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As noites de domingo sempre vêm com uma sensação de angústia, de ruína iminente. É por isso que as segundas-feiras são intrinsecamente chatas. Todo mundo fica esgotado e irritadiço, só esperando chegar sexta-feira novamente. Como se as segundas-feiras já não fossem suficientemente ruins, é claro que trabalhamos em duplas hoje na Caixa. Pena que a aula que costumava ser a melhor de todas seja agora a pior. Só precisou de uma pessoa para estragar tudo. Por causa de Scott, tudo na escola está uma droga, mais do que já era, o que torna muito difícil manter minha nova atitude academicamente motivada.

É um absurdo como antes eu fazia qualquer coisa para estar com Scott e hoje detesto estar aqui com ele. Enquanto isso, Scott parece bem.

Por baixo de todo o esforço que faço para dar uma virada na vida, me sinto um caos. Só se passaram seis dias desde que terminamos. Tento preencher o vazio com novas prioridades, novos planos, novos objetivos e estou realmente empolgada com o futuro, porém, meu coração ainda dói. É uma dor constante que tira a energia para fazer todas as outras coisas. Não consigo me imaginar me sentindo normal novamente.

— E aí... — Scott dá uma olhada na folha do projeto que temos de fazer. — O que você acha?

O que eu penso é o seguinte:

“Acho que me mudar para cá por sua causa foi a coisa certa a fazer.

Acho que você terminou comigo porque tem medo de ter alguma coisa verdadeira.

Acho isso irritante”.

— Acho que você vai voltar a namorar Leslie — digo.

Não sei de onde saiu isso. Fiquei pensando se um dos motivos para Scott ter terminado comigo não foi porque ele poderia voltar a ficar com a Leslie. Faria sentido. Leslie é divertida, eu sou séria. Leslie é simples, eu venho com bagagem. Leslie não é tão estressada com relação ao rumo das coisas, simplesmente fica feliz que as coisas estejam indo para algum lugar.

— Ah, não! — diz Scott. — Não vou.

— Não vai?

— Por que você acha isso?

— Não sei. Porque você estava dizendo que queria que as coisas continuassem casuais. Ela parece... descomplicada.

— Ela é. É por isso que não estou interessado.

— Pensei que você quisesse uma descomplicada.

— Eu queria você.

— Então por que...?

— Foi você que não me quis.

— Claro que eu queria você!

De repente, os outros alunos sentados perto de nós param de conversar. Finjo que estou concentrada na folha do meu projeto. Quando eles recomeçam a conversar, eu pergunto:

— Por que está distorcendo tudo?

— Era você que estava infeliz com a maneira como as coisas estavam. Você queria um compromisso sério e tudo.

— Você não acha que Leslie queira isso? Todas as garotas querem!

— Você tem ideia do quanto a Leslie se sente ameaçada por você?

— Muito engraçado.

— Ela se sente mesmo. Ela percebia que eu gostava de você mais do que eu admitia. Ou mais do que sabia. É como se ela soubesse o que ia acontecer entre nós muito antes de mim.

— Ah.

— É por isso que ela sempre mencionava você em conversas aleatórias, como se estivesse tentando testar minha reação ao ouvir seu nome.

— Como você sabe tudo isso?

— Ela me escreveu o e-mail mais longo do mundo logo que comecei a ficar com você. Não sei por que o enviou. Ela sabia que eu tinha escolhido você.

— Ela estava tentando recuperar você.

— Bem, era tarde demais.

Será que Scott está tentando dizer que também está tarde demais para nós? Porque ele está falando de um jeito, como se a culpa pelo término fosse mais minha do que dele. O que é ridículo. Só que... Será que eu ia querer voltar com ele? Há uma semana, teria dito “claro que sim”. Agora, não tenho tanta certeza.

Tenho pensado em tudo e acho que não gostava da pessoa que eu era com Scott. Quero dizer, ser sua namorada foi incrível, mas ficava insegura perto dele. Nunca tinha ficado insegura perto dos garotos antes. Todas as vezes que o telefone tocava, sentia uma forte adrenalina porque poderia ser Scott, mas também havia uma pontada de medo. Medo de que estivesse me ligando para dizer que não pertencíamos um ao outro. Nunca o senti completamente meu. Eu não podia contar com ele do jeito que posso contar com John.

John luta por mim, aconteça o que acontecer. Ele continua tentando derrubar as minhas paredes, nunca desiste de quem sou ou de quem eu poderia ser, não foge quando as coisas ficam complicadas. Mesmo quando John estava bravo comigo, não deixou que isso o impedisse de se importar comigo.

Sabe de uma coisa? Eu poderia passar o resto da vida perseguindo aquela sensação incrível que eu tinha, bastava pensar em Scott. Atração física forte assim é viciante. E saber que esse tipo de mágica não é apenas uma fantasia me faz querer encontrá-la novamente. Mas que tal estar com alguém que me faça ser uma pessoa melhor? Que tal compartilhar minha vida com alguém que me adore tanto quanto eu o adoro, com quem possa contar sempre, que me ajude a encontrar o caminho quando estiver perdida?

Se eu pudesse encontrar tanto atração física intensa quanto forte apoio emocional em um garoto, seria perfeito. Mas se tiver que ser uma coisa ou outra? A escolha é óbvia.

Quando minha mãe liga, geralmente tento encurtar a conversa. Acho que quanto menos tempo ela tiver para me insultar, melhor.

Desta vez é diferente.

Acabei de lhe contar sobre a reunião com a consultora de faculdade e a visita à NYU, e que eu quero ser uma planejadora urbana.

— Que maravilha! — diz mamãe. — Parece que você tem muitas novidades.

— Eu tenho.

— Estou aliviada que você esteja descobrindo as coisas.

— É. Afinal, talvez eu não seja uma perdedora.

— Quem disse que você era uma perdedora?

— Você. Ou melhor, você insinuou. Sempre dizia que não estava me esforçando o suficiente. Parecia que tinha desistido de mim.

— Eu dizia essas coisas porque queria mais para você, Brooke.

Ela parece magoada. Agora estou me sentindo mal.

— Não, você estava certa. Eu não estava me esforçando o suficiente e agora isso mudou. Mas por que você tem que ser tão crítica o tempo todo? Por que você não pode me apoiar mais? Você diz que está tentando me ajudar, mas isso só faz com que me sinta pior!

Mamãe não diz nada por um bom tempo.

— Mamãe?

— Lamento ser tão dura com você — diz ela, com a voz falhando no você. — Só quero que você seja bem-sucedida.

— Você pode parar de se preocupar. As coisas estão dando certo agora.

Silêncio desconfortável.

— Bem — diz ela —, você acha que virá para casa na pausa do inverno?

— Não tenho certeza.

— E na da primavera?

— Talvez eu fique aqui nas duas. Preciso muito resolver tudo.

— Ah. Bem, se não vier para casa, eu a verei na formatura. Mas seria legal vê-la algum dia nos próximos cinco meses.

Entendo que isso seja difícil para ela, mas ter voltado para lá no intervalo do Natal foi insuportável. Parecia que eu estava dando um passo para trás, quando tudo que queria fazer era continuar caminhando para frente. Nova York é minha casa agora. “O Saber” me diz que farei faculdade aqui. Não terei de sair daqui a menos que eu queira, e não consigo me imaginar desejando isso um dia.

— Você pode me visitar — sugiro.

— Está sendo um grande ano para você. Eu não queria ter perdido isso.

— Você não perdeu, mamãe! Eu contei tudo para você.

Tudo, exceto o que aconteceu com Scott. Não ia contar nada para ela, mas precisei contar porque papai sabia. Existia a possibilidade de que ele contasse para mamãe. Então, disse a ela que Scott era um garoto que conheci aqui. Scott concordou em dizer a mesma coisa ao meu pai se o assunto surgisse algum dia. Por sorte, papai simplesmente presumiu que ele fosse de Nova York.

— Você ainda está se dando bem com seu pai?

— Quase sempre, mas sinto muita falta da sua comida.

Mamãe dá risada.

— Nunca pensei que a ouviria dizer isso.

— Ah, estou dizendo.

— Até do meu bolo de carne?

— Especialmente do seu bolo de carne.

Mais silêncio desconfortável.

— Bem — digo —, preciso desligar.

— Ligue se precisar de mim.

Dá para perceber que ela está triste por estarmos separadas. No entanto, de certa forma, a distância está nos ajudando. Às vezes você só precisa de espaço para valorizar o que tem.