16

Está ficando frio. Sabia que deveria ter posto um cachecol na minha bolsa antes de sair para a escola hoje de manhã. É o que Sadie teria feito. Ela sempre diz que eu deveria verificar a previsão do tempo todas as manhãs, mas realmente não consigo fazer isso.

— E aí, como ficou a tarefa? — pergunta John.

— Hum?

Tiro alguns livros e um caderno da minha bolsa e empilho tudo no banco grande e confortável que sempre tentamos pegar quando chegamos ao High Line. Pode ser que eu tenha um cardigã escondido em algum lugar aqui dentro.

— Aquela tarefa de cálculo que você tinha de fazer em vez de passear comigo?

— Eu terminei.

— Tenho certeza que sim.

Não tem nenhum cardigã dentro da minha bolsa. Está muito frio.

Recado para si mesma: sempre traga um cardigã.

— Você recebeu seu teste de trigonometria? — pergunto.

— Nós deveríamos ter recebido hoje, mas Richards ainda não deu a nota. Você tem muita sorte por não precisar fazer aula de reforço de matemática.

— Ah, todas as aulas são chatas, pode acreditar.

— Por que você odeia tanto a escola?

Apesar do meu ódio pela escola não ser nenhum segredo, ninguém nunca me perguntou o motivo. As pessoas sempre encaram isso como uma coisa normal, porque todo mundo também odeia a escola.

— Todo mundo odeia — respondo.

— É, mas é porque as pessoas têm de se esforçar. Você, não.

— Todos nós temos.

— Não você. Sinceramente, alguma aula já foi difícil para você?

Esfrego meus braços, tentando esquentá-los.

— De onde está vindo tudo isso?

John olha para mim. Ele olha para mim durante tanto tempo que começo a ficar nervosa.

— De nenhum lugar — diz ele. — Esquece!

— Você tem algum problema com o fato de que estou dando monitoria para você, mas não tenho notas melhores?

— De jeito nenhum. Você é a primeira monitora de quem eu acho que realmente obtenho a ajuda que preciso. E olha que ninguém teve mais monitores que eu até agora. Você tem ideia do quanto sou sortudo por ter encontrado você?

A antiga Brooke não teria dado muita importância ao que ele acabou de dizer, mas a nova Brooke acha que o que John disse é muito legal.

— Obrigada! — falo para ele.

Nós trabalhamos um pouco, para que eu possa dizer ao senhor Peterson que não enrolamos quando estamos aqui. Eu quero explicar a tarefa para John de um jeito que ele realmente entenda. Às vezes, ele diz que entende, mas, quando chega em casa, esquece tudo.

John sempre faz um milhão de perguntas. A princípio, isso era extremamente irritante. Agora, eu o admiro. Ele é tão motivado! Apesar das dificuldades para se concentrar e para escrever, nunca desiste. Sua carreira é tão importante para ele que nada consegue atrapalhar.

— Você vai ser um assistente social muito bom — digo.

John levanta os olhos da folha de exercícios. Ele sorri para mim. Eu sorrio de volta, tremendo de frio.

— Toma — diz ele, enquanto tira sua blusa preta com capuz e me entrega. — Vista.

John está usando uma camiseta cinza lisa sobre uma branca, de manga comprida e quente. Eu não sabia que ele tinha camisetas lisas.

— Você não vai ficar com frio?

— Cara, eu moro bem ali. Se ficar com frio, vou buscar outra blusa.

Ele não está brincando. John tem uma extensa coleção de blusas com capuz.

Eu visto a blusa. É bem macia por dentro.

— Melhor? — pergunta John.

— Muito!

— Você acredita que nós já viemos aqui umas cinco vezes e nunca reparamos na melhor caixa-d’água elevada?

— Eu reparei. Comentei com você na última vez, ou na penúltima.

— Acho que não.

— Lembra que você ficou falando: “A caixa-d’água elevada com a torre grossa é a melhor!”, e eu discordei dizendo que a estreita era melhor?

— E depois você concordou comigo sobre a torre grossa... Sim, me lembro.

— Não, eu não concordei.

— Ah, acho que concordou!

— Bem, então você está pensando errado.

— Isso é que é uma monitora que apoia. Quanto estão pagando para você mesmo?

— Muito engraçado.

— Agora é sério. Olhe para cima.

Se eu não olhar, John ficará me atormentando. Olho para cima.

— Qual, aquela pequena? Ela é bonitinha, mas é meio comum.

— Não é ela. — John se curva atrás de mim e aponta para que eu possa ver exatamente qual é a torre. — É ela.

Parece que ele está apontando para uma torre enorme, imponente, com vista para o rio.

— Mas essa é velha!

É uma coisa antiga, de metal escuro. Parece uma sombra de
si mesma.

— Espere até ele aparecer — diz John.

— Quem?

— Ele.

Alguns minutos mais tarde, o sol passa por trás da torre. O efeito é como um eclipse total, com a torre bloqueando o sol. A luz irradia para fora com brilhantes raios vermelhos e laranja.

— Uau!

— Obrigado, eu mesmo providenciei isso!

— Como você sabia que isso ia acontecer?

— Depois de passar tanto tempo olhando pela janela, como eu, você nota tudo. — John examina o relógio. — Quatro e 37... pontualmente, para o dia 10 de outubro.

As coisas que John tem de suportar na escola devem ser muito difíceis de lidar. Sei o quanto os alunos podem ser cruéis com alguém que eles acham que é “devagar”. Já ouvi os comentários na sala de aula quando os professores chamam um aluno que demora a entender as coisas. E nós todos já vimos crianças serem atormentadas porque são diferentes. John nunca me disse nada, mas dá para perceber que aguenta muito mais do que revela. Fico incomodada de saber que as pessoas o julgam, mas o que mais odeio mesmo é lembrar que eu costumava ser uma delas. Eu via a dificuldade dele em fazer até os exercícios mais fáceis e presumia que não era inteligente. Isso não é verdade. John é mais inteligente que a maioria das pessoas que conheço.

— Nós podemos ir até lá em cima — diz John —, se você quiser.

— Aonde?

— Àquele telhado. Aí você pode ver a caixa-d’água elevada de perto. É incrível, tem até uma escada por onde podemos subir.

— Adoro telhados!

— Claro que gosta. E aí... está pronta?

Nós vamos. John indica o caminho por algumas ruas em ziguezague e vai mostrando as portas de garagem de madeira polida, que antes eram a entrada de estábulos, e prédios que tinham abrigo contra poeira radioativa. Então ele diz:

— É aqui.

Não pode ser aqui. Eu estava esperando um cortiço caindo aos pedaços, com a porta de trás destrancada para podermos entrar de mansinho. Estamos diante de um prédio totalmente reformado. É de vidro e madeira, com um lobby luxuoso e um porteiro. Não nos deixarão entrar de jeito nenhum.

John toca uma das campainhas, acenando para o porteiro. O porteiro acena de volta.

— Você conhece o porteiro? — pergunto.

— Sou bem relacionado.

Alguém, que não é o porteiro, aparece. É um rapaz mais velho, vestindo uma camisa de trabalho marrom e jeans. Um paninho azul surrado está saindo do seu bolso traseiro. Tem uma argola enorme, cheia de chaves, presa ao cinto.

— Como vai, John? — pergunta ele.

— Tudo bem. Elias, esta é Brooke. Brooke, este é meu amigo, Elias.

— Oi! — cumprimento.

— Prazer em conhecê-la! — Elias diz, segurando a porta aberta para nós. Depois, nos leva ao elevador e nos deixa subir até o telhado.

— Como você conhece Elias?

— Era nosso zelador. Acho que este emprego é melhor para ele. Aqui ele tem um apartamento para morar e não paga aluguel.

Uma coisa legal sobre John é que seus amigos são, na maioria, pessoas mais velhas do bairro. Levei um tempo para descobrir quem eram os seus amigos porque, geralmente, não o vejo com ninguém na escola. Acho que ter amigos adultos deixa você com esta aura experiente. Durante as aulas de monitoria, John geralmente me conta alguma coisa fascinante que algum dos amigos fez. Fico aguardando suas histórias ansiosamente.

O telhado é mais que incrível. Nem consigo acreditar. Aqui em cima, no terraço, encontramos árvores enormes, flores, gramado, mesas e cadeiras, tudo projetado para parecer um jardim de alto nível. Só que é muito melhor que um jardim. Daqui, é possível ver tudo: a iluminação das ruas, as calçadas e as pessoas, além de muitos outros prédios. Eu poderia ficar aqui para sempre, observando a cidade respirar abaixo de nós, a noite virar dia e novamente virar noite.

— Isso é impressionante! — fico olhando, extasiada.

— Obrigado! Obrigado! Sem autógrafos, por favor! — John pega minha mão. — Venha aqui.

Nós vamos até a beira do telhado, que é contornado por um muro de cimento. O muro tem uma altura perfeita para você se apoiar sem ter a sensação de que vai cair. Então me apoio nele e olho para baixo, para as ruas. Ouço o barulho distante do tráfego, bem ao longe. Tento encontrar minha cidade, do outro lado do rio, sentindo uma enorme nostalgia. Não que eu queira mudar para lá novamente, mas uma parte de mim estará sempre lá.

Costumava ter uns sonhos intensos, em que eu observava a linha do horizonte de Nova York brilhando à noite. Nesses sonhos recorrentes, acordava no meio da noite, ia até a janela e puxava a cortina para o lado. Bem diante de mim, havia uma parede de prédios, todos enormes, com um milhão de janelas acesas brilhando para mim. Tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe!

Agora estou aqui. E a energia da cidade está me deixando mais viva.

— Você está quieta — John comenta.

— Estou impressionada.

— Fiquei assim na primeira vez que subi. Passei a noite toda aqui só para ver o nascer do sol.

— Cale a boca! Eu estava pensando exatamente nisso.

— Nós podemos fazer isso quando você quiser.

— Sua mãe permite que você fique fora a noite toda?

— Tenho certeza que ela abriria uma exceção. Não fui totalmente sincero com ela da última vez. Acho que falei que ia passar a noite na casa de um amigo. E seu pai? Ele a deixaria passar a noite fora?

— Como se ele reparasse! — Paro de observar a vista e olho para John, que está debruçado no outro muro perto de mim. — Sempre quis morar aqui.

— Jura?

— É verdade, há muito tempo.

— É por isso que você se mudou?

Como devo responder? Quero dizer, é e não é. Se eu não quisesse tanto morar em Nova York, será que teria vindo atrás de Scott? Ou será que o segui porque há muito tempo morar aqui era o que eu queria?

— Não exatamente — respondo.

John não me pressiona. Ele diz:

— Você está diferente de quando chegou aqui. Você era... você está mais condescendente, acho.

— Muito obrigada!

— Você sabe que, quando nos conhecemos, você era mais mal-humorada. Hoje já não é mais tanto assim.

Ele está certo. É a energia. O fato de que aqui tudo é possível me faz querer ser uma pessoa melhor.

Lá em New Jersey nunca me senti verdadeiramente em casa. Eu vivia irrequieta, precisando da agitação da vida na cidade grande. Agora estou cercada de tudo que sempre desejei. E, o melhor de tudo: eu me sinto como se, finalmente, tivesse encontrado meu lugar.