20

Os últimos dois meses não poderiam ter se escoado mais rápido! Os feriados passaram depressa, alguns aqui, outros em minha cidade. Neste ano, mamãe fez o Natal em nossa casa, por isso a família inteira, inclusive tios e primos, invadiram nosso território. Eu só conseguia pensar em voltar para Scott.

Eu tinha esperança de que as críticas de mamãe parassem temporariamente, já que era uma ocasião especial, porém, nem tanto. Tivemos variações da mesma conversa todos os dias. Uma típica era assim:

Mamãe: “Você terminou de preencher aqueles requerimentos para a faculdade?”

Eu: “Você me perguntou isso ontem.”

Mamãe: “Estou perguntando de novo.”

Eu: “Faltam dois, com prazos mais longos.”

Mamãe: “O que está esperando? Você deveria aproveitar o feriado para fazer isso!”

Eu: [silêncio]

Mamãe: “April vai se candidatar, com antecedência, à Worthington University. Sabia disso?”

Eu: “Hum, sim.”

Mamãe: “Ela vai fazer o curso preparatório para a faculdade de Medicina. Sua mãe deve estar tão orgulhosa!”

Eu: [silêncio]

Mamãe: “Deve ser maravilhoso, para ela, saber o que quer fazer da vida.”

Interminavelmente. Foi mais que irritante a forma como ela assumiu que serei sempre esta perdedora sem rumo. Não me dei ao trabalho de lhe contar que estou quase descobrindo o que quero fazer.

Também foi enervante perceber como o ritmo da minha cidade é lento! Não havia notado antes. É como se todos na cidade se movimentassem em câmera lenta, como se ninguém tivesse nada de importante para fazer. Parece que ninguém se sente suficientemente motivado pelo que a vida tem para oferecer para querer chegar lá. Eles até falam mais devagar! Curioso é que nada disso costumava me incomodar, mas agora me irritou profundamente.

April me convidou para ir até a casa dela. Fui visitá-la e Candice não apareceu. Ela ainda não queria me ver.

— Você não pode culpá-la — disse April.

Seu quarto estava diferente: a antiga estante de livros fora substituída por prateleiras embutidas, os livros estavam todos enfileirados e dava para ler a lombada de cada um deles. Antes, ficavam em pilhas de dois ou três.

— Não pensei que ela ficaria brava comigo durante tanto tempo — disse eu.

April ficou quieta.

As coisas entre nós não estavam mais do mesmo jeito. Não mesmo. Eu tinha esperança de que, quando nos víssemos novamente, as coisas voltariam a ser como antes. Afinal, além da minha mudança para Nova York, o que havia acontecido? Ainda somos as mesmas pessoas, portanto, ainda deveríamos ser melhores amigas. Só que não somos. E não sei se algum dia seremos novamente. Sobretudo depois que April foi, novamente, indelicada comigo. Ela basicamente me acusou de estar esnobe por conta da minha “nova vida na cidade grande” e reclamou que me gabava dizendo que o Joe era melhor que o Bean There. Eu não tinha muito mais o que dizer depois disso. Por isso, não via a hora de os feriados acabarem.

É um alívio tão grande estar de volta! Estar com Scott novamente vai fazer toda a irritação ir embora. Ao menos, é o que espero. As coisas entre nós não progrediram nem um pouco. Eu esperava que, com o tempo, a relação evoluísse, que ele começasse a se abrir mais comigo e nós nos conectaríamos mais profundamente. Os garotos não demoram mais tempo para ficarem íntimos em relacionamentos? Bem, mas o que há entre nós ainda não parece profundo o bastante.

Se eu fosse dolorosamente sincera comigo mesma, nem chamaria de relacionamento. Tenho a impressão de que isso nunca vai ser como quero. A menos que ele tenha mudado depois dos feriados. Quem sabe Scott só precisasse de um tempo sozinho para perceber o quanto eu significo para ele...

Normalmente não sou desse jeito. Nunca levei tanto tempo para adormecer, fico deitada com uma horrível sensação de angústia no estômago, imaginando todas as coisas que tenho medo de dizer. Guardar tudo está me enlouquecendo! Planejo falar para Scott tudo que está me incomodando, assim que nos encontrarmos, mas quero lhe dar mais uma chance. Pensei nele durante todo o tempo que estivemos separados. Tenho certeza que ele pensou em mim também.

Encontrar o presente certo para Scott foi meu principal objetivo durante os feriados. Nós íamos trocar presentes antes da minha partida, mas Scott disse que não teria a oportunidade de me comprar nada. Talvez ele tenha dito isso para que eu fique surpresa com o presente muito legal que vai me dar. Ele deve saber, desde o princípio, exatamente o que quer comprar para mim.

Quando a campainha toca, saio do quarto correndo para curtir Scott. Meu coração dispara quando escuto seus passos se aproximando no hall. Escancaro a porta antes que ele possa bater. E ali está Scott: sorrindo e segurando meu presente.

— Senti sua falta — digo eu.

— Senti sua falta também.

Então começamos a nos beijar e fomos para meu quarto. Durante as próximas horas, me esqueço dos nossos presentes e todos os ressentimentos se evaporam.

Finalmente, Scott diz:

— Estou morrendo de fome.

— Você quer pedir alguma coisa?

— Quero. É tão legal que seu pai a deixe fazer isso!

— Como se ele tivesse escolha! Você sabe que ele nunca está em casa na hora do jantar, e eu não cozinho.

Puxo Scott da minha cama e o levo até a cozinha. O presente foi abandonado perto da porta quando ele chegou aqui. Eu o teria posto embaixo da árvore, se nossa árvore fosse suficientemente grande para isso. Esta árvore é constrangedora. É uma pequena árvore artificial que papai comprou alguns dias antes do Natal. Como ele nunca está aqui no Natal, pois sempre vai à casa do meu tio em Massachusetts, é a primeira vez que ele compra a própria árvore. A árvore fica na extremidade de uma mesa e parece triste. É prateada. Entendo que uma árvore grande, como a que tínhamos em casa, não daria certo neste apartamento, mas ele não poderia ao menos ter comprado uma árvore verde, embora artificial? Mas parece que papai gostou desta e eu pude escolher os enfeites, por isso não está tão horripilante.

Enquanto Scott examina os cardápios de comida para viagem, levo meu presente até o sofá para fazer uma inspeção. Dá para ver que ele mesmo o embrulhou. As extremidades estão tortas e ele usou muita fita adesiva. Isso me faz amá-lo ainda mais.

— Que tal pizza? — pergunta Scott.

— Pizza é legal.

— De quê?

— Qualquer uma que você queira está bem.

Tento adivinhar o que é o meu presente pelo tamanho da caixa, que eu poderia classificar como tamanho médio-pequeno: grande demais para ser uma joia, pequeno demais para ser uma bolsa. Não tem o formato certo para ser um livro ou um DVD. Poderia ser...

— O que você acha que está fazendo? — Scott diz, de repente, atrás de mim.

— Nada. — Olho fixamente para ele com olhos arregalados, toda inocente. — Estava só olhando... Não abrindo.

— Tem certeza disso?

— Absoluta. Veja! — Levanto o presente.

— Humm. Bem, pedi a pizza, os presentes estão em casa. Acho que está na hora.

— Oba! — Corro para o quarto, pego o presente de Scott e pulo de volta no sofá. — Parece Natal, tudo de novo! Só que, desta vez, não é uma porcaria!

— Pena que sua ida para casa tenha sido tão ruim! Todas as vezes que você ligava, eu tinha vontade de ir até lá resgatá-la.

— Não se preocupe! Acabou. Bem, Nova York é minha casa agora.

— Você realmente acha que estará aqui no ano que vem?

— Sim. Quero dizer, espero que sim.

Por que ele disse “você estará aqui no ano que vem” em vez de “nós estaremos aqui no ano que vem”? Pensei que estávamos planejando ir para a mesma faculdade ou, pelo menos, faculdades próximas. É por isso que nos inscrevemos para as mesmas faculdades em Manhattan.

Reprimo os maus pressentimentos.

— Quem vai ser o primeiro? — pergunto.

Não sei se estou mais empolgada para ver Scott abrindo seu presente ou para abrir o meu.

— Pode ser você.

— Não, vai você.

— Tem certeza?

— Claro! — grito, pulando no sofá como se tivesse 3 anos de idade. Não vejo a hora de ele ver como é perfeito seu presente.

Scott abre o pacote. Eu estava mais ou menos esperando que ele dissesse alguma coisa, afinal, passei meia hora escolhendo o papel e o laço certos. Ele viu o laço? O laço era uma obra-prima.

— Ah, uau! — exclama ele.

Após intermináveis deliberações a respeito do presente perfeito, decidi comprar um mousepad do Dunder Mifflin e uma caneca com a frase: “O Melhor Chefe do Mundo”, igual à que aparece na série. É engraçado porque, a princípio, eu decidi comprar coisas do Office para ele, mas depois fiquei preocupada, pois não seria uma surpresa. Então passei horas indo às lojas com meus primos durante os feriados, à procura do perfeito presente inesperado: um presente tão perfeito que ele nunca adivinharia, nem perceberia, que era aquilo que desejava. Mas, no final, confiei no meu primeiro instinto. Eu queria que o presente fosse usado todos os dias e que ele adorasse.

Scott dá risada da caneca.

— Muito engraçada!

Ele pega o mousepad.

— Eu já tenho um mousepad.

— Eu sei, mas aquele está tão velho! E sabia que você adoraria este.

— Obrigado!

— Você adorou, né?

— Tanto quanto é possível se gostar de um mousepad.

Que droga! Sabia que deveria ter comprado alguma coisa mais pessoal. Sou tão idiota!

Reprimo os maus pressentimentos mais um pouco.

— Sua vez — diz ele.

Quando desembrulho meu presente, fico parada ali. Deve ser um engano.

Eu só digo:

— Chocolate com pimenta caiena?

— Então! Você acredita que fabricam isso?

— Humm. Não, realmente não acredito.

— Experimente um.

Quem é este garoto e o que ele fez com Scott Abrams? Ele sinceramente acredita que eu gostaria de alguma coisa tão horrorosa quanto chocolate com pimenta caiena? Quando me viu comer alguma coisa tão nojenta assim?

Então, entendo: deve ser uma brincadeira. É uma brincadeira e ele está escondendo meu presente verdadeiro em algum outro lugar.

— Ha, ha... Muito engraçado! Pode me dar — digo eu.

— O quê?

— Você sabe o quê.

— Acho que não.

Scott está sério. Ele realmente me deu isso de presente de Natal. Eu passei horas, angustiada, tentando decidir qual seria o seu presente perfeito e o que ele faz? Me dá uma coisa que eu nunca comeria, nem daqui a um milhão de anos.

Será que ele sabe quem sou eu?

Aquela reviravolta no estômago, que me mantém acordada todas as noites, volta com toda força. Coloco minha mão no estômago, torcendo para que os maus pressentimentos desapareçam.

Tiro um chocolate e leio o rótulo.

— Exótico. Onde você encontrou este tipo de... chocolate?

— No shopping, ontem — diz Scott, parecendo satisfeito consigo mesmo.

Ele foi ao shopping, ontem, comprar meu presente? Ontem? Ele teve toda a porcaria do feriado e foi... Quer saber de uma coisa? Não tem a menor importância! É apenas um presente bobo. Desde quando coisas materiais são importantes? Por que estou agindo como uma princesa?

Talvez seja porque uma pessoa que me conhecesse do jeito que eu gostaria de ser conhecida jamais me daria um presente tão “nada a ver”.

Não estou falando de um chocolate horrível, e sim da verdade que fico tentando reprimir, mas que continua vindo à tona. Já sei como vai ser o resto da noite: assistiremos à TV enquanto comemos pizza, não nos olhamos nem conversamos. Depois, transamos novamente, se meu pai não estiver em casa ainda. Se ele estiver, Scott vai embora. Ele não fica aqui só para estar comigo. Nós não conversamos sobre nada importante. Scott costumava falar sobre o irmão ou desabafar sobre as dissertações para a faculdade. Parecia que ele se abria mais comigo, me deixando entrar em sua vida de um jeito verdadeiro. No entanto, não consigo me lembrar da última vez que falou sobre alguma coisa tão séria assim.

Mas nós não vamos terminar. Não me mudei para cá para as coisas não darem certo. Amo Scott há tanto tempo! Não podemos continuar desse jeito.

Bem na hora que tento descobrir como resolver o problema, uma pergunta irritante não me deixa em paz. Se era para as coisas mudarem, isso já não deveria ter acontecido?