Caro Deus,
Estas notas ficam no sítio do costume, para quando por cá passares. Cuida de não as atirar para o chão quando acabares de as ler, como tem sido Teu hábito de há uns tempos para cá. Não só me incomoda ter de me curvar para apanhar o que eu próprio escrevo, como dá péssima imagem de Ti. Têm-me dito que andas de mau humor ultimamente, mas recordo-Te que já lá vão quase quarenta anos desde que Te criei (estava eu nos meus vinte e tal, lembras-te?) o que Te dá idade para alguma madureza e compostura.
Anda por aí um homenzinho chamado Jorge Arbusto, a escavacar a casa dos nossos vizinhos árabes do rés-do-chão. Tem uma fala desajeitada, modos grotescos e apresenta-se como teu íntimo e confidente. Não lhe dei importância até perceber que me escuta os telefonemas, espiolha o que faço na Internet, sabe como uso o cartão de crédito e, anteontem, dei com o olho dele metido num satélite a perseguir-me no nosso quintal. Das duas uma: se é de facto amigo Teu, conta com a minha mais séria decepção porque não criei um Deus que tem amigos burlescos; mas se não o conheces, então assume-Te como Deus e oferece-lhe um emprego de motorista de táxi em Bagdade, com família para sustentar. Ele haveria de aprender e perceber muita coisa. Deixa-me uma nota escrita sobre o que achas disto tudo.
Por falar em vizinhos do rés-do-chão, os rapazes dizem-me que lhes prometeste loucas orgias servidas por encantadoras virgens, se se suicidarem com explosivos, em plena rua, ou dentro de aviões esmagando-se contra edifícios. Quero que saibas que não tolerarei por muito mais tempo ver o Teu nome envolvido em tais dislates, mas temo que me não dêem ouvidos se Tu próprio não apareceres por lá e te impuseres como tem que ser. Diz-me quando te calha fazer isso, porque quero estar presente.
Alguns dos nossos amigos sacerdotes e freiras da Igreja Católica andam insatisfeitos contigo desde aqueles concílios de Niceia e de Latrão, na Idade Média, que lhes proibiram a alegria da procriação. Claro que eles sabem que foram homens e não Tu quem lhes impôs tal suplício e bem se recordam de que o celibato não existiu nos primeiros séculos da Igreja. Mas que diabo! (desculpa a expressão) depois deste tempo todo não poderias…?
Isto para não falar em coisas mais comezinhas, para as quais Te deves estar nas divinas tintas mas que bem podiam merecer-Te alguma atenção. Por exemplo, o tempo. Quando resolves acabar com o tempo, que nos escraviza, enfraquece e mata? Tu existes solto, liberto dele e portanto indiferente, mas a verdade é que o tempo subjuga-nos a todos os mortais, incluindo quem Te criou. Ora tu bem sabes que desaparecerás no dia em que eu morrer. Como todos os outros deuses, os que foram extintos e os que hão-de ser inventados, só existes enquanto houver quem creia em Ti e Te fale. Eu, por exemplo. Para que serve o tempo, então? Que sentido tem ele? Pensa nisto e, se acontecer o que julgo, quero ter século e meio de idade, com menos vinte anos do que tenho hoje. Assim, sim.
Tudo o que aqui deixo dito são tarefas, não pedidos. A um deus nada se pede, antes exige. De tal forma O criamos isento e perfeito que d’Ele está de antemão providenciada toda a dádiva ou benesse que houvesse de nos calhar. O mais que falte é forçoso exigi-lo, em bom-tom mas sem rodeios. Como o faço aqui.
Tens roupa lavada junto ao armário da sala de jantar, ao fundo da casa. Vai buscá-la. É tempo de largares a que trazes vestida durante o tempo todo, e que já está demasiadamente gasta. As pessoas fartaram-se, já não querem mais ver-te assim. E, por Deus, vê se apareces! Daqui a nada, ninguém dá um chavo pela Tua existência. Não Te fies eternamente na fé, que nada é eterno na humanidade. Mesmo eu, que Te criei, começo a ficar um bocado farto deste meu deus fantasma, que só existe quando Lhe escrevo cartas.
… E não atires este papel para o chão, como fizeste aos outros!