Scott está tendo um dia ruim.
Às vezes, ele ficava assim na nossa cidade. Nesses dias, quando o observava na sala de aula, da segunda fileira atrás dele, Scott se sentava pesadamente na cadeira. Parecia uma pessoa diferente e
se fechava completamente. Eu sempre quis perguntar o que estava acontecendo e se tinha alguma coisa que eu podia fazer, mas nunca tive coragem.
E agora somos amigos. Sentamos juntos na classe. Posso conversar com ele quando eu quiser.
Quando Scott entrou na sala, sabia que ele passava por outro dos seus dias ruins. Queria perguntar logo o que estava acontecendo, mas não podia assustá-lo mostrando que eu sabia que havia alguma coisa errada só de olhar para ele. Mas preciso dizer alguma coisa. Considero a possibilidade de uma aproximação engraçada. John provavelmente diria: “Parece que alguém tem problemas com as segundas-feiras!”, uma das frases da série Office Space. Algo me diz que Scott não ia achar engraçado.
Nós caminhamos juntos depois da aula.
— Está tudo bem? — pergunto.
— Não.
— Você quer conversar?
— Não.
Novamente, Leslie o aguarda do outro lado da rua. Desde aquele confronto maluco no Joe, ela nunca mais me incomodou, à exceção do jeito que ela nos observa quando caminhamos juntos, como se eu não tivesse o direito de estar aqui.
— Bem, se você mudar de ideia, sabe onde me encontrar — digo.
Eu também sei onde encontrá-lo, porque, depois de procurar Scott todas aquelas noites, após o nosso passeio na lanchonete, simplesmente passamos por seu apartamento. Adoro saber exatamente onde ele mora. Adoro saber que ele está perto.
Tentar fazer minha tarefa é inútil, não porque seja difícil. Nunca é. Embora tenha de confessar que as coisas são mais desafiadoras aqui. Estes professores obviamente se esforçam para preparar as aulas e as tarefas, enquanto meus professores antigos distribuíam apostilas velhas e nada mais. O trauma pelo qual passo atualmente é que não consigo me concentrar por tempo suficiente para terminar as lições. Só consigo pensar em Scott. Fico querendo saber o que está acontecendo com ele e se posso ajudá-lo.
E se eu escrevesse um warm fuzzy para ele?
Quando Sadie me explicou sobre os warm fuzzies, ela parecia uma dessas idealistas iludidas que pensam que podem mudar o mundo. No entanto, percebo que fazer alguma coisa boa para alguém talvez seja o objetivo deles. É isso que significa importar-se com outra pessoa, mesmo que você não a conheça.
Ligo para April e conto a ela sobre o warm fuzzy.
— E então, você acha que devo escrever um para Scott? — pergunto.
— Por que não? Seria bonitinho.
— Você tem certeza de que não seria besteira?
— O bonitinho aniquila a besteira.
— Então é besteira!
— Desde quando você se preocupa tanto com o que os outros pensam? A Brooke que eu conheço faz suas próprias coisas, aconteça o que acontecer.
A Brooke antiga que April conhece ficou presa em New Jersey, desejando uma vida melhor. Este Novo Eu em Nova York está fazendo aquela vida acontecer. Estou me arriscando mais, me esforçando. Tenho muito mais coisas com que me preocupar.
— Eu contei que não aceitei sair com Robby Miller? — pergunta April.
— Não! Quando?
— Ontem.
Por que ela não me contou ontem? Nós sempre contamos as coisas uma para a outra imediatamente.
— O que você disse? — pergunto.
— Que eu não estava em uma fase de namoro agora.
— O que é uma fase de namoro?
— Uma coisa que inventei para não parecer grosseira.
— Você não é grosseira.
— Ah, não? Diga isso ao Robby Miller.
— Não temos culpa se gostamos ou não de alguém.
— Eu nunca vou ter um namorado. — April parece derrotada.
— Claro que vai — asseguro. — A questão é que você está rodeada de idiotas, é só isso. Não tem nada a ver com você.
— Droga! Mamãe está gritando para que eu arrume a mesa. Preciso ir.
— OK. Não se preocupe com Robby. Ele vai se recuperar... quando ele tiver mais ou menos 30 anos.
— Escreva aquele warm fuzzy já.
April está certa. Está na hora de parar de pensar e começar a agir.
Andar na rua de Scott é muito melhor agora que eu sei aonde estou indo. Colo o warm fuzzy abaixo da sua campainha. Depois, praticamente corro para casa para não me dar tempo de mudar de ideia. Usei um pedaço de papel cor de cereja que achei no meio dos meus papéis, não consigo me lembrar de onde veio. É como se esse papel vermelho estivesse esperando pelo dia que serviria para um propósito vital. E usei uma caneta preta metálica para escrever:
Scott
Estou aqui se você precisar de mim.
Pensando em você...
Brooke
Eu queria muito escrever “Com amor, Brooke”, mas isso poderia afugentá-lo. Pensei em usar “abraços e beijos”, como Sadie faz, mas não achei adequado. Por fim, só assinei meu nome, esperando que Scott não me ache uma completa idiota.
Scott não acha que eu seja uma completa idiota. Ou, então, está disfarçando muito bem.
— Muito legal você ter deixado aquele bilhete — diz ele, na classe, no dia seguinte. — Obrigado!
— De nada! É esse negócio de gentilezas ao acaso que estou fazendo com a Sadie.
OK, de onde tirei isso? É que eu não queria que Scott me achasse idiota.
Recado para si mesma: invente um botão para deletar falas.
Scott abre seu caderno com Dunder Mifflin na capa, mas hoje não precisamos fazer anotações porque temos uma substituta. O senhor Peterson deixou umas coisas divertidas sobre ilusão de ótica para trabalharmos em duplas.
Scott e eu aproximamos nossas carteiras e terminamos o trabalho em 15 minutos. Ficamos com o resto da aula livre.
— Você consegue fazer um dragão? — pergunta Scott.
— O quê?
— Um dragão de origami.
— Por favor, peça algo mais difícil!
Vasculho os papéis que estão no meio do caderno de Scott até encontrar um folheto de um time de boliche.
— Posso usar este?
— Você pode arrancar uma folha nova do meu caderno.
— Eu só uso papel achado. É mais estimulante.
— Você não usou um papel novo quando fez aquele copo?
— É porque ele ia usar para beber água.
Scott observa enquanto faço a dobradura de dragão. Fazer dragões é muito mais fácil do que parece. O certo é colar a cabeça no final. Em vez disso, pego uma fita adesiva da mesa do senhor Peterson. A substituta nem percebe, está muito ocupada com a revista People.
— Como você fez isso? — diz Scott, quando mostro o dragão. — Você nem precisou de um diagrama.
— Eu já vi o diagrama.
— Mas como você consegue se lembrar de tudo?
Não estou com vontade de contar isso a ele. É um segredo que estou determinada a guardar.
— Simplesmente consigo — respondo. — Qual vai ser o nome dele?
— Snuffleupagus.
— Muito bom!
— Nós tivemos um cachorro chamado Snuffleupagus.
— Foi você que colocou esse nome?
— Foi. Tivemos de sacrificá-lo.
— Ai!
— Foi há muito tempo. Eu tinha 7 anos.
Empurro o dragão de um lado para outro no caderno de Scott.
— Ele vai começar a soltar fogo? — pergunta.
— Não, é um dragão amigável.
— Um dragão amigável... Eu gosto desses.
— Sabia que você gostava, por isso...
— Você pode me ensinar a fazer?
— Você já fez origami antes?
— Nunca.
— Bem, então provavelmente devemos começar com uma garça.
— Garças são legais.
— Mas só se você me ensinar a fazer aqueles movimentos que faz com sua caneta.
Scott ri. Ele está rindo por minha causa.
Isso é demais!
— Negócio fechado — concorda.
Ensino algumas dobraduras básicas. Ele já está perdido. Tento mostrar a garça, mas é difícil para ele. Scott faz umas dobraduras irregulares e não consegue entender para que lado as partes vincadas devem ser dobradas.
— Não se preocupe — digo eu. — Levei uma eternidade para aprender.
Não é verdade. Origami sempre foi muito fácil para mim.
— Mudando! — Scott pega a caneta. — O segredo? Está no polegar.
Deve ser um segredo bem grande, porque, depois que Scott pacientemente demonstra sua técnica e eu arremesso a caneta para o outro lado da sala, fica óbvio que não conseguirei fazer aqueles movimentos giratórios tão cedo. O segundo incidente com a caneta voadora é particularmente alarmante. Tento girar minha caneta usando o mesmo movimento delicado e rápido que Scott usa quando, de repente, ela escapa e vai parar na mesa do senhor Peterson. Por pouco não acerta a perna da substituta. Ela ergue os olhos toda atordoada, como se tivesse esquecido que estava, na verdade, em uma sala de aula rodeada de alunos.
Decido que é melhor praticar em casa.
É interessante como uma coisa que é tão fácil para uma pessoa pode ser tão impossível para outra. Não que eu ainda fique surpresa, vi isso a vida inteira. Eu sabia que era diferente das outras crianças desde a época do jardim da infância. Uma psicóloga costumava me levar para outra sala para que ela pudesse “me conhecer”. Mesmo tendo apenas 4 anos de idade, sabia que aquilo era um código para ser testada. Havia alguns problemas de lógica, testes da mancha de tinta e mais um monte de testes de que não me lembro. Toda vez que ela vinha me buscar, me fazia lembrar o quanto eu era diferente. Tudo que eu queria era me entrosar. Mesmo naquela época, minimizava a importância do meu potencial, tentando esconder das outras crianças quem eu realmente era, para que elas pudessem gostar de mim.
Claro que as pessoas descobriam um dia. Você não consegue esconder seu verdadeiro eu para sempre, não importa o quanto tente. Acho que Scott nunca percebeu nada disso. Nossa escola era enorme e só tínhamos uma aula juntos. Naquela altura, eu me destacava por ser invisível. Os professores ficaram tão desapontados comigo que nem se davam ao trabalho de dizer alguma coisa na sala. Eles tentavam falar comigo em particular, mas ficavam desanimados quando eu não reagia do jeito que queriam. Na escola de ensino fundamental, os professores comentavam como eu era inteligente e, de repente, a classe toda estava me encarando. Todos os alunos tinham a mesma expressão: parte intimidação, parte inveja. Mas, eles ficavam principalmente, surpresos.
Não quero que ninguém me olhe daquele jeito novamente. Se isso significa que devo esconder quem eu sou, posso viver com isso. Passar despercebida é muito mais fácil que lidar com as consequências.