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Yvonne almoçara com as amigas Dana Terrace e Valerie Conrad no pequeno restaurante decorado como uma sala de chá egípcia. Todas tinham decidido em consenso que os respetivos maridos podiam fazer os seus próprios planos. Isso porque elas queriam fofocar e o que tinham a dizer era aborrecido para os homens.
— O Hal está no campo de squash — anunciou Dana.
— Também o Clyde — disse Valerie, com indiferença.
Yvonne não disse nada. Não tinha a menor dúvida de que Roger estava no casino. Ela admirava secretamente Dana e Valerie. Ambas as mulheres tinham origens que ela desejava ter. Dana era descendente direta dos Peregrinos do Mayflower. E o pai de Dana não só era de origens nobres como também era um investidor de sucesso.
Desde a infância que ela tinha apenas um objetivo em mente: casar bem, não apenas pelo dinheiro, mas também pelo estatuto social.
Os pais de Yvonne, ambos professores de liceu, tinham dado graças por se mudarem para a Florida depois de ela ter acabado o curso numa pequena faculdade pública. Quando se referia a eles, promovia-os a professores universitários a tempo inteiro. Dando uso ao seu excelente domínio da língua francesa, passara um semestre do seu primeiro ano de faculdade na Sorbonne e agora dizia que fora lá que tirara a licenciatura.
Dana e Valerie tinham andado na elitista Deerfield Academy e haviam feito a faculdade juntas em Vassar. Tal como Yvonne, tinham quarenta e poucos anos e eram ambas muito atraentes. A diferença era que as duas amigas provinham de um ambiente diferenciado, ao passo que ela tivera de planear a sua ascensão.
Yvonne conhecera Roger Pearson quando tinha vinte e seis anos e ele, trinta e dois. E ele encaixara no perfil. Era suficientemente atraente, pelo menos quando ela o tinha conhecido. À semelhança do seu pai e avô, formara-se em Harvard, e era também membro dos clubes mais exclusivos da universidade. Como eles, também era técnico oficial de contas. Mas, ao contrário dos seus antecessores, não viria a revelar ser muito ambicioso. Gostava de beber e era um jogador compulsivo. Escondia cuidadosamente esses dois lados de si. O que não conseguia esconder era a barriga que se tinha desenvolvido ao longo dos quase vinte anos de casamento.
Não demorara muito até Yvonne ver o verdadeiro Roger e perceber que ele era preguiçoso. Cinco anos antes, depois da morte do pai, ele tinha-se tornado presidente da empresa de gestão de património da família e convencera muitos dos seus clientes, o mais importante dos quais era Lady Emily, a ficarem com ele. Ela nomeou-o o novo executor do seu património.
Na presença de Lady Em, Roger era um homem diferente e falava com conhecimento de causa sobre finanças globais, política e arte.
Juntos, ele e Yvonne davam a imagem de um casal feliz e frequentavam os eventos sociais e as galas de beneficência que ambos adoravam. Entretanto, Yvonne andava à cata de um homem de sucesso recém-divorciado ou, melhor ainda, viúvo, mas nenhum dos dois lhe aparecera no horizonte. As suas duas melhores amigas, Valerie e Dana, tinham ambas casado pela segunda vez com homens divorciados. Ela ansiava por juntar-se a elas.
Agora, enquanto bebiam Prosecco e comiam saladas, debatiam as comodidades do navio e as pessoas que nele viajavam. Valerie e Dana conheciam Lady Haywood e, tal como toda a gente, admiravam-na imenso. O facto de Yvonne a achar entediante era fascinante para ambas.
— Eu já ouvi todas as histórias dela acerca do seu falecido grande Richard duas vezes, ou antes, já as ouvi vinte vezes, vocês não imaginam — confidenciou Yvonne, enquanto retirava um tomate da sua salada. Porque não me lembro de dizer aos empregados de mesa que não gosto de tomate?, pensou.
Valerie tinha uma cópia do programa diário de atividades.
— Podemos ir ouvir um antigo diplomata que irá dissecar a história das relações perturbadas entre o Ocidente e o Médio Oriente.
— Não me ocorre nada mais aborrecido — comentou Dana, bebendo um grande gole de vinho.
— Muito bem, saltamos esse — concordou Valerie. — E que tal este? Um master chef vai demonstrar a sua técnica rápida e fácil para dar um toque gourmet mesmo à refeição mais simples.
— Esse é capaz de ser interessante — sugeriu Yvonne.
— Eu e Valerie temos chefs residentes — explicou Dana. — Deixamos os cozinhados para eles.
Yvonne tentou mais uma vez.
— Está aqui um que é capaz de ser divertido: «O Livro Clássico de Etiqueta de Emily Post: os comportamentos do século dezanove e início do século vinte.» Porque não vamos ouvir? Adorava saber como se faziam as coisas naquela época.
Valerie sorriu.
— A minha avó contou-me que a minha bisavó vivia de acordo com as regras sociais dessa época. A primeira casa quando se casou foi uma casa de pedra na Quinta Avenida. Nessa época, as pessoas deixavam cartões de visita ao mordomo. Pelo que sei, quando o meu bisavô morreu forraram a casa com tecido de luto. O mordomo respondia à campainha com o seu traje de dia e a criada de fora ao seu lado, até um lacaio tratar das fardas pretas para o pessoal.
— O meu avô foi um dos primeiros colecionadores de arte moderna — anunciou Dana. — A Emily Post referia-se a esse tipo de objetos como «as coisas pavorosas que estão em voga atualmente, com cores espampanantes, figuras e padrões triangulares grotescos e que, além da novidade, são apenas de mau gosto». A minha avó tentou convencê-lo a deitar as peças fora. Graças a Deus que ele não o fez. Hoje em dia valem milhões.
Yvonne acrescentou:
— Bom, se quisermos reciclar as nossas boas maneiras, vamos começar por essa palestra. Talvez haja uma secção acerca da forma adequada de sair de um casamento e entrar noutro.
Todas se riram. Valerie fez sinal ao empregado de mesa e apontou para os seus copos quase vazios. Os mesmos foram rapidamente reabastecidos.
— Muito bem — disse Dana. — Que mais há hoje?
— Há a palestra sobre Shakespeare — disse Yvonne.
— Eu vi que o professor Longworth estava a jantar com vocês — disse Valerie. — Como é ele?
— Não é muito divertido — respondeu Yvonne. — Tem o hábito de erguer o sobrolho. Acho que deve ser por isso que tem a testa tão enrugada.
— E a Celia Kilbride? — perguntou Dana. — É ela que está a ser acusada de fazer parte daquele esquema do fundo de risco. Surpreende-me que a tenham convidado para este navio. Quer dizer, a julgar pela maneira como o comandante se gabou de que aqui era tudo do bom e do melhor. Porque haviam de convidar uma vigarista a estar presente?
— Eu li que ela alega ser também uma vítima — disse Yvonne. — E sei que é considerada uma gemóloga muito conhecedora.
— Eu devia ter-lhe pedido para ver o anel de noivado que o Herb me deu — disse Valerie a rir. — Era da avó dele. Se semicerrarmos os olhos, conseguimos vislumbrar o diamante. Quando nos divorciámos, devolvi-lho. Disse-lhe: «Não quero privar alguma sortuda de se adornar com isto.»
Enquanto se riam, Yvonne pensou que as amigas tinham ambas casado com homens de classe da primeira vez e com homens endinheirados da segunda vez. Tenho de manter os olhos bem abertos. Ou, melhor ainda…
Depois de todas terem tomado longos goles dos seus copos, Yvonne disse:
— Tenho uma missão para vocês as duas.
As outras mulheres olharam-na, expectantes.
— Ambas deixaram os vossos primeiros maridos — disse ela. — Já tinham outro na calha?
— Eu tinha — confirmou Valerie.
— E eu também — concordou Dana.
— Bom, para ser franca, o que quer que tenha existido entre mim e o Roger já acabou há muito. Por isso, mantenham os olhos abertos.
— Agora, voltemos às palestras. Afinal qual é o nosso programa? — perguntou Valerie.
Dana respondeu:
— Eu estou com vontade de ser entretida. Vamos às três: a da Emily Post, a do Shakespeare e a da Celia Kilbride.
— Ao entretenimento — exclamou Valerie, enquanto as três batiam com os copos uns nos outros.