5.

Naquele verão em Villa Diodati, conta a Sra. Clark, eram apenas cinco pessoas:

O poeta Lord Byron.

Percy Bysshe Shelley e sua amada, Mary Godwin.

A meia-irmã de Mary, Claire Claremont, que estava grávida de Byron.

E o médico de Byron, John Polidori.

Enquanto ouvimos, estamos sentados em volta do aquecedor elétrico na sala de charutos do balcão do andar de cima. A sala de charutos em estilo gótico. Cada um de nós se acomodou numa bergère de couro amarelo, ou num sofá com estofado em ponto cruz, ou numa namoradeira atapetada que arrastamos de algum lugar, as pernas esculpidas deixando trilhas eriçadas nos tapetes sujos, poeirentos.

Todos nós aqui, exceto Lady Mendiga, que foi para a cama mais cedo. E Miss América, que foi arrombar fechaduras.

O aquecedor elétrico é só uma luz que gira sob um leito de pedaços de vidro vermelhos e amarelos colados. Luz sem calor. Todas as nossas árvores de cristal pendentes estão desligadas, e a luz vermelha e amarela dançando na nossa cara, formas de luz vermelha e amarela passando pelos lambris da parede e onde o assoalho de pedras lisas se encaixa.

Só essas cinco pessoas, diz a Sra. Clark, entediadas e trancadas na casa por causa da chuva. Shelley e companhia. Eles se revezavam lendo um para o outro uma coleção de histórias de fantasma alemã chamada Fantasmagoriana.

– Lord Byron – diz Sra. Clark – não suportava aquele livro.

Byron disse que havia mais talento naquela sala que no livro que liam. Ele disse que todos ali podiam escrever uma história de terror melhor. E deveriam, cada um a sua, escrever uma história.

Isso foi quase um século antes de Drácula, de Bram Stoker, mas daquele verão saiu O vampiro, do Dr. John Polidori, e a figura moderna do demônio que chupa sangue.

Numa dessas noites chuvosas, de trovões e relâmpagos sobre o lago Léman, Mary Godwin, aos 18 anos, teve o sonho que se tornaria a lenda de Frankenstein. Os dois monstros serviriam de base para incontáveis livros e filmes que se seguiram.

Até mesmo a própria festa tinha se tornado uma lenda. Às margens do lago Léman, os hotéis colocaram telescópios nas janelas com vista para o lago, de forma que os hóspedes pudessem assistir ao que todos dizem ter sido uma orgia incestuosa. Turistas da classe média, entediados durante as férias de verão, deixaram seus maiores medos sob o teto de Lord Byron. Eram só alguns jovens tentando viver longe das milhões de regras da nossa cultura, enquanto gente os espionava por telescópios, na expectativa de ver monstros.

Ali, éramos o equivalente moderno do povo de Villa Diodati.

Éramos a versão moderna da Mesa Redonda do hotel Algonquin.

Apenas pessoas contando histórias umas para as outras.

Gente procurando uma ideia que pudesse ecoar para sempre. Ecoar em livros, filmes, peças de teatro, músicas, TV, camisetas, dinheiro.

Eram estes mesmos rostos – três vezes mais, uma multidão – quando nos conhecemos pessoalmente nos fundos de um café. Nós: os rostos que entraram na lista final. Mesmo então, Condessa da Antevidência já usava um turbante, sua marca registrada. Duque dos Vândalos, seu rabo de cavalo loiro. Elo Perdido, seu nariz protuberante e a selva escura que é sua barba.

Do mesmo jeito que hoje fofocam sobre Villa Diodati, com o tempo as pessoas começarão a falar daquele café. Gente que nunca viu o anúncio vai jurar que esteve lá. Eles eram espertos e não aceitaram ir para o retiro. Caso contrário, talvez estivessem mortos. Ou ricos. Com o tempo, aquele café, com prateleiras de jornal gratuito e um quadro de avisos cheio de cartões de visita que ofereciam hidrocolonterapia e orientação holística para animais de estimação, aquele café teria que ser do tamanho de um estádio para abrigar todo mundo que vai dizer que esteve lá naquela noite.

Aquela noite se tornará uma lenda.

A Mitologia de Nós.

O povinho da fumaça, os poetas, donas de casa e nós, lá com nossos copinhos de café, nós ouvimos a Sra. Clark falar. Seus seios pulando e aquele biquinho de silicone que provocava risos. Quando perguntaram se havia um número de telefone para alguém do mundo exterior poder entrar em contato com quem estivesse no retiro, a Sra. Clark respondeu: Claro. Ela respondeu:

– É 0800-NÃO-FODE.

Naquele instante, alguns deram pra trás.

Ou seja: zero. Zero contato com o mundo exterior. Zero televisão, zero rádio, zero telefone, zero internet. Só você e o que levar na mala. Uma única mala.

Ou seja: mais gente deu pra trás.

Os que deram pra trás: os sobreviventes do primeiro round. Os espertos, que puderam contar a própria história. A câmera por trás da câmera por trás da câmera, diria o Sr. Whittier. Eles vão ter a verdade definitiva… mas só daquela noite.

Aqueles pobres idiotas passados pra trás.

Todos nós vimos o anúncio, mas cada um a seu modo. Em vários quadros de avisos pela cidade, dizia:

RETIRO DE ESCRITORES:
ABANDONE SUA VIDA DURANTE TRÊS MESES.

Simplesmente suma. Deixe para trás tudo que impede você de criar sua obra-prima. Seu emprego, sua família e seu lar, todas as obrigações e distrações, deixe tudo em espera por três meses. Viva com gente que pensa como você, num ambiente que dá apoio à imersão total em seu trabalho. Comida e abrigo de graça para aqueles que se qualificarem. Aposte uma fração mínima da sua vida na chance de criar um novo futuro como poeta, romancista ou roteirista profissional. Antes que seja tarde demais, viva a vida com a qual sempre sonhou. Vagas extremamente limitadas.

O anúncio era impresso num cartão pautado. Uma folhinha de receita. Encaixado numa linha tracejada, como um cupom que você recortou. E na parte inferior havia um número. Era o telefone da Sra. Clark, colado ao quadro de avisos de cortiça no saguão da biblioteca. Perto do banheiro nos fundos do supermercado. Na lavanderia. Aquele anúncio no cartão pautado: numa semana estava em toda parte. Na semana seguinte, sumira de todo lugar.

Todos os cartões haviam desaparecido.

Quem viu, ligou para o telefone e ouviu uma gravação da Sra. Clark informando qual era o café, o horário e a data em que deveriam se encontrar.

Em nossa mente, ali, à luz da falsa lareira vermelha e amarela, já conseguíamos imaginar o futuro: a cena em que contávamos aos outros como havíamos enfrentado esta pequena aventura, que um cara louco havia nos trancado num teatro antigo durante três meses. Já estávamos piorando tudo. Exagerando. Diríamos que o lugar era congelante. Que não tinha água corrente. Que era preciso racionar comida.

Nada disso era verdade, mas a história fica melhor assim. Não, íamos distorcer a verdade. Expandir. Esticar. Para dar mais efeito.

Criaríamos nossa orgia incestuosa de pessoas e animais, para o mundo inteiro fofocar sobre isso.

O pequeno camarim dos bastidores que cada um ganhou, quando falássemos, ia se encher de aranhas venenosas. Ratos famintos. Não só o pelo do gato da Diretora Negação por toda parte.

Um fantasma. Iríamos inserir um fantasma no teatro decrépito para construir a história, dar espaço para efeitos especiais. Ah, nós mesmos íamos assombrar o lugar, enchê-lo de almas penadas.

Havíamos transformado nossa vida numa aventura horripilante. Uma história de terror real com final feliz. Uma provação da qual sairíamos vivos para contar.

Com exceção de Lady Mendiga, com seu marido morto na mão. De Miss América, com seu feto, que ia crescendo como uma bola de neve, célula a célula, em seu ventre. E de Miss Espirro, com sua alergia a mofo. O restante de nós queria mais. Mais dor e sofrimento para angariar depois, em talk shows em rede nacional. Os programas de TV sobre os quais Miss América falava. Mesmo que uma boa história nunca brotasse, mesmo que nunca escrevêssemos nossa obra-prima, esses três meses juntos, trancafiados, seriam o suficiente para um livro de memórias. Um filme. Um futuro sem um emprego formal. Só ser famoso.

Uma história que valia a pena vender.

Por enquanto, sentados em volta da lareira de vidro, estamos afinando os detalhes que precisamos lembrar para criar esta cena em rede nacional. Para podermos dar consultoria “no set” e deixar o filme “autêntico”. A história de como fomos sequestrados e mantidos reféns, de como Miss Espirro ficava mais doente e o bebê dentro de Miss América crescia a cada dia.

Ninguém vai dizer, mas a morte de Miss Espirro proporcionaria um clímax de terceiro ato perfeito. Nosso momento mais macabro.

O final perfeito seria do senhorio entrando lá quando o aluguel vencesse, bem a tempo de resgatar a frágil Miss América. Lady Mendiga demente. Alguns de nós sairíamos mancando, com os olhos semicerrados, chorando ao ver o sol. O restante seria colocado em macas e ganharia um passeio de ambulância com sirene até o hospital. O filme podia se adiantar um pouco para nos mostrar lado a lado enquanto Miss América dava à luz. Depois, mais um salto, para nos mostrar no funeral de Miss Espirro. O fantasma da pobre Miss Espirro, sacrificado para dar graça ao enredo.

Teríamos a câmera de Agente Fuxico para dar apoio de vídeo. Os audiocassetes de Conde Calúnia para o voice-over.

Então, para finalizar, Miss América daria o nome de Miss Espirro para o bebê, seja lá qual for o verdadeiro nome dela. Fechando o círculo. A vida seguindo em frente, renovada. Pobre e frágil Miss Espirro.

Na história do filme-livro-camiseta, todo mundo amaria Miss Espirro… toda a sua coragem… seu humor contagiante.

Suspiro.

Não, a não ser que um de nós consiga arrancar um Frankenstein ou Drácula de última geração, nossa história terá que ficar bem mais dramática antes que valha a pena vender. Precisamos que tudo fique muito, muito pior antes que termine.

Dane-se a ideia de criar uma história original. Não há por que escrever uma falsa ficção. Exige empenho demais, e a recompensa não vale a pena.

Ainda mais dividido entre dezessete. Os royalties. Em dezesseis, subtraindo a condenada Miss Espirro.

Todos nós, em silêncio, dando a ordem para ela: Tussa.

Anda, morre logo.

Não, quando os outros se mandaram daquele encontro no café, nós éramos os espertos. Sim, parecia um investimento doido que só podia acabar mal, mas, oras – parecia um investimento doido que só podia render muita grana.

Todos nós ali sentados, em silêncio, dando a ordem para Miss Espirro: Tussa.

Todos nós, torcendo para ela nos ajudar a conquistar fama.

Por isso Reverendo Ímpio cortou a fiação de todos os alarmes de incêndio. Bem na hora em que entramos. Pelo menos foi o que ele contou a Casamenteiro. Ímpio aprendeu essas coisas de fiação quando era milico, e Elo Perdido ajudou segurando a lanterna. Por desencargo de consciência, conferiram as linhas telefônicas. As que eles encontraram funcionando, Elo Perdido e seus músculos peludos arrancaram da parede.

Por isso Condessa da Antevidência enfiou os dentes dos garfos de plástico em cada fechadura e quebrou. Para não ter como ninguém usar uma chave. Para o caso de seu oficial de condicional conseguir rastreá-la pelo bracelete. Não, ninguém ali queria ser salvo… ainda não.

Era só todo mundo apostando no confiável. Cenas que não entrarão no filme. Vai parecer obra do Sr. Whittier. Do sádico, maligno e velho Sr. Whittier.

Nossa equipe contra a da Sra. Clark e do Sr. Whittier já começa a se formar.

Miss América e Miss Espirro já são pontos de virada na trama. Nossos sacrifícios. Condenadas.

Nas formas vermelhas e amarelas da lareira elétrica, nos lambris de madeira esculpida da sala de charutos em estilo gótico, enfiados na almofada de sua bergère de couro, o queixo da Sra. Clark cai cada vez mais, quase tocando o decote. Ela pergunta: Irmã Justiceira encontrou a bola de boliche?

E Irmã balança a cabeça: Não. Ela toca no mostrador do relógio de pulso e diz:

– O crepúsculo oficial acontece daqui a quarenta e cinco… quarenta e quatro minutos.

Miss Espirro tosse – uma tosse comprida, retumbante, de cascalho molhado –, e fazemos esforço para não comemorar. Ela procura um comprimido no bolso, uma cápsula, mas sua mão volta vazia.

Irmã Justiceira pede licença e começa a descer a escada rumo ao saguão, em direção à cama, sumindo a cada passo, ficando menor, até o alto de seu cabelo tingido de preto sumir.

Nossa Miss América está em outro lugar, ajoelhada diante de uma maçaneta, tentando arrombar a fechadura. Ou acionando um alarme de incêndio que sabemos que não vai funcionar.

Graças a Reverendo Ímpio.

A luz vermelha brilha no gravador de Conde Calúnia. Agente Fuxico passa a câmera de vídeo de um olho para o outro.

E, do pé da escada, vem um grito. Um uivo demorado de mulher. A voz de Irmã Justiceira, nos dizendo para ir depressa. Ela tropeçou em alguma coisa.

Lady Mendiga. Uma mancha nova. Uma faca envolta nos dedos. À sua volta, um lago escuro de seu sangue se espalhando no tapete azul do saguão.

Uma trança preta e comprida parece descer pela lateral de seu rosto e sumir na gola do casaco de pele. Mas, no último degrau, quando ela está em tamanho real, descobrimos que a trança preta é sangue. Por baixo do cabelo esculpido naquele lado do rosto, sua orelha sumiu. Lá, espalhada, ela estende uma mão vermelha e rosa, um brinco de pérola brilhante no meio da ostra-confusão, refletindo a lareira falsa. Na palma da mão, fechada perto da orelha rosada, o diamante do marido falecido.

Enquanto todos nós olhamos para ela no pé da escada, Lady Mendiga sorri. Sua cabeça vira para o lado, para nos olhar, e ela diz:

– Estou sangrando… estou sangrando tanto…

Além do rosto e das mãos pálidas, um rastro de sangue parece escorrer para sempre. Seus dedos relaxam, a faca escorrega para o tapete, e ela diz:

– Agora, Sr. Whittier, você vai ter que me deixar ir para casa…

Cutucando Conde Calúnia, Camarada Escárnia diz:

– O que foi que eu disse? Olhe. – Ela indica com o queixo o alto da trança ensanguentada e diz: – Agora dá pra ver a cicatriz do facelift.

E Lady Mendiga está morta. É Irmã Justiceira quem diz, com um dedo no pescoço dela. O sangue manchando o dedo de Irmã.

A essa altura, nosso futuro está definido. Pronto. Esta será nossa poupança, contar para os outros como testemunhamos um ser humano inocente ser levado ao suicídio, somando-se a história de Lady Mendiga favelando. A tragédia de seu marido. O sequestro da herdeira do petróleo brasileiro. Dane-se a ideia de inventar monstros. Aqui era só questão de olhar em volta. Prestar atenção.

No visor da câmera, Agente Fuxico volta a fita e assiste Lady Mendiga contar sua história no palco. Contar e recontar.

Nosso fantoche. O ponto alto da trama.

Conde Calúnia rebobina o gravador e ouvimos e reouvimos o grito de Irmã Justiceira.

Nosso papagaio.

E à luz vermelha e amarela da lareira de vidro, o Sr. Whittier diz:

– Então já começou…

– Sr. Whittier? – chama a Sra. Clark.

Sr. Whittier, nosso vilão, nosso mestre, nosso diabo, quem amamos e idolatramos por nos torturar, suspira. Observando o corpo de Lady Mendiga, uma de suas mãos trêmulas, remexidas, vibrantes, ergue-se para tapar a boca, e ele boceja.

Observando o defunto, Diretora Negação acaricia o gato em seus braços, o pelo laranja-malhado caindo e cobrindo tudo.

Baronesa Congelada e Condessa da Antevidência se ajoelham ao lado do corpo. Sem chorar, mas com os olhos tão arregalados que dá para ver o branco em torno da íris, como ficariam os olhos diante de um bilhete premiado de loteria.

Observando o corpo, São Sem-Pança dá colheradas no espaguete frio de um saquinho laminado. Pelo de gato a cada mordida avermelhada, pingando.

Somos nós contra nós contra nós nos próximos três meses.

Do alto da escada, sentado na cadeira de rodas, o Sr. Whittier assiste. Ao lado dele, Conde Calúnia mexe na caneta e no bloquinho, ainda tomando nota.

Apontando o dedo trêmulo, o Sr. Whittier diz:

– Você: você está anotando tudo?

Sem desviar os olhos de sua versão da verdade, Conde assente: sim.

– Então… nos conte uma história – pede o Sr. Whittier. – Volte para a lareira – diz ele, girando a mão tremulante. – Por favor.

E Conde Calúnia sorri. Passa para a próxima página vazia em seu bloquinho e tampa a caneta. Erguendo o olhar, diz:

– Alguém aqui se lembra daquele programa de TV das antigas, Meu Vizinho Danny?

Com a voz arrastada e retumbante, ele diz:

– Um dia… – Ele diz: – Um dia, minha cachorra comeu lixo embrulhado em papel-alumínio…