28

O jardim zen ficou tão deserto durante o inverno! Só vim aqui algumas vezes, bem agasalhada, e fiquei observando as luzes da cidade brilharem na noite fria. Não vejo Ree há algum tempo. Gostaria de saber como ela está, se ainda vem aqui desenhar a lua.

Adoro estar de volta ao jardim agora que está mais quente. Não vejo a hora de os girassóis crescerem novamente. E estou empolgada com este passeio que estamos prestes a fazer. Só estou aguardando todos chegarem aqui.

Procuro John e o vejo atravessando a rua. Consigo reconhecê-lo de longe. Gosto de observá-lo quando ele não sabe que está sendo observado. Toda vez que planejamos fazer alguma coisa, fico com esta sensação de felicidade pela expectativa. Adoro passar um tempo com John! Ele foi a primeira pessoa com quem me senti totalmente confortável. Quando estou com ele, não preciso pensar em como devo agir. É um grande alívio simplesmente relaxar e ser eu mesma, especialmente porque começo a entender quem sou. Ele me faz sentir como se qualquer coisa que fizesse jamais faria com que ele gostasse um pouco menos de mim. E esta é uma sensação incrível!

Quando John finalmente me vê, pergunta:

— Quer dar uma volta?

— Eu não perderia por nada nosso passeio durante o equinócio da primavera!

— E a resolução de equinócio da primavera. É meio parecida com a resolução de equinócio do outono, só que melhor.

— Você sabe qual é sua resolução?

— Você sabe qual é.

Ele olha para mim com olhos profundos.

Sinto minhas bochechas esquentarem. Não costumava me incomodar quando John dizia coisas desse tipo quando ainda não sabia que ele gostava de mim, mas isso não é suficiente para que eu deixe de ser sua amiga ou algo assim. Somos melhores amigos, mais do que nunca. É só... o jeito que ele olha para mim. É profundo, só isso.

Sadie tem a seguinte teoria: quando estava apaixonada por Scott, não conseguia processar o comportamento de nenhum outro garoto de forma precisa. Era como se eu estivesse interpretando todos os outros garotos através de algum tipo de filtro. Agora esse filtro está desligado e tudo está muito mais claro.

— Feliz primavera! — grita Sadie da pista.

Levantamos da nossa pedra e fomos ao seu encontro, pisando em outras pedras grandes no caminho.

— Dá para acreditar nesse tempo? — comento.

— É mesmo — diz ela. — É como se a primavera soubesse que viríamos festejá-la.

— A primavera sabia sim — diz Carlos.

O jeito que ele concorda com Sadie é tão bonitinho! Ele está completamente apaixonado.

Eu não poderia ter ficado mais orgulhosa de Sadie quando ela ligou para o Carlos. Ela ficou insegura depois que ele lhe deu o número de seu telefone. Ela estava convencida de que Carlos a achava completamente doida e só tinha lhe dado o número para ser legal, por isso, depois de ficar obcecada durante vários dias se devia ou não ligar para ele, decidiu que não ia ligar. Então, ela lembrou que tinha prometido a si mesma que não teria mais nenhum arrependimento. É óbvio que Carlos ficou feliz com sua decisão.

Começamos a caminhar para o centro e, no crepúsculo, mais luzes da cidade começam a piscar. Este é o melhor horário para um passeio a pé, com tudo o que a noite pode oferecer à espera de ser descoberto.

Tiro da minha bolsa um pedaço de papel dobrado em formato de trapezoide. Coloco-o dentro do bolso traseiro de John.

— O que é isso? — pergunta ele.

— É uma coisa.

— O que é?

— Um bilhete. Mais especificamente, um warm fuzzy.

— Você está apaixonada por eles! — diz Sadie, empolgada, e olha radiante para Carlos. — Eu transformei a Brooke de uma pessoa arredia e cínica em alguém que escreve warm fuzzies.

— Ei — diz John —, você não pode ganhar todos os créditos! Verifique os registros e vai ver que outras pessoas estão envolvidas nessa transformação.

— Desculpe, John, você também foi muito bom nisso!

— Parece que sou um projeto para conseguir créditos extras — digo. — Não dê ouvidos a eles, Carlos. Eu não era arredia.

Carlos sorri. Ele só está com Sadie há dois meses, mas já é tempo mais que suficiente para saber como ela é generosa.

— É o warm fuzzy que você me prometeu? — pergunta John.

— O próprio. Você deve ler mais tarde.

Estamos passando por um prédio imenso, com lofts enormes. As luzes estão acesas na cobertura, que tem uma parede de vidro espetacular. Inclino a minha cabeça bem para trás e olho para cima. Dá para ver todo o interior. Seria tão legal ter uma casa como esta um dia!

Ultimamente, tenho olhado muito mais para cima. Para mim, parece esperança. Agora sei que as chances de felicidade são infinitas, qualquer coisa pode acontecer. E há pessoas que vão me apoiar, embora eu ainda seja uma obra em andamento.

John olha fixamente para mim. Percebo seu olhar pela lateral do meu rosto.

— O quê? — digo.

— Adoro observá-la quando você gosta de alguma coisa que vê!

— Você tem de parar de dizer coisas assim.

— Por quê?

— Porque sei que você gosta de mim.

— E aí? Isso significa que não posso mais ser sincero?

— Isso não é nem um pouco constrangedor — diz Sadie a Carlos.

— Desculpe, pessoal! Eu fico explicando a John que amigos não dizem coisas assim um para o outro.

— Não, mas um amigo que ama a amiga diz.

Pausa. John disse que me ama?

Sadie e John trocam olhares. Ninguém sabe como vou reagir. Inclusive eu.

— Tudo bem se você não se sente da mesma forma — diz John. — Eu entendo. Só queria que você soubesse.

Uma das coisas mais incríveis que pode acontecer é encontrar alguém que enxergue tudo que você é e não a deixe ser nada menos. Essa pessoa vê seu potencial, percebe as infinitas possibilidades e, através dos olhos dela, você começa a se enxergar da mesma forma: como alguém importante, alguém que pode fazer a diferença neste mundo.

Se você tiver muita sorte de encontrar essa pessoa, nunca a deixe ir embora!

Eu seguro a mão de John. Desta vez, não a soltarei.