O pequeno grupo de inglês para o qual Sadie dá aula de monitoria acabou de receber uma leva de warm fuzzies. Sadie fez alguns enquanto estávamos ao telefone ontem à noite. Ela me ligou pedindo ajuda com um problema de cálculo e depois continuamos conversando. Sadie disse desejar que todos os seus alunos da monitoria fossem incentivados (se eles estiverem se esforçando) ou recompensados (se estiverem melhorando) com um warm fuzzy brilhante e personalizado. Observo quando Sadie os entrega, e é obvio que todos acham que são as coisas mais lindas do mundo.
John e eu estamos na nossa mesa de sempre. Como está chovendo, hoje não tem High Line. John teve um pequeno acesso de raiva, pois detesta quando temos de ficar aqui. Até sua camiseta está com raiva: tem um desenho simples de uma figura humana tendo um ataque de raiva e, embaixo, a frase: SEMPRE É ALGUMA COISA.
— Por que precisa chover hoje? — reclama ele. — Podia chover qualquer outro dia que não tivesse aula de monitoria. É tão injusto!
— O High Line vai continuar no mesmo lugar — asseguro.
— Isso é que é frustrante. O fato de ele existir e de continuar lá é uma provocação!
Uma das garotas do grupo de Sadie grita. Ela se levanta e abraça Sadie.
John dá uma olhada para elas.
— O que será que está acontecendo?
— Sadie está entregando warm fuzzies.
— Warm... o quê?
— São pequenos bilhetes que servem para deixar as pessoas felizes. Sadie está dando um para cada aluno de seu grupo.
John fica indignado:
— Por que você nunca me deu um warm fuzzy?
— Eu não sabia que você queria um.
— Considere-se avisada!
— Bem, então prometo lhe escrever um.
Como sempre, é um desafio manter John focado no trabalho. Dá para notar que ele realmente quer melhorar, porém, é difícil para ele manter a concentração em qualquer coisa por mais de alguns minutos, especialmente quando estamos trabalhando aqui dentro. No High Line, a energia e a agitação da cidade parece que o acalmam, o que entendo muito bem, porque sou do mesmo jeito.
— Como você consegue ser tão extraordinária em todas as matérias? — John quer saber.
— Acredite em mim, não sou.
— Uh, é sim! Você é o polo acadêmico oposto a mim.
Ele pega sua prova de História novamente, balançando tristemente a cabeça para ela. O “61” em vermelho, rabiscado no alto da folha, olha feio para ele.
— Tenho certeza de que você nunca tirou um D em sua vida. Nem um B.
— Na verdade, tirei muitos. Tirei até zero.
— Sério?
— É.
— Por quê?
— Você também tirou um D. Ds acontecem.
— Mas não deveria acontecer com você. Você pode se dar bem em tudo que quiser.
— A palavra-chave é querer. Eu não quero viver em uma bolha, fazendo tarefa, estudando e me preocupando com as aulas. Não é meu estilo.
John está intrigado.
— O quê? — pergunto.
Ele nada diz, só balança mais um pouco a cabeça, tristemente. É tão esquisito! Primeiro, o senhor Peterson, depois, April e, agora, John. Será que eles, de alguma forma, planejaram se unir contra mim?
Depois de alguns exercícios de trigonometria, John pergunta:
— O que você quer ser quando crescer?
— Não sei.
Novamente ele balança tristemente a cabeça.
— Por quê? — pergunto. — Você sabe?
— Claro! — responde ele, com um tom sarcástico. — Vou ser assistente social para ajudar outros jovens como eu.
John é a última pessoa que eu esperava que tivesse tanta convicção sobre que carreira seguir. Eu achava que, no máximo, ele ia relaxar em algum curso técnico por um tempo. Estou sem graça por tê-lo julgado precipitadamente.
Na verdade, estou com um pouco de inveja. Adoraria ter esta mesma certeza, este mesmo: “Eu vou ser...”, que é ainda mais consistente que o típico: “Eu quero ser...”. Detesto não saber o que quero fazer!
Eu quero saber. Só não sei como!
“Eu vim para cá por sua causa.”
“Nós pertencemos um ao outro.”
“Você está apenas começando a me conhecer, mas eu já estou apaixonada por você.”
As várias formas de contar a Scott por que estou aqui invadem meu cérebro constantemente. Elas me mantêm acordada à noite e não vão se calar enquanto ele não souber a verdade sobre nós.
Chegou a hora.
Desde o passeio à lanchonete, ficou óbvio que Scott e eu temos uma conexão. Ele deve sentir isso também. Afinal, se duas pessoas têm uma verdadeira conexão, isso deve ser evidente para as duas! Tem mais uma coisa: pode ser que Leslie tenha saído de cena. Eu os vi juntos, depois da aula, outro dia, e ela não parecia feliz. E, mais importante, nem ele.
Depois da monitoria, Sadie me chamou para ir com ela ao Strawberry Fields hoje à noite, aquele lugar no Central Park sobre o qual ela tinha me falado. É a cara de Nova York, então, é claro que eu disse que iria. John escutou e disse que queria ir também. Adoro esse jeito espontâneo da garotada daqui. Na minha cidade, todos planejavam as coisas com bastante antecedência. Aqui, a cidade é nosso playground e podemos brincar todas as vezes que quisermos.
OK, talvez não todas as vezes. Os pais das outras pessoas nem sempre as deixam sair, mas meu pai não disse “não” para nada ainda. Geralmente, ele nem está em casa quando quero ir a algum lugar. Só deixo um bilhete para ele e vou. Como ele não entende muito bem sobre essa coisa de ser pai, está me tratando como adulta. E sei que não devo reclamar. Porém, mesmo que eu jamais admita isso a alguém, às vezes, é reconfortante ter regras.
Caminho pela rua de Scott para ir para casa. É o caminho que geralmente faço quando não saio para fazer alguma coisa com Sadie depois da aula. Todas as vezes que passo pelo seu prédio, olho para cima, me perguntando qual será a janela dele. Desta vez, ele está sentado no degrau da porta da frente, comendo pretzels.
— Ei, você! — diz ele.
Meu coração bate forte no peito.
— Ei! — digo eu.
— E aí?
— Nós vamos ao Central Park mais tarde.
— Nós quem?
— Eu, Sadie e John, da monitoria. Você quer ir?
— Vocês vão só passear ou...?
— Tem um lugar onde as pessoas se reúnem e tocam músicas dos Beatles. É bem em frente ao lugar onde John Lennon morou.
— É?
— É. Deve ser legal.
— Deve ser legal mesmo. Estou dentro!
— Que bom! — digo eu, torcendo para estar agindo com naturalidade.
Isso é demais! Scott vai comigo. Nós podemos caminhar para casa juntos depois e, então, finalmente, vou contar a ele.
Se eu não vomitar.
Às seis, Sadie e John já estão esperando na estação do metrô.
— Scott vai conosco — conto a eles.
— Scott quem? — pergunta John.
— Scott Abrams. Provavelmente você não o conhece. Ele é novo.
— Eu sei quem é. Ele não é de New Jersey?
— É.
— Ele não é da mesma cidade que você?
— Hum, é.
— Ei, pessoal! — diz Scott, atravessando a rua. — Desculpem o atraso!
— Você não está atrasado — digo a ele.
John fica olhando para nós.
— Vamos! — diz Sadie, puxando John pelo braço.
Strawberry Fields é impressionante! É difícil explicar com palavras. É uma pequena clareira rodeada de árvores e bancos. No centro, tem um mosaico de azulejo no chão, onde está escrito: IMAGINE. Ramos de flores estão espalhados ao redor. Há gente por toda parte, algumas pessoas estão cantando junto com uns caras que tocam Hey Jude em seus violões, outras posam ao lado do mosaico, enquanto seus amigos tiram fotos, ou apenas passando por ali, absorvendo um pouco do ambiente.
Há somente um banco livre. Enquanto caminhamos até ele, noto que algumas garotas vêm do outro lado para se sentar ali também. Agarro o braço de Sadie e saímos correndo. Depois nos jogamos sobre o banco para guardar lugar para os garotos. John chega em seguida e força para se sentar entre nós.
— Ai! — grita Sadie.
— Desculpe! — diz John, saindo do banco.
Scott senta onde John estava. Como estou bem encostada em um cara hippie que está no banco ao lado, o único lugar que sobra para John se sentar é do outro lado de Sadie.
Sadie queria vir aqui hoje porque é aniversário de John Lennon. Deve ser por isso que está tão lotado! Na maior coroa de flores, há um cartão gigante em que está escrito: “Feliz Aniversário, John! Você viverá para sempre em nossos corações”. Será que alguém aparece aqui à noite para levar embora os cartões e as flores?
Nenhum de nós conhece as músicas dos Beatles, exceto Sadie, mas John e eu cantamos juntos alguns refrões. Scott não canta nada.
— Você não conhece nenhuma música deles? — pergunto a ele.
— Conheço algumas. Só não canto.
— Nunca?
— Nunca.
— Por que... Você não gosta de sua voz?
— É que não tenho ouvido para música.
— Isso pode melhorar com a prática.
— Ah, sou um caso perdido!
John está cantando o refrão de Let It Be bem alto.
Chego mais perto de Scott. Nada pode ser mais intenso que estar assim tão perto dele.
— Nada pode fazer John parar — sussurro.
Scott ri. Adoro quando ele me acha engraçada! Eu nem sabia que alguém me achava engraçada até o dia em que Scott me disse isso, enquanto caminhávamos para casa. Por isso, é claro que agora estou sempre pensando em alguma coisa para fazê-lo rir.
— Estou no meu momento de Olhar para Cima — John espalha.
Eu sei para onde ele está olhando. É para um jardim incrível, no alto de um prédio, com árvores e grama alta como a do jardim zen. Ele aguarda a confirmação de que o topo do prédio é mesmo impressionante.
Ainda estou espremida ao lado de Scott. É impossível me concentrar em qualquer outra coisa.
A energia deste lugar é inacreditável. Todas essas pessoas estão reunidas aqui com o mesmo objetivo: render culto no altar de sua religião musical. É como se estivéssemos compartilhando, por algum tempo, de um reino secreto e especial, antes de voltarmos para nossas vidas normais e sem graça. Do outro lado das árvores, é possível caminhar ao longo do Central Park West e nem notar este lugar. Percebo que Nova York está repleta de diversos enclaves isolados, onde as pessoas se reúnem para celebrar o que as faz se sentirem vivas. Não existe nada parecido na minha cidade. Aqui, a animação nunca acaba. É como uma droga.
— Olha o Danny! — grita Sadie. — Adoro aquele garoto.
Ela aponta para um garoto que tem mais ou menos a nossa idade e que acaba de se unir ao amontoado de violonistas. Danny não parece tão à vontade com seu violão quanto os outros.
Eu me debruço sobre o colo de Scott.
— Quem é ele? — pergunto a Sadie.
— Nos encontramos na última vez que estive aqui. Ele estava começando a aprender a tocar violão, um pouquinho antes do verão. Nem acredito que ele já esteja tão bom.
Nós todos ficamos assistindo ao Danny. Ele derruba sua palheta.
— Isso é uma ligação amorosa? — John quer saber.
— O quê? Não! Ele tem namorada. De qualquer forma, não é meu tipo.
Sadie me dá uma olhada de lado.
Eu gostaria muito de arrastá-la ao Rite Aid, empurrá-la até Carlos e forçá-la a convidá-lo para sair. Como se eu pudesse falar alguma coisa! Aqui estou eu, espremida ao lado de Scott, sussurrando ao seu ouvido e ele nem sabe como me sinto em relação a ele. Estou ainda mais frustrada do que ela, mas isso vai terminar, mais tarde, quando eu ficar sozinha com Scott.
Quando vamos embora, encontro um jeito estratégico de caminhar para casa junto com ele.
— E aí, pessoal, vocês vão para casa? — pergunto, enquanto caminhamos até o metrô.
— Infelizmente! — diz Sadie. — Ainda tenho que resolver os exercícios de cálculo, você acredita?
Eu terminei esses exercícios rapidamente, por isso, faço uma cara de “Será que a senhora Jacobs conseguiria ser mais sádica?”.
John me cutuca.
— Está uma noite linda para irmos ao High Line — diz ele. — Querem ir?
Olho rapidamente para Scott. Espero que ele não tenha visto John me cutucar.
— Humm...
— Não estou pressionando, eu vou de qualquer jeito, quero dizer, dã, eu moro ali, mas ficarei na rua por algum tempo.
— Eu iria, mas Sadie tem razão sobre a tarefa. É impossível.
Tanto John quanto Sadie olham para mim de um jeito estranho.
— O quê? — pergunto. — É impossível mesmo!
Que burrice! Tenho certeza de que, a essa altura, eles já sabem que nunca acho as tarefas impossíveis.
— Vocês não sabem o que estão perdendo — provoca John.
No metrô, indo para o centro, escuto apenas parcialmente a conversa, principalmente entre Sadie e John. Scott ficou meio quieto a noite toda. Estou tremendo na expectativa de caminhar sozinha com Scott quando chegarmos à nossa estação, graças ao meu plano perfeitamente executado para escapar de Sadie e John. John até desembarca antes, na 23rd Street, em vez de na 14th Street. Depois de sair do vagão, ele se inclina para dentro novamente, bloqueando a entrada.
— Última chance! — grita.
De todas as pessoas dentro do vagão que acabaram de ouvir John gritar, só uma olha para ele.
— Fica para a próxima — digo a ele.
— Promete?
— Prometo.
Toca o sinal de fechamento da porta. John se afasta rapidamente antes que a porta o esmague. A caminhada até o apartamento de Scott é estranha. Ainda estou tremendo. Estou tão nervosa com o que vou dizer e como vou dizer! Minha boca está seca. Sabia que deveria ter tomado água antes de sair do parque.
— Você está com frio? — pergunta Scott.
— Não, estou bem.
Eu poderia fazer um caminho mais curto até minha casa, mas falei para Scott que estava com vontade de andar um pouco mais.
Quando chegamos ao seu prédio, não tenho ideia de como começarei a me explicar.
— Então... estava legal — digo eu. — Você gostou?
— Gostei muito. Desculpe se pareceu que eu estava distante!
— Não, você não estava...
Ficamos ali nos degraus da frente do prédio, meio sem jeito: Scott em pé, um degrau acima, e eu me apoiando na grade. Tento nos imaginar como se esta fosse a cena de um filme, em que o perfeito final romântico está prestes a se desenrolar. Esta é a parte em que a garota conta ao garoto que está apaixonada por ele, e o garoto diz algo como: “Por que você demorou tanto tempo?” e, depois, acontece o primeiro beijo, aquele que você está esperando o tempo todo, e ele é tão perfeito quanto você esperava que seria.
Respiro para deixar a cena começar.
— É que... nós temos alguns problemas — diz Scott. — Coisas de família. Aconteceu uma coisa um pouco antes de me encontrar com vocês.
— Ah...
— É meu irmão, Ross. Ele é alcoólatra.
Que droga! Scott Abrams está mesmo me contando isso?
— Ele está fora, na faculdade. Ou estava. Abandonou o curso. Parou de ir às aulas, esse tipo de coisa. Ele tenta conservar os empregos, mas nunca consegue. Tem períodos que bebe demais e não aparece nas aulas...
Scott arranha seu sapato na escada.
— Depois liga para a minha mãe para pedir dinheiro. Ela costumava mandar um pouco, mas agora meu pai cansou. Ele isolou Ross totalmente, disse para ele não ligar mais.
— Isso é... ah, meu Deus!
— Nenhum de nós sabe o que fazer. Ele se recusa a ir para uma clínica de reabilitação e nunca durou mais do que algumas semanas no AA. Sou o único que ainda conversa com ele. Eu não quero, eu só... acho que devo. Você entende?
Balanço afirmativamente a cabeça.
— Então, é por isso que sei o que está acontecendo com ele. Ross acabou de perder mais um emprego.
— É por isso que você fica... assim? Às vezes, você fica meio triste e quieto na escola. É por isso?
— É. Não consigo fazer mais nada depois de falar com ele.
Scott passa os dedos no cabelo, olhando para baixo.
— OK, não tinha a intenção de descarregar tudo isso em você. Você deve estar...
— Não! Você está brincando? Fui eu que perguntei o que estava acontecendo, lembra?
— Obrigado por me ouvir e... tudo. Nunca falei com ninguém sobre Ross, acho que realmente precisava desabafar.
— Claro. Você pode desabafar comigo a qualquer hora.
Ele sorri, com tristeza.
— Eu sei que posso confiar em você.
— Fica entre nós.
Sentamos no degrau da escada do seu prédio em silêncio, observando as pessoas passando e as luzes piscando atrás das janelas. Acho que nós dois sentimos que seria estranho se eu fosse embora depois de tudo o que ele disse. Por isso, fico sentada perto dele, para que saiba que estarei sempre ao seu lado, sem precisar dizer nenhuma palavra.