76

Uma a uma, as pessoas reuniram-se para um jantar formal. Numa mesa estavam o professor Longworth, Yvonne, Celia e Brenda. Na mesa ao lado, Alvirah e Willy, Devon Michaelson, Ted Cavanaugh e Anna DeMille. Em ambas as mesas, a conversa era limitada e constrangedora.

— A acupunctura é uma maravilha — dizia Alvirah a Cavanaugh. — Eu não sei o que faria sem ela. Às vezes, quando adormeço, sonho que me estão a espetar aquelas pequenas agulhas. E acordo sempre a sentir-me melhor.

— Eu percebo perfeitamente — respondeu Ted. — A minha mãe faz acupunctura por causa de uma artrite na anca e diz que lhe faz maravilhas.

— A sua mãe tem artrite? — exclamou Alvirah. — Ela é irlandesa?

— O nome de solteira dela é Maureen Byrnes. E o meu pai é meio irlandês.

— A razão para a minha pergunta — disse Alvirah — é porque se crê que a artrite seja uma doença irlandesa. A minha teoria é que os nossos antepassados andavam à chuva e ao frio a apanhar turfa para fazer as fogueiras. A humidade infiltrou-se no ADN.

Ted riu-se. Deu-se conta de que achava Alvirah interessante e uma lufada de ar fresco.

Anna DeMille não gostava de ser deixada de fora de uma conversa durante muito tempo.

— Vi que tomou uma bebida com a Celia Kilbride — disse a Ted. — E que assistiu à conferência dela. — Eu acho que ela fala bem, e você?

— Também acho — respondeu Ted, discretamente.

Willy ouvia a conversa quando levou a mão desassossegada ao bolso das calças onde tinha o colar de Cleópatra guardado. Ficou satisfeito de não entrar na conversa da acupunctura. Alvirah estava sempre a incitá-lo para fazer umas sessões por causa das dores nas costas. E era desconfortável ouvir um tipo obviamente esperto como Ted Cavanaugh dizer que tinha alguém na família que também fazia.

Devon Michaelson tinha estado a ouvir a conversa sem grande interesse, até que viu Gregory Morrison a andar às voltas, visitando cada uma das mesas. Provavelmente está a dizer a toda a gente que não há motivos para se preocuparem, pensou ele.

A sua atenção dirigiu-se para a mesa ao lado da sua. Já só restavam quatro pessoas nela. Percebeu que a conversa entre elas era forçada. Nenhum dos presentes parecia feliz por estar ali. A seguir, reparou que Morrison se dirigia à mesa de Longworth. Encrespou-se quando o viu, mas disse para si mesmo que não aceitava facilmente críticas.

Devon retesou-se para tentar ouvir o que era dito, mas mal apanhava uma palavra. Uma distração adicional residia no facto de Anna DeMille ter pousado a mão em cima da sua e estar a perguntar-lhe, numa voz terna:

— Está a sentir-se melhor hoje, querido Devon?

Gregory Morrison estava perfeitamente ciente de que as cadeiras tinham sido afastadas umas das outras para tornar menos óbvio o facto de faltarem duas pessoas na mesa da qual se aproximava. Lady Haywood e Roger Pearson, o idiota que tinha caído à água. No que lhe dizia respeito, nenhum dos dois representava grande perda para a raça humana. Contudo, parecia apropriado manifestar as suas condolências à viúva de Pearson, que não parecia nada devastada com a sua perda. Ele conhecia lágrimas de crocodilo quando as via. Sentia conforto no facto de o seu navio não poder ser responsabilizado pela perda de alguém que tinha sido estúpido ao ponto de se sentar num corrimão lá fora. Depois de ter dito algumas palavras a Yvonne, pousou a mão no ombro de Brenda.

— Soube que foi a acompanhante de Lady Haywood durante vinte anos — disse-lhe. E pergunto a mim mesmo se a terá matado, acrescentou para si mesmo, em silêncio.

Os olhos de Brenda humedeceram-se.

— Foram os melhores vinte anos da minha vida — disse ela, simplesmente. — Vou sentir a falta dela para sempre.

Lady Haywood deve ter-lhe deixado algum dinheiro, pensou Morrison. Quanto será?

— Senhor Morrison — disse Brenda —, além do colar de Cleópatra que desapareceu, Lady Em trouxe muitas joias valiosas para este cruzeiro. Segundo soube, estavam espalhadas no chão ao pé da cama dela quando a encontraram. Está a tomar medidas para se certificar de que nada lhes acontece?

— Tenho a certeza de que o comandante e o nosso chefe da segurança estão a cumprir todos os procedimentos adequados.

Morrison afastou-se da mesa. Viu que Devon Michaelson, o Dick Tracy da Interpol, estava na mesa ao lado e contornou-a. Espalhou o seu charme pelas restantes mesas e depois voltou para o seu lugar ao lado do comandante.

— Todos eles parecem ter ultrapassado os infelizes acontecimentos — disse ele a Fairfax, dando de seguida atenção ao salmão fumado que se encontrava no prato à sua frente.