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Descobri a melhor cafeteria do mundo. Chama-se Joe the Art of Coffee e fica apenas a algumas quadras de distância. Em casa, mamãe não me deixava tomar café, mas eu tomava quando April, Candice e eu íamos ao Bean There. Só agora percebi que a coisa no Bean There meramente se fazia passar por café. Joe me mostrou o sabor do verdadeiro café. É extremamente delicioso. Eles até fazem aqueles desenhos circulares, por cima da espuma do leite, que parecem sofisticados enfeites de folhas.

Na primeira vez que vim, me senti intimidada. Os nova-iorquinos têm rotinas completamente arraigadas no dia a dia, e nelas se estabelecem tão firmemente que fazem você querer sair correndo e arrumar logo uma rotina própria. Todos fazem as mesmas coisas, automaticamente, todos os dias. Eu me sinto uma estrangeira, só observando tudo. Por isso, a primeira vez que vim ao Joe foi constrangedor. Não sabia onde ficar depois de fazer o pedido, onde os guardanapos estavam, se devia deixar a caneca na mesa quando acabasse ou colocá-la em uma lixeira em algum lugar.

Mas agora as coisas estão diferentes. Estou bem à vontade. Poderia ficar sentada aqui o dia todo, lendo ou fazendo origami. Até consegui pegar a valorizada mesa perto da janela hoje. Me esforço para amenizar a dor de ter visto Scott com outra garota, bebendo meu café em pequenos goles e lendo um bom livro. É sobre uma mulher que suspeita que seu marido esteja tendo um caso. Gosto de livros com enredos sobre infidelidade ou divórcio. Gosto de me identificar com a história que estou lendo, faz com que me sinta menos sozinha. Todos esses livros sobre pessoas muito felizes são tão cansativos! A vida real não é nem um pouco assim. Os melhores livros, os que me fazem ficar esperançosa, são aqueles em que os problemas das personagens são resolvidos realisticamente no final, e não convenientemente amarrados com um grande laço vermelho. Grandes laços vermelhos são uma enorme mentira.

A pequena campainha acima da porta toca quando uma garota entra. Ela grita:

— Leslie?!

Alguma coisa me faz virar para ver quem é Leslie.

É ela.

A garota de ontem à noite.

A garota do Scott.

Eu queria muito sair dali, muito mesmo, mas acabei de chegar. Não vou desistir da minha valorizada mesa e incomodar o garçom pedindo para colocar meu café em um copo de papel só porque ela está aqui. Estragaria completamente o sofisticado enfeite de folha.

Tento me concentrar em meu livro.

Um garoto me observa. Ele está na outra mesa, perto da janela, do lado oposto do bar. Toda vez que olho, ele volta a olhar para seu laptop. Parece um pouco mais velho do que eu, acho que deve estar na faculdade. A New York University fica próxima daqui. Talvez estude lá e venha aqui entre as aulas.

Por fim, a garota que gritou o nome de Leslie sai. Mantenho a cabeça baixa enquanto leio o livro para que Leslie não me note, embora ela provavelmente nem me reconhecerá. Estava escuro lá. Ela só me viu por alguns segundos e, depois, saí correndo. Eu poderia ser qualquer pessoa.

Quando Leslie se levanta para sair, me encolho na cadeira.

— Ei! — diz ela para mim.

O jogo acabou.

— Ei! — digo de volta.

— Você não estava no River Flicks ontem à noite?

— Oi?

I Love You, Man. [Eu te amo, cara!]

— Desculpe...?

— O filme...

— Ah, sim. Não. Quero dizer, dei uma passada para ver o que estavam exibindo, tive de ir embora em seguida.

Leslie olha feio para mim. Um fio de cabelo está colado no gloss grudento dos seus lábios.

— Scott me contou que vocês estudaram na mesma escola antes de mudarem para cá — diz ela.

— Ele disse?

— Sim, disse.

Meigo! Isso significa que falou sobre mim ontem à noite. Ele não se virou para assistir ao filme e simplesmente esqueceu que tinha me visto. Na verdade, era isso que eu estava esperando que ele fizesse. Mas assim é tão melhor! Ele falou sobre mim... com a garota com quem estava.

Leslie não está tão empolgada com a revelação.

Ela comenta:

— Só para você saber, nós estamos juntos.

— OK...

— Eu estudo na Eames Academy e, por isso, pode ser que as pessoas da sua escola não saibam que Scott tem namorada, mas ele tem.

Se ela está tentando me impressionar com este papo de Eames Academy, não está funcionando. Nem sei o que é. Estou apenas aliviada por ela não estudar na West Village Community comigo e com Scott.

— O que isso tem a ver comigo? — pergunto.

Leslie dá um sorriso pretensioso.

— Conheci Scott logo que ele se mudou para cá. Estamos juntos há dois meses.

Ela não poderia ser mais insegura. E está muito nervosa.

Recado para si mesma: não fique intimidada por Leslie.

Eu me sento mais reta na cadeira.

— Parabéns! — digo eu. — Tenho certeza que serão muito felizes juntos.

Ela dá mais um sorriso pretensioso.

— É, Scott disse que você era assim.

— Assim como?

— Tipo... brava.

Scott disse que eu era brava? Acho difícil acreditar nisso. Ele nem me conhece! Como saberia como sou?

Jogo o livro na bolsa e me levanto. Um bonito casal, armado com um jornal grosso e um laptop, ocupa rapidamente a mesa antes mesmo de eu sair.

Ao passar por Leslie, enquanto caminho para a saída, digo:

— Você deve ter me confundido com outra pessoa.

Só faltava essa! Então sou brava. Você seria também se seu pai tivesse deixado sua mãe por outra mulher.

Foi mais que horrível.

Eu ouvia todas as brigas e conhecia alguns dos motivos. Motivos que gostaria muito de esquecer.

As coisas andavam ruins há algum tempo. Não consigo lembrar quando começou e nunca soube por quê. Tudo que sei é que tinha alguma coisa errada com meus pais.

Quando papai vinha para casa após suas noitadas de pôquer, mamãe o enchia de perguntas. Perguntava quem estava lá, se ele tinha saído para um drinque depois, onde e com quem tinha conversado... Parecia mais um interrogatório do que uma conversa. Quando iam a uma festa ou a algum outro lugar juntos, geralmente brigavam ao chegar em casa. Eles demoravam muito para pagar a babá, depois mamãe começava a reclamar com papai. Acho que presumiam que eu estava dormindo e não os ouvia, mas geralmente estava acordada. E quando chegavam ao quarto deles, eu conseguia ouvir tudo.

Uma briga típica era assim:

Mamãe: “Então... a Marie estava bonita esta noite.”

Papai: “Hmm...”

Mamãe: “Você não acha que ela estava bonita?”

Papai: “Na verdade, não reparei.”

Mamãe: “O vestido dela deve ter custado uma fortuna. Não estava fantástico?”

Papai: “Estava bom.”

Mamãe: “Achei que você disse que não tinha reparado.”

Papai: “Vou sair para correr.”

Ou assim:

Mamãe: “Com quem o Richard estava conversando?”

Papai: “Com Kelsey.”

Mamãe: “Quem é ela?”

Papai: “Ela está trabalhando com o Dan, na conta do Stevens.”

Mamãe: “Você a conhece?”

Papai: “Nós já conversamos.”

Mamãe: “No trabalho?”

Papai: “Sim, Laura, nós conversamos no trabalho. Eu trabalho com ela. Nós conversamos.”

Mamãe: “Você nunca me falou sobre ela.”

Papai: “Estou falando agora.”

Mamãe: “Só porque perguntei.”

Papai: [silêncio de raiva]

Mamãe: “Ela trabalha no seu andar?”

Papai: “Vou sair para correr.”

Mesmo sendo nova, eu tinha idade suficiente para entender que as questões de ciúme da mamãe afastaram o papai. Mas, depois que papai se mudou, a mamãe começou a apontar motivos diferentes para a saída dele.

“Seu pai nunca soube o que era preciso para ser um pai decente”, ela falava em voz alta. “Ele sempre ficou procurando uma saída, desde o começo. Eu deveria saber que ia acabar assim.”

Mamãe me dizia coisas que nunca deveriam ser ditas aos filhos, mesmo que fossem verdadeiras. A princípio, não acreditava nela. Porém, depois de ouvir muitas vezes que papai nos deixou porque preferia ter sua liberdade a ser parte de uma família ou, então, que se ele nos amasse mais, ainda moraria aqui, comecei a pensar que talvez ela estivesse certa. Talvez não fosse inteiramente culpa dela.

Na verdade, sei que não era, porque, antes de nos deixar por uma mulher com quem ele nem está mais, teve aquele lance com minha babá.

Justine era minha amiga. Quando vinha ficar comigo em casa, nunca me senti como se ela estivesse ali só para me vigiar. Era como se realmente quisesse estar comigo. Nós contávamos segredos uma para a outra. Ela me contava coisas de sua vida, importantes como a escolha da faculdade, os garotos com quem saía, como se sentia com a nova vida que se aproximava e esperava por ela após o terceiro ano. Eu sabia que ela partiria logo para a faculdade, mas tinha esperança que ela fosse para algum lugar perto e assim pudesse continuar vindo para minha casa.

Justine era como a irmã mais velha que eu sempre quis.

Uma vez, quando eu tinha 10 anos, Justine estava no andar de baixo esperando que meus pais chegassem. Eu sempre ficava nervosa quando eles voltavam de algum evento social, porque podiam começar a brigar logo que Justine saísse. Decidi descer de mansinho para ver se mamãe parecia brava.

Só que não encontrei mamãe quando desci. Encontrei papai.

E Justine.

Se beijando.

Não sei se mamãe sabia disso. Ela nunca me disse nada. Claro que jamais lhe contei o que vi naquela noite. Sua cota de sofrimento na vida já era suficiente, eu não precisava acrescentar nada mais. Mas, depois daquela noite, Justine nunca mais voltou. Nem mesmo disse adeus.

As pessoas destroem sua confiança e depois partem.

Você nunca consegue conhecer alguém completamente, não importa o quanto ache que conheça. As pessoas sempre omitirão partes de suas vidas. Sempre haverá alguma verdade sobre elas que você nunca saberá.

Ou talvez, algum dia, você conheça a verdade que elas escondem e vai concluir que era melhor nunca ter descoberto.