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Gregory Morrison era um bilionário exibicionista cujo sonho era possuir uma linha de cruzeiros.
Fora inteligente ao não seguir os conselhos do pai, operador de barcos rebocadores, para não ir para a universidade e começar a rebocar barcos para o oceano assim que terminasse o liceu. Em vez disso, licenciou-se com honras e prosseguiu para o MBA. Trabalhou depois em Silicon Valley, como analista, e distinguia com argúcia as empresas start-up que ofereciam as tecnologias mais promissoras. Quinze anos depois de ter formado o seu próprio fundo de investimento, vendeu-o e tornou-se milionário.
Morrison voltara-se imediatamente para o seu antigo objetivo de vida, ser proprietário de navios de passageiros. Comprou o primeiro num leilão, a seguir remodelou-o e marcou a sua primeira viagem de cruzeiro. Trabalhou com uma reputada empresa de relações públicas e seduziu celebridades de várias profissões para integrarem a viagem inaugural. Em troca de uma viagem gratuita, fê-los prometer que iriam partilhar as suas impressões acerca da viagem com as suas legiões de fãs no Facebook e no Twitter. Tinha resultado. A sua nova linha de cruzeiros começou a causar furor.
Em menos de um ano, o navio passou a ter marcações com dois anos de antecedência. Seguiu-se rapidamente a aquisição do segundo, terceiro e quarto navios, até a River Cruises de Gregory Morrison se ter transformado na primeira escolha entre passageiros que adoravam aquele tipo de viagens.
Nessa altura, Morrison tinha sessenta e três anos. Adquirira a reputação de busca da perfeição e era implacável a afastar tudo e todos que pudessem atravessar-se no seu caminho. Tudo o que tinha conseguido até àquele ponto era mais um passo a caminho do seu derradeiro sonho: criar e operar um cruzeiro diferente de todos os outros e que nunca fosse ultrapassado em luxo e elegância.
Desejava em particular ultrapassar o Queen Mary, o Queen Elizabeth e o Rotterdam. Não queria sócios nem acionistas. O navio que havia de construir seria uma obra-prima apenas sua. E quando estudava todos os pormenores de todos esses navios, deu-se conta de que havia um navio que tinha sido o mais luxuoso alguma vez construído, o Titanic. Deu instruções ao arquiteto para que construísse uma réplica exata da escadaria magnífica e da sala de jantar da primeira classe. O navio incluiria comodidades de tempos antigos, como uma sala de fumo para cavalheiros e campos de squash e de racquetball, assim como uma piscina olímpica.
Quer as suítes quer os camarotes seriam muito maiores do que as das dos navios de companhias rivais. E os pormenores das salas de refeições superariam os do próprio Titanic. Os passageiros de primeira classe seriam servidos com talheres de prata esterlina e os restantes em peças com banho de prata. Só seria usada porcelana de grande qualidade.
À semelhança do que acontecia no Queen Elizabeth e no Queen Mary, haveria nas paredes quadros dos monarcas britânicos e de membros da realeza de países europeus. Gregory Morrison não poupava na grandiosidade nem no custo dos pormenores. E chamar ao navio Queen Charlotte era provavelmente uma homenagem à princesa Charlotte, bisneta da rainha Isabel II.
O que ele não antecipara era o rombo que tal empreendimento causaria até mesmo nos seus recursos financeiros. Era absolutamente essencial que a viagem inaugural fosse um êxito estrondoso.
Ele devia ter mordido a língua mil vezes antes de ter deixado a firma de relações-públicas mencionar o nome do Titanic nos seus comunicados. A imprensa ignorou o facto de essa referência se dever ao esplendor desse navio e não à sua fatídica viagem inaugural.
Durante os três primeiros dias da viagem, Gregory Morrison manteve-se permanentemente vigilante para o caso de haver nem que fosse um ínfimo pormenor que se afastasse da perfeição.
Com o seu metro e oitenta de constituição robusta, uns olhos castanhos penetrantes e uma farta cabeleira prateada, Morrison era detentor de uma figura formidável. Todos o temiam, desde o chef e seus assistentes até aos funcionários dos diversos balcões e aos empregados dos restaurantes e das suítes. Foi por isso que, quando o comandante Fairfax pediu para falar com ele, a sua primeira pergunta foi:
— Passa-se algo de errado?
— Acho que devemos ter esta conversa na privacidade da sua suíte, senhor Morrison.
— Espero que não me venha dizer que houve mais um passageiro que caiu borda fora — explodiu Morrison. — Suba imediatamente.
Já tinha a porta aberta quando o comandante Fairfax, John Saunders e o doutor Blake chegaram em conjunto. Quando viu o doutor Blake, ele disse:
— Não me digam que morreu mais alguém! — exclamou.
— Infelizmente, é pior do que isso, senhor Morrison — disse o comandante. — Não foi uma pessoa qualquer. Foi Lady Emily Haywood que foi encontrada morta no quarto da sua suíte esta manhã.
— Lady Emily Haywood! — explodiu Morrison. — O que lhe aconteceu?
Foi o doutor Blake quem respondeu.
— Lady Haywood não morreu de causas naturais. Foi sufocada com uma almofada que alguém comprimiu contra o seu rosto. Não tenho a mínima dúvida de que se tratou de um homicídio.
O rosto de Morrison tinha habitualmente um tom ruborizado, como se tivesse estado exposto a um vento cortante. Agora, sob o olhar dos outros três homens, ficou pálido até exibir um tom quase macilento.
Enquanto abria e cerrava os punhos, perguntou:
— Ela estava a usar o colar de Cleópatra ontem à noite. Encontraram-no no quarto dela?
— O cofre estava aberto e as joias espalhadas no exterior. O colar de Cleópatra desapareceu — disse Saunders, discretamente.
Durante um bom bocado, Morrison não disse nada. Os seus primeiros pensamentos eram sobre como poderia manter as notícias do assassínio em silêncio. E sobre a terrível publicidade que inevitavelmente se seguiria se se viesse a saber.
— Quem mais sabe disto? — perguntou.
— Além de nós, o mordomo de serviço à suíte de Lady Em, Raymond Broad. Foi ele que encontrou o corpo. Eu disse-lhe que acreditava que ela tinha morrido de causas naturais — afirmou o doutor Blake.
— O facto de ela ter sido assassinada não pode sair desta sala. Comandante Fairfax, vai preparar uma mensagem que será transmitida e onde será dito que ela faleceu pacificamente durante o sono. E nem uma palavra acerca do colar desaparecido.
— Se me permite uma sugestão, senhor Morrison, quando as autoridades subirem a bordo em Southampton, a primeira pergunta vai ser o que fizemos para preservar a cena do crime e verificar quem entrava e saía da suíte, para que as potenciais provas fossem preservadas. Dito isto, vamos ter de regressar à suíte e trasladar o corpo para a morgue — disse Saunders.
— Podemos esperar pelo meio da noite para levarmos o corpo? — perguntou Morrison.
— Senhor Morrison, isso não seria sensato e levantaria suspeitas — disse o doutor Blake. — Uma vez que temos de comunicar a morte, não vai parecer invulgar que o corpo, coberto obviamente, seja trasladado para a morgue do navio.
— Levem-na para baixo quando a maioria dos passageiros estiver a almoçar — ordenou Morrison. — O que sabemos do mordomo, Raymond Broad? — perguntou.
Saunders respondeu.
— Tal como eu disse antes, foi ele quem descobriu o corpo. Na noite anterior, Lady Haywood pedira que lhe servissem o pequeno-almoço no quarto e ele tinha ido levar-lho. Quando ele a encontrou, ela já estaria morta há cinco ou seis horas. Quem cometeu o crime fê-lo por volta das três da manhã. Em relação ao senhor Broad, ele trabalha nas nossas companhias há quinze anos, incluindo o tempo em que trabalhou para a Morrison River Cruises. Nunca foi relacionado com nenhumas infrações.
— A pessoa que fez isto forçou a entrada no quarto?
— A fechadura da porta não revela indícios de danos.
— Quem mais tinha uma chave do quarto dela?
— Sabemos que a sua assistente de longa data, Brenda Martin, tinha uma cópia da chave — respondeu Saunders. — Mas, permita-me que lhe relembre que corre o rumor de que o ladrão internacional conhecido como Homem das Mil Caras se encontra a bordo. Na verdade, se acreditarmos na Internet, ele até anunciou a sua presença. Alguém com a sua perícia saberia como manusear a fechadura da porta e ter acesso ao cofre.
— Porque não me disseram que estava um ladrão a bordo? — rugiu Morrison.
Desta feita, foi Fairfax quem respondeu.
— Eu enviei-lhe uma mensagem, senhor Morrison, a informar que se encontrava a bordo um agente da Interpol que se fazia passar por convidado e que veio dar proteção extra ao navio.
— Bom, é evidente que o idiota está a fazer um belo trabalho!
— Senhor Morrison — inquiriu Saunders —, devemos notificar o departamento legal e aconselharmo-nos com eles?
— Eu não quero os conselhos deles — explodiu Morrison. — Quero chegar a Southampton a tempo sem haver mais incidentes e tirar o raio desse corpo do meu navio.
— Mais uma coisa. Presumivelmente, as joias que se encontram no chão são muito valiosas. Se as deixarmos lá, corremos o risco de — fez uma pausa — desaparecerem. Se as formos buscar…
— Eu sei — interrompeu Morrison. — Corremos o risco de interferir desnecessariamente com uma cena de crime.
— Tomei a liberdade, senhor Morrison, de pôr um guarda do lado de fora da porta da suíte — disse Saunders.
Morrison ignorou-o.
— Tem a certeza de que não há hipótese de ter sido o tal mordomo? Se tiver sido ele, não quero saber. Como sabe, ou devia saber, se um empregado meu cometer um crime, como dono do navio eu sou implicado em todos os processos judiciais que possam daí advir. — Morrison começou a andar às voltas pela sala, a comprimir os punhos. — Já sabemos da tal Brenda Martin, a assistente — disse. — Quem mais viajava com Lady Haywood?
— O Roger Pearson, o homem que caiu ao mar, que era o conselheiro financeiro dela e o executor do seu património. Ele e a mulher, Yvonne, e Brenda Martin eram convidados de Lady Haywood.
— Eu vi as pessoas que estavam na mesa dela — disse Morrison. — Quem era aquela jovem lindíssima? Conheci-a na receção, mas não me lembro do nome dela.
— É a Celia Kilbride. É uma das nossas oradoras, tal como o professor Longworth — respondeu Saunders.
— O tema dela é a história de pedras preciosas famosas — acrescentou o comandante Fairfax.
— Senhor Morrison — disse Saunders —, julgo que seria aconselhável eu falar com os ocupantes das suítes perto da de Lady Haywood e tentar perceber se ouviram ruídos que denunciassem alguma perturbação ou se viram alguém no corredor, do lado de fora da suíte.
— Nem pense nisso. Seria admitir que algo estava errado. Nós não estamos a tentar resolver um crime. Não me interessa quem o fez, desde que não tenha sido um empregado meu. — Morrison fez uma pausa. — Conte-me lá outra vez o que disse o mordomo.
Saunders respondeu:
— Ele chama-se Raymond Broad. A história dele é muito coerente. Como sabe, quando uma refeição é pedida para determinada hora, depois de baterem à porta os nossos mordomos têm permissão para entrar na suíte e deixar o carrinho com a refeição. Este serviço é especialmente necessário para os passageiros mais idosos, muitos dos quais ouvem mal. Uma vez que a porta do quarto de Lady Em estava aberta, ele diz que espreitou lá para dentro, viu que ela ainda estava na cama e gritou a avisar que o pequeno-almoço estava servido. Como ela não respondeu, voltou para o seu posto, telefonou para o quarto, mas não obteve resposta. Achou que devia passar-se alguma coisa, voltou à suíte e entrou no quarto. Foi então que viu que a porta do cofre estava aberta e havia joias espalhadas no chão. Dirigiu-se à cama e apercebeu-se de que ela parecia não estar a respirar. Tocou-lhe na mão e disse que ela tinha a pele fria. A seguir, usou o telefone da suíte para telefonar ao doutor Blake.
— Diga-lhe que, se quiser manter o emprego, é melhor ficar calado acerca do que viu na suíte. Torne-lhe bem claro que ela morreu durante o sono. Só isso.