Não atrair a atenção era muito mais fácil na minha antiga escola. Aqui não tem nenhum lugar para se esconder.
Primeiro, porque as salas são menores: mesmo que me sente na última fileira, ainda fico muito exposta. Os professores se importam mais aqui. Se não prestar atenção, eles vão chamá-la. Se não fizer seu dever de casa, fazem um grande alarde. Até ligam para sua casa se não se comportar direito. Sinceramente, você não consegue fazer uma pausa nem por um segundo, como na aula de cálculo. A senhora Jacobs é insana. Espera que todos estejam prontos para fazer anotações assim que a aula começa e age como se todos devessem prestar atenção às mínimas coisas.
Nada disso é útil quando o garoto por quem você está aqui tem namorada.
Gostaria muito de conseguir pensar em outro assunto. Apenas me concentrar em qualquer outra coisa que não seja o fato de Scott ter uma namorada que não seja eu. Nesta aula de cálculo, a única distração disponível é um conjunto de equações paramétricas.
Tento resolvê-las.
Evitar trabalho em sala de aula era fácil na escola antiga. Sei que cada um sempre diz que sua escola é pior, mas, confie em mim, a minha era a pior de todas. Você podia ficar sem fazer nada e continuar impune porque os professores nunca diziam nada. Eles só davam nota baixa, mas isso não preocupava os alunos. Raramente recolhiam os trabalhos e, quando o faziam, bastava copiar as respostas de alguém. Muitos professores nem sequer liam o que entregávamos. Na maioria das disciplinas, a nota só dependia da quantidade de trabalhos que fazíamos, não da qualidade. Por isso, não entendo por que as pessoas ficavam realmente surpresas quando percebiam meu desinteresse pela escola.
Quando termino de resolver a última equação, dou uma olhada para a garota perto de mim. Ela ainda resolve as suas, como os outros alunos. Seu nome é Sadie e está usando brincos iguais aos meus, os mesmos arcos prateados, as mesmas listras estreitas pretas. Seu visual é legal. Tem um ar de garota sexy e inteligente, cabelos na altura dos ombros, cor de cobre com mechas douradas, olhos castanhos mais interessantes que os meus e óculos de gatinho. Ela é aproximadamente cinco centímetros mais baixa que eu e fica bonita com qualquer roupa. Mas acho que poderia repensar sobre as faixas nos cabelos...
Sadie olha minha folha de exercícios.
— Como você chegou a isso? — sussurra ela.
— O quê?
— Número 5... É impossível!
— Não, não é.
Entrego-lhe a folha de papel para que possa ver melhor.
— Vocês podem fazer perguntas para seus colegas — a senhora Jacobs nos lembra —, mas estamos trabalhando individualmente.
Ela olha direto para mim.
Estou tão pouco acostumada com isso! Professores que têm contato visual comigo me deixam furiosa. Eu costumava desaparecer completamente na sala de aula quando queria. Conseguia ser invisível.
Não mais.
Sadie devolve o papel. Continua admirada:
— Como você chegou a isso?
Jogar o jogo deles é repulsivo: aqui temos uma aluna ajudando outra a resolver um problema insignificante, com o qual nunca terá que lidar na vida real. Não quero explicar como cheguei ao resultado. Não quero falar com Sadie sobre nada, mas é melhor do que pensar em Scott, que é o que estaria fazendo se estivesse apenas esperando os outros terminarem. Então explico como resolvi o problema.
— Isso é... — Sadie examina a folha de exercícios novamente. — Onde você aprendeu isso que fez na terceira etapa?
— Na minha escola antiga.
— Uau! — ela fica maravilhada. — Sua professora de Matemática devia ser incrível!
— Não exatamente.
Enquanto arrumo minha bolsa após a aula, Sadie diz:
— Você já pensou em ser monitora dos colegas? Vamos começar esta semana e acho que você seria ótima.
— Ah, OK.
— Não, estou falando sério. Quanto tempo você levou para terminar aqueles problemas? As pessoas continuaram resolvendo os delas por mais 15 minutos.
— Eu só queria acabar logo.
— Sim, mas você fez tudo certo. É inacreditável!
É oficial. Definitivamente, passar tranquilamente pelo radar é coisa do passado.
— Nós vamos nos encontrar depois da escola hoje — diz Sadie. — Você pode vir?
— Sem querer ofender, mas não gosto disso.
— Não gosta do quê? De ajudar as pessoas?
Tudo bem, entenda, não tem necessidade de ser indelicada. A garota nem me conhece e já está me ofendendo. Não tenho tempo de me explicar para ela. Claro que gosto de ajudar os outros! Não sou má. Só não vejo motivo para explicar coisas para pessoas que nem desejam estar ali. Se for para ajudar, prefiro fazer isso de um jeito mais interessante.
— A propósito, bonitos brincos! — digo a ela. Depois, pego minha bolsa e me dirijo para a saída, deixando Sadie para trás.
— Tenho de trabalhar até tarde amanhã — avisa papai. — Vou deixar dinheiro para você pedir comida.
— Tudo bem — respondo.
É claro que não está tudo bem. Eu não deveria estar novamente pedindo comida sozinha. Ele deveria dizer que não vai mais trabalhar até tarde porque agora eu estou aqui.
Papai mastiga seu pãozinho de ovo. Desde que cheguei, nesta semana nós jantamos comida chinesa, pizza e hambúrgueres de um lugar chamado Kool Bloo. É divertido pedir comida o tempo todo. É como se eu estivesse dando um tempo da comida real. Ambos sabemos que papai não sabe e eu não gosto de cozinhar, por isso, refeições caseiras logo vão ser apenas uma vaga lembrança.
— Como estava a escola? — pergunta ele.
— Tudo bem.
— O pessoal é legal?
— É.
Na verdade, não reparei em ninguém além de Scott — o que é esquisito, já que sou a garota nova. Eu deveria estar louca para me entrosar e fazer novos amigos, ou para saber com quem me sentarei no almoço, mas não estou. Porque nada disso importa, só vou ficar aqui por um ano. Por que me importaria com o que as pessoas pensam? Além disso, tenho certeza que April e Candice virão me visitar logo. Não que Candice tenha retornado alguma das minhas mensagens, mas ela vai ter que falar comigo um dia. Não consigo entender por que não retorna minhas ligações!
Isso não é bem verdade. Estou com um pressentimento ruim de que ela esteja brava por causa de Scott. Ela me disse que não estava, e acreditei nela. Porém, agora começo a achar que ela não foi sincera comigo.
Reprimo o pressentimento ruim. Não conseguiria, de jeito nenhum, lidar com o fato de Candice estar brava comigo porque gosto de Scott. Isso significaria que não sou uma boa amiga, e eu não conseguiria viver com isso. Talvez ela esteja brava comigo porque abandonei o terceiro ano ou, então, por alguma coisa totalmente diferente. Só espero que o pressentimento ruim esteja errado.
Se eu fosse sincera com papai, diria que meu dia foi totalmente horrível. Scott nem falou comigo na aula. Ele geralmente diz: “Ei!”, e nós brincamos um pouco. Mas hoje, nada. É como se estivesse totalmente fechado. Obviamente, Leslie falou alguma coisa para ele. Provavelmente contou que me encontrou por acaso no Joe e que fui grossa, saindo antes que ela terminasse de me humilhar. Ele deve achar que sou uma perseguidora descontrolada, que gosta de tumultuar os cinemas ao ar livre batendo um monte de cadeiras umas nas outras. Não consigo acreditar que Scott disse a ela que sou brava. Não sabia que dava para notar.
Não que eu queira ser brava assim. Aconteceu. Se soubesse como parar de ser brava, eu o faria. O ruim disso é que as pessoas magoam você e, depois, você as deixa continuar magoando ficando brava por terem originalmente magoado você. É um círculo vicioso.
Scott conheceu Leslie há dois meses. Quão sério isso pode ser? Tecnicamente, talvez nem seja namorado dela. Talvez ela acredite que seja mais sério do que na verdade é. As garotas se iludem assim com frequência.
Ou, talvez, eu seja a iludida.
Só tenho que encontrar um jeito de estar mais na vida de Scott. Seria muito mais fácil ele entender que nós pertencemos um ao outro se me conhecesse melhor. Eu deveria escrever, mais tarde, um novo bilhete para minha caixa de desejos. A maioria dos bilhetes da caixa é sobre Scott. Não sei ainda onde vou escondê-la. Por enquanto, está guardada no fundo de uma prateleira, em meu armário.
Papai dá uma olhada nas notícias da TV da sala de estar, da sua cadeira no balcão da cozinha. É como se ele estivesse aqui sem realmente estar.
Eu espeto meu hashi no miojo.
Ele pergunta:
— Você tem tudo que precisa para a escola?
— Tenho.
Então as perguntas param. Apenas continuamos comendo, com papai assistindo às notícias e eu espetando o miojo. É assim que nos evitamos. Quando conversamos, nunca é sobre as coisas que realmente queremos dizer. São apenas conversas superficiais sobre coisas sem importância; “como foi seu dia”, por exemplo. Aquelas palavras que as pessoas dizem quando o silêncio fica alto demais.
O telefone toca. Papai se levanta para atender. Seja quem for, suponho que vá dizer que estamos jantando e desligar em seguida, mas ele não faz isso. Papai leva o telefone para a sala de estar, liga o laptop e fica lá. Não consigo ouvir direito o que está dizendo. Apenas umas pancadas bravas com as chaves e tons tensos. É óbvio que não vai voltar logo.
Observo sua comida esfriar.