),
I
: 61-92;
Les Almanachs populaires aux XVII
e
et XVIII
e
siècle
,
essai d’histoire sociale
(Paris, ’s Gravenhage, 1969); antologia
La Bibliothèque bleue
:
La littérature populaire en France du XVI
e
au XIX
e
siècle
(Paris, 1971); “Représentation religieuse et thèmes d’espérance dans la ‘Bibliothèque Bleue’; Littérature populaire en France du
XVII
e
au
XIX
e
siècle”, in
La società religiosa nell’età moderna. Atti del convegno di studi di storia sociale e religiosa
,
Capaccio-Paestum
,
18-21 maggio 1972
(Nápoles, 1973), pp. 219-43. Trata-se de estudos de diferentes níveis. O melhor é o que antecede a antologia da
Bibliothèque bleue
(nas pp. 22-3, observações sobre o provável tipo de leitura desses textos), que, todavia, contém afirmações como estas: “[...] à la limite, l’histoire qu’entend ou lit le lecteur n’est que celle qu’il veut qu’on lui raconte [...] . En ce sens on peut dire que Fécriture, au même titre que la lecture, est collective, faite par et pour tous, diffuse, diffusée, sue, dite, échangée, non gardée, et qu’elle est en quelque sorte spontanée...” (ibid.). Os exageros inaceitáveis em sentido populista-cristão que aparecem, por exemplo, no ensaio “Représentation religieuse” baseiam-se em sofismas desse tipo. Parece mentira, mas A. Dupront
criticou Bollème por ter tentado caracterizar “l’historique dans ce qui est peut-être l’anhistorique, manière de fonds commum quasi ‘indatable’ de traditions...” (“Livre et culture dans la société Française du 18
e
siècle”, in
Livre et société
,
I
: 203-4).
Sobre “literatura popular” v. o importante ensaio de N. Z. Davis, “Printing and the People”, in
Society and Culture in Early Modern France
(Stanford, 1975), pp. 189-206, que se baseia em pressupostos em parte semelhantes aos deste livro.
Ao período posterior ao da Revolução Industrial se referem certos trabalhos como o de L. James,
Fiction for the Working Man
, 1830-1850 (1
a
ed., Oxford, 1963; Londres, 1974); R. Schenda,
Volk ohne Buch
:
Studien zur Sozialgeschichte der populären Lesestoffe
(1770-1910) (Frankfurt a. M., 1970) (numa coleção dedicada à
Triviallitteratur
); J. J. Darmon,
Le colportage de librairie en France sous le second Empire
:
Grands colporteurs et culture populaire
(Paris, 1972).
4
Usei a tradução francesa de Bakhtin:
L’oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Age et sous la Renaissance
(Paris, 1970) [Trad. bras.:
A cultura popular na Idade Média e no Renascimento
. São Paulo, Hucitec, 1987 (N. R. T.)]. Na mesma direção, v. a intervenção de A. Berelovic, in
Niveaux de culture et groupes sociaux
(Paris, La Haye, 1967), pp. 144-5.
5
V. E. Le Roy Ladurie,
Les paysans de Languedoc
, 2 v. (Paris, 1966),
I
: 394 ss.; N. Z. Davis, “The Reasons of Misrule: Youth Groups and Charivaris in Sixteenth-Century France”, in
Past and Present
(fev. 1971), 50: 41-75; E. P. Thompson, “‘Rough Music’: Le Charivari anglais”, in
Annales
:
ESC
(1972),
XXVII
: 285-312 (e também, sobre o mesmo argumento, C. Gauvard e A. Gokalp, “Les conduites de bruit et leur signification à la fin du Moyen Age: Le Charivari”, ibid., 1974, 29: 693-704). Os estudos citados valem como exemplos. Sobre a questão, bastante diversa, da persistência de modelos culturais pré-industriais no proletariado industrial, v., do mesmo Thompson, “Time, Work-Discipline, and Industrial Capitalism”, in
Past and Present
(dez. 1967), 38: 56-97, e
The Mak ing of the English Working Class
(2. ed. rev. Londres, 1968); de E. J. Hobsbawm, v. principalmente
Primitive Rebels
:
Studies in Archaic Forms of Social Movement in the Nineteenth and Twentieth Centuries
(Manchester, 1959) [Ed. bras.:
Rebeldes primitivos
. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978 (N. R. T.)], e “Les classes ouvrières anglaises et la culture depuis les débuts de la révolution industrielle”, in
Niveaux de culture
, op. cit., pp. 189-99.
Um grupo de estudiosos chegou a se perguntar...
: v. M. de Certeau, D. Julia e J. Revel, “La beauté du mort: Le concept de ‘culture populaire’”, in
Politique aujourd’hui
(dez. 1970), pp. 3-23 (a frase citada está na p. 21).
In
Folie et déraison
:
Histoire de la folie à l’age classique
(Paris, 1961), p.
VII
, Foucault afirma que “faire l’histoire de la folie, voudra donc dire: faire une étude structurale de l’ensemble historique — notions, institutions, mesures juridiques
et policières, concepts scientifiques — qui tient captive une folie dont l’état sauvage ne peut jamais être restitué en lui-même; mais à défaut de cette inaccessible pureté primitive, l’étude structurale doit rémonter vers la décision qui lie et sépare à la fois raison et folie”. Isso explica a ausência, neste livro, dos loucos — ausência devida não apenas — nem predominantemente — à dificuldade em encontrar documentação adequada. Os delírios — transcritos em milhares de páginas, conservadas pela Bibliothéque de l’Arsenal — de um lacaio, semianalfabeto e “dément furieux”, que viveu no final do século
XVII
, para Foucault não têm lugar no “universo do nosso discurso”, “estão irreparavelmente fora da história” (p.
V
). Difícil dizer se testemunhos como esses poderiam lançar alguma luz sobre a “pureza primitiva” da loucura — que talvez não seja, aliás, de todo inacessível. De qualquer modo a coerência de Foucault nesse livro genial, embora frequentemente irritante, está acima de qualquer suspeita (embora algumas incoerências ocasionais apareçam: v., por exemplo, pp. 475-6). Para um comentário sobre a involução de Foucault, de
Histoire de la folie
(1961) [Trad. bras.:
História da loucura na Idade Clássica
. São Paulo, Perspectiva, 1978 (N. R. T.)] até
Les mots et les choses
(1966) [Trad. bras.:
As palavras e as coisas
. São Paulo, Martins Fontes, 1981 (N. R. T.)] e
L’archéologie du savoir
(1966) [Trad. bras.:
A arqueologia do saber
. Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1986 (N. R. T.)], v. P. Vilar, “Histoire marxiste, histoire en construction”, in
Faire de l’histoire
, org. J. Le Goff e P. Nora (Paris, 1974),
I
: 188-9 [Trad. bras.: “História marxista, história em construção”, in
História
:
novos problemas
, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, pp. 146-78 (N. R. T.)]. Sobre as objeções de Derrida, v. D. Julia, “La religion — histoire religieuse”, op. cit.,
II
: 145-6 [Trad. bras.: “História religiosa”, in
História
:
novas abordagens
. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, pp. 106-31 (N. R. T.)]. V.
Moi
,
Pierre Rivière
,
ayant égorgé ma mère
,
ma soeur et mon frère
, org. M. Foucault et alii (Paris, 1973) [Trad. bras.:
Eu
,
Pierre Rivière
,
que degolei minha mãe
,
minha irmã e meu irmão
. Rio de Janeiro, Graal, 1983 (N. R. T.)]. Sobre o “estupor”, o “silêncio” e a recusa de interpretação, v. pp. 11, 14, 243, 314, 348 nota 2. Sobre as leituras de Rivière, v. pp. 40, 42, 125. O trecho sobre vagabundagens nos bosques está na p. 260. A alusão ao canibalismo, na p. 249. No que toca à questão da deformação populista, v. principalmente a contribuição de Foucault, “Les meurtres qu’on raconte”, pp. 265-75. Em geral, v. G. Huppert, “Divinatio et Eruditio: Thoughts on Foucault”, in
History and Theory
(1974),
XIII
: 191-207.
6
V. de Le Goff, “Culture clericale et traditions folkloriques dans la civilisation mérovingienne”, in
Annales ESC
(1967),
XXII
: 780-91 [Trad. port.: “Cultura clerical e tradições folclóricas na civilização merovíngia”, in
Para um novo conceito de Idade Média
. Lisboa, Estampa, 1979, pp. 207-19 (N. R. T.)]; “Culture ecclésiastique et culture folklorique au Moyen Age: Saint Marcel de Paris et le dragon”, in
Richerche storiche ed economiche in memoria di Corrado Barbagallo
, org. L. de Rosa (Nápoles, 1970),
II
: 53-94 [Trad. port.: “Cultura eclesiástica e cultura folclórica na Idade Média: são Marcelo de Paris e o dragão”, in
Para um novo conceito...
, pp. 22-61 (N. R. T.)].
Aculturação
: V. Lanternari,
Antropologia e imperialismo
(Turim, 1974), n. 5 ss., e N. Wachtel, “L’acculturation”, in
Faire de l’histoire
, op. cit.,
I
: 124-46 [Trad. bras.: “A aculturação”, in
História
:
novos problemas
, pp. 113-29 (N. R. T.)].
Uma pesquisa sobre processos contra a burguesia
: v. C. Ginzburg,
Os andarilhos do bem
.
Feitiçaria e cultos agrários nos séculos XVI e XVII
(São Paulo, 1988).
7
História
“
quantitativa
”
das ideias ou... história religiosa
“
serial
”: para a primeira, v.
Livre et société
(op. cit.); para a segunda, P. Chaunu, “Une historie religieuse”, op. cit., e M. Vovelle,
Piété baroque et déchristianisation en Provence au XVIII
e
siècle
(Paris, 1973). Em geral, v. F. Furet, “L’histoire quantitative et la construction du fait historique”, in
Annales: ESC
(1971),
XXVI
: 63-75, que entre outras coisas comenta, com razão, as implicações ideológicas de um método que tende a absorver as rupturas (e as revoluções) por um longo período e no equilíbrio do sistema. No mesmo sentido, v. as pesquisas de Chaunu, bem como a participação de A. Dupront para a antologia citada,
Livre et société
(
I
: 185 ss.), onde, entre muitas divagações inebriantes sobre a “alma coletiva”, chega-se a exaltar as virtudes tranquilizantes de um método que permite o estudo do século
XVIII
francês, ignorando seu desenlace revolucionário — o que equivaleria a se liberar da “escatologia da história” (p. 231).
Por alguém como François Furet
,
que defendia...
: v. “Pour une définition des classes inférieures à l’époque moderne”, in
Annales: ESC
(1963),
XVIII
: 459-74, especialmente p. 459.
“
Histoire événementielle
” (
que não só e nem necessariamente é história política
): v. R. Romano, “À propos de l’édition italienne du livre de F. Braudel... ”, in
Cahiers Vilfredo Pareto
(1968), 15: 104-6.
A nobreza austríaca ou o baixo clero: alusão a O. Brunner, Vita nobiliare e cultura europea (trad. ital. Bolonha, 1972) (e v. C. Schorske, “New Trends in History”, in
Daedalus
(1969), 98: 963), e a A. Macfarlane,
The Family Life of Ralph Josselin
,
a Seventeenth-Century Clergyman
:
An Essay in Historical Anthropology
(Cambridge, 1970), mas também as observações de E. P. Thompson, “Anthropology and the Discipline of Historical Context”, in Midland History
I
(1972), 3:41-5.
Assim como a língua
,
a cultura
... : v. as considerações de P. Bogatyrëv e R. Jakobson, “Il folclore come forma di creazione autonoma”, in
Strumenti critici
(1976),
I
: 223-40. As famosas páginas de G. Lukács sobre a “consciência possível” (v.
Storia e coscienza di classe
[trad. ital., Milão, 1967], p. 65 ss.), embora surgidas num contexto completamente diverso, podem ser usadas na direção apontada.
Em poucas palavras
,
mesmo um caso-limite
... : v. D. Cantimori,
Prospettive di storia ereticale italiana del Cinquecento
(Bari, 1960), p. 14.
Arquivos da repressão
: v. D. Julia, “La religion — histoire religieuse”, in
Faire de l’histoire
, op. cit.,
II
: 147.
Sobre as relações entre pesquisas quantitativas e pesquisas qualitativas, v. as observações de E. Le Roy Ladurie, “La révolution quantitative et les historiens français: Bilan d’une génération (1932-1968)”, in
Le territoire de l’historien
(Paris, 1973), p. 22. Entre as disciplinas “pionnières et prometteuses” que continuam, decididamente e com toda razão, qualitativas, Le Roy cita a “psychologie historique”. O trecho de E. P. Thompson está em “Anthropology”, op.
cit., p. 50.
Furio Diaz
...,
a essa abordagem
: v. “Le stanchezze di Clio”, in
Revista storica italiana
(1972),
LXXXIV
: em particular pp. 733-4, assim como, do mesmo autor, “Metodo quantitativo e storia delle idee”, ib. (1966),
LXXVIII
: 932-47 (sobre a obra de Bollème, pp. 939-41). V. também as críticas de F. Venturi,
Utopia e riforma nell’illuminismo
(Turim, 1970), pp. 24-5. Sobre a questão da leitura, v. a bibliografia citada nos caps. 14 e 15.
8
Sobre a história das mentalidades, v. J. Le Goff, “Les mentalités: une histoire ambiguë”, in
Faire de l’histoire
, op. cit.,
III
: 76-94. [Trad. bras.: “As mentalidades, uma história ambígua”, in Le Goff e Nora (orgs.),
História
:
novos objetos
. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1976, pp. 68-83 (N. R. T.).] O trecho citado se encontra à p. 80. Le Goff observa a propósito: “Eminemment collective, la mentalité semble soustraite aux vicissitudes des luttes sociales. Ce serait pourtant une grossière erreur que de la détacher des structures et de la dynamique sociale [...]. Il y a des mentalités de classes, à côté de mentalités communes. Leur jeu reste a étudier” (pp. 89-90).
Num livro inexato mas fascinante
... : v. L. Febvre,
Le problème de l’incroyance au XVI
e
siècle
:
La religion de Rabelais
(1
a
ed. 1942; Paris, 1968) [Trad. port.:
O problema da descrença no século XVI
.
A religião de Rabelais
. Lisboa, Início, s. d. (N. R. T.)]. Como se sabe, a argumentação de Febvre parte de um tema circunscrito à refutação da tese, proposta por A. le Franc, segundo a qual Rabelais, no
Pantagruel
(1532), teria sido um propagandista do ateísmo — e se alarga a círculos cada vez mais amplos. A terceira parte, sobre os limites da incredulidade do século
XVI
, é com certeza o que há de mais novo do ponto de vista metodológico, mas também o mais genérico e inconsistente, como é provável que até mesmo Febvre tenha pressentido (p. 19). A extrapolação indevida para a mentalidade coletiva dos “homens do século
XVI
” deve muito às teorias de Lévy-Bruhl (“notre maître”, p. 17) sobre as mentalidades primitivas. (É curioso que Febvre ironize sobre “les gens du Moyen Age” para falar logo em seguida, poucas páginas depois, de «homens do século
XVI
” e de “homens da Renascença”, apesar de acrescentar, no último caso, que se trata de uma forma «clichée, mais commode”: v. pp. 153-4, 142, 344, 382.) A referência aos camponeses está na pp. 253; Bakhtin já observara (
L’oeuvre de François Rabelais
, op. cit., p. 137) que a análise de Febvre se baseia unicamente nos ambientes da cultura oficial. Confronto com Descartes, pp. 393, 425, passim. Sobre este último ponto, v. também G. Schneider,
Il libertino
.
Per una storia sociale del la cultura borghese nel XVI e XVIII secolo
(trad. ital. Bolonha, 1974), e as observações (não todas aceitáveis) formuladas à p. 7 e ss. Com o risco presente na historiografia de Febvre de cair numa tautologia sofisticada, v. D. Cantimori,
Storici e storia
(Turim, 1971), pp. 223-5.
Grupos marginais
,
como os vagabundos
: v. B. Geremek, “Il pauperismo nell’età preindustriale (secoli
XIV-XVIII
)”, in
Storia d’Italia
(Turim, 1973), v.
V
, t.
I
, pp. 698-99, e
Il libro dei vagabondi
, org. P. Camporesi (Turim, 1973).
Análises particularizadas: é muito importante a análise feita por Valerio Marchetti sobre os artesãos residentes em Siena no século
XVI
.
9
No que se refere a este parágrafo, v. cap. 28.
10
Levar em consideração uma mutilação histórica
: isto não deve ser obviamente confundido com a nostalgia reacionária do passado e muito menos com a retórica um tanto quanto reacionária sobre uma presumível “civilização camponesa” imóvel e aistórica.
A frase de Benjamin foi extraída de
Angelus Novus
:
Saggi e Frammenti
, in
Tesi di filosofia della storia
, org. R. Solmi (Turim, 1962), p. 73 [Trad. bras.: “Sobre o conceito de História”, in
Magia e técnica
,
arte e política
(
Obras escolhidas
, v. 1). São Paulo, Brasiliense, 1985, pp. 222-32 (N. R. T.)].
O QUEIJO E OS VERMES
1
Menocchio
: é o nome recorrente nos documentos inquisitoriais. Aparece também como “Menoch” e “Menochi”.
Quando do primeiro processo
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 15v.
Montereale
: hoje, Montereale Cellina é uma cidadezinha de colina (a 317 metros acima do nível do mar), situada bem na entrada do Val Cellina. Em 1584, a paróquia era constituída por 650 almas: v.
ACVP
“Sacrarum Visitationum Nores ab anno 1582 usque ad annum 1584”, f. 168v.
Após uma briga
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 20r.
As vestimentas tradicionais de moleiro
: “indutus vestena quadam et desuper tabaro ac pileo aliisque vestimentis de lana omnibus albo colore” (ibid., f. 15v.). Esse tipo de vestimenta ainda estava em uso entre os moleiros na Itália do século
XIX
. v. C. Cantú,
Portafoglio d’un operajo
(Milão, 1871), p. 68.
Alguns anos depois
: v.
ACAU
, “Sententiarum contra reos S. Officii liber ii”, f. 16v.
Dois campos arrendados
: sobre contratos de arrendamento desse período, v. G. Giorgetti,
Cantadini e proprietari nell’Italia moderna
:
Rapporti di produzione e contratti agrari dal secolo XVI a oggi
(Turim, 1974), p. 97 ss. Não sabemos se se tratava de arrendamentos “perpétuos” ou de duração mais breve (por exemplo, 29 ou, como é mais provável, nove anos). Sobre a imprecisão da terminologia dos contratos desse período, que muitas vezes torna difícil distinguir entre
enfiteuse
[v. N. R. T. no cap. 7], arrendamento e locação, v. as observações de G. Chittolini, “Um problema aperto: la crisi della proprietà ecclesiastica fra Quattro e Cinquecento”, in
Rivista storica italiana
(1973),
LXXXV
: 370. Em documento posterior descobre-se a possível situação dos dois campos: uma estimativa redigida em 1596 a pedido do lugar-tenente veneziano (v.
ASP
,
Notarile
, b. 488, n. 3785, ff. 17r-22r). Entre as 255 divisões situadas em Montereale e Grizzo (uma vila vizinha) figuram (f. 18r): “9. Alliam petiam terre arative positam in pertinenti Monteregalis in loco dicto alla via del’homo dictam la Longona, unius iug. in circa, tentam per Bartholomeum Andreae: a mane dicta via, a meridie terrenum ser Dominici Scandelle, a sero via de sotto et a montibus terrenum tentum per heredes q. Stephani de Lombarda”; (f. 19v): “Aliam pertiam terrae unius iug. in circa in loco dicto...
il campo del legno: a mane dicta laguna, a meridie terenum M. d. Horatii Montis Regalis tentum per ser Jacomum Marganum, a sero terrenum tentum per ser Dominicum Scandelle et a montibus suprascriptus ser Daniel Capola”. Não foi possível conferir os topônimos indicados. A identificação das duas divisões com os “dois campos arrendados” mencionados por Menocchio doze anos antes não é segura, mesmo porque, referindo-se só à segunda divisão, fala-se de maneira explícita em “terrenum
tentum
”, quer dizer, presumivelmente, arrendado. Observe-se que numa estimativa de 1578 (
ASP
,
Notarile
, b. 40, n. 332, ff. 115r s.) o nome de Domenico Scandella não aparece, enquanto o de um certo Bernardo Scandella (não sabemos se eram parentes; o pai de Menocchio chamava-se Giovanni) é mencionado mais de uma vez. O sobrenome Scandella, é bom dizer, ainda hoje é muito comum em Montereale.
Aluguel
(
provavelmente em espécie
): v. A. Tagliaferri,
Struttura e política sociale in una comunità veneta del ‘500
(
Udine
) (Milão, 1969), p. 78 (aluguel de um moinho com moradia, em Udine: em 1571, por exemplo, eleva-se para 61 alqueires de trigo mais dois presuntos). V. também o contrato de aluguel de um novo moinho estipulado por Menocchio em 1596 (v. cap. 48).
Desterrado em Arba
: v.
ACAU
, proc. n. 126, interrogatório de 28 de abril de 1584 (folhas não numeradas).
Quando sua filha Giovanna
... : v.
ASP
,
Notarile
, b. 488, n. 3786, ff. 27r-27v, jan. 1600. O marido chamava-se Daniele Colussi. Para uma comparação com outros dotes, v. ibid., b. 40, n. 331, ff. 2v ss.: 390 liras e dez soldos; ibid., ff. 9r ss.: 340 liras aproximadamente; ibid., b. 488, n. 3786, ff. 11r-v: trezentas liras; ibid., ff. 20v-21v: 247 liras e dois soldos; ibid., ff. 23v-24r: 182 liras e quinze soldos. A insignificância do último dote se explica por se tratar de segundas núpcias da esposa, Maddalena Gastaldione de Grizzo. Infelizmente não temos indicações sobre a posição social ou a profissão dos indivíduos citados nos contratos. O dote de Giovanna Scandella consistia nos seguintes itens:
Um lençol leve usado
|
5
|
—
|
Três camisolas novas
|
6
|
—
|
Seis xales
|
4
|
—
|
Quatro xales
|
6
|
—
|
Três lenços novos
|
4
|
10
|
Quatro lenços usados
|
3
|
—
|
Um avental bordado
|
4
|
—
|
Três xales
|
5
|
10
|
Um xale de tecido pesado
|
1
|
10
|
Um avental velho, um xale e um xale pesado
|
3
|
—
|
Um lenço de cabeça novo, bordado
|
3
|
10
|
Cinco lenços
|
6
|
—
|
Uma mantilha de cabeça usada
|
3
|
—
|
Duas toucas novas
|
1
|
10
|
Cinco camisas novas
|
15
|
—
|
Três camisetas usadas
|
6
|
—
|
Nove cordões de seda de todas as cores
|
4
|
10
|
Quatro cintos de várias cores
|
2
|
—
|
Um avental novo de tecido grosso
|
—
|
15
|
Um baú sem fechadura
|
5
|
—
|
|
256
|
9
|
Não pude consultar L. d’Orlandi e G. Perusini,
Antichi costumi friulani
—
Zona di Maniago
, Udine, 1940.
A posição de Menocchio
... : deverão ser levadas em conta as observações feitas sobre o campo da região de Lucca, por M. Berengo (
Nobili e mercanti nella Lucca del Cinquecento
[Turim, 1965]) — nas prefeituras menores “qualquer distinção social efetiva é eliminada, já que todos retiram seus proventos da exploração de terras coletivas. E embora aqui como em tantas outras partes se continuará a falar de ricos e pobres [...] sempre se poderá oportunamente definir qualquer um como roceiro ou até mesmo como camponês”; caso à parte são os moleiros, “presentes em todos os centros de certa importância [...], frequentemente credores da prefeitura e de particulares, não participando do cultivo da terra, mais ricos que os outros homens” (ibid., p. 322 e p. 327). Sobre a figura social do moleiro, v. pp. 219-22.
Em 1581
... (
podestà
)
magistrado
: v.
ASP
,
Notarile
, b. 40, n. 333, f. 89v: intimação feita por Andrea Cossio, nobre udinese, “potestati, iuratis, communi, hominibus Montisregalis” para que lhe fossem pagos os aluguéis referentes a certas terras. Em 1
o
de junho a intimação é entregue a “Dominico Scandellae vocato Menocchio de Monteregali ... potestati ipsius villae”. Numa carta de Ziannuto, filho de Menocchio (v. caps. 4 e 5), declara-se que Menocchio fora “magistrado e reitor de cinco vilas” (sobre esses nomes v.
Leggi per la Patria e Contadinanza del Friuli
[Udine, 1686], Introdução, f. dr) e
cameraro
da paróquia.
O velho sistema de rotação de cargo
: v. G. Perusini, “Gli statuti di una vicinia rurale friulana del Cinquecento”, in
Memorie storiche forogiuliesi
(1958-59),
XLIII
: 213-9. A
vicinia
, isto é, a assembleia dos chefes de família, à qual se refere é a de uma aldeia minúscula próxima de Tricesimo, Bueris; os chefes de família que a formavam em 1578 eram seis.
Ler
... : v.
ACAU
,
Sant’Uffizio
, proc. n. 126, f. 15v.
Os administradores
... : v. G. Marchetti, “I quaderni dei camerari di s. Michele a Gemona”, in
Ce fastu?
(1962), 38:11-38. Marchetti observa (p. 13) que os
camerari
não pertenciam ao clero nem estavam entre escrivães, isto é, não pertenciam ao grupo dos “letrados”; eram, em geral “burgueses ou populares que tinham frequentado a escola pública da Prefeitura”; e cita o caso, provavelmente excepcional, de um marceneiro analfabeto que fora
cameraro
em 1489 (p. 14).
Escolas desse tipo
... : v. G. Chiuppani, “Storia di una scuola di grammatica dal Medio Evo fino ai Seicento (Bassano)”, in
Nuovo archivio veneto
(1915),
XXIX
:79. O humanista Leonardo Fosco, que era natural de Montereale, parece ter ensinado em Aviano: v. F. Fattorello, “La cultura dei Friuli nel Rinascimento”, in
Atti dell’Accademia di Udine
, 6
a
série (1934-35),
I
:160. Essa informação, entretanto, não aparece no perfil biográfico de Fosco traçado por A. Benedetti, in
Il Popolo
, semanário da diocese de Concórdia-Pordenone, 8 de junho de 1974. Uma pesquisa sobre as escolas da prefeitura desse período seria muito útil. Muitas vezes existiam em localidades mínimas: v., por exemplo, A. Rustici, “Una scuola rurale della fine del secolo
XVI
”, in
La Romagna
, n. s. (1927),
I
:334-8. Sobre a difusão dos estudos nos campos de Lucca, v. Berengo,
Nobili e mercanti
, op. cit., p. 322.
Denunciado
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, folha não numerada: “fama publica deferente et clamorosa insinuatione producente, non quidem a malevolis orta sed a probis et honestis viris catolicaeque fidei zelatoribus, ac fere per modum notorii devenerit quod quidam Dominicus Scandella...” (Por pressão da opinião pública e diante da apresentação de apelos insistentes, não dos malévolos, mas de pessoas probas e honestas e partidários zelosos da fé católica e quase em forma de denúncia aconteceu que um certo Domenico Scandella..., é a forma usual).
Discute sempre
... : ibid., f. 2r.
Costuma discutir
... : ibid., f. 10r.
Ele conhecia
... : ibid., f. 2r.
O pároco
...
a Concórdia
... : ibid., ff. 13v, 12r.
Na praça
,
na taverna
... : ibid., ff. 6v, 7v, folha não numerada (depoimento de Domenico Melchiori), f. 11r etc.
Geralmente
... : ibid., f. 8r.
2
Menocchio
,
pelo amor
... : ibid., f. 10r.
Giuliano Stefanut
... : ibid., f. 8r.
O padre Andrea Bionima
... : ibid., f. 11v.
Giovanni Povoledo
... : ibid., f. 5r. Como é sabido, nesse período o termo luterano tinha um sentido muito genérico na Itália.
Uns havia trinta
,
quarenta anos
... : ibid., f. 4 v (Giovanni Povoledo); f. 6v (Giovanni Antonio Melchiori, que não deve ser confundido com Giovanni Daniele Melchiori, vigário de Polcenigo); f. 2v (Francesco Fasseta).
Daniele Fasseta
... : ibid., f. 3r.
Muitos anos
: ibid., f. 13r (Antonio Fasseta); f. 5v (Giovanni Povoledo, que disse num primeiro momento conhecer Menocchio havia quarenta anos e, em seguida, havia 25 ou trinta). A única lembrança que pode ser datada com precisão é a que segue, de Antonio Fasseta (f. 13r): “Voltando certa vez da montanha com Menocchio ao mesmo tempo que a imperatriz passava, falando sobre ela, disse: ‘Esta imperatriz é mais poderosa que a Virgem Maria’. Ora, a imperatriz Maria da Áustria esteve no Friuli em 1581 (v. G. F. Palladio degli Olivi,
Historie della Provincia del Friuli
(Udine, 1660),
II
: 208).
As pessoas repetiam
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 6r etc.
Eu o vejo conversando
... : ibid., proc. n. 285, depoimento do padre Curzio Cellina, 17 de dezembro de 1598, folha não numerada.
Já fazia quatro anos que Menocchio
... : ibid., proc. n. 126, f. 18v.
Não posso me lembrar
... : ibid., f. 14r.
Fora o próprio Vorai
: ele mesmo lembrou o Santo Ofício disso quando depôs em 1
o
de junho de 1584 (v. ibid., proc. n. 136), lamentando-se de não tê-lo feito antes.
Por um outro padre
,
dom Ottavio
... : ibid., proc. n. 284, folha não numerada (depoimento de 11 de novembro de 1598).
Que papa
... : ibid., proc. n. 126, f. 10r.
Deve
...
se contrapor
... : v. um caso análogo friulano citado por G. Miccoli, “La storia religiosa”, in
Storia d’Italia
(Turim, 1974), v.
II
, t.
I
: 994.
Desmesuradamente
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 10r.
Cada um faz o seu dever
... : ibid., f. 7v.
O ar é Deus
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 3r (Daniele Fasseta); f. 8r (Giuliano Stefanut); f. 2r (Francesco Fasseta); f. 5r (Giovanni Povoledo); f. 3v (Daniele Fasseta).
Está sempre discutindo
... : ibid., f. 11v (padre Andrea Bionima).
Giovanni Daniele Melchiori
: ibid., proc. n. 134, depoimento de 7 de maio de 1584. Sobre o processo ocorrido anteriormente contra Melchiori, sobre suas relações com Menocchio, v. cap. 37. Tanto Melchiori como Policreto foram processados pelo Santo Ofício (respectivamente em março e em maio de 1584) sob a acusação de terem tentado influenciar com suas sugestões a causa contra Menocchio: v.
ACAU
, proc. n. 134 e proc. n. 137. Ambos se declararam inocentes. Foi imposto a Melchiori que se mantivesse à disposição do tribunal e o caso acabou aí; a Policreto foi imposta uma punição canônica. A favor de Policreto testemunharam o magistrado de Pordenone, Gerolamo de’ Gregori, personagens da nobreza local, como Gerolamo Popaiti. Existem evidências de que Policreto fosse ligado à família Mantica-Montereale, à qual pertenciam também os senhores de Montereale: em 1583 foi nomeado árbitro (sucedendo na função o pai, Antonio) numa briga entre Giacomo e Giovan Battista Mantica, de um lado, e Antonio Mantica, do outro (v.
BCU
, ms. n. 1042).
p. 36
Levassem algemado
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 15v.
3
É verdade que
: ibid., ff. 16r-v.
Eu dizia
... : ibid., ff. 17v-r.
Pudesse ter dito qualquer coisa do gênero
: ibid., f. 6r (Giovanni Povoledo).
4
Falando sério
: ibid., ff. 2v-3r. As manifestações de heterodoxia religiosa vindas de pessoas incultas eram frequentemente consideradas manifestações de loucura: v., por exemplo, Miccoli,
La vita religiosa
, op. cit., pp. 994-5.
Dentro de sua razão
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 6v.
Ziannuto
... : ibid., proc. n. 136, depoimento de 14 de maio de 1584, folhas não numeradas.
Cem
,
150 anos depois
... : v. Foucault,
Folie et déraison
, op. cit., pp. 121-2 (caso de Bonaventure Forcroy), p. 469 (em 1733, um homem esteve trancado como louco no hospital de Saint-Lazare, acometido de “sentiments extraordinaires”).
5
A carta de Ziannuto ao advogado Trappola e a que foi escrita pelo pároco, aceitando sugestão de Ziannuto, fazem parte do fascículo do primeiro processo contra Menocchio (
ACAU
, proc. n. 126). As versões (previsivelmente diversas, mas não contraditórias) fornecidas por Ziannuto e pelo pároco das circunstâncias sob as quais a carta foi escrita pertencem, por sua vez, ao processo contra o próprio pároco (proc. n. 136). Os crimes atribuídos a Vorai, além de ter escrito a Menocchio, sugerindo-lhe uma linha de defesa, foram: ter esperado dez anos para denunciar Menocchio ao Santo Ofício, apesar de considerá-lo herético;
ter afirmado, em conversa com Nicolò e Sebastiano, condes de Montereale, que a igreja militante, mesmo sendo governada pelo Espírito Santo, pode errar. O processo — muito breve — foi concluído com a purgação canônica do réu. No interrogatório de 19 de maio de 1584, o pároco declarara, entre outras coisas: “Eu decidi escrever a carta temendo pela minha vida. Os filhos do Scandella, quando passavam por mim, se mostravam alterados, não me cumprimentavam mais como de costume, e até fui avisado por amigos de que deveria tomar cuidado, porque se comentava que fora eu quem denunciara o anteriormente citado Domenego e poderiam fazer alguma coisa contra mim...” . Entre os que haviam acusado Vorai de delação estava Sebastiano Sebenico, o mesmo que aconselhara Ziannuto a espalhar pela cidade que Menocchio era louco ou possesso (v. cap. 4).
Atribuiu-as a Domenego Femenussa
: a atribuição parece ter sido sugerida por Ziannuto: v. n. 126, f. 38v.
Senhor
... : ibid., f. 19r.
Consta no processo
: ibid.
Segundo Giuliano Stefanut
: ibid., f. 8r.
Eu disse
... : ibid., f. 19r.
Tente falar pouco
... : ibid., proc. r. 134, depoimento de 7 de maio de 1584.
Frei Felice da Montefalco
: v. Ginzburg,
I benandanti
, op. cit., Índice.
O conflito entre os dois poderes
... : v. P. Paschini, V
enezia e l’Inquisizione Romana da Giulio III a Pio IV
(Pádua, 1959), p. 51 ss.; A. Stella,
Chiesa e Stato nelle relazioni dei nunzi pontifici a Venezia
(Cidade do Vaticano, 1964), principalmente pp. 290-1.
Disse para mim
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 3r.
Domenego disse
... : ibid., f. 4r.
É verdade
,
eu disse
... : ibid., f. 27v.
6
Na minha opinião
... : ibid., ff. 27v-28v.
Querem passar por deuses na terra
: v. Salmos,
LXXXI
: 6.
Sobre o casamento
... : aqui Menocchio manifesta toda a sua insatisfação quanto à regulamentação dos matrimônios introduzida pelo concílio de Trento: v. A. C. Jemolo, “Riforma tridentina nell’ambito matrimoniale”, in
Contributi alla storia del Concilio di Trento e della Controriforma
(1948),
I
: 45 ss. (Quaderni di Belfagor).
Geralmente se referia à confissão
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 11v.
Se esta árvore
... : ibid., f. 38r.
Pela Virgem Maria
: ibid., f. 6v.
Não vejo ali nada mais
: ibid., f. 11v.
Eu disse
... : ibid., f. 18r.
O bom do sacramento
... : ibid., ff. 28r-v.
Acho que a Sagrada Escritura
... : ibid., ff. 28v-29r.
Ele me disse também
... : v. ibid., f. 2v.
Eu acho que os santos
... : v. ibid., f. 29r.
Ele ajudou
... : v. ibid., f. 33r (me corrigindo, é “Cristo” e não “Deus”).
Da mesma natureza
... : v. ibid., f. 17v.
Se alguém tem pecados
... : v. ibid., f. 33r.
Falaria tanto
... : v. ibid., f. 4r.
Nunca discuti
... : v. ibid., ff. 26v-27r.
Falar muito
... : v. ibid., f. 3r.
Senhores
,
eu vos peço
... : v. ibid., ff. 29v-30r.
Na sessão anterior
... : v. ibid., f. 30r.
7
Sobre o Friuli deste período, além de P. Paschini,
Storia del Friuli
(Udine, 1954),
II
, que trata só dos acontecimentos políticos, v. principalmente os numerosos estudos de P. S. Leicht: “Un programma di parte democratica in Friuli nel Cinquecento”, in
Studi e frammenti
(Udine, 1903), pp. 107-21; “La rappresentanza dei contadini presso il veneto Luogotenente della Patria del Friuli”, ibid., pp. 125-44; “Un movimento agrario nel Cinquecento”, in
Scritti vari di storia del diritto italiano
(Milão, 1943),
I
: 73-91; “Il parlamento friulano nel primo secolo della dominazione veneziana”, in
Rivista di storia del diritto italiano
(1948),
XXI
: 5-50; “I contadini ed i Parlamenti dell’età intermedia”, in
IX
e
Congrès International des Sciences Historiques
...
Études présentées à la Commission Internationale pour l’histoire des assemblées d’états
(Louvain, 1952), pp. 125-8. Entre os trabalhos mais recentes, v. em primeiro lugar A. Ventura,
Nobiltà e popolo nella società veneta del ’400 e ’500
(Bari, 1964), principalmente pp. 187-214; v. também A. Tagliaferri,
Struttura
, op. cit.
Servidão de mesnada
: v. A. Battistella, “La servitú di masnada in Friuli”, in
Nuovo archivio veneto
,
XI
(1906), parte
II
, pp. 5-62;
XII
(1906), parte
I
, pp. 169-91, parte
I
, pp. 320-31;
XIII
(1907), parte
I
pp. 171-84, parte
II
, pp. 142-57;
XIV
(1907), parte
I
, pp. 193-208;
XV
(1908), pp. 225-37. Os últimos vestígios de tal instituição desapareceram por volta de 1460, mas nos estatutos friulanos do século seguinte continuavam a aparecer sentenças do tipo
De nato ex libero ventre pro libero reputando
(com a declaração correspondente “Quicumque vero natus ex muliere serva conseatrer et sit servus cuius est mulier ex qua natus est, etiam si pater eius sit liber”) ou
De servo communi manumissio
. V. também G. Sassoli de Bianchi, “La scomparsa dela servitú di masnada in Friuli”, in
Ce fastu?
(1956), 32: 145-50.
Nas mãos dos lugares-tenentes venezianos
: v.
Relazioni dei rettori veneti in Terraferma
,
I
:
La Patria del Friuli
(
luogotenenza di Udine
) (Milão, 1973). (V. sobre essa edição a resenha de M. Berengo, in
Rivista storica italiana
[1974],
LXXXVI
: 586-90.)
Era 1508
... : v. G. Perusini,
Vita di popolo in Friuli: Patti agrari e consuetudini tradizionali
(Florença, 1961), pp.
XXI-XXII
(Biblioteca di “Lares”,
VIII
).
Sobre os acontecimentos de 1511
, v. Leicht, “Un movimento agrario”, op. cit., e Ventura,
Nobiltà e popolo
, op. cit.
Sobre a
Contadinanza
, v. o mesmo Leicht, “La rappresentanza dei contadini”, op. cit. Sente-se a falta de um estudo moderno sobre o assunto.
Os estatutos da Patria
... : v.
Constitutiones Patrie Foriulii cum additionibus noviter impresse
(Veneza, 1524), ff.
LXV
,
LXVIIIV
. Os mesmos artigos reaparecem na edição de 1565.
Caía
...
a ficção jurídica
... : v. Leicht, “I contadini ed i Parlamenti”, op. cit., que destaca a excepcionalidade do caso friulano: em nenhuma outra parte da Europa, realmente, a representação dos camponeses é colocada lado a lado com o Parlamento ou Assembleia dos Estados.
A lista das providências
... : v.
Leggi per la Patria
, op. cit., p. 638 ss., 642 ss., 207 ss.
Tentou transformar as taxas
... : v. Perusini,
Vita di popolo
, op. cit., p.
XXVI
, e em geral Giorgetti,
Contadini e proprietari
, op. cit., p. 97 ss.
A população total
...
diminuiu
: v. Tagliaferri,
Struttura
, op. cit., p. 25 ss. (com bibliografia).
Os relatórios dos lugares-tenentes
: v. Relazioni, op. cit., pp. 84, 108, 115.
A decadência de Veneza
: v.
Aspetti e cause della decadenza economica veneziana nel secolo XVII
(Veneza-Roma, 1961);
Crisis and Change in the Venetian Economy in the Sixteenth and Seventeenth Centuries
, org. B. Pullan (Londres, 1968).
8
Uma imagem claramente dicotômica
: v. o belo livro de S. Ossowski,
Struttura di classe e coscienza sociale
, trad. ital. (Turim, 1966), principalmente p. 23 ss.
E me parece que
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, ff. 27v-28r.
Tudo pertence à Igreja
... : v. ibid., f. 27 v.
Um censo feito em 1596
... : v.
ASP
,
Notarile
, b. 488, n. 385, ff. 17r ss., principalmente f. 19v. Infelizmente, não temos um inventário dos bens eclesiásticos existentes no Friuli do período, como o extremamente analítico redigido em 1530 por ordem do lugar-tenente Giovanni Basadona (v.
BCU
, ms. 995). Nas ff. 62v-64v há uma lista dos inquilinos da igreja de Santa Maria de Montereale, e não aparece entre eles o nome de Scandella.
No final do século XVI
...
a extensão das propriedades eclesiásticas
...: v. A. Stella, “La proprietà ecclesiastica nella Repubblica di Venezia dal secolo
XV
al
XVII
”, in
Nuova rivista storica
(1958),
XLII
: 50-77; A. Ventura, “Considerazioni sull’agricoltura veneta e sull’accumulazione originaria del capitale nei secoli
XVI
e
XVII
”, in
Studi storici
(1968),
IX
: 674-722, e, em geral, o importante ensaio de Chittolini, “Un problema aperto”, op. cit., p. 353-93.
9
Eu acredito que seja luterano
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 27r. Sobre a questão do compadre de Menocchio que se ofereceu como fiador, v. cap. 50.
Os luteranos
... : v. ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas.
No complexo quadro religioso
... : a bibliografia é obviamente extensa. Sobre as tendências radicais em geral, v. G. H. Williams,
The Radical Reformation
(Filadélfia, 1962). Sobre o anabatismo, v. C.-P. Clasen,
Anabaptism
,
A Social History
(
1525-1618
):
Switzerland
,
Austria
,
Moravia
,
South and Central Germany
(Ithaca-Londres, 1972). Para a Itália, ver a rica documentação levantada por A. Stella,
Dall’Anabattismo al socinianesimo nel Cinquecento veneto
(Pádua, 1967), e id.,
Anabattismo e antitrinitarismo in Italia nel XVI secolo
(Pádua, 1969).
Acho que
,
quando nascemos
,... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 28v.
Desmantelado na segunda metade do século XVI
... : v. Stella,
Dall’Anabattismo
, op. cit., p. 87 ss.;
Anabattismo e antitrinitarismo
, op. cit., p. 64 ss. E v. também C. Ginzburg,
I costituti di don Pietro Manelfi
(Florença-Chicago, 1970) (Biblioteca do “Corpus Reformatorum Italicorum”).
Porém alguns grupos secretos dispersos
... : sobre a situação religiosa do Friuli no século
XVI
, v. P. Paschini, “Eresia e Riforma cattolica al confine orientale d’Italia”, in
Lateranum
, n. s.,
XVII
, n. 1-4 (Roma, 1951); L. de Biasio, “L’eresia protestante in Friuli nella seconda metà del secolo
XVI
”, in
Memorie storiche Forogiuliesi
(1972),
LII:
71-154. Sobre os artesãos de Porcia, v. Stella,
Anabattismo e antitrinitarismo
, op. cit., pp. 153-4.
Um anabatista
...
nunca teria dito
... : v., por exemplo, o que escrevia, em 1552, Marco (tingidor de tecidos), um anabatista arrependido: “E me ensinaram [os anabatistas] que não se deve acreditar no perdão dado pelo papa porque dizem que é falso...” (
ASV
en,
Sant’Uffizio
, b. 10).
Acredito que sejam boas...
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 29r.
De maneira que não existe nada mais...
: v. Stella,
Anabattismo e antitrinitarismo
, op. cit., p. 154. V. também o que disse o vendedor de roupa velha de Bérgamo, Ventura Bonicello, processado como anabatista: “Qualquer outro livro, além da Sagrada Escritura, eu abomino” (
ASV
en,
Sant’Uffizio
, b. 158, “livro dois”, f. 81r).
Um diálogo significativo
: v.
ACAU
, proc. n. 126, ff. 37v-38r.
Carregador
... : v. Andrea da Bergamo (P. Nelli),
Il primo libro delle satire alla carlona
(Veneza, 1566), f. 31r.
Artesãos de couro de Nápoles
... : v. Tacchi Venturi,
Storia della Compagnia di Gesú in Italia
(Roma, 1938),
I
:455-6.
Nas súplicas de uma prostituta
... : v. F. Chabod, “Per la storia religiosa dello stato di Milano”, in id.,
Lo stato e la vira religiosa a Milano nell’epoca di Carlo V
(Turim, 1971), pp. 335-6.
Dizem respeito todos
,
ou quase
... : testemunhos como o que segue, inserido numa carta do embaixador veneziano em Roma, M. Dandolo (14 de junho de 1550), são muito raros: “Alguns frades inquisidores [...] que contam coisas importantes de Brescia e mais ainda de Bérgamo, falam de artesãos que vão festejar pelas ruas, sobem nas árvores pregando a seita luterana ao povo e aos camponeses... ” (v. Paschini,
Venezia
, op. cit., p. 42).
A conquista religiosa do campo...
: retomo aqui um tema por mim apenas sugerido num ensaio precedente (“Folklore, magia, religione”, in
Storia d’Italia
(Turim, 1972),
I
:645 ss., 656 ss.), que espero desenvolver futuramente.
Isso não quer dizer
... : o que segue é uma tentativa de precisar e, em parte, corrigir o que escrevi in “Folklore”, op. cit., p. 645.
Um ramo autônomo de radicalismo camponês
: embora desconfie das contendas terminológicas, considero oportuno explicar por que preferi essa expressão a
racionalismo popular
,
Reforma popular
,
anabatismo
. 1. A expressão
racionalismo popular
foi usada por Berengo (
Nobili e mercanti
, op. cit., p. 435 ss.) para definir fenômenos substancialmente coincidentes com os que estão sendo estudados aqui. Entretanto, parece pouco apropriada a certas atitudes que só parcialmente são recobertas pelo nosso conceito de
razão
— começando pelas visões de Scolio (v. cap. 58). 2. O radicalismo camponês que tento reconstruir é certamente um dos componentes fundamentais da “Reforma popular” traçada por Macek (“movimentos
autônomos
que acompanham a história europeia do século
XV
e
XVI
e que podem ser entendidos como uma Reforma popular ou radical”: J. Macek,
La Riforma popolare
(Florença, 1973), p. 2; o grifo é meu). Mas é preciso lembrar que tal fenômeno é anterior ao século
XV
(v. nota seguinte) e que não pode ser reduzido a um correspondente popular da reforma oficial. 3. O termo
anabatismo
como etiqueta generalizável a todos os fenômenos de radicalismo religioso do século
XVI
foi proposto por Cantimori (
Eretici italiani del Cinquecento
[Florença, 1939], p. 31 ss.), que em seguida o abandonou, aceitando as críticas de Ritter. Mais recentemente, foi reproposto por Rotondò para designar “a mistura de profetismo, radicalismo anticlerical, antitrinitarismo e igualitarismo social [...] difundida entre escrivães, médicos, professores de gramática, entre monges e mercadores, artesãos das cidades e homens dos campos italianos da era quinhentista” (v. “I movimenti ereticali nell’ Europa del Cinquecento”, in
Rivista storica italiana
[1966],
LXXVIII
: 138-9). Essa generalização parece-me inoportuna, porque nos leva a subestimar as profundas diferenças que existiam entre religião popular e religião culta, entre radicalismo do campo e radicalismo da cidade. É evidente que “tipologias” e “sensibilidades” nebulosas como as citadas por A. Olivieri (“Sensibilità religiosa urbana e sensibilità religiosa contadina nel Cinquecento venero: suggestioni e problemi”, in
Critica storica
, n. s. [1972],
IX
: 631-50) não ajudam muito, mesmo porque recobrem, com o termo
anabatismo
, fenômenos absolutamente estranhos a este — inclusive as procissões em honra de Nossa Senhora. A tarefa das pesquisas é, isto sim, reconstruir os nexos, ainda obscuros, entre os vários componentes da “reforma popular”, dando, sobretudo, o peso justo ao substrato religioso e cultural vindo do campo, não só italiano, mas também europeu, do século
XVI
— o mesmo substrato que transparece nas confissões de Menocchio. Tentando defini-lo, falei de “radicalismo camponês”, pensando não tanto na
Radical Reformation
, de Williams (sobre o mesmo, v. as observações de Macek), e sim na frase de Marx, que diz que o radicalismo “toma as coisas pela raiz” — uma imagem que, além de tudo, se adapta de maneira perfeita ao contexto.
Muito mais antigo do que a Reforma
: v. o denso ensaio de W. L. Wakefield, “Some Unorthodox Popular Ideas of the Thirteenth Century”, in
Medievalia et humanistica
, n. s. n. 4 (1973), pp. 25-35, baseado em documentos inquisitoriais da área de Toulouse, nos quais se faz alusão a “statements often tinged with rationalism, skepticism, and revealing something of a materialistic attitude. There are assertions about a terrestrial paradise for souls after death and about the salvation of unbaptized children; the denial that God made human faculties; the derisory quip about the consumption of the host; the identification of the soul as blood; and the attribution of natural growth to the qualities of seed and soil alone” (pp. 29-30). Essas afirmações são convincentemente devidas a um ramo de ideias e crenças autônomas e não à influência direta da propaganda cátara. (O catarismo pode ter contribuído para torná-las visíveis, direta ou indiretamente, dando início às investigações inquisitoriais.) É significativo, por exemplo, que a tese atribuída a um escrivão cátaro dos fins do século
XIV
, “quod Deus de celo non facit crescere fructus, fruges et herbas et alia, quae de terra nascuntur, sed solummodo humor terre” (porque não é Deus que do céu faz crescer os frutos, os cereais e as plantas e as outras coisas que nascem da terra, mas é tão somente a umidade do solo), tivesse sido quase exatamente reproduzida por um camponês friulano, três séculos depois: “As bênçãos dos sacerdotes sobre os campos e a água benta que espalham sobre os campos no dia da Epifania não ajudam de modo algum as vinhas e as árvores para que produzam mais, mas só o estrume e o esforço do homem”. (V. respectivamente A. Serena, “Fra gli eretici trevigiani”, in
Archivio venero-tridentino
(1923),
III
: 173, e Ginzburg,
I benandanti
, op. cit., pp. 38-9, a ser corrigido no sentido acima citado.) Obviamente, o catarismo não tem nada a ver com isso. Trata-se, isto sim, de afirmações que “may well have arisen spontaneously from the cogitation of men and women searching for explanations
that accorded with the realities of the life in which they were enmeshed” (Wakefield, “Some Unorthodox”, op. cit., p. 33). Exemplos análogos poderiam ser facilmente encontráveis. É a essa tradição cultural — que vem à luz depois de séculos — que me refiro com a expressão
radicalismo camponês
(ou
popular
). Aos componentes levantados por Wakefield — racionalismo, ceticismo, materialismo — é preciso acrescentar o utopismo de fundo igualitário e o naturalismo religioso. A combinação de todos ou quase todos esses elementos faz com que surjam recorrentes fenômenos de “sincretismo” camponês — que seriam mais bem definidos como fenômenos do substrato: v., por exemplo, o material arqueológico recolhido por J. Bordenave e M. Vialelle,
Aux racines du mouvement cathare
:
La mentalité religieuse des paysans de l’Albigeois medieval
(Toulouse, 1973).
10
p. 57
Falara sério
: v.
ACAU
, proc. n. 126, ff. 2v-3r.
Senhor
... : ibid., f. 21v.
Dom Ottavio Montereale
... : ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas (11 de novembro de 1598).
Aparecera no primeiro processo
: ibid., proc. n. 126, f. 23v. Nos estudos que conheço sobre a pintura friulana do século
XVI
, não é mencionado nenhum Nicola da Porcia. Antonio Forniz, que fez uma série de pesquisas sobre pintores friulanos, gentilmente me informou — em carta de 5 de junho de 1972 — não ter encontrado nada que se referisse a “Nicola da Porcia” ou “Nicola de Melchiori” (v. acima). Deve-se considerar que o encontro entre o pintor e o moleiro poderia ter se dado por questões profissionais, além das religiosas. Nos registros de patentes venezianas, é comum encontrar pintores, escultores, arquitetos que pedem exclusividade para a construção de moinhos. Às vezes aparecem nomes famosos como o do escultor Antonio Riccio e do arquiteto Giorgio Amadeo, ou de Jacopo Bassano, que obtiveram do Senado, respectivamente, em 1492 (os dois primeiros) e em 1544 (o terceiro) a exclusividade para construir alguns moinhos: v. G. Mandich, “Le privative industriali veneziane (1450-1550)”, in
Rivista del diritto commerciale
(1936),
XXXIV
: 1, 538, 545; e v. também p. 541. Para o período posterior, pude encontrar casos análogos através de fotocópias de documentos in
ASV
en,
Senato Terra
, graças à gentileza de Carlo Poni, que as cedeu.
Menocchio
...
deve ter falado
... : v.
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas (depoimento de 19 de julho de 1599).
Algumas semanas depois
... : v. ibid., folhas não numeradas (depoimento de 5 de agosto).
Não sabemos
... : no processo contra o grupo de Porcia (v.
ASV
en,
Sant’Uffizio
, b. 13 e b. 14, fasc.
Antonio Deloio
), não aparece o nome Nicola.
Um grande herético
: v.
ASV
en,
Sant’Uffizio
, b. 34, fasc.
Alessandro Mantica
, depoimento de 17 de outubro de 1571. Nicola havia estado na casa de Rosario, “retirando alguns encostos de cadeiras para pintá-los”.
Eu sei
... : v.
ACAU
,
Sant’Uffizio
, proc. n. 126, f. 23v.
Il sogno dil Caravia
: Colofon: “In Vinegia, nelle case di Giovanni Antonio di Nicolini da Sabbio, negli anni del Signore,
MDXLI
, dil mese di maggio”. Ainda não foi feito um estudo específico desse texto: v. de V. Rossi, “Un aneddoto della storia della Riforma a Venezia”, in
Scritti di critica letteraria
,
III
:
Dal Rinascimento al Risorgimento
(Florença, 1930), pp. 191-222, e a Introdução às
Novelle dell-altro mondo
:
Poemetto buffonesco del 1513
(Bolonha, 1929) (Nuova scelta di curiosità letterarie inedite o rare, v. 2), que iluminam de maneira exemplar a figura de Caravia e o veio literário ao qual de certa maneira o
Sogno
pertence. Sobre a viagem de bufões ou outras figuras cômicas populares ao inferno, v. Bakhtin,
L’oeuvre de François Rabelais
, op. cit., p. 393.
Assemelhai-vos
... : v.
Il sogno
, op. cit., f. A
III
r. A iconografia do frontispício é a que se conhece para o “melancólico”, mas não deixa dúvidas sobre seu parentesco com a xilogravura de Dürer, de ampla circulação nos ambientes venezianos. V. R. Klibansky, F. Saxl e E. Panofsky,
Saturn and Melancholy
:
Studies in the History of Natural Philosophy
,
Religion
,
and Art
(Londres, 1964).
Quão caro me seria
... : v.
Il sogno
, op. cit., f. B
II
v.
Creio que Farfarello
... : ibid., ff. Gv—G
II
r.
Sgnieffi
... : ibid., p. G
III
r.
Mostrando
... : ibid., f. G
II
v.
Certo Martinho
... : ibid., ff. F
IV
r-v (aqui e em seguida, os grifos são meus).
A prima causa
... : ibid., Bv.
Muito ignaro
... : ibid., B.
III
v.
Mercado fazem
... : ibid., f. B
IV
r.
A implícita negação
... : Zampolo não descreve o purgatório; a certa altura faz uma alusão ambígua às “penas do inferno lá embaixo, ou seja, o purgatório” (ibid., f.
II
r).
Propositalmente
... : ibid., f. C
II
v.
Igrejas suntuosas
: ibid., f. Er. Caravia insiste particularmente nesse ponto, protestando, entre outras coisas, contra a grandiosidade da construção da Escola de San Rocco.
Honrar os santos
... : ibid., f. D
III
v.
Deve o cristão
... : ibid., f. Er.
Papistas
... : ibid., f. B
IV
v.
Para homens como Caravia
... : sobre sua produção depois do
Sogno
, v. Rossi,
Un aneddoto
, op. cit. Em 1557, Caravia foi processado pela Inquisição. Durante o tal processo o
Sogno
entrou para a acusação por ter sido composto “em detrimento da religião” (v. ibid., p. 220; o testamento característico, datado de 1
o
de maio de 1563, está em parte reproduzido nas pp. 216-7).
Num período muito anterior
... : é impossível saber quando teve início a heterodoxia de Menocchio. Note-se, porém, que ele afirmou não observar a quaresma havia vinte anos (
ACAU
, proc. n. 126, f. 27r) — data que quase coincide com a da ordem para que se afastasse de Montereale. Menocchio pode ter tido contatos com ambientes luteranos durante o período que esteve em Carnia — região de fronteira onde a penetração da Reforma foi particularmente importante.
11
Vocês querem que eu ensine
... : v. ibid., ff. 16r-v.
O que eu disse
... : v. ibid., f. 19r.
O diabo
... : v. ibid., f. 21v.
p. 66
Dos profetas
... : v. Chabod, “Per la storia”, op. cit., p. 299 ss.; D. Cantimori,
Eretici italiani del Cinquecento
(Florença, 1939), p. 10 ss.; M. Reeves,
The Influence of Prophecy in the Later Middle Ages
:
A Study in Joachimism
(Oxford,
1969), e G. Tognetti, “Note sul profetismo nel Rinascimento e la letteratura relativa”, in
Bulletino dell’Istituto storico italiano per il Medio Evo
(1970), 82: 129-57. Sobre Giorgio Siculo, v. Cantimori,
Eretici
, op. cit., p. 57 ss.; C. Ginzburg, “Due note sul profetismo cinquecentesco”, in
Rivista storica italiana
(1966),
LXXVIII
: 184 ss.
Tendo por várias vezes
... : v.
ACAU
, proc. n. J26, f. 16r.
12
No momento da prisão
... : v. ibid., f. 14v, 2 de fevereiro de 1584; “inveni (quem está comentando é o escrivão) quosdam libros qui non erant suspecti neque prohibiti, ideo R. p. inquisitor mandavit sib restitui” (encontrei alguns livros que não eram suspeitos nem proibidos, por isso o R. p. inquisidor mandou que lhe fossem restituídos).
A Bíblia
... : considerando a bibliografia organizada por G. Spini, não se trata da tradução de Brucioli (v.
La Bibliofilia
[1940],
XLII
: 138 ss.).
Il Fioretto della Bibbia: v. H. Suchier,
Denkmäler Provenzalischer Literatur und Sprache
(Halle, 1883),
I
: 495 ss.; P. Rohde, “Die Quellen der Romanische Weltchronick”, ibid., pp. 589-638; F. Zambrini,
Le opere volgari a stampa dei secoli XIII e XIV
(Bolonha, 1884), cot. 408. Como já foi comentado, as edições são muito variadas: algumas chegam só até o nascimento de Cristo, outras até a infância ou a paixão. Aquelas com que tomei contato (mas não fiz uma pesquisa sistemática) vão de 1473 a 1552; quase todas são venezianas. Não sabemos quando exatamente Menocchio teria comprado o
Fioretto
. A obra continuou a circular por muito tempo: o Índex de 1569 inclui os
Flores Bibliorum et doctorum
(v. F. H. Reusch,
Die Indices librorum prohibitorum des sechszehnten Jahrhunderts
[Tübingen, 1886], p. 333). Em 1576 o comissário do Palácio Sagrado, frade Damiano Rubeo, respondeu às dúvidas do inquisidor de Bolonha, que lhe pedira para tirar de circulação os
Fioretti della Bibbia
(v. A. Rotondo, “Nuovi documenti per la storia del’ ‘Indice dei libri proibiti’ (1552-1638)”, in
Rinascimento
[1963],
XIV
: 157).
Il Lucidario: Menocchio, inicialmente, falou de
Lucidario della Madonna
e em seguida se corrigiu: “Não me lembro bem se o livro se chamava
Rosario
ou
Lucidario
, mas era impresso” (v.
ACAU
, proc. n. 126, ff. 18r, 20r). Conheço cerca de quinze edições do
Rosario
de Alberto da Castello, que vão de 1521 a 1573. Neste como em outros casos, não fiz uma pesquisa sistemática. Caso o livro lido por Menocchio tivesse sido o
Rosario
(como será explicado mais para a frente, a identificação não foi provada), restaria o
Lucidario
para ser explicado: seria por acaso uma lembrança inconsciente de algum
Lucidario
, de alguma forma derivado do de Honório d’Autun? (Sobre este assunto, v. Y. Lefèvre,
L’Elucidarium et les lucidaires
[Paris, 1954].)
Il Lucendario: no
lapsus
talvez se pudesse ver a interferência da leitura de algum
Lucidario
(v. acima). As edições da versão em língua vulgar da
Legenda aurea
são incontáveis. Menocchio poderia ter visto, por exemplo, um exemplar da que circulou em Veneza, em 1565.
Historia del Giudicio: v.
La poesia religiosa
:
I cantari agiografici e le rime di argomento sacro
, org. A. Cioni (Florença, 1963) (Biblioteca bibliografica italica, v. 30), p. 253 ss. O texto lido por Menocchio fazia parte do grupo no qual o
can tare
[poema popular da Itália do século
XIV
e
XV
(N. T.)] sobre a história do Juízo Final
seguia um outro, menor, sobre a vinda do Anticristo (“A ti recorro, eterno Criador”). Sei da existência de quatro exemplares: três estão conservados na Biblioteca Trivulziana de Milão (v. M. Sander,
Le livre à figures italien depuis 1467 jusqu’à 1530
,
II
[Milão, 1942], n. 3178, 3180, 3181); o quarto, na Biblioteca Universitária de Bolonha (
Opera nuova del giudicio generale, qual tratta della fine del mondo
), impresso em Bolonha por Alexandro Benacci, com permissão da Santíssima Inquisição, 1575; sobre esse exemplar, v. penúltima nota do cap. 14. Nas quatro edições aparece o trecho, parafraseado do Evangelho de Mateus, que foi lembrado por Menocchio (v. p. 84 ss.); entretanto, não consta das versões mais reduzidas conservadas pela Biblioteca Marciana de Veneza (v. A. Segarizzi,
Bibliografia delle stampe popolari italtane della R. Biblioteca Nazionale di S. Marco di Venexia
,
I
[Bérgamo, 1913], n. 134, 330).
Il cavallier... : existe ampla literatura sobre esta obra. V. a edição mais nova que eu conheço (
Mandeville’s Travels
, ed. M. C. Seymour [Oxford, 1967]), assim como as interpretações contrastantes de M. H. Letts (
Sir John Mandeville
:
The Man and His Book
[Londres, 1949]) e de J. W. Bennett (
The Rediscovery of Sir John Mandeville
[Nova York, 1954], onde se tenta demonstrar, com argumentos pouco convincentes, que Mandeville existiu historicamente).
As viagens
, traduzidas em latim e, em seguida, em todas as línguas europeias, tiveram enorme difusão, tanto manuscritas como impressas. Só da versão italiana existem, no British Museum, vinte edições que vão de 1480 a 1567.
Zampollo
: sobre o
Sogno dil Caravia
, v. os estudos de V. Rossi citados acima.
Il Supplimento... : conheço umas quinze edições vernaculares da crônica do Foresti, surgidas entre 1488 e 1581. Sobre o autor, v. E. Pianetti, “Fra Iacopo Filippo Foresti e la sua opera nel quadro della cultura bergamasca”, in
Bergomum
(1939),
XXXIII
: 100-9, 147-74; A. Azzoni, “I libri dei Foresti e la biblioteca conventuale di S. Agostino”, ibid. (1959),
LIII
: 37-44; P. Lachat, “Une ambassade éthiopienne auprès de Clement v, à Avignon, en 1310”, in
Annali del pontaficio museo missionario etnologico già ateranensi
(1967),
XXI
: 9, nota 2.
Lunario... : Sander (
Le livre à figures
, op. cit.,
II
, n. 3936-43) enumera oito edições, surgidas entre 1509 e 1533.
Decameron: sobre o fato de Menocchio ter lido uma edição imune à censura contrarreformista, v. cap. 23. Sobre a censura, v. F. H. Reusch,
Der Index der verbotenen Bücher
(Bonn, 1882),
I
:389-91; Rotondò, “Nuovi documenti”, op. cit., pp. 152-3; C. de Frede, “Tipografa, editori, librai italiani dei Cinquecento coinvolti in processa d’eresia”, in
Rivista di storia della Chiesa in Italia
(1969),
XXI-II
: 41; P. Brown, “Aims and Methods of the Second
Rassettatura
of the Decameron”, in
Studi secenteschi
(1967),
VIII
: 3-40. Sobre a questão em geral, v. A. Rotondò, “La censura ecclesiastica e la cultura”, in
Storia d’Italia
, v.
V
, t.
II
(Turim, 1973), pp. 1399-492.
Alcorão: v. C. de Frede,
La prima traduzione italiana del Corano sullo sfondo dei rapporti tra Cristianità e Islam nel Cinquecento
(Nápoles, 1967).
13
O qual
...
comprei
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 20r.
O
Supplementum: v.
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas (depoimento de 12 de julho de 1559).
Lucidario: v. ibid., proc. n. 126, ff. 18r, 20r.
O filho dela
,
Giorgio Capel
: v. ibid., folhas não numeradas (28 de abril de 1584).
Bíblia
: v. ibid., f. 21v.
Mandavilla: v. ibid., ff. 22r, 25v.
Sogno dil Caravia: v. ibid., f. 23v.
Nicola de Melchiori
: v. ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas (depoimento de 5 de agosto de 1599).
Menocchio
...
emprestara-o
: v. ibid., proc. n. 126, folhas não numeradas (28 de abril de 1584).
Sabe-se que em Udine
: v. A. Battistella, in Tagliaferri,
Struttura
, op. cit., p. 89.
Escolas de nível
... : v. Chiuppani, “Storia di una scuola”, op. cit. Sobre a questão, dada a escassez de estudos recentes, consultar o velho trabalho, sempre útil, de G. Manacorda,
Storia della scuola in Italia
,
I
:
Il Medioevo
(Milão-Palermo Nápoles, 1914).
Surpreende
...
que numa aldeia tão pequena
: note-se, porém, que a história da alfabetização ainda se encontra nos seus primórdios. O rápido panorama geral traçado por C. Cipolla (
Literacy and Development in the West
[Londres, 1969]) já está superado. Entre os estudos mais recentes, v. L. Stone, “The Educational Revolution in England, 1560-1640”, in
Past and Present
(jul. 1964), 28: 41-80; ibid., “Literacy and Education in England, 1640-1900”, ibid. (fev. 1969), 42: 69-139; A. Wyczanski, “Alphabétisation et structure sociale en Pologne au
XVI
e
siècle”, in
Annales
:
ESC
(1974),
XXIX
: 705-13; F. Furet e W. Sachs, “La croissance de l’alphabétisation en France —
XVIII
e
-
XIX
e
siècle”, ibid., pp. 714-37. Particularmente interessante para comparação com o caso que estamos estudando é o ensaio de Wyczanski. Pela análise de uma série de documentos fiscais da região de Cracóvia que dizem respeito ao biênio 1564-65, observa-se que 22% dos camponeses ali mencionados sabiam assinar o próprio nome. O autor adverte que a cifra deve ser julgada com cuidado por se referir a uma amostragem muito pequena (dezoito pessoas), além do que constituída por camponeses de razoável condição social, frequentemente ocupando cargos públicos na cidadezinha (era justamente o caso de Menocchio); entretanto, conclui que o “ensinamento de tipo elementar não era totalmente inexistente entre os camponeses” (“Alphabétisation”, op. cit., p. 710); v. os resultados das pesquisas de B. Bonnin (“Le livre et les paysans en Dauphiné au
XVII
e
siècle”) e de J. Meyer (“Alphabétisation, lecture et écriture: Essai sur l’instruction populaire en Bretagne au
XIX
e
siècle”).
14
Menocchio não sabia muito mais de latim
...: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 16r: “Respondit: ‘Eu sei o credo e já ouvi também o credo que se recita na missa e já ajudei a cantar na igreja de Monte Reale’. Interrogatus: ‘Já que o senhor sabe o credo como disse, sobre aquele artigo ‘et in Iesum Christum filium eius unicum dominum nostrum qui conceptus est de Spiritu santo, natus ex Maria virgine’, o que no passado pensou e acreditou a esse respeito e o que acha hoje?’ Et ei dicto: ‘Entende o que quer dizer ‘qui conceptus est de Spiritu santo, natus ex Maria virgine’?’ Respondit: ‘Sim, senhor, eu entendo’”. O desenvolvimento do diálogo anotado pelo escrivão do Santo Ofício parece indicar que Menocchio só compreendeu quando as palavras do
Credo
foram repetidas lentamente. O fato de saber o
Pater noster
(ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas, 12 de julho de 1599) não contradiz a suposição por nós formulada. São menos óbvias, entretanto, as palavras de Cristo ao ladrão citadas por Menocchio (“hodie mecum eris in paradiso”: v. proc. n. 126, f. 33r); mas concluir, levando só esse fato em consideração, é realmente arriscado.
Consumidos por pessoas de várias classes sociais
: infelizmente não temos pesquisas sistemáticas sobre os livros que circulavam entre as classes subalternas na Itália do século
XVI
— mais exatamente, entre a minoria dos membros dessas classes aptas a ler. Uma pesquisa tendo como base os testamentos, os inventários
post mortem
(como as feitas por Bec, principalmente nos ambientes mercantis) e os processos inquisitoriais seria muito útil. V. também os testemunhos recolhidos por H.-J. Martin,
Livre
,
pouvoirs et société à Paris au XVII
e
siècle
(1598-1701) (Genebra, 1969),
I
: 516-8, e, para o período sucessivo, J. Solé, “Lecture et classes populaires à Grenoble au dix-huitième siècle: Le témoignage des inventaires après décès”, in
Images du peuple au XVIII
e
siècle
—
Colloque d’Aix-en-Provence
,
25 et 26 de octobre 1969
(Paris, 1973), pp. 95-102.
O Foresti e o Mandeville
... : para o primeiro, v.
Leonardo da Vinci, Scritti letterari
, org. A. Marinoni (ed. rev. Milão, 1974), p. 254 (trata-se de uma conjectura, mas bem fundamentada). Para o segundo, v. E. Solmi,
Le fonti dei manoscritti di Leonardo da Vinci
(Turim, 1908), p. 205, supl. n. 10-11 do
Giornale storico della letteratura italiana
(sobre a reação de Leonardo da Vinci diante do Mandeville, v. cap. 21). Em geral, além da edição citada de Marinoni, p. 239 ss., v. E. Garin, “Il problema delle fonti del pensiero di Leonardo”, in
La cultura filosofia del Renascimento italiano
(Florença, 1961), p. 388 ss., e C. Dionisotti, “Leonardo uomo di lettere”, in
Italia medioevale e umanistica
(1962), v: 183 ss. (preocupou-se também com a questão do método).
E a
Historia del Giudicio... : trata-se do exemplar da
Opera nuova del giudicio generale
, que se encontra na Biblioteca Universitária de Bolonha (Aula
V
, Tab.
I
, J. I., v. 51.2). No frontispício, uma inscrição: “Ulyssis Aldrovandi et amicorum”. Outras inscrições — no frontispício e na última folha — não parecem feitas por Aldrovandi. Sobre os acontecimentos inquisitoriais do último, v. A. Rotondò, “Per la storia dell’eresia a Bologna nel secolo
XVI
”, in
Rinascimento
(1962),
XIII
: 150 ss., com bibliografia.
Opiniões fantásticas
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 12v.
15
Como os lia?
: sobre a questão da leitura — quase sempre deixada de lado pelos estudiosos desses problemas —, v. as pertinentes observações de U. Eco (“Il problema della ricezione”, in
La critica tra Marx e Freud
, org. A. Ceccaroni e G. Pagliano Ungari [Rimini, 1973], pp. 19-27), em grande parte convergentes com o que está sendo dito aqui. Um material muito interessante nos dá a pesquisa de A. Rossi e S. Piccone Stella,
La fatica di leggere
(Roma, 1963). Sobre o “erro” como experiência metodologicamente crucial (o que é demonstrado também no caso das leituras de Menocchio), v. C. Ginzburg, “A proposito della raccolta dei saggi storici di Marc Bloch”, in Studi medioevali, 3
a
série (1965),
VI
: 340 ss.
Opiniões
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 21v.
16
Era chamada de virgem
... : v. ibid., ff. 17v-18r.
Contempla
... : cito a edição veneziana de 1575 (“appresso Dominico de’ Franceschi, in Frezzaria al segno della Regina”), f. 42r.
Calderari
: v. J. Furlan, “Il Calderari nel quarto centenario della morte”, in
Il Noncello
(1963), 21: 3-30. O verdadeiro nome do pintor era Giovanni Maria Zaffoni. Não sei se já foi observado que o grupo feminino à direita, na cena de José com os pretendentes, reproduz outro grupo, pintado por Lotto em Trescore, no afresco que representa santa Clara recebendo o véu.
17
Eu acredito
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 29v.
Sim
,
senhor
... : v. ibid.
Anjos
... : cito a edição veneziana de 1566 (“appresso Girolamo Scotto”), p. 262. Note-se ainda que, entre as cenas pintadas por Calderari em San Rocco, há também a da morte de Maria.
18
Porque tantos homens
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 16r.
No capítulo CLXVI do
Fioretto: cito a edição veneziana de 1571 (“
per Zorzi di Rusconi milanese ad instantia de Nicolo dicto Zopino et Vincentio compagni
”), f. O
V
v.
Cristo era um homem nascido
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 9r.
Se era Deus
... : v. ibid., f. 16v.
19
Está sempre discutindo
: v. ibid., f. 11v.
Acho
... : v. ibid., ff. 22v-23r.
Ó vós
...
abençoados
: cito, corrigindo alguns erros, o
Iudizio universal overo finale
, “em Florença, appresso alle scale di Badia”, s. d. (sendo, entretanto, 1570-80), exemplar conservado na Biblioteca Trivulziana. A edição bolonhesa de 1575 (v. acima) apresenta variantes de pouca importância.
O bispo anabatista
... : v. Stella,
Anabattismo
, op. cit., p. 75.
Porque faz mal
... : v.
ACAU,
proc. n. 126, f. 21v.
Eu ensino vocês
: v. ibid., f. 9r.
Entretanto
,
no interrogatório
...
de 1
o
de maio
: v. ibid., ff. 33v-34v.
Alcune ragioni del perdonare
: “in Vinegia per Stephano da Sabbio, 1537”. Sobre Crispoldi, v. A. Prosperi,
Tra evangelismo e Controriforma
:
G. M. Giberti
(
1495-1543
) (Roma, 1969), Índice. Sobre o folheto citado, v. C. Ginzburg e A. Prosperi,
Giochi di pazienza
:
Un seminario sul “Beneficio di Cristo”
(Turim, 1975).
Um remédio.
.. : [Crispoldi]
Alcune ragioni
, op. cit., ff. 34r-v.
Ele conhece
...
sua versão mais coerente
: v. ibid., ff. 29 ss., especialmente ff. 30v-31r: “E seguramente eles [os soldados e os senhores] e todo estado e condições das pessoas e toda república e reino são dignos de guerra perpétua e de não ter repouso, onde existem muitos que se esquecem ou fariam mal do ato de perdoar e odeiem quem perdoa. São dignos que cada um tenha sua justiça e sua razão e que
não haja nem juiz nem funcionário público e que assim com a multiplicidade de males eles possam ver quão grandes danos ocorrem quando cada um faz justiça com as próprias mãos; como as
vendettas
para o bem e paz comuns são deixadas a cargo de funcionários públicos mesmo nas leis dos pagãos e que, entre eles, perdoar era a coisa certa a ser feita, principalmente quando feita pelo bem da república ou de alguma pessoa em particular: como no caso de um pai que fosse perdoado para que seus filhinhos pudessem ter sua proteção. E pense quão meritório é proceder dessa maneira, já que Deus assim o quer. Esta questão de bem comum é largamente discutida em muitos lugares e por muitos”. E v. os caps.
XI-XV
do livro
I
dos
Discursos
(impressos pela primeira vez em 1531).
Não a de Maquiavel disfarçado
... : v. Introdução de G. Procacci a N. Maquiavel,
Il Príncipe e Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio
(Milão, 1960), pp.
LIX-LX
.
20
Todos os seus companheiros
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 27r.
Numa carta enviada
...
aos juízes
... : v. cap. 45.
As viagens: v. a bibliografia essencial citada acima.
Sabe-se que
...
a difusão das descrições da Terra Santa
: v. G. Atkinson,
Les nouveaux horizons de la Renaissance française
(Paris, 1935), pp. 10-2.
Diversos hábitos dos cristãos
: cito a edição veneziana de 1534 (Joanne de Mandavilla,
Qual tratta delle piú maravigliose cose
), f. 45v.
Dizem
... :v. ibid., ff. 46r-v.
Se esta árvore
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 38r.
Entre todos os profetas
: v. Mandavilla,
Qual tratta
, op. cit., f. 51v.
Minha dúvida
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 16v.
Mas não foi jamais crucificado
: v. Mandavilla,
Qual tratta
, op. cit., f. 52r.
Não é verdade que Cristo
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 13r.
Parecia-me inacreditável
... : v. ibid., f. 16v.
Eles [os cristãos]
... : v. Mandavilla,
Qual tratta
, op. cit., ff. 53v.
21
O povo
... : v. ibid., f. 63r. “Chana” é Thana, uma localidade na ilha de Salsette, a nordeste de Bombaim (servi-me, para identificar a localidade citada por Mandeville, dos comentários de M. C. Seymour à edição citada).
É um povo de pequena estatura
: v. ibid., f. 79v. Sobre essa passagem como possível fonte de Swift, v. Bennett,
The Rediscovery
, op. cit., pp. 255-6.
Tantas raças
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, folhas não numeradas; ibid., f. 22r.
Michel de Montaigne
: sobre os limites do relativismo de Montaigne, v. S. Landucci,
I filosofi e i selvaggi
,
1580-1780
(Bari, 1972), pp. 363-4, passim.
Nesta ilha
... : v. Mandavilla,
Qual tratta
, op. cit., ff. 76v-77r. Dondina (Dondum): talvez uma das ilhas Andaman.
Como atingira Leonardo
: v. Solmi,
Le fonti
, op. cit., p. 205.
Diga-me
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, ff. 21v-22r.
22
E saibam
: v. Mandavilla,
Qual tratta
, op. cit., f. 63v.
O mais santo entre os animais
: ibid., ff. 63v-64r.
Cabeça de cão
: ibid., f. 75r. A descrição dos cinocéfalos foi extraída do
Speculum Historiale
, de Vicente de Beauvais.
E saibam que em todo aquele país
: v. Mandavilla,
Qual tratta
, op. cit., ff. 118v-119r. “Et metuent”: Salmo 66:8. “Omnes gentes”: Salmo 71-11.
E embora
: v. Mandavilla,
Qual tratta
, op. cit., ff. 110r-v. Para as citações escriturais, v. Oseias,
VIII
: 12; Sabedoria,
VIII
: 14; João,
X
: 16.
Mesidarata e Genosaffa
: trata-se de duas localidades mencionadas pela tradição clássica, Oxydraces e Gymnosophistae. A essas passagens de Mandeville podem ser aproximadas as representações dos homens de grandes orelhas ou de pés enormes presentes na multidão dos eleitos no portal da igreja de Maddalena de Vézelay (v. E. Mâle,
L’art religieux du XII
e
siècle en France
[Paris, 1947], 5: 330, e v. também a iconografia de são Cristóvão cinocéfalo, in L. Réau,
L’iconographie de l’art chrétien
, v.
III
, t.
I
(Paris, 1958), pp. 307-8; as duas indicações me foram gentilmente dadas por Chiara Settis Frugoni, embora ali se insista mais na difusão da palavra de Cristo mesmo entre populações remotas e monstruosas.
A corrente popular
...
favorável à tolerância
: v., por exemplo, C. Vivanti,
Lotta politica e pace religiosa in Francia fra Cinque e Seicento
(Turim, 1963), p. 42.
Lenda
...
dos três anéis
: além de M. Perna,
La parabola dei tre anelli e la tolleranza nel Medio Evo
(Turim, 1953) (medíocre), v. U. Fischer, “La storia dei tre anelli: Dal mito all’ utopia”, in
Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa — Classe di Lettere e Filosofia
, 3
a
série (1973), 3: 955-98.
23
Gerolamo Asteo
: v. C. Ginzburg,
I benandanti
, op. cit., Índice.
Conceda-me
...
ouvir
: v.
ACAU
, proc. n. 285, depoimento de 12 de julho, 19 de julho, 5 de agosto de 1599.
Havia sofrido o corte da censura
... : v. acima. O conto (“Melchisedec giudeo con una novella di tre anella cessa un gran pericolo dal Saladino apparecchiatogli”: é a terceira do primeiro dia) não apresenta referência aos três anéis da edição dos Giunti corrigida por Salviati (Florença, 1573, pp. 28-30; Veneza, 1582 etc.). Na edição “riformata da Luigi Groto cieco d’Adria” (Veneza, 1590, pp. 30-2), não só desapareceu a passagem mais polêmica (“E assim vos digo, senhor meu, das três leis dadas por Deus aos três povos nasce a questão: cada um acredita ter e seguir sua herança, a verdadeira lei e seus mandamentos; mas quem realmente a possui, como no caso dos anéis, ainda é uma questão pendente”: v. G. Boccaccio,
Il Decamerone
, org. V. Branca [Florença, 1951],
I
: 78) como o conto inteiro foi reescrito, começando pelo título (
Polifilo giovane con una novella di tre anella cessa una gran riprensione da tre donne apparecchiatagli
).
Como Castellione
: v. D. Cantimori, “Castellioniana (et Servetiana)”, in
Rivista storica italiana
(1955),
LXVII
: 82.
24
As possíveis relações com um ou outro grupo de heréticos
: v. em geral as indicações metodológicas, a respeito de “contatos” e “influências”, de L. Febvre, “Le origini della Riforma in Francia e il problema delle cause della Riforma”, in
Studi su Riforma e Rinascimento e altri scritti su problemi di metodo e di geografia storica
, trad. ital. (Turim, 1966), pp. 5-70.
25
Eu disse
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 17r.
Se esse livro
... : ibid., f. 22r.
Como está dito
: v.
Fioretto
, op. cit., f. A
III
r.
E está dito
,
no princípio
: v. Foresti,
Supplementum
, op. cit., f.
IV
(cito a edição veneziana de 1553).
Eu ouvi ele dizer
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 6r.
Eu disse
... : v. ibid., f. 17r. Os grifos (mais para a frente também) são meus.
O que era
... : v. ibid., f. 20r.
Santíssima majestade
: v. ibid., f. 23r.
Eu acredito que o eterno Deus
: v. ibid., ff. 30r-v.
Esse Deus
: v. ibid., f. 31v.
26
O senhor
...
anteriores
: v. ibid., ff. 36v-37v. A transcrição é integral. Limitei-me a substituir os nomes dos dois interlocutores às formas “Interrogatus... respondit”.
27
Angélica
,
isto é
,
divina
: v.
Dante con l’espositioni de Christoforo Landino et d’Alessandro Vellutello
(Veneza, 1578), f. 201r. À tese da criação do homem para compensar a queda dos anjos se alude também no Paradiso
XXX
, 134 ss. V., a respeito, B. Nardi,
Dante e la cultura medievale
:
Nuovi saggi di filosofia dantesca
(Bari, 1949), pp. 316-9.
E esse Deus
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 17v.
Tivesse lido Dante
: como exemplo de leitura de Dante em ambiente popular (porém urbano e florentino), v. V. Rossi, “Le lettere di un matto”, in
Scritti di critica letteraria
,
II
:
Studi sul Petrarca e sul Rinascimento
(Florença, 1930), p. 401 ss., principalmente p. 406 ss. Mais próximo do caso de Menocchio está o de um homem simples de Lucchesia, que se fazia chamar de Scolio. Sobre reflexos de Dante no seu poema, v. a quarta nota do cap. 58.
Na verdade
, ...
não havia retirado
...
dos livros
...: não temos prova de que Menocchio tivesse lido um dos textos vernaculares correntes da
Biblioteca storica
de Diodoro Siculo. No capítulo que abre essa obra, em todo caso, não se fala de queijo, embora se aluda à geração dos seres viventes da matéria putrefata. Sobre o sucesso da tal passagem voltarei a falar mais para a frente. Sabemos, isto sim, com certeza, que Menocchio tivera em suas mãos o
Supplementum
, de Foresti. Ali pôde encontrar, num breve resumo, algumas doutrinas cosmológicas que vinham da Antiguidade ou da Idade Média: “Resumindo todas essas coisas foram pelo livro do Gênese reunidas para que cada fiel entenda que a teologia das pessoas é toda em vão, ou melhor, comparando-a com Aquela, parece mais profanação do que teologia. Algumas dizem que não existe Deus; outras acreditavam que as estrelas fixas no céu fossem fogo, ou então, fogo que por arte e movimento é carregado pelos céus e o adoravam em vez de Deus; outras diziam que o mundo não é governado pela providência de Deus, mas sim por uma natureza racional; algumas dizem que o mundo nunca teve princípio, sempre existiu e de modo algum começou por obra de Deus, mas do acaso e pela sorte foi
ordenado; finalmente, alguns átomos e corpos animados foram compostos...” (
Supplementum
, op. cit., f.
II
r). Essa alusão ao “mundo feito ao acaso” reaparece (se não for, o que é pouco provável, um eco do
Inferno
IV
, 136) num diálogo que o pároco de Polcenigo, Giovan Daniele Melchiori, reproduziu quando foi depor no Santo Ofício de Concórdia (16 de março). Quinze anos antes, um amigo — provavelmente se tratasse do próprio pároco — exclamara, caminhando pelo campo: “Grande é a bondade do senhor Deus em ter criado estas montanhas, estas planícies, a tão bela máquina do mundo”. Menocchio, que estava ao seu lado, perguntou: “Quem é que o senhor pensa que criou o mundo?”. “Deus.” “O senhor está enganado, porque o mundo foi criado por acaso. Se eu pudesse falar, falaria, mas não quero falar” (
ACAU
, proc. n. 126, ff. 24v-25r).
Da mais perfeita
... : ibid., f. 37r.
Experimentos de Francesco Redi
: em 1688, Redi demonstrou que, nas substâncias orgânicas livres do contato com o ar, a putrefação não ocorria e, portanto, muito menos a “geração espontânea”.
Walter Raleigh
: citado in H. Haydn,
The Counter-Renaissance
(Nova York, 1960), p. 209.
Mitos antiquíssimos
: v. U. Harva,
Les représentations religieuses des peuples altaïques
, trad. fr. (Paris, 1959), p. 63 ss.
No princípio
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 6r (e v. p. 105).
Não se pode excluir o fato de que
... : v. G. de Santillana e H. von Dechend,
Hamlet’s Mill
(Londres, 1970), pp. 382-3, que afirmam que o estudo exaustivo dessa tradição cosmogônica exigiria um livro só para o assunto. Quem sabe, por terem escrito um livro fascinante sobre a roda do moinho como imagem do círculo celeste, eles não considerariam não casual o fato de um moleiro citar essa antiquíssima cosmogonia. Infelizmente, não tenho competência suficiente para julgar uma pesquisa como a
Hamlet’s Mill
. Seus pressupostos e a audácia de certas passagens inspiram uma desconfiança que é óbvia. Mas só pondo em discussão as certezas preguiçosamente adquiridas que é possível enfrentar o estudo de continuidades culturais tão persistentes.
O teólogo inglês Thomas Burnet
: “Tellurem genitam esse atque ortum olim traxisse ex Chao, ut testatur antiquitas tam sacra quam profana, supponamus: per Chaos autem nihil aliud intelligo quam massam materiae exolutam indiscretam et fluidam... Et cum notissimum sit liquores pingues et macros commixtos, data occasione vel libero aeri expositos, secedere ab invicem et separari, pinguesque innatare tenuibus; uti videmus in mistique aquae et olei, et in separatione floris lactis a lacte tenui, aliisque plurimus exemplis: aequum erit credere, hanc massam liquidorum se partitam esse induas massas, parte ipsius pingutore supernatante reliquae...” (suponhamos que a terra foi gerada e sua origem tenha sido o Caos, como reconhece a tradição sagrada e profana. Para mim o Caos nada mais é que uma massa de matéria dissociada, contínua e fluida. E como é muito bem sabido que os fluidos gordos e os magros estão misturados, dada a ocasião ou expostos ao ar livre, eles se desprendem e se separam e os gordos sobrenadam aos magros como vemos na mistura da água e do óleo, e na separação entre a nata do leite e o leite magro, e em muitos outros exemplos. Será justo acreditar que essa massa de líquidos se dividiu em duas massas das quais a mais gorda se sobrepôs à outra) (T. Burnet,
Telluris theoria sacra
,
originem et mutationes generales orbis nostri
,
quas aut jam subiit
,
aut olim subiturus est
,
complectens
, Amsterdã, 1699, p. 17, 22; agradeço de coração a Nicola Badaloni por
ter me indicado essa passagem). Para as alusões sobre a cosmologia indiana, v. ibid., pp. 344-7, 541-4.
Um culto de base xamanista
... : v. C. Ginzburg,
I benandanti
, op. cit., p.
XII
. Voltarei a esse tema num próximo trabalho, mais amplo.
28
A Reforma e a difusão da imprensa
: sobre a relação entre os dois fenômenos, v. entre as últimas coisas de E. L. Eisenstein, “l’avènement de l’imprimerie et la Réforme”, in
Annales
:
ESC
(1971),
XXVI
: 1355-82.
O salto histórico
... : v. sobre o assunto o ensaio fundamental de J. Goody e J. Watt, “The Consequences of Literacy”, in
Comparative Studies in Society and History
(1962-63), v: 304-45, que, todavia, curiosamente ignora o corte introduzido pela invenção da imprensa. Sobre as possibilidades de autodidatismo oferecidas por esta última, insiste com justiça E. L. Eisenstein, “The Advent of Printing and the Problem of the Renaissance”, in
Past and Present
(nov. 1969), 45: 66-8.
A traição
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 27v. Observe-se que, em 1610, o lugar-tenente veneziano A. Grimani prescreveu que todos os processos friulanos nos quais estivessem implicados camponeses deveriam ser escritos em idioma vulgar: v.
Leggi
, op. cit., p. 166.
O que é que você pensa
: v. ibid., proc. n. 285, folhas não numeradas (6 de julho de 1599).
Procurar coisas maiores
: v. ibid., proc. n. 126, f. 26v.
29
Deus não pode
: v.
Fioretto
, op. cit., ff. A
III
v-A
IV
r.
Muitos filósofos
... : v.
Fioretto
, op. cit., ff. Cr-v.
Os instrumentos linguísticos e conceituais
: utilizo aqui (embora com perspectiva diversa, como já foi dito no Prefácio) a noção de “outillage mental” elaborada por Febvre (v.
Le problème de l’incroyance
, op. cit., p. 328 ss.).
30
As imagens que brilham no
Fioretto: v., por exemplo, pp. 81-2.
31
Todos somos filhos
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 17v.
Tem a mesma consideração
: ibid., f. 28r.
Chama todos
: ibid., f. 37v.
Faz mal só a si próprio
: ibid., f. 21v.
Todavia
,
além de pai
: as duas imagens eram tradicionais: v. K. Thomas,
Religion and the Decline of Magic
(Londres, 1971), p. 152.
Santíssima majestade
: por exemplo, ibid., f. 20r etc.
Grande capitão
: ibid., f. 6r.
Quem irá sentar
: ibid., f. 35v.
Eu disse que
,
se Jesus
: ibid., f. 16v.
Quanto às indulgências
: ibid., f. 29r.
E
,
como um feitor
: ibid., f. 30v.
O Espírito Santo
: ibid., f. 34r.
Através dos anjos
: ibid.
Assim como alguém
: ibid., f. 37r.
Quando
...
o querer
: ibid.
Carpinteiro
: ibid., f. 15v.
Eu acredito
: ibid., f. 37r.
Esse Deus
: ibid., f. 31v.
Deus único
: ibid., f. 29r.
Os anjos
: observe-se que, se realmente Menocchio, como se supõe, tivera em mãos o
Dante con l’espositioni de Christoforo Landino et d’Alessandro Vellutello
, ali pudera ler, entre os comentários de Landino ao canto
IX
do
Inferno
: “Menandrianos tomam o nome de Menandro,
magus
discípulo de Simão. Dizem o mundo não ser feito por Deus, mas pelos anjos” (f. 58v). Um reflexo confuso e distorcido dessa passagem parece aflorar nas palavras de Menocchio: “Neste livro, Mandavilla me parece que diz que foi Simão, o mago, quem deu forma aos anjos”. Na verdade, Mandeville nem sequer menciona Simão, o mago. Provavelmente esse desvio refletia um momento no qual Menocchio se sentia confuso. Depois de ter dito que suas ideias remontavam à leitura das
Viaggi
, de Mandeville, de “cinco ou seis anos” antes, ouvira o inquisidor retrucar: “Consta que há trinta anos já possuía tais opiniões” (
ACAU
, proc. n. 126, f. 26v). Pressionado, Menocchio tentara sair da situação, atribuindo a Mandeville uma frase que lera em outro lugar — provavelmente muitos anos antes — e mudou rapidamente de assunto. Mas essas são simples conjecturas.
Da mais perfeita
: ibid., f. 37r.
As primeiras criaturas
: v.
Fioretto
, op. cit., f. b
VIII
r.
Vejam
,
porém
: ibid., f. A
III
v.
Eu acredito que o mundo todo
: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 17r.
32
Quem é esse tal de Deus?
: ibid., f.
II
v.
Quem é que vocês pensam
... : ibid., f. 8r.
O que é o Espírito Santo?
: ibid., f. 12r.
Nunca se encontrará
... : ibid., f. 24r.
Se pudesse falar
... : ibid., f. 25r.
Eu disse.
.. : ibid., f. 27v.
Tradução italiana
... : v. Stella,
Anabattismo e antitrinitarismo
, op. cit., p. 7, 135-6.
No centro da primeira obra de Servet
: sobre Servet, v. Cantimori,
Eretici
, op. cit., pp. 36-49;
Autour de Michel Servet et de Sébastien Castellion
, org. B. Becker (Harlem, 1953); R. H. Bainton,
Michel Servet hérétique et martyr
(Genebra, 1953).
Minha dúvida é
... : v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 16v.
Eu acredito que seja homem
... : ibid., f. 32r.
Nam per Spiritum
... (
Pois por Espírito
... ): v. M. Servet,
De Trinitatis erroribus
(Haguenau, 1531), reimpr. Frankfurt am Main, 1965, f. 22r.
Acredito
... :
ACAU
, proc. n. 126, ff. 16v, 29v, 21v. Para a interpretação do “espírito” da última citação, ver o que foi dito no cap. 36.
Spiritus sanctus
(
Espírito Santo
): v. Servet,
De Trinitais
, op. cit., f. 28v.
Dum de spiritu
... (
Ao falar do Espírito
...): ibid., ff. 60r-v.
Quem é que vocês pensam
:
ACAU
, proc. n. 126, ff. 2r, 5r.
Omne quod
... (
Tudo o que
... ): cf. Servet,
De Trinitais
, op. cit., ff. 66v-67r, 85v (v. também Cantimori,
Eretici
, op. cit., p. 43, nota 3).
Quem é que vocês pensam.
.. :
ACAU
, proc. n. 126, ff. 8r, 3r (e 10r, 12v etc.), 2r, 16v, 12r.
Na Itália do século XVI
,
os escritos de Servet
... : v. a carta do pseudo-Melanchton enviada ao Senado veneziano em 1539 e sobre isso v. K. Benrath, “Notiz über Melanchtons angeblichen Brief an den venetianischen Senat (1539)”,
Zeitschrift für Kirchengeschichte
,
I
, 1877, pp. 469-71; o caso do ourives mantovano Ettore Donato, que conhecia o
De Trinitatis erroribus
em latim e afirmara: “Tinha um estilo que eu não entendia” (Stella,
Anabattismo e antitrinitarismo
, op. cit., p. 135); sobre a difusão no ambiente modenense, v. J. A. Tedeschi e J. von Henneberg, “Contra Petrum Antonium a Cervia relapsum et Bononiae concrematum”, in
Italian Reformation Studies in Honor of Laelius Socinus
, org. J. A. Tedeschi (Florença, 1965), p. 252, nota 2.
33
É uma traição
:
ACAU
, proc. n. 126, f.
IIV
.
Acredito que
[
os homens
]: ibid., f. 34r.
O demônio
: ibid., ff. 38r-v.
Uma religião camponesa
: “No mundo dos camponeses não há lugar para a razão, para a religião e para a história. E não há lugar para a religião justamente porque tudo participa da divindade, porque tudo é, realmente e não simbolicamente, divino, o céu como os animais, Cristo como a cabra. Tudo é magia natural. As cerimônias da Igreja também se tornam ritos pagãos, celebrantes da indiferenciada existência das coisas, dos infinitos deuses terrestres do lugar” (C. Levi,
Cristo si è fermato a Eboli
[Turim, 1946]).
34
Diz-se
:
ACAU
, proc. n. 126, f. 17r.
E então o homem
: v.
Fioretto
, op. cit., ff. B
VIII
r-v. O grifo é meu.
Quando o homem morre
... :
ACAU
, proc. n. 126, f. 10v.
Os versos do
Eclesiastes: v.
Eclesiastes
3:18 ss.: “Dixi in corde meo de filiis hominum, ut probaret eos Deus et ostenderet similes esse bestiis. Idcirco unus interitus est hominum et iumentorum, et aequa utriusque conditio. Sicut moritur home, sic et illa moriuntur...” (Eu disse no meu coração acerca dos filhos dos homens, que Deus os provava e lhes mostrava que eram semelhante aos brutos. Por isso uma é a morte dos homens brutos, e de uns e outros é igual a condição: do mesmo modo que morre o homem, assim morrem também os brutos). A esse respeito, lembre-se das acusações dirigidas, dez anos antes, contra o nobre de Pordenone, Alessandro Mantica, depois condenado pelo Santo Ofício como “veementemente suspeito” de heresia (sem que se conhecesse a base da suspeita). Entre elas havia a de ter defendido, baseado nesses versos, a tese da mortalidade da alma. “E atentos para o fato — podia-se ler na sentença, datada de 29 de maio de 1573 — de que o tal Alessandro, sendo uma pessoa letrada, não convinha que dissesse, como o fez mais de uma vez, para pessoas ignorantes ‘quod iumentorum et hominum par esse interitus’ (porque é igual a morte dos homens e dos animais), sugerindo a mortalidade da alma racional...” (
ASV
en,
Sant’Uffizio
, b. 34, fasc. Alessandro Mantica, ff. 21-2r e sentença). Que entre as “pessoas ignorantes” estivesse Menocchio é uma suposição atraente, mas indemonstrável — além do que desnecessária. Nesse período, os Mantica tinham se aparentado com a família Montereale: v. A. Benedetti,
Documenti inediti riguardanti due matrimoni fra membri di signori castellani di Spilimbergo e la famiglia Mantica di Pordenone
, s. 1., s. d. (mas é Pordenone, 1973).
O que você pensa
... :
ACAU
, proc. n. 126, f. 18v.
35
O senhor disse
: ibid., ff. 20r-v.
36
Panteísta
: o termo
panteísmo
foi cunhado por John Toland, em 1705 (v. P. O. Kristeller,
La tradizione classica nel pensiero del Rinascimento
, trad. ital. [Florença, 1965], p. 87, nota 5).
Crença popular
: v. Ginzburg,
I benandanti
, op. cit., p. 92.
Fale a verdade
:
ACAU
, proc. n. 126, f. 21r.
Nosso espírito
: ibid., f. 20v.
Se acreditava
: ibid., ff. 21r-v.
Eu vos digo
: ibid., ff. 32r-v.
É separado do homem
: ibid., f. 34v.
Dois espíritos
: v. em geral, a esse respeito, as decisivas considerações de Febvre,
Le problème de l’incroyance
, op. cit., pp. 163-94.
37
E é verdade
: v.
Fioretto
, op. cit., ff. B
II
v-B
III
r.
Essa distinção
: v. também Febvre,
Le problème de l’incroyance
, op. cit., p. 178, a respeito da distinção formulada por Postel entre
animus
(em francês,
anime
) imortal e
anima
(em francês,
âme
). Observe-se, porém, que para Postel esta última que é ligada ao Espírito, enquanto a
anime
é iluminada pela mente.
É preciso voltar
: v. sobre isso G. H. Williams,
The Radical Reformation
, op. cit., Índice,
sub voce
“psychopannychism”; id. “Camillo Renato (
c
. 1500?-1575)”, in
Italian Reformation Studies
, op. cit., p. 106 ss., pp. 169-70, passim; Stella,
Dall’anabattismo
, op. cit., p. 37-44.
Através da influência direta de Renato
: v. os depoimentos de um seguidor valtellinense de Renato (declarou ter a “mesma fé” que ele), Giovanbattista Tabacchino, amigo do anabatista de Vicenza Jacometto “stringaro”: v. Stella,
Anabattismo e antitrinitarismo
, op. cit., Índice,
sub voce
“Tabacchino”. Cai por terra, portanto, a prudente reserva formulada por Rotondò. (V. C. Renato,
Opere
,
documenti e testimonianze
, org. A. Rotondò, “Corpus Reformatorum Italicorum” [Florença-Chicago, 1968], p. 324.) Observe-se, porém, que o opúsculo “La revelatione”, mantido manuscrito nos autos inquisitoriais venezianos, e até o momento atribuído a Jacometto “striagaro” (v. Stella,
Anabattismo
, op. cit., pp. 67-71, que publica longos trechos; C. Ginzburg,
I costituti di don Pietro Manelfi
, “Biblioteca del Corpus Reformatorum Italicorum” [Florença-Chicago, 1970], p. 43, n. 22), é, na verdade, obra de Tabacchino: v.
ASV
en,
Sant’Uffizio
, b. 158, “liber
quartus”, f. 53v. O opúsculo, que era destinado aos companheiros de seita reunidos na Turquia, merece uma análise mais profunda pelas estreitas relações do autor com Renato. Ao último não tinham ainda sido atribuídas doutrinas antitrinitárias (v. Renato,
Opere
, op. cit., p. 328), enquanto “La revelatione”, de Tabacchino, é explicitamente antitrinitária.
Sustentavam que a
anima: v. Stella,
Anabattismo e antitrinitarismo
, op. cit., p. 61. Os grifos são meus.
Outro inferno
: v. C. Ginzburg,
I costituti
, op. cit., p. 35.
O pároco de Polcenigo
: v.
ASV
en,
Sant’Uffizio
, b. 44 (
De Melchiori don Daniele
).
Vai-se para o paraíso
: ibid., f. 23v etc.
Eu me lembro
: ibid., ff. 66r-v.
“
Prédicas
”: cito a edição veneziana de 1589, ff. 46r-v. A primeira edição é de 1562. Sobre Ammiani ou Amiani, que foi secretário da ordem e participou do concílio de Trento, v. o verbete escrito por G. Alberigo, in
Dizionario bio grafico degli italiani
(Roma, 1960),
II
: 776-7. Aí está frisada a atitude de Amiani, hostil à controvérsia antiprotestante e favorável, por sua vez, à proposta tradicional, principalmente a patrística. Isso fica evidente mesmo nestes “Discorsi” (depois de alguns poucos anos, outras duas partes foram anexadas), onde a polêmica explícita contra os luteranos é encontrada só no 40
o
discurso (“Che cosa habbia fatto il scelerato Luthero con i suoi seguaci”, ff. 51r-v).
Ad perfidam
(
à pérfida
): v.
ASV
en,
Sant’Uffizio
, b. 44, f. 80r. A alusão a Wyclif, em uma sentença inquisitorial do período, é absolutamente excepcional.
38
Eu acredito
: v. cap. 35.
O filho
:
ACAU
, proc. n. 126, ff. 31v-32r.
Sim
,
senhores
: ibid., f. 32v.
Os lugares
: ibid., f 33v.
39
Disse
: v. cap. 35.
Eu gosto que se pregue
: ibid., f. 28v.
Acredito que sejam boas
: ibid., f. 29r.
Porque Deus
: ibid., f. 35r.
Eu acredito
... : ibid.
Intelecto
... : ibid., ff. 32r-v.
Os olhos
: ibid., f. 35v.
Paraíso é um lugar
... : v. Mandavilla,
Qual tratta
, op. cit , f. 51r.
Acredita
... :
ACAU
, proc. n. 126, f 38v.
40
Meu espírito
: ibid., f. 30r.
Nas sociedades
... : v. Goody-Watt,
The Consequences
, op. cit.; L. Graus, “Social Utopias in the Middle Ages”, in
Past and Present
(dez. 1967), 38: 3-19; E. Hobsbawm, “The Social Function of the Past: Some Questions”, ibid. (maio 1972), 55: 3-17. Sempre útil, M. Halbwachs,
Les cadres sociaux de la mémoire
(1
a
ed.,
1925; Paris, 1952).
Quando Adão
... : “When Adam delved Eve span Who was then a gentleman?” é um provérbio famoso do qual se encontram vestígios desde a revolta dos camponeses ingleses de 1381 (v. R. Hilton,
Bon Men Made Free
:
Medieval Peasant Movements and the English Resing of 1381
[Londres, 1973], pp. 222-3).
Igreja primitiva
: v., em geral, G. Miccoli, “Ecclesiae primitivae forma”, in
Chiesa Gregoriana
(Florença, 1966), p. 225 ss.
Gostaria
... :
ACAU
, proc. n. 126, f. 35r.
A crise do etnocentrismo
... : v. Landucci,
I filosofi
, op. cit.; W. Kaegi, “Voltaire e la disgregazione della concezione cristiana della storia”, in
Meditazioni storiche
, trad. ital. (Bati, 1960), pp. 216-38.
Martinho
,
conhecido como Lutero
: v. Foresti,
Supplementum
, op. cit., ff.
CCCLVR
-v (mas a numeração está errada).
41
Mantido
... :
ACAU
, proc. n. 132, declaração do pároco Odorico Vorai, 15 de fevereiro de 1584.
Nas tavernas
: ibid., proc. n. 126, f. 9r.
Criticado e falado mal
... : ibid., e v. ff. 7v,
II
r etc.
Ele me dá
... : ibid., proc. n. 132, folhas não numeradas (depoimento de 18 de fevereiro de 1584).
Fazer
... : ibid., proc. n. 126, f. 13v.
Este aqui
... : ibid., f. 10v.
Disse tais coisas
... : ibid., f. 12v.
Quando disse
... : ibid., proc. n. 132, folhas não numeradas (depoimento de 25 de abril de 1584).
Que Deus os guarde
... : ibid., proc. n. 126, f. 27v.
Naquela tarde
: ibid., ff. 23v-24r.
Se tornar bandido
: v. E. J. Hobsbawm,
I banditi
, trad. ital. (Turim, 1971).
Uma geração antes
... : v. cap. 7 (Introdução).
42
Começa
... :
ACAU
, proc. n. 126, f. 34v.
Superioribus
... (
Alguns anos
...):
Mundus novus
, s. c., s. d. (1500?), folhas não numeradas. O grifo é meu.
Numa carta
...
a Martim Butzer
... : v.
Opus epistolarum Des. Erasmi
... org. P. S. Allen (Oxford, 1928),
VII
: 232-3.
Capitolo
... : encontra-se em apêndice à
Begola contra la bizaria
(Modena, s. d.) (uso o exemplar conservado pela Biblioteca Comunale dell’ Archiginnasio, Bolonha, assinalado 8. Lett. it.,
Poesie varie
, caps.
XVII
, n. 43). Não consegui identificar o tipógrafo. V. R. Ronchetti Bassi,
Carattere popolare della stampa in Modena nei secoli XV-XVI-XVII
(Modena, 1950).
País da Cocanha
: v. Graus,
Social Utopias
, op. cit., p. 7 ss., que, todavia, não valoriza a importância da difusão deste tema e suas ressonâncias populares. Em geral, v. Bakhtin,
L’oeuvre de François Rabelais
, op. cit., passim. (Note-se de passagem que no “nouveau monde” que o autor imagina descobrir pela boca de Pantagruel existe um reflexo da Cocanha, que foi revelado por E. Auerbach,
Mimesis
.
Il realismo nella letteratura occidentale
, trad. ital. [Turim, 1970],
II
: 3 ss., especialmente p. 9.) Para a Itália, sempre fundamental, v. Rossi,
Il paese di Cuccagna nella letteratura italiana
, em apêndice a
Le lettere di messer Andrea Calmo
(Turim, 1888), pp. 398-410. Algumas indicações úteis no ensaio de G. Cocchiara, na coletânea homônima
Il paese di Cuccagna
(Turim, 1956), p. 159 ss. Para a França, v. A. Huon, “‘Le roy Sainct Panigon’ dans l’imagerie populaire du
XVI
e
siècle”, in
François Rabelais
.
Ouvrage publié pour le quatrième centenaire de sa mort
(
1553-1953
) (Genebra-Lille, 1953), pp. 210-25. Em geral, v. E. M. Ackermann, “
Das Schlaraffenland
”
in German Literature and Folk song
...
with an Inquiry into its History in European Literature
(Chicago, 1944).
Esses elementos
... : nisso insiste, por exemplo, o ensaio citado de Cocchiara, sem, entretanto, ligá-los às descrições dos indígenas americanos (sobre a ausência da propriedade privada, v. R. Romeo,
Le scoperte americane nella coscienza italiana del Cinquecento
[Milão-Nápoles, 1971], p. 12 ss.). Uma leve indicação dessa ligação in Ackermann, “
Das Schlaraffenland
”, op. cit., p. 82 e principalmente 102.
Não apenas os temas sérios
... : proibidos: poder-se-ia recorrer aos comentários de Freud sobre chistes contra “instituições [...] proposições da moral ou da religião, concepções de vida que gozam de tamanho respeito que uma objeção a elas só pode ser feita recobrindo-a sob a forma do chiste...” (v. o comentário de F. Orlando,
Per una teoria freudiana della letteratura
[Turim, 1973], p. 46 ss.). No decorrer do século
XVII
, a
Utopia
de Thomas More é incorporada a coletâneas de paradoxos frívolos ou humorísticos.
Anton Francesco Doni
: v. P. F. Grendler,
Critics of the ltalian World
(
1530-1560
):
Anton Francesco Doni
,
Nicolò Franco and Ortensio Lando
(Wisconsin, 1969). Usei a edição do
Mondi
, de 1562 (
Mondi celesti, terrestri et infernali de gli academici pellegrini
...): o diálogo sobre o
Mondo nuovo
encontra-se nas pp. 172-84.
Utopia
...
não é camponesa
: v. Graus, “Social Utopias”, op. cit., p. 7, que afirma que o cenário da Cocanha não é jamais urbano. Parece que a
Historia nuova della città di Cuccagna
é uma exceção; foi impressa em Siena, por volta do final do século
XV
, citada por Rossi (
Le lettere
, op. cit., p. 399); infelizmente não consegui encontrar tal texto.
Me agrada
: v. Doni,
Mondi
, op. cit., p. 179.
O antigo mito da idade do ouro
: v. A. O. Lovejoy e G. Boas,
Primitivism and Related Ideas in Antiquity
(Baltimore, 1935); H. Levin,
The Myth of the Golden Age in the Renaissance
(Londres, 1969), e H. Kamen, “Golden Age, Iron Age: A Conflict of Concepts in the Renaissance”, in
the Journal of Medieval and Renaissance Studies
(1974), 4: 135-55.
Um mundo novo diverso
: v. Doni,
Mondi
, op. cit., p. 173.
Podia ser projetado no tempo
: para essa distinção, v. N. Frye, “Varieties of Literary Utopias”, in
Utopias and Utopian Thought
, org. F. E. Manuel (Cambridge, Mass., 1966), p. 28.
...
e dos bens
: v. Doni,
Mondi
, op. cit., p. 176: “Tudo era comum, os camponeses se vestiam como os da cidade. Cada um levava o fruto do seu trabalho e se apossava do que tivesse necessidade. Não precisava vender, revender, comprar”.
Alusões do
Supplementum: v. Foresti,
Supplementum
, op. cit., ff.
CCCXXXIXV-CCCXLR
.
Por ter lido
...: v.
ACAU
, proc. n. 126, f. 34r.
“
Mundo novo
”
citadino
: sobre o significado da utopia urbana de Doni, v. as páginas, muito superficiais, de G. Simoncini,
Città e società nel Rinascimento
(Turim, 1974),
I
: 271-3 e passim.
A religião privada de ritos
... : v. Grendler,
Critics
, op. cit., pp. 175-6 (mais em geral, p. 127 ss.). As observações de Grendler não são sempre convincentes: por exemplo, falar de “materialismo” até certo ponto explícito em se tratando de Doni é forçar demais. (V., além disso, hesitações significativas às p. 135 e 176.) De qualquer modo, as inquietações religiosas de Doni não deixam dúvidas. Mas parece que A. Tenenti não as percebeu — “L’Utopia nel Rinascimento (1450-1550)”, in
Studi storici
(1966),
VII
: 689-707, que fala, referindo-se ao “mundo novo”, de “teocracia ideal” (p. 697).
Conhecer Deus
: v. Doni,
Mondi
, op. cit., p. 184. Grendler (p. 176) fala de “orthodox religious coda”: na verdade, essas palavras vão contra a religião simplificada veementemente defendida por Doni. V. também
ACAU
, proc. n. 126, f. 28r.
Seu jejum
: ibid., f. 35r.
“
Lamento
”... :
Lamento de uno poveretto huomo sopra la carestia
,
con l’universale allegrezza dell’abondantia
,
dolcissimo intertenimento de spiriti galanti
, s. c., s. d. (consultei o exemplar conservado na Biblioteca Comunale dell’Archiginnasio, Bolonha, assinalado 8. Lett. it.,
Poesie varie
, caps.
XVIII
, n. 40).
Quaresma e carnaval
: sobre a visão cíclica implícita nas utopias populares insiste Bakhtin (v.
L’oeuvre de François Rabelais
, op. cit., p. 211, e passim). Ao mesmo tempo, porém, atribui contraditoriamente um valor de ruptura irreversível com o “velho” mundo feudal à concepção de mundo carnavalesca do Renascimento: v. p. 215, 256, 273-4, 392. Essa sobreposição de um tempo unilateral e progressivo a um tempo cíclico e estático revela o quanto se forçam as características subversivas da cultura popular — que é o aspecto mais discutível desse livro, que, apesar de tudo, continua sendo básico. V. também P. Camporesi, “Carnevale, cuccagna e giuochi di villa (Analisi e documenti)”, in
Studi e problemi di critica testuale
(abr. 1975), 10: 57 ss.
Raízes populares das utopias
: v. ibid., p. 17, 20-1, 98-103, e passim (v. também a nota precedente). O problema é colocado no caso de Campanella por L. Firpo, “La cité idéale de Campanella et le culte du Soleil”, in
Le soleil à la Renaissance
:
Sciences et mythes
(Bruxelas, 1965), p. 331.
Muito velho
: v. Bakhtin,
L’oeuvre de François Rabelais
, op. cit., pp. 89-90.
Renascença
: v. ibid., p. 218, 462, e sobretudo G. B. Ladner, “Vegetation Symbolism and the Concept of Renaissance”, in
De artibus opuscula XL
:
Essays in Honor of Erwin Panofsky
, org. M. Meiss (Nova York, 1961),
I
: 303-22. V. também id.,
The Idea of Reform
:
Its Impact on Christian Thought and Action in the Age of the Fathers
(Cambridge, Mass., 1959). Sempre importante, K. Burdach,
Riforma-Rinascimento-Umanesimo
, trad. ital. (Florença, 1935), pp. 3-71.
Não o Filho do Homem
... : v. Daniel 7:13 ss. Trata-se de um dos textos fundamentais da literatura milenarista.
43
Uma longa carta
... :
ACAU
, proc. n. 126, folhas não numeradas.
Inutilmente pedida
... : cf. acima, p. 49.
45
Os transmontanos
... : v. M. Scalzini,
Il secretario
(Veneza, 1587), f. 39.
Dom Curzio Cellina
: v. fasc. de escrituras notariais por ele redigidas in
ASP
,
Notarile
, b. 488, n. 3785.
p. 143
Aliterações
: v. P. Valesio,
Strutture dell’alliterazione
:
Grammatica
,
retorica e folklore verbale
(Bolonha, 1967), particularmente p. 186 (sobre a aliteração na linguagem religiosa).
Dissera no processo
... :
ACAU
, proc. n. 126, f. 34v.
46
A sentença
: ibid., “Sententiarum contra reos S. Officii liber
II
”, ff.
I
r-
XIV
. A abjuração se encontra em ff. 23r-34r.
No
Supplementum... : v. ff.
CLIIIV
-
CLIV
r,
CLVII
r.
47
Embora eu
... :
ACAU
, “Sententiarum contra reos S. Officii liber
II
”, f. 12r.
O carcereiro
... : ibid., ff. 15r-v.
...
mandaram trazer Menocchio
: ibid., ff. 16r-v.
O bispo de Concórdia
... : ibid., ff. 16v-17r.
48
Em 1590
... :
ACAU
, “Visitationum Personalium anni 1593 usque ad annum 1597”, pp. 156-7.
Um testemunho do mesmo período
... :
ASP
,
Notarile
, b. 488, n. 3785, ff. Ir-2v.
No mesmo ano
... : ibid., ff. 6r-v.
Em 1595
... : ibid., ff. bv., 17v.
...
com a morte do filho
:
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas.
49
No carnaval
... : ibid. As folhas deste processo não são numeradas.
Beati qui non viderunt
... : João, 20:29.
Soube que dom Odorico
...: v.
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas (11 de novembro de 1598, depoimento de dom Ottavio dos condes de Montereale).
Interrogou o novo pároco
: ibid. (17 de dezembro de 1598).
Dom Curzio Cellina
: ibid.
50
Um certo Simon
: ibid. (3 de agosto de 1599).
Talvez tenha sido a recusa
... : v. Stella,
Anabattismo e antitrinitarismo
, op. cit., p. 29, e id., “Guido da Fano eretico del secolo
XVI
al servizio dei re d’Inghilterra”, in
Rivista di storia della Chiesa in Italia
(
1959
),
VIII
: 226.
51
Um taverneiro
...
foi interrogado
: v.
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas (6 de maio de 1599).
Se Cristo fosse Deus
... : trata-se de uma frase blasfema corrente, como se pode
observar, por exemplo, pela testemunha de 1599 contra Antonio Scudellario, conhecido por Fornasier, que morava nas proximidades de Valvasone (
ACAU
, “Anno integro de 1599, a n. 341 usque ad 404 incl.”, proc. n. 361).
Mesma observação jocosa
: v. A. Boscchi,
Symbolicarum quaestionum... libri quinque
(Bolonha, 1555), ff.
LXXX-LXXXI
. A tal símbolo voltarei em outra ocasião.
Acredito que tivesse
... :
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas (6 de julho de 1599).
52
Eductus
(
retirado
)... : ibid. (12 de julho de 1599).
Dei aula de ábaco
: correspondia ao grau mais elementar de ensino. Sobre esse episódio da vida de Menocchio não temos infelizmente mais notícias.
No
Supplementum... : não consigo encontrar a página exata; v., em todo caso, Foresti,
Supplementum
, op. cit., ff. 180r-v.
53
Era melhor simular
... : v. C. Ginzburg,
Il nicodemismo
.
Simulazione e dissimulazione religiosa nell’Europa del ’500
(Turim, 1970).
Nous sommes Chrestiens
... :v. M. de Montaigne,
Essais
, org. A. Thibaudet (Paris, 1950), p. 489 (livro
II
, cap.
XII
,
Apologie de Raimond Sebond
).
Ao inquisidor declarou
... : v.
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas (19 de julho de 1599).
Ele disse
,
continue
... : v.
L’Alcorano di Maometto
,
nel qual si contiene la dottrina
,
la vit
a,
i costumi et le leggi sue, tradotto nuovamente dall’arabo in língua italiana
(Veneza, 1547), f. 19r.
Raciocinando muito pouco
: v.
ACAU
, proc. n. 285 (12 de julho de 1599).
Em seguida
: ibid. (19 de julho de 1599).
É verdade que os inquisidores
: ibid. (12 de julho de 1599).
54
Em nome
... : ibid., folhas não numeradas.
55
Fez justamente
... : a personalização abre uma brecha sobre as atitudes das classes populares do período relativamente à morte — atitudes que conhecemos ainda muito pouco. De fato, os raros testemunhos a respeito aparecem quase sempre filtrados por estereótipos deformantes: v., como exemplo, a citação in
Mourir autrefois
, org. M. Vovelle (Paris, 1974), pp. 100-2.
56
Eu não quero
... :
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas (19 de julho de 1599).
57
...
ser torturado
: em geral, v. P. Fiorelli,
La tortura giudiziaria nel diritto comune
(Milão, 1953-54), 2 v.
O aborrecimento
... : v. Stella,
Chiesa e Stato
, op. cit., pp. 290-1. A declaração de Bolognetti é de 1581.
58
Homens
... : v. C. Ginzburg, “Folklore”, op. cit., p. 658. Para casos análogos na Inglaterra, v. Thomas,
Religion
, op. cit., p. 159 ss.
O velho camponês inglês
...: ibid., p. 163, e o comentário de Thompson, “Anthropology”, op. cit., p. 43, aqui quase reproduzido literalmente. Sobre o papel ativo, até mesmo inovador, das classes populares no que se refere à religião, v. o trabalho de N. Z. Davis, que polemiza com aqueles que estudam a religião popular do ponto de vista das classes superiores (ou até mesmo do clero) e vendo-a, portanto, unicamente como simplificação ou distorção (com sentido de magia) da religião oficial: v. N. Z. Davis, “Some Tasks and Themes in the Study of Popular Religion”, in
The Pursuit of Holiness in Late Medieval and Renaissance Religion
, org. C. Trinkaus e H. A. Oberman (Leiden, 1974), p. 307 ss. Num plano mais geral, v. o que foi dito no Prefácio sobre as discussões do conceito de “cultura popular”.
Scolio
: v. o belo ensaio de E. Donadoni, “Di uno sconosciuto poema eretico della seconda metà dei Cinquecento di aurore lucchese”, in
Studi di letteratura italiana
(1900),
II
: 1-142, pecando pela insistência em estabelecer nexos diretos entre o poema de Scolio e as doutrinas anabatistas. Berengo, retomando tal ensaio (v.
Nobili e mercanti
, op. cit., p. 450 ss.), atenuou as conclusões, embora não as tivesse afastado totalmente: por um lado, afirmou que “seria estéril esforçar-se para situar este texto no âmbito de uma corrente religiosa bem definida” e, por outro, ligou Scolio ao veio do “racionalismo popular”. Deixando de lado as reservas quanto a essas expressões (v. penúltima nota do cap. 9), a ligação nos parece inaceitável. Sobre o autor, v. a sugestiva hipótese de Donadoni, que propõe a identificação de “Scolio” com o queijeiro Giovan Pietro di Dezza, obrigado a abjurar em 1559 (“Di uno sconosciuto”, op. cit., pp. 13-4). A redação do poema, como advertiu o autor na última página, levou sete anos (por isso, “Settennario”), a partir de 1563. Para concluí-lo, mais três anos.
Reflexos da poesia de Dante
: além da remissão direta a Dante (
BGL
, ms. n. 1271, f. 9r), observar versos como “Está sobre a escada a alma de Beatriz” (ib.) ou “que estavam ainda em terra no calor e no frio” (v.
Paradiso
XXI
, 116). E ver Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 4.
Profetas
:
BGL
, ms. n. 1271, f. 10r.
Maomé
: ibid., f. 4v. (e Donadoni, “Di uno sconoscito”, op. cit., p. 21). Na última página do poema, Scolio inseriu uma ambígua retratação: “porque quando o escrevi estava fora da minha razão, forçado a escrever. Estava cego, mudo e surdo e como aconteceu não me lembro bem” (ibid., p. 2). As correções e as anotações marginais feitas à maioria dos trechos citados aqui são fruto de tal retratação.
Turco
,
tu
... :
BGL
, ms. n. 1271, f. 10r (E. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 28).
Grandes preceitos
:
BGL
, ms. n. 1271, f. 10r.
Não se adore
... : ibid., f. 19r (E. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 130 ss.).
Circuncise-se
:
BGL
, ms. n. 1271, f. 15r (E. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 90).
“
E se eu lhes disse
”:
BGL
, ms. n. 1271, f. 2r (E. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 120).
O meu batismo
... :
BGL
, ms. n. 1271, f. 2r.
Glosa
... :
BGL
, ms. n. 1271, f. 10r.
Que não haja colunas
... : v. ibid., f. 15r (no texto,
ma organi... ma campanil
: sigo as emendas de Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., pp. 94-5).
Inchada
... :
BGL
, ms. n. 1271, f.
I
r.
Se o Senhor meu
... : ibid., f. 16r.
Não existam
... : v. ibid., f. 13r (E. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 99).
Que o jogo
... :
BGL
, ms. n. 1271, f. 13r (e, em parte, Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 97).
Idade do ouro
: v. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 34.
Em mãos
... :
BGL
, ms. n. 1271, f. 14r.
Homem ou mulher
... : v. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., pp. 102-97.
Só é lícito
... :
BGL
, ms. n. 1271, f. 19r.
Deus me levou
: ibid., f. 4r.
Esse paraíso
: v. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., pp. 128-30. A consciência de Scolio transparece numa nota acrescentada posteriormente, à margem de uma das descrições do paraíso: “Eu, sendo o profeta e rei dos loucos, fui trazido ao grande paraíso dos loucos, dos tolos, dos torpes e estúpidos, no paraíso das delícias ou dos asnos e pareceu-me ver todas essas coisas: mas, acima de tudo, deixo isso a seu julgamento”. Trata-se, mais uma vez, de uma retratação ambígua e sem convicção, o que na verdade confirma quanto o mito da Cocanha impregnava a mente dos camponeses. O “paraíso das delícias” ou “delicioso” era sinônimo do paraíso terrestre. Para os nexos possíveis entre o paraíso maometano e o da Cocanha, v. também Ackermann, “
Das Schlaraffenland
”, op. cit., p. 106. (Has são asnos e não “Urini”, como erroneamente leu Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 128.)
59
Fizeram-me
... : v. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 8.
Filósofo
... : v. cap. 53;
BGL
, ms. n. 1271, f. 30r (E. Donadoni, “Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 40).
No obedecer
... :
BGL
, ms. n. 1271, f. 12r.
Reservada
... : deixo de lado aqui elementos de difícil interpretação, como as diversas citações da antropofagia, surpreendentemente legitimada, tanto no céu como na terra: “Ao rei por sua vontade, a alguns por necessidade/ comer carne humana não é coisa ímpia/ come-a o verme, devora-a o fogo/ o primeiro sendo da terra e o outro não é menos do céu” (ibid., f. 13r). “Se a alguém viesse vontade de saborear/ carne humana como a que teve na terra/ ou como qualquer outro alimento provar/ já que aqui cada um guarda a vontade para si mesmo/ logo vê que a trazem/ e pode comer sem brigas ou guerra/ : tudo é lícito no céu, tudo é benfeito/ acabou a Lei, foi rompido o Pacto” (f. 17r). Donadoni, sem ser muito convincente, interpreta essa última passagem como uma alusão à sodomia (“Di uno sconosciuto”, op. cit., p. 127).
Pellegrino Baroni
... : para outras notícias sobre esse personagem, remeto a um ensaio de próxima publicação de A. Rotondò.
Em 1570
... : v.
ASM
,
Inquisizione
, b. 5b, fasc.
Pighino Baroni
, folhas parcialmente numeradas. No fasc. estão as cópias de dois testemunhos relativos ao processo ferrarense (1561).
p. 180
A presença maciça de moleiros
... : v.
Hérésies et sociétés dans l’Europe préindustrielle
(11
e
-18
e
siècles) (Paris-Haia, 1968), pp. 185-6, 278-80; C.-P. Clasen,
Anabaptism
, op. cit., pp. 319-20, 432-5.
O poeta satírico
... : v. Andrea da Bergamo (Piero Nelli),
Delle satire alla carlona libro secondo
(Veneza, 1566), f. 36 v.
A hostilidade secular
... : v. principalmente R. Bennett e J. Elton,
History of Corn Milling
,
III
:
Feudal Laws and Customs
(Londres, 1900) (reimp., Nova York), p. 107 ss., e passim; v. também os textos recolhidos por G. Fenwick Jones, “Chaucer and the Medieval Miller”, in
Modern Language Quarterly
(1955),
XVI
: 3-15.
Fui até o inferno
... : v. D’Ancona,
La poesia popolare italiana
(Livorno, 1878), p. 264.
Terreno mole
... : v. Andrea da Bergamo (Piero Nelli),
Delle satire
, op. cit., f. 35v.
Padres e frades
: v.
ASM
,
Inquisizione
, b. 5b, fasc.
Pighino Baroni
, folhas não numeradas (1
o
de fevereiro de 1571). Já no processo de 1561, uma testemunha dissera ter ouvido Pighino “dizer muitas coisas estranhas sobre a missa” no seu moinho.
As próprias condições de trabalho
... : R. Mandrou insiste neste ponto in
Hérésies et sociétés
, op. cit., pp. 279-80.
O caso de Modena
... : v. C. Violante, ibid., p. 186.
Vínculo de dependência direta
... : v. M. Bloch, “Avènement et conquête du moulin à eau”, in
Mélanges historiques
(Paris, 1963),
II
: 800-21.
60
Em 1565
: v.
ASV
at,
Concilio Tridentino
, b. 94, fasc.
Visita della diocesi di Modona
,
1565
, f. 90r (e também f. 162v, a propósito de uma visita feita quatro anos depois, e f. 260v).
Natale Cavazzoni
... : v.
ASM
,
Inquisizione
, b. 5b, fasc.
Pighino Baroni
, ff. 18v-19r.
Padre
... : ibid., f. 24r.
Repetiu a lista
... : ibid., f. 25r.
Chegando a Bolonha
... : v. A. Rotondò, “Per la storia dell’eresia a Bologna nel secolo
XVI
”, in
Rinascimento
(1962),
XIII
: 109 ss.
Numa passagem da
Apologia... : v. Renato,
Opere
, op. cit., p. 53.
In domo equitis Bolognetti
... (
na casa do cavalheiro
...): num primeiro momento, Rotondò identificou essa personagem com Francesco Bolognetti (v. “Per la storia”, op. cit., p. 109, nota 3); mas aquele tornou-se senador só muitos anos depois, em 1555 (v. G. Fantuzzi,
Notizie degli scrittori bolognesi
[Bolonha, 1782],
II
: 244). E assim, na edição das obras de Renato, Rotondò abandonou a identificação (v. índice de nomes). A hipótese de que se tratasse de Vincenzo Bolognetti é aceitável já que ele aparece, desde 1534, entre os magistrados e
gonfalonieri
[quem carregava a bandeira do município (N. T.)]: v. G. N. Pasquali Alidosi,
I signori anziani, consoli e gonfalonieri di giustizia della città di Bologna
(Bolonha, 1670), p. 79.
Inicialmente onze
... : v.
ASM
,
Inquisizione
, b. 5b, fasc.
Pighino Baroni
, ff. 12v, 30r.
Outubro de 1540
... : v. Renato,
Opere
, op. cit., p. 170.
Seu nome era Turchetto
... : ibid., p. 172. A identificação deste último com o frade Tommaso Paluio d’Apri, conhecido por Grechetto, proposta por Rotondò, não me parece muito convincente. Que se tratasse, em vez de Giorgio Filaletto, conhecido por Turca ou Turchetto, foi sugestão de Silvana Seidel Menchi, a quem agradeço de coração.
Eu acreditava
... : v.
ASM
,
Inquisizione
, b. fasc.
Pighino Baroni
, f. 33v.
A tese do sono das almas...
: v. Renato,
Opere
, op. cit., pp. 64-5, e Rotondò, “Per la storia”, op. cit., p. 129 ss.
Os anabatistas vênetos
... : v. cap. 37.
A passagem em que são Paulo
... : Os Tessalonicenses 4, 13 ss.: “Nolumus autem vos ignorate, fratres, de dormientibus, ut non contristemini sicut et celeri qui spem non habent. Si enim credimus quod Iesus mortuu est et resurrexit, ira et Deus cos qui dormierunt per Iesum adducet cum co etc.” (irmãos, não queremos que ignoreis o que se refere àqueles que jazem adormecidos, para ficardes tristes como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aqueles que adormeceram; por Jesus, Deus os levará com ele). V. Williams,
Camillo
.
Renato
, op. cit., p. 107.
Não o lera
: v.
ASM
,
Inquisizione
, b. 5b, fasc.
Pighino Baroni
, f. 2v; e também v. f. 29v. O
Fioretto
havia sido colocado no Índex: v. nota do cap. 12.
E todas as coisas
... : v.
Fioretto
, op. cit., f. A
VI
v.
Alguma coisa
... : ibid., f. B
II
r.
Que todas as almas
... : ibid., ff. Cr-v.
Não li
... : v.
ASM
,
Inquisizione
, b. 5b, fasc.
Pighino Baroni
, f. 30r.
Eu queria inferir
... : v.
ASM
,
Inquisizione
, b. 25, fasc.
Pighino Baroni
, f. 20.
Combatessem juntos
... : v.
ACAU
, proc. n. 285, folhas não numeradas (19 de julho de 1599).
Pighino afirmara
... : v.
ASM
,
Inquisizione
, b. 5b, fasc.
Pighino Baroni
, folhas não numeradas (1
o
de fevereiro de 1571) e f. 27r.
p. 189
Que se pregue
... : v. caps. 39 e 54.
61
As raízes populares
... : v. Bakhtin,
L’oeuvre de François Rabelais
, op. cit.
O período subsequente
... : para um quadro geral, v. J. Delumeau,
Le catholicisme entre Luther et Voltaire
(Paris, 1971), principalmente p. 256 ss. Interessantes perspectivas de pesquisa propõe J. Bossy, “The Counter-Reformation and the People of Catholic Europe”, in
Past and Present
(maio 1970), 47: 51-70. Uma periodização análoga foi proposta por G. Hennigsen,
The European Witch-Persecution
(Copenhague, 1973), p. 19.
A guerra dos camponeses
... : seria bem-vinda uma pesquisa sobre a repercussão, na sua totalidade, dessa guerra, incluindo os efeitos indiretos e remotos.
Mas a evangelização do campo
... : para esta comparação, v. Bossy, “The Counter-Reformation”, op. cit.
O rígido controle
... : para os vagabundos, v. bibliografia acima, penúltima nota do cap. 8 (Prefácio); para os ciganos, v. H. Asséo, “Marginalité et exclusion; le traitement administratif des Bohèmiens dans la société française du
XVII
e
siècle”, in
Problèmes socio-culturels en France au XVII
e
Siècle
(Paris, 1974), pp. 11-87.
62
5 de junho de 1599
... : v.
ACAU
, “
Epistolae Sac. Cong. S. Officii ab anno
1588
usque ad
1613
incl.
”, folhas não numeradas. Santoro esteve próximo do pontificado no conclave que acabou elegendo Clemente
VIII
. O que o prejudicou foi sua fama de severo.
Ele próprio um ateu
: portanto, não um negador da divindade de Cristo como pareceu num primeiro momento, mas algo ainda pior. Sobre a terminologia, v., em geral, H. Busson, “Les noms des incrédules au
XVI
e
siècle”, in
Bibliothèque d’Humanisme et Renaissance
(1954),
XVI
: 273-83.
Depois de pouco tempo
: em 26 de janeiro de 1600 o dote de Giovanna Scandella foi registrado diante do tabelião e o ato se realizou “domi heredum quondam ser Dominici Scandelle” (
ASP
,
Notarile
, b. 488, n. 3786, f. 27v).
Temos certeza disso
... : v.
ACAU
, “
Ab anno 1601 usque ad annum 1603 incl. a n. 449 usque ad 546 incl.
”, proc. n. 497. Deve-se corrigir Paschini,
Eresia
, op. cit., p. 82, que afirma, com base em documentos por ele levantados, que o único indivíduo justiçado pelo Santo Ofício friulano foi um marceneiro alemão, em 1568.