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Lady Em tinha pedido que lhe servissem o pequeno-almoço às oito horas. Raymond bateu à porta, a seguir abriu-a e empurrou o carrinho com a refeição para o interior. A porta do quarto estava entreaberta e ele viu que Lady Em se encontrava na cama, a dormir. Sem saber bem o que devia fazer, decidiu ir ao posto e telefonar para ela, para a avisar de que o seu pequeno-almoço já tinha sido servido.

Como ela não atendeu após sete toques, começou a formar-se uma desconfiança na sua mente. Lady Em era idosa. Ele tinha visto a panóplia de medicamentos no armário da casa de banho quando limpara a suíte. Pessoas de idade avançada que morriam em navios era uma ocorrência frequente.

Antes de chamar o médico, voltou à suíte. Bateu à porta parcialmente aberta do quarto e chamou pelo nome dela. Como não obteve resposta, hesitou e a seguir entrou no quarto. Tocou-lhe na mão. Tal como suspeitara, estava fria. Lady Emily Haywood estava morta. Enervado, pegou no telefone que se encontrava na mesa de cabeceira.

Viu que o cofre estava aberto e havia joias espalhadas no chão. Mas é melhor deixá-las ali, pensou. Não preciso que me acusem de roubo. Depois de ter tomado aquela decisão, telefonou para o médico do navio.

O doutor Edwin Blake, de sessenta e oito anos, com cabelo grisalho prateado, tinha-se reformado da sua bem-sucedida carreira como cirurgião vascular há três anos. Era viúvo há vários anos, os filhos já eram adultos e um amigo que trabalhava na Castle Line tinha-lhe sugerido que talvez ele gostasse de viajar como chefe do gabinete médico de um navio de cruzeiro. Na verdade, ele adorara aquela oportunidade e ficara muito satisfeito quando o tinham convidado para se mudar para o Queen Charlotte.

Quando recebeu a chamada de Raymond, dirigiu-se apressadamente para a suíte de Lady Em. Com uma simples olhadela, pôde confirmar que estava morta. Mas ficou preocupado quando viu que um dos braços da senhora estava pendurado na beira da cama e o outro estava estendido por cima da sua cabeça. Debruçou-se sobre ela e examinou-lhe o rosto, tendo verificado que havia sangue seco no canto da boca.

Desconfiado, olhou à volta e reparou que a outra almofada se encontrava por cima da colcha, numa posição errática. Pegou nela e virou-a, detetando a mancha de sangue denunciadora. Sem querer que Raymond desconfiasse sequer dos seus pensamentos, hesitou e afirmou de seguida:

— Receio que esta pobre senhora tenha sofrido uns derradeiros minutos de dor intensa quando o ataque cardíaco lhe ceifou a vida.

Pegou no braço de Raymond e acompanhou-o até ao exterior do quarto, fechando depois a porta atrás de si.

— Eu vou informar o comandante Fairfax do falecimento de Lady Haywood — declarou. — Por favor, não deve comentar uma palavra acerca disto com ninguém.

A autoridade na voz dele acabou com a intenção de Raymond de contar a todos os amigos que tinha entre o pessoal o que acontecera.

— Certamente, doutor — respondeu. — Mas é um acontecimento triste, não é? Lady Haywood era uma senhora muito graciosa. E só de pensar que ainda ontem o senhor Pearson sofreu aquele acidente terrível.

Isto não foi um acidente, pensou o doutor Blake, taciturno, ao mesmo tempo que se afastava do local para ir avisar o comandante. A seguir deteve-se.

— Raymond, preciso que fique a guardar a porta do lado de fora. Ninguém pode entrar na suíte antes de eu voltar. Está entendido?

— Certamente. A assistente de Lady Haywood tem uma chave. Seria terrível se ela entrasse e fosse informada do sucedido, não é verdade?

Ou que tentasse destruir provas, no caso de ser a responsável pelo homicídio, pensou Edward Blake.