80

Alvirah e Willy, Devon Michaelson, Anna DeMille e Ted Cavanaugh reuniram-se para tomarem um pequeno-almoço sossegado, que acabou por ser tudo menos isso.

Alguns minutos depois de eles se terem sentado, Brenda chegou à sua mesa. Yvonne e o professor Longworth já lá estavam. Brenda, na sua recém-descoberta glória, com uma marca vermelha de estrangulamento à volta do pescoço, tinha inicialmente planeado tomar o pequeno-almoço na sua suíte. Depois de ter confirmado que os ferimentos dela não eram graves, o doutor Blake tinha-a incitado a passar a noite na enfermaria. Ela recusara, preferindo a privacidade do seu camarote.

Decidiu, entretanto, que seria muito mais interessante partilhar a sua experiência de quase morte com os restantes passageiros no Salão da Rainha. Fez questão de exibir o pescoço quando se sentou e a seguir exalou um grunhido audível quando bebeu um copo de sumo de laranja acabado de espremer. Perante as exclamações de «Que lhe aconteceu?», teve todo o prazer em contar aos companheiros de viagem toda a história, sem poupar um único pormenor.

— Tem a certeza de que não viu a pessoa que a atacou? — perguntou Yvonne, nervosa.

— Ele devia estar escondido no roupeiro. Quando eu estava de costas, ele atacou-me por trás — contou Brenda, levando a mão ao peito ao lembrar-se do sucedido.

— Reparou nalguma coisa que a pudesse ajudar a perceber quem a atacou? — perguntou Yvonne.

Brenda abanou a cabeça.

— Nem por isso. Mas quem fez isto tinha muita força.

Ela não faz ideia, pensou Longworth. Muito interessante.

Brenda prosseguiu.

— O que quer que tenha sido que ele me pôs à volta do pescoço, era o que ia usar para me estrangular. Eu comecei a desmaiar. Lembro-me de ser empurrada para dentro do roupeiro. Tive a sorte de conseguir enfiar um dedo dentro do nó antes de ele começar a puxar. Ao princípio lutei, mas depois decidi que era melhor fingir que estava a desmaiar. Estava prestes a perder a consciência quando o senti aliviar a força.

— Oh, meu Deus — disse Yvonne.

— Oh, meu Deus, mesmo — reiterou Brenda. — Comecei a ver a minha vida a passar diante dos…

Foi a vez de Longworth dizer:

— Oh, meu Deus… quando é que isto vai acabar? Estamos todos em perigo?

Brenda continuou.

— Mas eu fiquei ali deitada, quieta, mal respirava. Ele esteve algum tempo no meu quarto, sabe Deus a fazer o quê. Fiquei à escuta até ouvir o ruído da porta do camarote a abrir e a fechar e a pessoa que fez aquilo a sair.

Por aquela altura, Yvonne parecia tão ofegante como Brenda.

— Que experiência horrível — gemeu. — Ouvi-la contar como estava com dificuldade em respirar faz-me ter a noção do que o meu querido Roger deve ter passado.

Pareceu a Longworth que Brenda estava claramente incomodada por a atenção aos seus quinze minutos de fama ter sido momentaneamente partilhada com a infelicidade de outra pessoa.

Brenda continuou:

— Resumindo…

É tarde demais para isso, disse Longworth para si mesmo.

— Eu sobrevivi e estou viva para contar a história. E só esta manhã é que, para piorar a situação, me apercebi que o meu colar tinha desaparecido.

Com a sensação de ter perdido a sua audiência, Brenda acabou de comer rapidamente, dirigiu-se à mesa ao lado, sentou-se e começou a massajar as marcas no seu pescoço.

Pareceu deleitada por Alvirah e Willy e Ted Cavanaugh se mostrarem particularmente interessados enquanto ela contava a história da sua tormenta. Por seu lado, Anna DeMille suspirou:

— De certa maneira, tenho ciúmes de si. Eu não me imagino numa situação dessas — disse. Voltou-se para Devon e pousou-lhe a mão no braço. — Ia esperar que fosse o Devon a salvar-me — disse ela, docemente.

Ted permaneceu apenas alguns minutos, antes de pedir licença para se levantar da mesa. Foi nesse momento que murmurou para Alvirah.

— Tenho de telefonar para um cliente em França, mas depois quero ir ver como está a Celia.

— Boa ideia — concordou Alvirah.

Alguns minutos mais tarde, Brenda olhou à volta e viu as amigas de Yvonne dos Hamptons. A massajar o pescoço e a encolher-se enquanto caminhava, dirigiu-se diretamente para a mesa delas.

Alvirah bebeu o último gole do seu café e disse:

— Willy, vamos dar um passeio no convés.

Willy olhou pela janela, lá para fora:

— Está a chover a potes, querida — respondeu ele.

Alvirah seguiu o olhar dele.

— Ah, pois está. Tens razão. Então vamos para cima. Eu quero telefonar à Celia, para saber como ela está.