27

Eu achei que seria complicado dar aula de monitoria para John a partir de agora, mas parece a mesma coisa de sempre. Pelo menos para mim.

John não está mais bravo comigo. Na noite em que dormi na casa dele, ele sentiu muita pena de mim. Meu pai e eu não falamos mais do que três palavras um para o outro desde a nossa briga, e isso foi há uma semana.

John está fazendo um curso preparatório para o SAT. Já fez o curso no ano passado, mas sua mãe quer que ele faça os SATs novamente para tentar alcançar uma nota maior. Tenho de ajudá-lo a fazer simulados até o dia da prova, em março. Estamos trabalhando com esta dissertação na seção de escrita há uma eternidade. Querem saber se as recordações ajudam ou atrapalham o sucesso.

— Qual é a figura geométrica que é... — John tenta se lembrar — aquela que tem os lados que são todos... um romboide.

— Como um paralelogramo?

— Só que os lados não são paralelos.

— Você quer dizer um losango?

— Não, aquela coisa com...

— Um trapezoide?

— Isso! — John bate na mesa com força. — Isso!

— Vocês dois podem falar mais baixo aí? — brinca Sadie da outra mesa. — Tem gente tentando aprender aqui.

— Romboide. — John informa Sadie e faz sinal de positivo com o polegar para ela. Depois escreve tudo aquilo que ele tentava dizer sobre recordações.

Enquanto termina a dissertação, vou fazer uma pergunta ao senhor Peterson. Só que não é uma pergunta de verdade, é apenas uma desculpa para enfiar uma coisa em sua bolsa. Quando ele vira de costas para pegar um livro da estante, deixo cair uma cópia do meu boletim escolar dentro da sua bolsa de mensageiro aberta. Tem um warm fuzzy colado nele, agradecendo por ter me pressionado para ser melhor. De todos os professores e outros profissionais da escola que me pressionaram, durante todos esses anos, para que eu melhorasse, o senhor Peterson foi o único que realmente me deu um motivo verdadeiro para fazê-lo.

Após a monitoria, saio com John e Sadie, como sempre, mas, em vez de Sadie e eu caminharmos juntas para casa, John espera até que ela vá embora. Aí ele pergunta:

— Posso ir a seu apartamento?

— Para quê?

— Nossa, não sabia que precisava de um convite com meu nome gravado.

— Não, é claro que pode ir! É que você nunca foi lá antes.

— Exatamente. Você já foi duas vezes ao meu. Não acha que eu tenho de me nivelar?

Então, John vem a minha casa. Como sempre, papai ainda está no trabalho.

— É tão tranquilo aqui! — comenta John. — É sempre assim?

— Quase sempre. Meu pai trabalha até tarde.

— Que coisa boa! Eu nunca fico com o lugar só para mim. Mesmo que sejamos só eu, minha mãe e Hailey, parece que existem oito pessoas lá. Deve ser alguma coisa relacionada a garotas. Com garotas por perto, sempre parece que há mais gente. OK, por que estou falando isso? Aquele preparatório para o SAT fritou meu cérebro.

Vamos ao meu quarto. Se soubesse que John viria... Está um desastre aqui dentro.

— Você tem o grampeador do Office Space! — grita John.

— Tenho?

Ele vai até minha escrivaninha e o pega.

— Eu não sabia que você tinha isso!

— Nem eu. Só sabia que era um grampeador.

— Este não é um velho grampeador qualquer. É vermelho, uma edição especial da empresa Swingline. Lembra-se daquele pôster que eu tenho, do grampeador vermelho soltando fumaça?

— Ah, sim. Eu gosto dele.

— Onde você conseguiu este?

— Foi a designer de interiores do meu pai que escolheu.

John está obcecado pelo grampeador.

— Por que você não compra um? — pergunto.

— Ah, vou comprar. Nunca me ocorreu, bem, simplesmente comprar um. Este é tão legal!

Coloco uma música. John se esparrama na minha cama e eu fico com o almofadão.

— Escute — diz ele —, sabe aquela coisa que lhe disse quando você dormiu no meu apartamento?

— Você quer dizer sobre...

— É, aquilo. Esqueça tudo. Apague aquilo do seu grande cérebro.

— Sadie é a única que tem permissão para dizer que meu cérebro é grande.

— Não, ela me deu privilégios. Enfim, quero que você finja que nunca ouviu aquilo.

— Ouviu o quê?

— Você sabe sobre o que estou falando?

— Sim, eu quis dizer... esqueça isso!

— Ah! Assim... OK. Viu? Eu disse a você que meu cérebro estava fervendo. Minha capacidade de comunicação está ainda mais territroz do que de costume.

— Territroz?

— É uma combinação de “terrível” com “atroz”. — John olha minha coleção de gravuras com contornos de edifícios, na parede. — Eu deveria levantar e examinar suas coisas, já que é a primeira vez que venho ao seu quarto. Tragicamente, estou preguiçoso demais para fazer isso.

— Que legal! Me sinto bem cansada também.

— Como estão as coisas?

— Você quer dizer... a coisa toda do término do namoro?

— É.

— Não muito bem. Estou me distraindo com os planos para a faculdade.

— Sadie me contou. É muito legal que esteja levando sua vida mais a sério.

John me faz sorrir. Ele diz umas coisas que, vindas de qualquer outra pessoa, soariam ridículas. Mas, com John, é realmente como ele se sente.

— Você me ajudou muito — digo a ele.

— Como?

— Você me ajudou a entender que eu quero ser uma planejadora urbana. Todas aquelas vezes no High Line e os passeios com você foram assim... Me fizeram perceber que, se nós dois nos sentimos assim a respeito de Nova York, muitas outras pessoas devem se sentir da mesma forma. E que eu posso, na verdade, dedicar a minha vida a melhorar a forma como as pessoas se relacionam com a cidade.

John se vira na minha cama de forma que seu queixo fique apoiado do lado do meu colchão e as pernas fiquem balançando do outro lado.

— Eu ajudei? — diz ele.

— Totalmente. Você estava me ajudando o tempo todo apenas sendo você mesmo. Sou muito grata por tudo que fez.

— Uau! Eu nem sabia que estava fazendo alguma coisa.

— Bem, estava.

— Isso é profundo.

Ele está certo. É profundo.

John fica olhando para mim. Olho para ele também. É como se um entendesse o outro sem ter que dizer nada.

— Posso te perguntar uma coisa? — diz ele. — Como minha monitora?

— Qualquer coisa.

— Você acha que a faculdade será um grande fracasso para mim?

— Claro que não.

— Você pode ser sincera.

— Eu estou sendo sincera. Você vai adorar. Aquela que não dá notas parece perfeita para você. Eles não dão prioridade à criatividade e à diversidade lá?

— É, mas e se eu não entrar?

— E se você entrar?

— E se eu entrar, mas não for bom o suficiente?

Eu não tinha a menor ideia de que John estivesse preocupado com a faculdade. Ele parece sempre tão seguro! Fico um pouco preocupada pensando em como vai se ajustar academicamente, mas não estou nem um pouco preocupada com ele socialmente. Se alguém vai tirar proveito de tudo que a vida na faculdade tem a oferecer, é o John.

— Você é melhor que “bom o suficiente” — respondo. — Você é excepcional.

— Desculpe, mas viu minha transcrição?

— E daí? Nenhuma nota jamais conseguiria quantificar o quanto você é inteligente.

— É uma pena que as faculdades não pensem dessa forma.

— Se elas não o aceitarem, a perda é delas.

— Você realmente acredita nisso?

— Totalmente.

É tão esquisito como todo este tempo achei que John tivesse algum segredo do sucesso que não compartilhasse com ninguém. Ele nunca baixou a guarda antes, e eu nem sequer sabia que ele tinha uma. Achei que eu era a única com armadura. É surpreendente que ele também tenha inseguranças e dúvidas escondidas, mas também é reconfortante. Isso me faz sentir menos sozinha.

Quando ouço a porta da frente se abrir, não consigo acreditar que John está aqui há tanto tempo que papai até já chegou. Ficamos conversando durante todo esse tempo, mas não parece que esteja aqui há mais de uma hora. O relógio diz que ele está aqui há mais de três.

Papai deve ter visto o casaco e a bolsa de John perto da porta porque ele vem direto ao meu quarto. Ele nunca faz isso. Geralmente vem para casa, coloca alguma comida para viagem sobre o balcão da cozinha e se dirige ao laptop, na sala de estar. Mas aqui está ele, parado na minha porta, olhando fixamente para John esparramado na minha cama.

— Ei, senhor Greene! — John se levanta rapidamente e vai até meu pai. — Que bom finalmente conhecê-lo, senhor. Sou John Dalton, do High Line Daltons. — John estende a mão para cumprimentar papai. — Desculpe! Brincadeira. Cérebro territroz fervendo.

Papai olha para John. Eles dão um aperto de mão.

— Você precisa saber que Brooke é a melhor monitora que eu já tive. Sério, a garota mudou minha vida! Eu estaria em apuros sem ela.

— Pare — digo.

É tão constrangedor!

Então, nós ficamos parados ali, esperando alguém dizer alguma coisa.

Por fim, papai diz:

— Brooke, preciso falar com você.

Isso mina uma parte da autoconfiança de John.

— Ah, devo... posso ir embora. É, vou embora.

Acompanho John à porta da frente. Enquanto ele está vestindo o casaco, sussurra:

— Ligue para mim se precisar de alguma coisa.

— Ligo.

— Você pode ficar no meu apartamento novamente se precisar. Sabe disso, né?

— Sei.

De volta ao meu quarto, papai está sentado à minha escrivaninha. Endireito o edredom e sento na cama. Não sei por que estou tão nervosa.

— Me ocorreu que você necessita de mais estrutura — diz ele.

— Que quer dizer?

— Quero dizer que você não pode ficar andando por aí assim. Eu estava tentando lhe dar um pouco de espaço. Sei como é viver com sua mãe e queria que tivesse mais liberdade aqui, mas você está ficando fora de casa até tarde... Eu nem sabia aonde você tinha ido naquela noite que não veio para casa...

— Não achei que se importaria.

— Claro que me importei. Foi por isso que fiquei ligando para você. Você não estaria aqui se eu não me importasse. Pensei que, com você morando aqui, eu estaria mais na sua vida.

— As coisas não podem mudar de repente só porque quer que elas mudem, papai. Você tem de fazer alguma coisa para que elas mudem.

— Eu sei. É o que estou fazendo.

Papai tira uma das minhas canetas Gelly Roll do pote de vidro. Ele bate com a caneta no meu livro de cálculo.

— Proibido garotos no seu quarto. Eu já tive essa idade e sei como eles pensam. Eles não deveriam estar aqui dentro.

— Tudo bem.

— Proibido ficar fora a noite toda. Você tem de pedir permissão se quiser dormir na casa de alguma amiga. E não quero que fique fora até tão tarde quando tiver aula. Você precisa estar em casa até... vamos dizer, nove e meia. Não, nove horas.

— OK.

Papai parece tão triste quanto a mamãe estava ao telefone da última vez que falei com ela.

— Lamento não ser mais presente — diz ele. — Meu plano era chegar em casa mais cedo e jantar com você todas as noites. Sei que não é justo ficar aqui sozinha, mas não sei se as coisas vão mudar. Provavelmente não. Você ficará bem assim?

— Terei de ficar.

Papai suspira.

— Acho que sou uma porcaria nisso, hein?

— Você não é tão ruim. Quero dizer... sempre pode ser melhor.

Ele ri.

— Você está certa sobre isso.

Depois da noite que saí enfurecida, fiquei com medo que papai me mandasse de volta para New Jersey. Aquela semana que ele não falou comigo foi a pior. Mas parece que ele também estava com medo. Com medo do que ele poderia ouvir se pedisse para eu falar a verdade. Talvez até com medo que eu não quisesse mais morar com ele! Porque, se tudo o que me disse for verdade, então ele realmente quer que eu fique aqui. Só não está pronto para rever sua vida e mudá-la por mim, como fiz por Scott. E mais, ele fez toda a coisa de trás para frente. Não ajuda ter sido tão ignorante, mas também não é a pior coisa que ele poderia ter feito.

— Por falar nisso — diz papai —, se você fizer faculdade em Nova York, seu quarto estará sempre aqui. Você é bem-vinda a qualquer hora.

— Você quer dizer que não vai transformá-lo em um escritório novamente?

— Eu tenho escritórios suficientes no trabalho. De qualquer forma, você sabe que prefiro trabalhar na sala de estar.

— Verdade. Hum... podemos, talvez, correr aos domingos, como tínhamos combinado?

— Com certeza. Devemos esperar até esquentar um pouco?

— Claro.

Não sei se um dia correremos toda semana, mas tudo bem. Aconteça o que acontecer, sei que, exatamente neste momento, papai está falando sério e está tentando melhorar.

— Você já comeu? — pergunta.

— Não, estou morrendo de fome.

— Que tal pizza?

— Com uma quantidade extra de queijo e alho?

— Boa ideia! Vou ligar.

É legal jantarmos juntos hoje, mas não me iludo. Sei que amanhã as coisas provavelmente voltarão a ser do jeito que eram. É muito cedo para quaisquer grandes mudanças acontecerem, se é que acontecerão algum dia, mas a possibilidade de mudança me deixa feliz. Me dá esperança novamente.