Scott poderia estar em seu quarto, atrás de qualquer uma dessas janelas. Talvez estivesse me observando neste exato momento.
Não posso acreditar que ele mora uma rua acima da minha. Esta é para o arquivo “É Claro”: “É claro que nós moramos mais perto um do outro agora. No entanto, ele pode morar em qualquer lugar da Rua West 11th, ela tem várias quadras”.
Há mais de uma hora, estou andando para cima e para baixo na rua dele. Andando e querendo encontrá-lo. Adoro explorar meu novo bairro assim. Estou acostumada a andar de carro, ninguém andava a pé na minha cidade. Mas os nova-iorquinos vão para todos os lugares caminhando, e agora sou um deles. Minhas pernas já estão reclamando da diferença.
Eu paro. Quero ficar quieta por um minuto e absorver a energia, sentir como é incrível estar neste lugar que me chama há tanto tempo. É como se eu já o conhecesse tão bem! Como se estas ruas, de alguma forma, tivessem sido sempre minhas. Só de estar aqui fora, nesta noite quente, sob a iluminação dos postes e dos letreiros luminosos de neon, já fico emocionada, pois estou, finalmente, rodeada de tudo o que imaginei. É muito estimulante!
— Noite bonita! — uma senhora idosa diz, inclinando-se para fora de sua janela de arenito pardo, no primeiro andar.
A janela está bem aberta e ela está regando as flores da jardineira.
— É — confirmo eu. — Adoro suas flores!
São pequenas e de diversas cores. Elas parecem felizes.
— Obrigada! Eu tento... Nem sempre é fácil.
Balanço a cabeça sem entender o que ela quer dizer. Nem sempre é fácil manter as flores vivas? Ou nem sempre é fácil se lembrar de regá-las? Ou talvez seja uma declaração geral sobre a vida. Quando a vida é fácil? Geralmente é um problema atrás do outro, como o de morar com meu pai.
De fora, não parece que existe um problema. De fora, provavelmente parece um feliz reencontro entre pai e filha. A verdade é que os últimos três dias foram realmente estressantes. Nossas conversas ainda têm aquele tom educado, mas, por baixo de toda a educação, tem um mundo de mágoa. Nós dois sabemos que ela está lá, escondida. Só fingimos que não. Cuidamos para que os assuntos das conversas sejam: a escola (com a qual já estou me acostumando), a cidade (papai está planejando um tour juntos) e a faculdade (não tenho a menor ideia para onde quero ir). Papai não me pergunta nada sobre a mamãe. Eu não pergunto por que ele nos deixou. Qual é o motivo para desenterrar um monte de coisas que ficam melhores enterradas?
Parece que procuro o apartamento do Scott há uma eternidade. Ele não está em lugar nenhum. Por fim, encontro esta pequena rua de paralelepípedos que parece pertencer a um século diferente. Desço devagar, passando por janelas com lâmpadas quentes, famílias jantando, pessoas hipnotizadas por seus computadores. Aqui é tão diferente! Na minha cidade, todo mundo fechava as cortinas à noite. Aqui você consegue ver o interior de quase todos os apartamentos. É como se os nova-iorquinos estivessem dizendo: “Olhem à vontade! Nós sabemos que reinamos”.
De repente, aparece uma rodovia e, depois, o rio Hudson. Muitas vezes fiquei parada à minha janela, do outro lado desse rio, olhando para a linha do horizonte como se ela tivesse infinitas possibilidades de uma vida melhor, desejando estar deste lado das coisas. E agora aqui estou. Cheguei ao outro lado. E tudo por causa de Scott Abrams. Ele me deu um motivo para deixar meu mundo inteiro para trás.
Há uma trilha ao lado do rio onde algumas pessoas estão passeando com seus cachorros, correndo ou andando de bicicleta. O ar cheira à grama recém-cortada. Tudo parece novo e limpo. Uma placa diz:
HUDSON RIVER PARK
ABERTO ATÉ 1H
Estou exausta da caminhada. Só quero me sentar em algum lugar e fazer uma dobradura com o pedaço de papel que encontrei.
O que mais gosto no origami é que sempre tem alguma coisa nova. Você nunca consegue dominar tudo o que tem para aprender, quer seja uma criação mais difícil do que a que acabou de fazer, quer seja uma completamente nova, na qual ninguém tinha pensado ainda. Você sempre pode fazer melhor do que antes.
Você sempre tem uma nova chance.
Encontro uma área com grama alta, flores e bancos simples de madeira. É um tipo de jardim zen. Eu me sento em um banco e fico olhando para o rio. Depois, aliso as rugas do papel. Papel achado é vida real. Vida real não está limitada por dimensões precisas. Ela se estende além das fronteiras, vem com falhas. As coisas nunca são fáceis, particularmente quando você espera que elas sejam. Como quando as pessoas o desapontam e se mostram inteiramente diferentes do que você achou que eram.
Às vezes, as pessoas podem ser muito destrutivas.
Recentemente, consegui dominar o origami da girafa. Agora estou tentando um rinoceronte, mas é difícil me concentrar durante mais do que alguns minutos. Este parque é incrível! Apesar de estar ficando tarde, tem muita coisa acontecendo: muitas pessoas andando por aqui ou em barcos no rio, toneladas de janelas com luzes acesas nos edifícios à volta, carros passando a toda velocidade na rodovia. Não importa a hora, sempre há pessoas fazendo coisas em Nova York. Lá no subúrbio, é provável que, neste momento, todos estejam dentro de casa assistindo à TV, ficando com sono. Todos vão dormir e levantar mais ou menos no mesmo horário. Aqui você pode ficar livre dessas restrições, pode viver completamente esta vida única, que é toda sua.
Do lado de fora do jardim zen, tem uma fileira de bancos ao longo do rio. Uma garota está sentada em um deles, desenhando alguma coisa. Fico muito feliz de estar perto de pessoas inteligentes e artísticas, mesmo não as conhecendo. Só de saber que todos esses tipos criativos vieram para Nova York atrás de seus sonhos é inspirador.
A garota parece ter a minha idade, então provavelmente cresceu aqui. Deve ter morado aqui a vida inteira. Uma ponta de inveja me espeta. Ela é como a Garota dos Luminosos da Cidade, que sabe todos os segredos legais deste lugar. Será que ela sabe o quanto é sortuda? Será que é grata por tudo que tem?
Isso é ridículo! Estou com inveja de uma garota que nem conheço!
Concentro-me em minhas dobraduras, mas, depois de um tempo, olho para cima novamente.
Sob o brilho suave da iluminação da rua, posso ver seu perfil. Nós duas temos a mesma tonalidade castanho-médio nos cabelos. Os dela são muito encaracolados, enquanto os meus são apenas ondulados. E acho que nós duas temos olhos castanhos. Se eu pudesse mudar alguma coisa em mim, seria a cor dos olhos. Meus olhos têm aquele tom “castanho monótono com nada de interessante acontecendo”. A Garota dos Luminosos da Cidade provavelmente tem pontinhos dourados nos dela. Ela provavelmente tem um monte de coisas que eu não tenho.
Pode ser que nunca tenha todas as coisas que quero, mas uma coisa que realmente tenho é uma vida nova. E eu decido o que acontecerá depois.