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Após a cerimónia com Devon Michaelson, Celia acedeu, sem grande entusiasmo, a acompanhar Alvirah e Willy num almoço na sala de buffet.
— Li que se pode experimentar de tudo, desde sushi a comida chinesa ou da Europa Central — disse-lhe Alvirah.
Ficaram de se encontrar à uma da tarde no restaurante e antes disso ela deu um grande passeio pelo convés de recreio.
Quando regressou ao seu camarote, tomou um duche, vestiu umas calças azuis e um top azul e branco, pediu o pequeno-almoço e reviu os apontamentos para as suas palestras. Hoje ia falar de outras joias lendárias ao longo dos tempos e das histórias de peças soltas que haviam sido oferecidas por amor, reconciliação ou suborno.
Uma dessas histórias era a da elegante esposa de William Randolph Hearst, que descobriu que o marido tinha construído o castelo de San Simeon para a amante, a atriz Marion Davies. Celia falou do que lhe iria na cabeça.
— Diz-se que a senhora Hearst terá dito a uma amiga: «Quando ele começou o seu negócio dos jornais, eu estava lá e dei-lhe cinco filhos.» Depois disso, foi à Tiffany, encomendou um longo colar de pérolas magnífico e disse à vendedora para enviar a conta ao marido. Reza a história que, quando ele a recebeu, nunca falou disso à mulher. Até que uma herdeira dos Hearst e o seu marido foram convidados para um jantar de gala a bordo do Britannia, quando a rainha Isabel II viajou nele até Los Angeles. A senhora Hearst estava a usar as esmeraldas da sua família. Quando embarcou no Britannia, também a rainha estava a usar as suas magníficas esmeraldas. A senhora Hearst terá confidenciado a uma amiga: «Comparadas com as dela, as minhas pareciam ter saído numa embalagem de cereais.»
A última história pessoal era acerca do rei da Arábia Saudita, que fora acompanhado pela filha a um jantar na Casa Branca. A princesa, de vinte e dois anos, fez o presidente esperar vinte minutos, uma quebra imperdoável de etiqueta. Mas esse facto foi esquecido pela comunicação social, que se concentrou no colar de três voltas que a princesa usava e que misturava de uma maneira deslumbrante pedras preciosas de valor inestimável, como diamantes, rubis, esmeraldas e safiras.
Gostar de intrigas é humano, pensou Celia, e contar algumas histórias numa palestra nunca falhava em despertar interesse.
Satisfeita por estar preparada para a sua apresentação, Celia olhou para o relógio. Faltava um quarto para a uma e estava na hora de se juntar a Alvirah e Willy na sala de buffet para o almoço. Não é propriamente self-service, pensou ela, recordando outros navios de luxo em que tinha viajado e que possuíam o mesmo tipo de serviço. Quando um passageiro terminava a sua seleção, havia sempre um empregado de mesa que levava o tabuleiro até uma mesa e servia-lhe a bebida que a pessoa escolhesse.
Olhou novamente para o relógio e decidiu que tinha tempo para telefonar ao seu advogado. Queria tentar perceber se as pessoas teriam uma imagem diferente dela depois de o artigo da revista People ter sido publicado. Randolph Knowles não se encontrava no seu gabinete. A secretária garantiu-lhe que ele lhe devolveria a chamada. Celia não conseguiu evitar perguntar:
— Há notícias do procurador-geral?
— Não, nada. Oh, espere um momento. O doutor Knowles acaba de chegar. — Celia ouviu-a dizer: — A menina Kilbride está ao telefone.
Mal Randolph lhe disse «Olá, Celia», ela soube que não ia ouvir boas notícias. Saltou a formalidade de o cumprimentar e perguntou:
— O que se passa, Randolph?
— Celia, não se passa nada de bom — disse-lhe Randolph. — O seu ex-noivo é um mentiroso de tal maneira convincente que o procurador-geral acaba de me telefonar para me dizer que é possível que ele peça ao FBI para a interrogar novamente.
Celia pensou, meio atordoada: no dia em que atracarmos em Southampton, apanho um voo de regresso a casa, desde Londres. Faltam apenas alguns dias. Lembrou-se dos rostos impenetráveis dos agentes do FBI que a tinham interrogado.
Randolph continuava a falar.
— Celia, eles já a sujeitaram a um intenso interrogatório e acreditaram em si. Isto é apenas mais um obstáculo.
Mas era evidente no tom de voz dele que não estava convicto daquilo que estava a dizer.
— Espero que seja — declarou Celia e pressionou o botão vermelho do telemóvel.
Se ao menos não tivesse prometido aos Meehan que lhes fazia companhia, pensou Celia, perturbada. Mas tinha-o feito e dali a alguns minutos um empregado de mesa estava a segurar-lhe uma cadeira junto à mesa deles.
O casal sorriu-lhe e Alvirah cumprimentou-a calorosamente.
— Celia, como já lhe disse antes, ficamos muito felizes por termos a oportunidade de conversar consigo. O Willy disse-me que ao princípio se tinha arrependido de ter entrado na Carruthers para saber os preços de alguns dos anéis que viu em exposição, mas depois a Celia apareceu-o e fez com que ele se sentisse muito confortável.
O que ela não lhe disse foi que estava desejosa por falar com ela sobre o aldrabão do seu ex-namorado. Tinha a certeza de que quando o julgamento se aproximasse ela iria pedir-lhe que falasse disso para a sua coluna no Globe.
É claro que ela não ia lançar-se naquele assunto para já.
— E se escolhêssemos o que queremos comer? — sugeriu ela. — E depois podemos conversar.
Mas, alguns minutos mais tarde, enquanto Willy se deliciava com um prato de sushi e ela ia a meio de uma tigela de linguíni com molho de amêijoa, Alvirah deu-se conta de que Celia apenas tinha comido algumas garfadas da sua salada de frango.
— Celia, se não está a gostar da salada, pode pedir outra coisa — comentou Alvirah.
Celia sentiu subitamente um nó na garganta e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Procurou rapidamente os óculos escuros na mala. Mas Alvirah reparou.
— Celia — disse-lhe, numa voz cheia de preocupação —, nós sabemos a tensão a que anda sujeita.
— Acho que toda a gente sabe. E quem não sabia antes, vai descobrir hoje.
— Celia, infelizmente aquilo que o seu noivo fez é muito comum, mas toda a gente lamenta que tenha sido apanhada no meio desta confusão.
— Toda a gente com exceção dos meus amigos mais chegados, que perderam dinheiro que não podiam dar-se ao luxo de perder e que me culpam por tê-los apresentado ao Steven.
— Você também perdeu dinheiro — disse Willy.
— Duzentos e cinquenta mil dólares! Por outras palavras, tudo o que tinha! — exclamou Celia.
Sem ter essa intenção, apercebeu-se de que era de alguma maneira reconfortante abrir-se diante de pessoas que eram praticamente estranhos. Mas de seguida lembrou-se de que Willy lhe tinha falado muito deles os dois enquanto ela estava a ajudá-lo a escolher o anel. Contara-lhe que Alvirah formara um grupo de aconselhamento para pessoas que tinham ganho a lotaria, para que não fossem enganadas por vigaristas. Sabia que tinha gostado imediatamente de Willy e que gostara de Alvirah assim que ele lha descrevera.
E era um alívio poder partilhar a sua ansiedade com pessoas que olhavam para ela com expressões gentis e compassivas.
As palavras saíam sem que ela pretendesse.
— O Steven deu uma entrevista à revista People, em que disse que eu fazia parte do esquema dele para constituir o seu fundo de risco, apresentando-o a amigos meus. Vai sair para a comunicação social toda hoje. Agora, por causa desse artigo, parece que o FBI vai interrogar-me outra vez quando eu regressar a Nova Iorque.
— Você disse a verdade — afirmou Alvirah. As suas palavras eram de incentivo.
— Claro que disse.
— E esse Steven não-sei-quantos mentiu-lhe, a si e a todas as outras pessoas.
— Sim.
— Então, porque não havia de mentir também à revista People?
Celia sentiu que a confiança de Alvirah começava a aliviar-lhe alguma da preocupação esmagadora que sentia sobre os ombros. Não completamente. Não iria abordar agora o facto de o seu emprego na Carruthers estar em perigo. Ela sabia que o presidente da empresa não estava satisfeito por um dos seus funcionários ser relacionado com um esquema. Agora, quanto mais pensava nisso, mais estava convencida de que quando regressasse a Nova Iorque seria no mínimo colocada numa situação de licença sem vencimento. Não consigo pagar a renda, seguros e contas da casa por mais de três meses, já para não falar das despesas com advogados, pensou ela. E depois disto? Alguma firma de joalharia iria querer contratar-me?
Tudo isto lhe passou pela cabeça num instante, mas a seguir afastou as lágrimas que não tinham chegado a cair e forçou um sorriso.
— Sinto que me estive a confessar.
— Meta uma coisa na cabeça, Celia — disse Alvirah, numa voz que era agora firme. — Não tem necessidade absolutamente nenhuma de qualquer forma de absolvição. Agora, como a sua salada. As coisas vão correr bem. Eu sinto-o no meu íntimo.